Matthew Henry

Zacarias 1

Argumento

Zacarias

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA ZACARIAS.

Este profeta foi colega do profeta Ageu e cooperou com ele para levar adiante a construção do segundo templo (Esdras 5:1), pois dois são melhores do que um. Cristo enviou seus discípulos de dois em dois.

Zacarias começou a profetizar algum tempo depois de Ageu, mas continuou por mais tempo, elevou-se mais alto em visões e revelações, escreveu mais e profetizou de modo mais particular acerca de Cristo do que Ageu. Assim, os últimos serão os primeiros: o último no tempo às vezes vem a ser o primeiro em dignidade.

Ele começa com um sermão prático e claro, que expressa o propósito de sua profecia, nos primeiros cinco versículos. Depois, até o fim de Zacarias 6, relata as visões que teve e as instruções que, por meio delas, recebeu diretamente do céu.

Em Zacarias 7, uma pergunta feita pelos judeus acerca do jejum lhe dá ocasião de mostrar-lhes o dever de seus dias e de animá-los a esperar o favor de Deus, até o fim de Zacarias 8.

Em seguida vêm dois sermões, ambos chamados de fardos da palavra do Senhor. Um começa em Zacarias 9, e o outro, em Zacarias 12. Provavelmente foram pregados algum tempo depois.

O propósito deles é censurar o pecado e ameaçar os impenitentes com os juízos de Deus, além de animar os que temiam a Deus com a certeza da misericórdia que ele tinha reservada para sua igreja, especialmente a vinda do Messias e o estabelecimento de seu reino no mundo.

Neste capítulo, após a introdução (v. 1), temos: I. Um chamado para despertar um povo pecador a arrepender-se de seus pecados e voltar para Deus (vv. 2-6). II. Grande ânimo para esperar misericórdia:

  1. Pela visão dos cavalos (vv. 7-11). 2. Pela oração do anjo em favor de Jerusalém e pela resposta a essa oração (vv. 12-17). 3. Pela visão dos quatro carpinteiros empregados para cortar os quatro chifres com que Judá e Jerusalém foram dispersos (vv. 18-21).

Versículos 1 a 6

Exortação ao Arrependimento. (a.C. 520.)

Aqui está:

I. O fundamento do ministério de Zacarias; foi lançado sobre a autoridade divina: “A palavra do Senhor veio a ele”. Recebeu uma comissão divina para ser a boca de Deus para o povo e, com ela, instruções sobre o que dizer. Recebeu do Senhor aquilo que também lhes transmitiu.

A palavra do Senhor veio a ele com a evidência e a demonstração do Espírito, como algo real, não como uma fantasia. Para confirmar isso, temos aqui:

  1. O momento em que a palavra do Senhor lhe veio pela primeira vez, ou em que lhe veio a palavra que se segue: foi no segundo ano de Dario.

Antes do cativeiro, os profetas datavam seus escritos pelos reinados dos reis de Judá e de Israel; agora, pelos reinados dos reis da Pérsia, a quem estavam sujeitos. Que triste mudança o pecado havia produzido em suas circunstâncias!

Zorobabel não assumiu tamanha pompa a ponto de fazer datar os atos públicos pelos anos de seu governo. Em assuntos dessa natureza, os profetas, como convém, seguiam o costume da época e não tinham escrúpulos em contar os anos pelos reinados dos reis pagãos, como em Daniel 7:1; 8:1.

Zacarias pregou seu primeiro sermão no oitavo mês desse segundo ano de Dario; Ageu pregara o seu no sexto mês do mesmo ano (Ageu 1:1). Como o povo obedeceu prontamente à palavra do Senhor transmitida por Ageu, Deus o abençoou com outro profeta. Pois a quem tem e usa bem o que tem mais será dado.

  1. O nome e a família do profeta a quem veio a palavra do Senhor: ele era Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ido, e era o profeta, assim como Ageu é chamado de profeta (Ageu 1:1).

Embora em tempos anteriores tenha havido um profeta chamado Ido (2 Crônicas 12:15), não temos motivo para pensar que Zacarias fosse seu descendente ou que recebesse dele sua designação.

O erudito Sr. Pemble é da firme opinião de que esse Zacarias, filho de Baraquias, é o mesmo de quem nosso Salvador diz que foi morto entre o templo e o altar, talvez muitos anos depois da reconstrução do templo (Mateus 23:35).

