1 Coríntios 12
Argumento
Neste capítulo, o apóstolo:
I. Considera a questão dos dons espirituais, que foram derramados com muita abundância sobre a igreja de Corinto. Considera a sua origem, que são de Deus; a sua variedade e uso, que todos se destinavam a um mesmo fim geral, o avanço do cristianismo e a edificação da igreja, vv. 1-11.
II. Ilustra isso por uma alusão a um corpo humano, no qual todos os membros têm relação e serviço mútuos, e cada um tem o seu lugar e uso apropriados, vv. 12-26.
III. Nos diz que a igreja é o corpo de Cristo, e os membros recebem dons diversos para o benefício do corpo inteiro e de cada membro particular, vv. 27-30.
E então, IV. Encerra com uma exortação a buscar algo mais benéfico do que esses dons, v. 31.
Versículos 1 a 11
Sobre os Dons Espirituais. (d.C. 57.)
O apóstolo passa agora a tratar dos dons espirituais, que abundavam na igreja de Corinto, mas eram muito abusados. O que eram esses dons nos é dito extensamente no corpo do capítulo: ofícios e poderes extraordinários, concedidos a ministros e cristãos nos primeiros tempos, para o convencimento dos incrédulos e a propagação do evangelho.
Dons e graças, charismata e charis, diferem muito. Ambos, de fato, eram dados gratuitamente por Deus. Mas, onde a graça é dada, ela visa à salvação daqueles que a têm. Os dons são concedidos para a vantagem e a salvação de outros.
E pode haver grandes dons onde não há uma dracma de graça, mas as pessoas que os possuem estão inteiramente fora do favor divino. São grandes exemplos da benignidade divina para com os homens, mas não provam, por si mesmos, que aqueles que os têm sejam objetos da complacência divina.
Essa igreja era rica em dons, mas nela havia muitas coisas escandalosamente fora de ordem. Agora, a respeito desses dons espirituais, isto é, dos poderes extraordinários que haviam recebido do Espírito:
I. O apóstolo lhes diz que não queria que fossem ignorantes nem da sua origem nem do seu uso. Vieram de Deus e deviam ser usados em favor dele. Eles se desviariam muito se fossem ignorantes de uma ou outra dessas coisas. Repare: A informação correta é de grande utilidade para toda prática religiosa.
É um trabalho lamentável o que fazem homens dotados que ou não conhecem ou não atentam para a natureza e o uso correto dos dons com que são dotados.
II. Ele lhes lembra o triste estado do qual haviam sido recuperados: “Éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis conduzidos”, v. 2. Enquanto eram assim, não podiam alegar ser homens espirituais, nem ter dons espirituais.
Enquanto estavam sob a direção do espírito do gentilismo, não podiam ser influenciados pelo Espírito de Cristo. Se compreendessem bem a sua condição anterior, não poderiam deixar de saber que todos os verdadeiros dons espirituais eram de Deus. Agora, a respeito disso, observe:
- A sua característica anterior: eram gentios. Não o povo peculiar de Deus, mas das nações que ele havia, de certa maneira, abandonado. Os judeus eram, antes, o seu povo escolhido, distinguidos do restante do mundo pelo seu favor.
A eles, o conhecimento e o culto do verdadeiro Deus estavam, de certa maneira, restritos. O restante do mundo era estranho à aliança da promessa, estrangeiro à comunidade de Israel e, de certa maneira, sem Deus, Efésios 2:12.
Tais gentios eram o conjunto dos coríntios antes da sua conversão ao cristianismo. Que mudança houve aqui! Os coríntios cristãos foram antes gentios.
Repare: É de grande utilidade para o cristão, e uma consideração apropriada para despertá-lo tanto para o dever quanto para a gratidão, pensar no que ele foi um dia: “Éreis gentios”.
- A direção sob a qual estavam: Levados a esses ídolos mudos, conforme eram conduzidos. Eram impelidos à mais grosseira idolatria, ao culto até de troncos e pedras, pela força de uma imaginação vã e pela fraude dos seus sacerdotes, que exploravam a sua ignorância.
Pois, quaisquer que fossem os sentimentos dos seus filósofos, essa era a prática da massa. O conjunto do povo prestava a sua homenagem e o seu culto a ídolos mudos, que tinham ouvidos, mas não podiam ouvir, e bocas, mas não podiam falar, Salmos 115:5, 6.