Ele entende que o Salvador não se referia, como se costuma pensar, a Zacarias, filho de Joiada; pois por que Joiada seria chamado Baraquias? Pemble considera que o modo como Cristo apresenta o relato nos leva a essa conclusão.

Ao enumerar o sangue inocente derramado pelos judeus, Cristo começa por Abel e termina com o último dos santos profetas. Ora, depois de Zacarias, filho de Joiada, eles mataram muitos profetas e homens justos.

É verdade que nenhuma história menciona que os judeus tenham matado este Zacarias, mas Josefo talvez tenha ocultado deliberadamente essa vergonha de sua nação.

Talvez o que Zacarias disse em sua profecia a respeito de Cristo, de sua venda, de suas feridas na casa dos amigos e do pastor ferido, tenha-se cumprido no próprio profeta; assim ele se tornou um tipo de Cristo.

É provável que, atacado por seus perseguidores, tenha buscado refúgio no pátio dos sacerdotes, e alguns pensam que ele próprio era sacerdote. Assim, foi morto entre o pórtico e o altar.

II. As primícias do ministério de Zacarias. Antes de chegar às visões e revelações e de proferir seus discursos proféticos, pregou o que era claro e prático, pois é melhor começar por aí.

Antes de anunciar as promessas de misericórdia, proclamou chamados ao arrependimento, pois é assim que o caminho do Senhor deve ser preparado. Primeiro é preciso pregar a lei, depois o evangelho. Agora:

  1. O profeta lhes recorda a contenda que Deus tivera com seus pais (v. 2): “O Senhor esteve profundamente descontente com seus pais e lhes impôs os sinais de seu desagrado. Vocês ouviram isso com os próprios ouvidos, e seus pais lhes contaram; viram com os próprios olhos os tristes vestígios disso.”

“A desavença de Deus com vocês já dura muito tempo; portanto, é hora de pensar em pôr fim a ela.” Repare: Os juízos de Deus que recaíram sobre os que nos precederam devem servir-nos de advertência para não seguir seus passos e de chamados ao arrependimento, para que interrompamos a transmissão da maldição e a convertamos em bênção.

  1. Ele os chama, em nome de Deus, a voltar para ele e a fazer as pazes com ele (v. 3). Por meio do profeta, Deus diz a esse povo desviado o que tantas vezes dissera por seus servos, os profetas:

“Voltem para mim pelo caminho da fé e do arrependimento, do dever e da obediência, e eu voltarei para vocês pelo caminho do favor e da misericórdia, da paz e da reconciliação.” Que os rebeldes tornem à lealdade, e serão acolhidos sob a proteção do governo e desfrutarão todos os privilégios dos bons súditos.

Que mudem seu caminho, e Deus mudará o dele (veja Malaquias 3:7). O mais digno de nota aqui, porém, é que Deus recebe o título de Senhor dos Exércitos três vezes: “Assim diz o Senhor dos Exércitos”. É ele quem fala, por isso vocês são obrigados a dar atenção ao que diz.

“Voltem para mim”, diz o Senhor dos Exércitos; isso indica a autoridade e a obrigatoriedade da ordem. “E eu voltarei para vocês”, diz o Senhor dos Exércitos; isso indica a validade e o valor da promessa. Portanto, não se trata de repetição vazia.

Repare: Considerar o poder todo-poderoso e o domínio soberano de Deus deve tanto levar quanto animar os pecadores a arrepender-se e voltar para ele. É muito desejável ter o Senhor dos Exércitos como amigo e muito terrível tê-lo como inimigo.

  1. Ele os adverte a não persistir na falta de arrependimento como seus pais fizeram (v. 4): “Não sejam como seus pais”. Em vez de se endurecerem em seus maus caminhos pelo exemplo dos pecados dos pais, que o exemplo do castigo deles os afaste desses caminhos.

Somos muito propensos a nos deixar governar por precedentes; seremos bem ou mal governados conforme o uso que fizermos dos precedentes à nossa frente. Os mesmos exemplos são para alguns um cheiro de vida para vida e, para outros, um cheiro de morte para morte.

Alguns argumentavam: “Seremos mais sábios do que nossos pais? Eles nunca deram atenção aos profetas; por que nós lhes daríamos? Fizeram leis contra eles; por que nós os toleraríamos?” Mas aqui se ensina como deveriam argumentar:

“Nossos pais desprezaram os profetas, e por isso Deus ficou profundamente descontente com eles; portanto, prestemos ainda mais atenção ao que Deus nos diz por seus profetas.” “Revejam o passado e observem:”

(1.) “Qual era a mensagem enviada por Deus, por meio de seus servos, os profetas, aos pais de vocês? Os profetas anteriores clamaram aos seus pais. Clamaram em alta voz, sem poupar; não se pouparam nem pouparam os pais de vocês.”