Miserável baixeza de espírito! E aqueles que desprezavam essas concepções grosseiras do povo, contudo, as apoiavam pela sua prática. Ó estado sombrio do gentilismo! Poderia o Espírito de Deus estar entre tais idólatras estúpidos, ou poderiam eles ser influenciados por ele?
Como o príncipe deste mundo triunfava na cegueira da humanidade! Que névoa espessa havia lançado sobre a mente deles!
III. Ele lhes mostra como poderiam discernir aqueles dons que eram do Espírito de Deus, os verdadeiros dons espirituais: Nenhum homem, falando pelo Espírito, chama Jesus de maldito. Assim faziam tanto judeus quanto gentios: blasfemavam contra ele como um impostor, execravam o seu nome e o consideravam abominável.
E, contudo, muitos judeus, que eram exorcistas e mágicos, andavam alegando operar prodígios pelo Espírito de Deus (veja as Horæ de Lightfoot neste lugar), e muitos entre os gentios alegavam inspiração.
Agora, o apóstolo lhes diz que ninguém que renegasse Cristo e blasfemasse contra ele poderia agir sob a influência, nem pelo poder, do Espírito de Deus.
Pois o Espírito de Deus deu testemunho incontestável de Cristo pela profecia, pelos milagres, pela sua ressurreição dentre os mortos, pelo êxito da sua doutrina entre os homens e pelo efeito dela sobre eles. E nunca poderia contradizer-se a ponto de declará-lo maldito.
E, por outro lado, nenhum homem poderia dizer que Jesus era o Senhor (isto é, viver por essa fé e operar milagres para prová-la), a não ser pelo Espírito Santo.
Reconhecer essa verdade diante dos homens, sustentá-la até a morte e viver sob a sua influência não poderia ser feito sem a santificação do Espírito Santo.
Nenhum homem pode chamar Cristo de Senhor, com sujeição crente a ele e dependência dele, a menos que essa fé seja operada pelo Espírito Santo. Nenhum homem pode confessar essa verdade no dia da provação, a não ser pelo Espírito Santo que o vivifica e anima.
Repare: Temos uma dependência tão necessária da operação e da influência do Espírito para a nossa santificação e perseverança quanto da mediação de Cristo para a nossa reconciliação e aceitação com Deus. E nenhum homem poderia confirmar essa verdade com um milagre, a não ser pelo Espírito Santo.
Nenhum espírito maligno prestaria assistência, se isso estivesse em seu poder, à propagação de uma doutrina e religião tão ruinosas para o reino do diabo.
A substância do que o apóstolo afirma e argumenta aqui é que, quaisquer que fossem as alegações de inspiração ou de milagres entre aqueles que eram inimigos do cristianismo, elas não poderiam ser do Espírito de Deus.
Mas nenhum homem poderia crer nisso com o seu coração, nem provar com um milagre que Jesus era Cristo, a não ser pelo Espírito Santo. De modo que as operações e os poderes extraordinários entre eles procediam todos do Espírito de Deus. Ele acrescenta:
IV. Esses dons espirituais, embora procedam do mesmo Espírito, são, contudo, diversos. Têm um autor e uma origem, mas são, em si mesmos, de diversos tipos. Uma causa livre pode produzir uma variedade de efeitos; e aquele mesmo que dá pode conceder diversos dons, v. 4.
Há diversidade de dons, como revelações, línguas, profecia, interpretações de línguas; mas o mesmo Espírito. Há diferenças de administrações, ou ofícios diferentes, e oficiais para exercê-los, ordenanças e instituições diferentes (veja vv. 28-30), mas o mesmo Senhor, que designou tudo, v. 6.
Há diversidade de operações, ou poderes miraculosos, chamados energemata dynameon (v. 10), como aqui energemata, “mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos”.
Há diversos dons, administrações e operações, mas todos procedem de um Deus, um Senhor, um Espírito; isto é, do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a nascente e a origem de todas as bênçãos e dádivas espirituais. Todos saem da mesma fonte; todos têm o mesmo autor.
Por diferentes que possam ser em si mesmos, nisso concordam: todos são de Deus. E diversos tipos são especificados aqui, vv. 8-10. Diversas pessoas tinham os seus diversos dons, umas um, outras outro, todos provenientes do mesmo Espírito e por ele.
A um era dada a palavra de sabedoria; isto é, dizem alguns, um conhecimento dos mistérios do evangelho e capacidade para explicá-los, uma compreensão exata do desígnio, da natureza e das doutrinas da religião cristã.
Outros dizem que era a expressão de sentenças ponderosas, como os provérbios de Salomão. Alguns restringem essa palavra de sabedoria às revelações feitas aos apóstolos e por eles.
A outro, a palavra de conhecimento, pelo mesmo Espírito; isto é, dizem alguns, o conhecimento dos mistérios (1 Coríntios 2:13) envolvidos nas profecias, nos tipos e nas histórias do Antigo Testamento. Dizem outros: habilidade e prontidão para dar orientação e conselho em casos perplexos.
A outro, fé, pelo mesmo Espírito; isto é, a fé dos milagres, ou uma fé no poder e na promessa divinos, pela qual eram capacitados a confiar em Deus em qualquer emergência, continuar no caminho do seu dever e reconhecer e professar as verdades de Cristo, qualquer que fosse a dificuldade ou o perigo.
A outro, o dom de cura, pelo mesmo Espírito; isto é, curar os enfermos, ou pela imposição das mãos, ou pela unção com óleo, ou com uma simples palavra.
A outro, a operação de milagres; as eficácias dos poderes, energemata dynameon, como ressuscitar os mortos, restituir a vista aos cegos, dar fala aos mudos, audição aos surdos e o uso dos membros aos coxos.
A outro, profecia, isto é, capacidade de predizer acontecimentos futuros, que é o sentido mais usual de profecia; ou de explicar a escritura por um dom peculiar do Espírito. Veja 1 Coríntios 14:24.
A outro, o discernimento de Espíritos, poder para distinguir entre profetas verdadeiros e falsos, ou discernir as qualificações reais e internas de qualquer pessoa para um ofício, ou descobrir os movimentos interiores da mente pelo Espírito Santo, como Pedro fez com os de Ananias, Atos 5:3.
A outro, diversos tipos de línguas, ou capacidade para falar idiomas por inspiração. A outro, a interpretação de línguas, ou capacidade para verter idiomas estrangeiros prontamente e apropriadamente para o seu próprio idioma. Com tal variedade de dons espirituais foram abençoados os primeiros ministros e igrejas.
V. O fim para o qual esses dons foram concedidos: “A manifestação do Espírito é dada a cada homem para proveito”, v. 7. O Espírito era manifestado pelo exercício desses dons; a sua influência e interesse apareciam neles.
Mas não eram distribuídos para a mera honra e vantagem daqueles que os tinham, mas para o benefício da igreja, para edificar o corpo e propagar e fazer avançar o evangelho.
Repare: Quaisquer dons que Deus confira a qualquer homem, ele os confere para que esse homem possa fazer o bem com eles, sejam comuns ou espirituais. Os dons exteriores da sua generosidade devem ser aproveitados para a sua glória e empregados em fazer o bem a outros.
Nenhum homem os tem meramente para si. São um encargo confiado às suas mãos, para proveito; e, quanto mais beneficia outros com eles, mais abundantemente resultarão em seu crédito no fim, Filipenses 4:17.
Os dons espirituais são concedidos para que os homens possam beneficiar a igreja com eles e promover o cristianismo. Não são dados para exibição, mas para serviço; não para pompa e ostentação, mas para edificação; não para engrandecer aqueles que os têm, mas para edificar outros.
VI. A medida e a proporção em que são dados: “Todas essas coisas opera um só e o mesmo Espírito, repartindo a cada homem como quer”. É segundo o agrado soberano do doador. O que é mais livre do que um dom? E o Espírito de Deus não fará o que quiser com o que é seu?
Não pode dar às pessoas que lhe agradarem, e na proporção que lhe agradar; um dom a um homem e outro a outro; a um mais, e a outro menos, como julgar apropriado? Não é ele o melhor juiz de como o seu próprio propósito será servido e as suas próprias doações serão concedidas?
Não é como os homens querem, nem como possam julgar apropriado, mas como agrada ao Espírito. Repare: O Espírito Santo é uma pessoa divina. Opera efeitos divinos e reparte dons divinos como quer, pelo seu próprio poder e segundo o seu próprio agrado, sem dependência ou controle.