“Clamaram como homens sinceramente empenhados, como homens que queriam ser ouvidos. Não falaram por conta própria, mas em nome do Senhor dos Exércitos. O teor de suas palavras, o refrão de cada cântico e a aplicação de cada sermão eram: Voltem agora de seus maus caminhos e de suas más ações.”

“É exatamente o que pregamos agora a vocês. Deixem-se persuadir a abandonar seus pecados; resolvam não ter mais nada a ver com eles. Uma reforma imediata é o único meio de impedir uma ruína iminente: voltem agora do pecado para Deus, sem demora.”

(2.) “Quão pouca atenção os pais de vocês deram à mensagem: Mas eles não ouviram, não deram atenção. Fecharam os ouvidos a esses chamados: Não quiseram dar-me ouvidos, diz o Senhor.”

“Não quiseram ser corrigidos nem governados pela palavra que lhes enviei. Portanto, não digam que farão como seus pais, pois eles agiram mal” (veja Jeremias 44:17).

Repare: Não devemos seguir o exemplo de nossos queridos pais, a menos que tenham sido filhos queridos de Deus; e, mesmo assim, somente até onde tenham sido fiéis e obedientes a ele.

(3.) “O que aconteceu tanto aos pais de vocês quanto aos profetas que lhes pregaram? Todos morreram e se foram” (v. 5).

[1.] “Seus pais, onde estão? Toda aquela geração foi levada, e o lugar deles já não os conhece.” Repare: Ao pensar em nossos antepassados, que atravessaram o mundo e partiram dele antes de nós, devemos perguntar: Onde estão?

Estiveram aqui, nas cidades e regiões onde moramos, passando e tornando a passar pelas mesmas ruas, vivendo nas mesmas casas, negociando nas mesmas lojas e bolsas de comércio, adorando a Deus nas mesmas igrejas. Mas onde estão?

Ainda estão em algum lugar; a morte não foi seu fim. Estão na eternidade, no mundo dos espíritos, o mundo imutável para o qual avançamos rapidamente. Onde estão?

Os que viveram e morreram em pecado estão em tormento. Moisés e os profetas, Cristo e seus apóstolos nos advertem a tomar cuidado para não chegar àquele lugar de tormento (Lucas 16:28, 29).

Os que viveram e morreram em Cristo estão no paraíso. Se vivermos e morrermos como eles, em breve estaremos com eles, e com eles para sempre.

[2.] “E os profetas, vivem para sempre?” Não, também se foram. O tesouro é posto em vasos de barro, a água da vida em cântaros de barro, muitas vezes rachados e, por fim, levados para casa quebrados.

Cristo é um profeta que vive para sempre; todos os outros, porém, têm seu ofício encerrado. Repare: Os ministros são homens mortais e não vivem para sempre neste mundo.

Devem reconhecer isso sobre si mesmos e pregar de acordo com essa condição, como quem em breve terá de se calar e não sabe qual sermão poderá ser o último. O povo também deve vê-los assim e ouvi-los como quem ainda tem a luz por pouco tempo, a fim de andar e trabalhar enquanto a tem.

Ah, se essa consideração de tanto peso recebesse a devida importância! Somos ministros mortais lidando com pessoas mortais acerca dos interesses de almas imortais e de uma eternidade assombrosa, à beira da qual estamos todos, eles e nós.

Convém pensar nos profetas antigos que já se foram (Jeremias 28:8). Os que eram a glória dos homens murcharam e caíram; mas a palavra do Senhor permanece para sempre (1 Pedro 1:24, 25).

“E os profetas de agora, vivemos para sempre?” Assim alguns leem. Não: Ageu e Zacarias não estarão por muito tempo com vocês, e a própria profecia logo cessará.

Em outro mundo, tanto nós quanto nossos profetas viveremos para sempre. Preparar-nos para esse mundo deve ser nosso grande cuidado e nossa grande ocupação neste.

(4.) “Quais foram os efeitos da palavra que Deus lhes dirigiu por meio de seus profetas?” (v. 6). Os pregadores morreram, os ouvintes morreram, mas a palavra de Deus não morreu: produziu efeito, e nem um iota ou um til dela caiu por terra.