Mas, embora distribua esses dons livremente e sem sujeição a controle, eles são destinados por ele, não à honra e vantagem particulares, mas ao benefício público, à edificação do corpo, a igreja.
Versículos 12 a 26
União Recomendada. (d.C. 57.)
O apóstolo aqui demonstra a verdade do que foi afirmado acima e lembra aos homens dotados entre os coríntios o seu dever, comparando a igreja de Cristo a um corpo humano.
I. Dizendo-nos que um corpo pode ter muitos membros, e que os muitos membros do mesmo corpo constituem apenas um corpo (v. 12): “Assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros desse único corpo, sendo muitos, são um corpo, assim também é Cristo”; isto é, o Cristo místico, como os teólogos costumam dizer.
Cristo e a sua igreja constituem um corpo, como cabeça e membros. Esse corpo é composto de muitas partes ou membros, contudo, apenas um corpo; pois todos os membros são batizados no mesmo corpo e levados a beber do mesmo Espírito, v. 13.
Judeus e gentios, escravos e livres, estão em igualdade nisto: todos são batizados no mesmo corpo e feitos participantes do mesmo Espírito. Os cristãos tornam-se membros desse corpo pelo batismo: são batizados em um corpo.
O rito exterior é de instituição divina, significando o novo nascimento, chamado, por isso, “a lavagem da regeneração”, Tito 3:5. Mas é pelo Espírito, pela renovação do Espírito Santo, que somos feitos membros do corpo de Cristo.
É a operação do Espírito, significada pela administração exterior, que nos faz membros. E, pela comunhão na outra ordenança, somos sustentados; mas então não é meramente por beber o vinho, mas por beber de um Espírito.
A administração exterior é um meio designado por Deus para a nossa participação nesse grande benefício. Mas é o batismo pelo Espírito, é a renovação interna e o beber de um Espírito, participando da sua influência santificadora de tempos em tempos, que nos faz verdadeiros membros do corpo de Cristo e mantém a nossa união com ele.
Serem animados por um Espírito faz dos cristãos um corpo. Repare: Todos os que têm o espírito de Cristo, sem diferença, são os membros de Cristo, quer judeu, quer gentio, escravo ou livre; e ninguém além deles.
E todos os membros de Cristo constituem um corpo; os membros são muitos, mas o corpo é um. São um corpo porque têm um princípio de vida; todos são vivificados e animados pelo mesmo Espírito.
II. Cada membro tem a sua forma, lugar e uso particulares:
- O membro mais humilde constitui uma parte do corpo. O pé e o ouvido são menos úteis, talvez, do que a mão e o olho; mas, porque um não é mão e o outro não é olho, dirão, por isso, que não pertencem ao corpo? v. 15, 16.
Assim, nem todo membro do corpo místico pode ter o mesmo lugar e ofício; mas e então? Por isso renegará a sua relação com o corpo? Porque não está colocado na mesma posição, ou favorecido com os mesmos dons que outros, dirá: “Não pertenço a Cristo”?
Não: O membro mais humilde do seu corpo é tão membro quanto o mais nobre, e é, na verdade, igualmente considerado por ele. Todos os seus membros lhe são queridos.
- Deve haver uma distinção de membros no corpo: Se o corpo inteiro fosse olho, onde estaria a audição? Se todo fosse ouvido, onde estaria o olfato? v. 17. “Se todos fossem um membro, onde estaria o corpo?”, v. 19.
São muitos membros e, por esse motivo, deve haver distinção entre eles, e, contudo, são apenas um corpo, v. 20. Um membro de um corpo não é um corpo; este é composto de muitos; e, entre esses muitos, deve haver uma distinção, diferença de posição, forma, uso, etc.
Assim é no corpo de Cristo; os seus membros devem ter usos diferentes e, por isso, poderes diferentes e estar em lugares diferentes, alguns tendo um dom, e outros, um diferente. A variedade dos membros do corpo contribui para a sua beleza.
Que monstro seria um corpo se fosse todo ouvido, ou olho, ou braço! Assim, é para a beleza e boa aparência da igreja que deve haver nela diversidade de dons e ofícios.
- O dispor dos membros em um corpo natural, e a sua posição, são como agrada a Deus: “Mas agora Deus colocou os membros, cada um deles, no corpo, como lhe agradou”, v. 18.
Podemos perceber claramente a sabedoria divina na distribuição dos membros; mas ela foi feita segundo o conselho da sua vontade; ele os distinguiu e distribuiu como lhe agradou.
Assim é também nos membros do corpo de Cristo: são escolhidos para tais posições e dotados de tais dons como agrada a Deus. Aquele que é Senhor soberano de tudo dispõe dos seus favores e dons como quer. E quem contrariaria o seu agrado?
Que fundamento há aqui para nos lamentarmos, ou invejarmos outros? Devemos cumprir os deveres do nosso próprio lugar e não murmurar em nós mesmos, nem ter desavenças com outros, por não estarmos no lugar deles.
- Todos os membros do corpo são, em algum aspecto, úteis e necessários uns aos outros: “O olho não pode dizer à mão: Não tenho necessidade de ti; nem a cabeça aos pés: Não tenho necessidade de vós”.
Ou melhor: Aqueles membros do corpo que parecem mais fracos (as entranhas, etc.) são necessários (v. 21, 22). Deus os ajustou e harmonizou de tal modo que todos são necessários uns aos outros e ao corpo inteiro; não há parte redundante e desnecessária.
Cada membro serve a algum bom propósito ou outro: é útil aos seus companheiros de corpo e necessário ao bom estado do corpo inteiro. Tampouco há um membro do corpo de Cristo que não possa e não deva ser útil aos seus companheiros de corpo e que, em alguns momentos e casos, não seja necessário a eles.
Ninguém deve desprezar e invejar outro, visto que Deus fez a distinção entre eles como lhe agradou. Contudo, de modo a manter todos em algum grau de dependência mútua, fazê-los valiosos uns para os outros e preocupados uns com os outros, por causa da sua utilidade mútua.
Aqueles que se sobressaem em algum dom não podem dizer que não precisam daqueles que nesse dom lhes são inferiores, ao passo que talvez, em outros dons, estes os superem. Ou melhor: Os membros mais baixos de todos têm o seu uso, e os mais altos não podem passar bem sem eles. O olho precisa da mão, e a cabeça, dos pés.
- Tal é a preocupação do homem com o seu corpo inteiro que, sobre os membros menos honrosos, é concedida honra mais abundante, e as nossas partes indecorosas têm decoro mais abundante.
Aquelas partes que não são apropriadas, como as demais, para serem expostas à vista, que são ou deformadas ou vergonhosas, nós vestimos e cobrimos com o maior zelo; ao passo que as partes decorosas não têm tal necessidade.
A sabedoria da Providência maquinou e harmonizou as coisas de tal modo que a consideração e a honra mais abundantes fossem prestadas ao que mais tinha falta delas, v. 24.
Assim devem os membros do corpo de Cristo comportar-se para com os seus companheiros de corpo: em vez de desprezá-los, ou desacreditá-los, por suas fraquezas, devem esforçar-se para cobri-las e ocultá-las, e dar-lhes a melhor aparência que puderem.
- A sabedoria divina maquinou e ordenou as coisas dessa maneira para que os membros do corpo não fossem cismáticos, separados uns dos outros e agindo por interesses separados, mas bem dispostos uns para com os outros e ternamente preocupados uns com os outros, compartilhando as dores uns dos outros e comunhão nos prazeres e alegrias uns dos outros, v. 25, 26.
Deus harmonizou os membros do corpo natural da maneira mencionada, “para que não houvesse cisma no corpo” (v. 25), nenhuma ruptura nem desunião entre os membros, nem sequer a menor desconsideração mútua.
Isso deve ser evitado também no corpo espiritual de Cristo. Não deve haver cisma nesse corpo, mas os membros devem estar estreitamente unidos pelas mais fortes amarras do amor. Todos os declínios dessa afeição são sementes de cisma.
Onde os cristãos esfriam uns para com os outros, ficarão sem zelo e despreocupados uns com os outros. E essa desconsideração mútua é um cisma começado. Os membros do corpo natural são feitos para ter zelo e preocupação uns pelos outros, para impedir um cisma nele.
Assim deve ser no corpo de Cristo; os membros devem solidarizar-se uns com os outros. Assim como, no corpo natural, a dor de uma parte aflige o todo, o alívio e o prazer de uma parte afetam o todo, assim os cristãos devem considerar-se honrados nas honras dos seus companheiros cristãos e sofrer nos sofrimentos deles.