Como a chuva e a neve do céu, não voltará vazia (Isaías 55:11). Ele apelou a eles próprios; sabiam muito bem:

[1.] Que os juízos com que Deus ameaçara seus pais foram executados contra eles, e que sentiram aquilo em que não quiseram crer nem temer:

“Meus estatutos, que ordenei aos meus servos, os profetas, os preceitos com as penas a eles anexadas, cuja transmissão lhes confiei, não alcançaram os pais de vocês?” Embora os profetas de Deus não conseguissem imprimir neles a convicção, as calamidades ameaçadas os alcançaram.

Não puderam escapar delas nem sair de seu alcance. As palavras de Deus os alcançaram como o oficial de justiça prende o devedor e o põe sob custódia por desacato.

Repare: A incredulidade humana não pode tornar ineficazes as ameaças da palavra de Deus. Mais cedo ou mais tarde, elas acontecerão se não for seguido o caminho prescrito para impedir sua execução.

A cólera de Deus certamente alcançará aqueles que não se deixam alcançar por sua autoridade, pois, quando ele julga, prevalece.

[2.] Que eles próprios não puderam deixar de reconhecer o cumprimento da palavra de Deus nos juízos que lhes sobrevieram, bem como a justiça de Deus neles: ele não lhes havia feito injustiça alguma.

“Eles voltaram e disseram”, mudaram de ideia e reconheceram, quando já era tarde demais para impedir a ruína de sua nação: “Assim como o Senhor dos Exércitos pensou em nos tratar segundo nossos caminhos e ações, chamando-nos a prestar contas por eles, assim ele nos tratou”.

“Devemos reconhecer tanto sua verdade quanto sua justiça, atribuir a culpa somente a nós mesmos e não lhe imputar culpa alguma.” Sero sapiunt Phryges — Os frígios demoram a tornar-se sábios.

Essa sabedoria tardia prova tanto a verdade de Deus quanto a insensatez dos homens, que não enxergam além do que podem ver. Nunca se deixariam persuadir a dizer a tempo: “Deus cumprirá sua palavra, pois é fiel; ele nos tratará conforme merecemos, pois é justo”.

Agora, porém, veem ambas as coisas com clareza, quando a sentença é executada. Agora, até quem corre pode ler e anunciar a exata concordância entre os atos presentes da providência e as predições anteriores que então desprezavam, entre os castigos atuais e os antigos pecados em que persistiam. Agora não podem deixar de dizer: “O Senhor é justo” (Daniel 9:11-13).

A Visão do Cavalo e das Murtas; Intercessão por Jerusalém. (a.C. 520.)

Versículos 7 a 17

Chegamos agora às visões e revelações do Senhor. Foi por esse meio que Deus escolheu falar por intermédio de Zacarias, para despertar a atenção do povo, levá-lo a reverenciar humildemente a palavra e a investigá-la com humildade, e fixá-la ainda mais em sua mente e memória.

A maioria das visões seguintes parece destinada a consolar os judeus, recém-chegados do cativeiro, e a animá-los a prosseguir na construção do templo. O propósito desta visão, que serve de introdução às demais, é assegurar aos judeus o cuidado que Deus tinha com eles e o olhar favorável de sua providência sobre eles.

Isso valia para sua situação presente, quando pareciam abandonados e seu estado era lamentável. A visão é datada do vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês (v. 7), três meses depois de o profeta pregar aquele sermão (v. 1), no qual os chamou ao arrependimento à vista dos juízos de Deus.

Como o sermão produzira bom efeito e eles haviam voltado para Deus pelo caminho do dever, confirmam-se as garantias que o profeta lhes dera de que Deus voltaria para eles pelo caminho da misericórdia. Observe aqui:

I. O que o profeta viu e sua explicação:

  1. Viu um bosque de murtas, escuro e sombreado, no fundo de um vale, escondido pelos montes vizinhos, de modo que ninguém o perceberia antes de estar quase sobre ele. Isso representava a condição humilde, sombria, solitária e melancólica da igreja judaica naquele tempo.

Todos os seus vizinhos a sobrepujavam, e ela estava mergulhada na obscuridade. Os amigos que tinha estavam escondidos, e não se via nenhum meio de lhe trazer alívio ou socorro. Repare: A igreja nem sempre esteve visível; às vezes ficou escondida, como a mulher no deserto (Apocalipse 12:6).