Repare: A solidariedade cristã é um grande ramo do dever cristão. Devemos estar tão longe de fazer pouco caso dos sofrimentos dos nossos irmãos que devemos sofrer com eles, tão longe de invejar as suas honras que devemos alegrar-nos com eles e considerar-nos honrados nelas.
Versículos 27 a 31
Sobre os Dons Espirituais. (d.C. 57.)
I. Aqui o apóstolo resume a razão e aplica essa comparação à igreja de Cristo, a respeito da qual observe:
- A relação em que os cristãos estão com Cristo e uns com os outros. A igreja, ou todo o corpo coletivo dos cristãos, em todas as épocas, é o seu corpo.
Cada cristão é um membro do seu corpo, e cada outro cristão se relaciona com ele como um companheiro de corpo (v. 27): “Agora vós sois o corpo de Cristo, e membros em particular”, ou membros particulares.
Cada um é um membro do corpo, não o corpo inteiro; cada um se relaciona com o corpo como uma parte dele, e todos têm uma relação comum uns com os outros, dependência uns dos outros, e devem ter zelo e preocupação mútuos.
Assim estão dispostos os membros do corpo natural, assim devem estar os membros do corpo místico. Repare: A indiferença mútua, e muito mais o desprezo, e o ódio, e a inveja, e a contenda, são muito antinaturais nos cristãos.
É como os membros do mesmo corpo destituídos de toda preocupação uns pelos outros, ou tendo desavenças uns com os outros. Esse é o alvo do apóstolo nessa razão.
Nessa razão, ele se esforça para suprimir o espírito orgulhoso, jactancioso e disputador que havia prevalecido entre os coríntios, por causa dos seus dons espirituais.
- A variedade de ofícios instituídos por Cristo e de dons ou favores distribuídos por ele (v. 28): “Deus colocou alguns na igreja; primeiro, apóstolos”, os principais ministros, encarregados de todos os poderes necessários para fundar uma igreja e fazer uma revelação inteira da vontade de Deus.
“Em segundo lugar, profetas”, ou pessoas capacitadas por inspiração, como fizeram os evangelistas. “Em terceiro lugar, mestres”, aqueles que trabalham na palavra e na doutrina, quer com encargo pastoral, quer sem ele. “Depois, milagres”, ou operadores de milagres.
“Os dons de cura”, ou aqueles que tinham poder para curar doenças; “auxílios”, ou os que tinham compaixão dos enfermos e fracos e lhes ministravam; “governos”, ou os que dispunham das contribuições caritativas da igreja e as distribuíam aos pobres.
“Diversidades de línguas”, ou os que podiam falar diversos idiomas. A respeito de todos esses, observe:
(1.) A abundante variedade desses dons e ofícios. Que multidão eles são! Um Deus bom era liberal nas suas comunicações à igreja primitiva; não era avarento dos seus benefícios e favores. Não: Ele os proveu ricamente.
Não tinham falta, mas um estoque, tudo o que era necessário, e até mais; também o que lhes era conveniente.
(2.) Observe a ordem desses ofícios e dons. Estão aqui colocados nos seus postos apropriados. Os de maior valor têm o primeiro lugar. Apóstolos, profetas e mestres destinavam-se todos a instruir o povo, informá-los bem nas coisas de Deus e promover a sua edificação espiritual.
Sem eles, nem o conhecimento evangélico nem a santidade poderiam ter sido promovidos. Mas os demais, por mais apropriados que fossem para atender às grandes intenções do cristianismo, não tinham tal consideração direta pela religião, estritamente assim chamada.
Repare: Deus valoriza, e nós devemos valorizar, as coisas segundo o seu valor real; e o uso das coisas é o melhor critério do seu valor real. São mais valiosas as que melhor atendem aos propósitos mais altos.
Tais eram os poderes apostólicos, comparados com os daqueles que tinham apenas o dom de cura e de milagres. O que ocupa o último e mais baixo posto nessa enumeração é a diversidade de línguas. É, por si só, o mais inútil e insignificante de todos esses dons.
Curar doenças, socorrer os pobres, ajudar os enfermos têm o seu uso; mas que coisa vã é falar idiomas, se um homem o faz meramente para divertir ou jactar-se!