  1. Viu um homem montado num cavalo vermelho, parado no meio daquele bosque sombreado de murtas. Esse homem não é outro senão o homem Cristo Jesus, o mesmo que apareceu a Josué com a espada desembainhada na mão, como comandante do exército do Senhor (Josué 5:13, 14), e a João com o arco e a coroa (Apocalipse 6:2).

Embora a igreja estivesse em condição humilde, Cristo se encontrava em seu meio. Estava ela escondida pelos montes? Ele estava ainda mais escondido no bosque de murtas, mas escondido como quem prepara uma emboscada, pronto para aparecer no momento oportuno em socorro de seu povo e surpreendê-lo para sua alegria.

Compare Isaías 45:15: “Verdadeiramente tu és um Deus que te escondes”. Ainda assim, ele era ao mesmo tempo o Deus e Salvador de Israel, o Santo deles em seu meio.

Ele cavalgava como homem de guerra, como alguém com pressa, cavalgando pelos céus para ajudar seu povo (Deuteronômio 33:26). Montava um cavalo vermelho, quer fosse essa sua cor natural, quer estivesse tingido de vermelho pelo sangue da guerra, como esse mesmo príncipe vitorioso apareceu com vestes vermelhas (Isaías 63:1, 2).

Vermelho é uma cor ardente e indica que ele tem zelo por Jerusalém (v. 14) e está muito irado contra seus inimigos. Sob a lei, Cristo apareceu num cavalo vermelho, indicando o terror daquela dispensação e que ainda tinha diante de si o conflito em que resistiria até o sangue.

Sob o evangelho, porém, aparece num cavalo branco (Apocalipse 6:2; 19:11), indicando que já obteve a vitória, cavalga em triunfo e desfralda a bandeira branca, não a ensanguentada.

  1. Viu uma tropa de cavaleiros que o acompanhava, pronta para receber e obedecer às suas ordens: atrás dele havia cavalos vermelhos, cavalos malhados e cavalos brancos. Eram anjos que acompanhavam o Senhor Jesus, prontos para ser empregados por ele a serviço de sua igreja: uns em atos de juízo, outros em atos de misericórdia e outros em acontecimentos mistos.

Repare: O Rei da igreja tem anjos às suas ordens, não apenas para lhe prestar honra, mas para servir ao bem daqueles que lhe pertencem.

  1. Perguntou o significado dessa visão. Tinha um anjo que falava com ele e lhe servia de instrutor, além dos que via na visão. Ezequiel também teve um (Ezequiel 40:3), e Daniel igualmente (Daniel 8:16).

Zacarias perguntou-lhe (v. 9): “Ó meu senhor, que são estes?” Ao que parece, esse anjo que falava com ele era o próprio Cristo, o homem sobre o cavalo vermelho, acompanhado pelos demais; a ele Zacarias se dirigiu diretamente.

Se desejamos conhecer os mistérios do reino dos céus, devemos recorrer, não aos anjos, que também estão aprendendo, mas ao próprio Cristo, o único capaz de tomar o livro e abrir os selos (Apocalipse 5:7).

A pergunta do profeta implica humilde reconhecimento de sua ignorância e desejo sincero de ser instruído: “Ah, deixa-me saber o que são estes!” Não o desejava para satisfazer a curiosidade, mas para receber algo apropriado ao consolo e ânimo do povo de Deus em sua aflição presente.

  1. Recebeu do anjo que falava com ele (v. 9) e do homem que estava entre as murtas (v. 10) a interpretação da visão. Repare: Jesus Cristo está pronto a instruir os que humildemente desejam aprender as coisas de Deus.

Ele disse imediatamente: “Eu te mostrarei o que são estes”. O conhecimento que temos ou podemos ter acerca do mundo dos espíritos devemos a Cristo.

A explicação que lhe foi dada foi: “Estes são os que o Senhor enviou”. São seus mensageiros, seus enviados, designados, como se diz que seus olhos são (2 Crônicas 16:9), para andar, correr e voar rapidamente por toda a terra, observar o que nela se faz e executar as ordens divinas.

Deus não precisa deles, mas tem por bem empregá-los; nós precisamos do consolo que vem da doutrina de seu serviço.

II. O que o profeta ouviu e as instruções que com isso recebeu:

A fé vem pelo ouvir e, em geral, algo era dito nas visões.