Isso pode, de fato, despertar a admiração, mas não pode promover a edificação dos ouvintes, nem lhes fazer qualquer bem. E, contudo, é manifesto em 1 Coríntios 14 que os coríntios se valorizavam excessivamente por esse dom.
Repare: Que método apropriado para abater o orgulho é dar às pessoas conhecimento do verdadeiro valor daquilo de que se orgulham! É muito comum os homens se valorizarem mais pelo que menos vale; e é de grande utilidade trazê-los a uma mente sóbria, dando-lhes conhecimento de quanto estão enganados.
(3.) A distribuição diversa desses dons, não todos a um, nem a cada um igualmente. Nem todos os membros e oficiais tinham o mesmo posto na igreja, nem as mesmas dotações (v. 29, 30): “São todos apóstolos? São todos profetas?”
Isso seria fazer da igreja um monstro: seria o mesmo que se o corpo fosse todo ouvido ou todo olho. Alguns são apropriados para um ofício e emprego, e alguns para outro; e o Espírito distribui a cada um como quer.
Devemos estar contentes com o nosso próprio posto e quinhão, se forem mais baixos e menores que os de outros. Não devemos ter uma opinião presunçosa de nós mesmos e desprezar outros, se estivermos no posto mais alto e tivermos dons maiores.
Cada membro do corpo deve preservar o seu próprio posto e cumprir o seu próprio ofício; e todos devem ministrar uns aos outros e promover o bem do corpo em geral, sem invejar, ou desprezar, ou negligenciar, ou maltratar qualquer membro particular.
Que constituição abençoada seria a igreja cristã se todos os membros cumprissem o seu dever!
II. Ele encerra este capítulo com um conselho (como a maioria lê) e uma indicação:
- Um conselho para desejar ardentemente os melhores dons, charismata ta kreittona, dona potiora, præstantiora, ou os mais valiosos em si mesmos ou os mais úteis a outros.
E estes são, em verdade, os mais valiosos em si mesmos, embora os homens possam tender a estimar mais aqueles que elevarão mais alto a sua fama e estima. São, na verdade, os melhores aqueles pelos quais Deus será mais honrado e a sua igreja edificada.
Tais dons devem ser desejados ardentemente com o maior empenho. Repare: Devemos desejar mais aquilo que é melhor e de maior valor. A graça, por isso, deve ser preferida aos dons; e, dos dons, devem ser preferidos aqueles que são de maior utilidade.
Mas alguns leem essa passagem, não como um conselho, mas como uma acusação: zeloute, Vocês têm inveja dos dons uns dos outros. Em 1 Coríntios 13:4, a mesma palavra é assim traduzida. Vocês têm desavenças e disputam a respeito deles.
Isso certamente faziam. E esse comportamento o apóstolo aqui censura e se empenha em retificar. Somente do orgulho vem a disputa. Esses embates na igreja de Corinto brotaram dessa origem.
Era uma desavença sobre precedência (como é a maioria das desavenças entre cristãos, com quaisquer alegações com que sejam douradas); e não é de admirar que uma desavença sobre precedência extinguisse a caridade.
Quando todos querem estar no primeiro posto, não é de admirar que empurrem, ou derrubem, ou façam recuar os seus irmãos. Os dons podem ser valorizados pelo seu uso, mas são danosos quando transformados no combustível do orgulho e da disputa. Isso, por isso, o apóstolo se esforça para impedir.
- Dando-lhes a indicação de um caminho mais excelente, a saber, da caridade, do amor e da boa vontade mútuos. Esse era o único caminho correto para aquietá-los e uni-los, e fazer os seus dons resultarem na vantagem e edificação da igreja.
Isso os tornaria bondosos uns para com os outros e preocupados uns com os outros, e, por isso, acalmaria os seus espíritos e poria fim aos seus pequenos ressentimentos e embates, às suas disputas sobre precedência.
Segundo o apóstolo, pareceriam estar no primeiro posto aqueles que tivessem mais do verdadeiro amor cristão. Repare: A verdadeira caridade deve ser muito preferida aos dons mais gloriosos.
Ter o coração ardendo com amor mútuo é imensamente melhor do que brilhar com os títulos, ofícios ou poderes mais pomposos.