  1. Ouviu o relato, ou a exposição, que os anjos fizeram a Cristo da situação presente do mundo (v. 11). Haviam saído como mensageiros velozes, apressados pela ordem do Rei dos reis (Ester 3:15). De volta, prestaram este relato ao Anjo que estava entre as murtas, pois os próprios anjos respondem ao Senhor Jesus:

“Percorremos a terra de um lado para outro e, eis que toda a terra está quieta e em repouso.” Somos ensinados a orar para que a vontade de Deus seja feita pelos homens na terra como pelos anjos no céu. Aqui vemos quanto precisamos orar por isso, pois está longe de acontecer. Pois:

(1.) Vemos aqui o mundo dos anjos muito ocupado. Os que servem na corte celestial não descansam nem de dia nem de noite de louvar a Deus, sua ocupação ali. Os que servem no acampamento cá embaixo nunca ficam ociosos nem desperdiçam tempo.

Continuamente sobem e descem sobre o Filho do Homem (João 1:51), como pela escada de Jacó (Gênesis 28:12); continuam percorrendo a terra de um lado para outro. Satanás reconhece que é igualmente ativo e diligente em causar dano (Jó 1:7).

É bom para nós que os anjos bons se empenhem tanto em fazer o bem, e que tenhamos aqui na terra guardiões andando continuamente à procura de nos prestar algum favor, assim como temos adversários que, como leões que rugem, andam continuamente à procura de nos devorar.

Embora encontrem na terra muita coisa desagradável, os santos anjos não hesitam em percorrê-la enquanto cumprem os encargos de Deus. Apreciarão ainda mais sua própria morada ao voltar, morada que os anjos caídos não apreciaram.

(2.) Vemos aqui o mundo dos homens muito despreocupado: “Toda a terra está quieta e em repouso”, enquanto toda a igreja é inquietada, sacudida por tempestades e não consolada.

Os que são estranhos à igreja estão tranquilos; os que são seus inimigos prosperam. Caldeus e persas vivem à vontade enquanto os pobres judeus estão continuamente alarmados, como quando o rei e Hamã se sentaram para beber, mas a cidade de Susã ficou perplexa.

Os filhos dos homens se divertem e se alegram, mas ninguém se entristece pela aflição dos filhos de Deus. Repare: É triste pensar no sono profundo em que o mundo caiu, no espírito de sonolência que tomou a maior parte da humanidade, sujeita à cólera de Deus e ao poder de Satanás, mas ainda tranquila e despreocupada! Continuam quietos e em repouso (Lucas 17:26, etc.).

  1. Ouviu a intercessão de Cristo junto ao Pai por sua igreja aflita (v. 12). Os anjos relataram a situação dos assuntos neste mundo inferior, mas não lemos que tenham orado para remediar os males que apresentaram em seu relato. Não: o grande intercessor é o Anjo entre as murtas.

Ao ouvir o relato dos anjos, voltou-se imediatamente para o céu e disse: “Senhor, não terás misericórdia de tua igreja?” (1.) Aquilo por que intercede é a misericórdia, como em Salmos 85:7: “Mostra-nos tua misericórdia, ó Senhor!”

Repare: A misericórdia de Deus é tudo para o consolo da igreja, e toda a sua misericórdia deve ser esperada por meio da mediação de Cristo. (2.) Aquilo de que se queixa é a demora dessa misericórdia: “Até quando não terás misericórdia?”

Ele sabe que, por meio dele, as misericórdias serão edificadas para sempre (Salmos 89:2), mas considera longa a demora da construção. (3.) Os objetos da compaixão que apresenta à misericórdia divina são Jerusalém, a cidade santa, e as outras cidades de Judá, então em ruínas.

Isso porque Deus estivera indignado com elas havia já setenta anos. Ele menciona setenta anos porque esse era o prazo fixado nos conselhos divinos para a duração do cativeiro; por todo esse tempo durou a indignação.

Embora agora, por breve tempo, o Senhor, seu Deus, lhes tivesse mostrado graça para dar-lhes algum revigoramento (Esdras 9:8), as cicatrizes daqueles setenta anos de cativeiro ainda eram tão profundas e dolorosas que eles continuavam a tocar nessa nota triste: a indignação divina durante aqueles setenta anos.

O Dr. Lightfoot pensa que, ao passo que os setenta anos do cativeiro foram contados desde o quarto ano de Jeoaquim até o primeiro de Ciro, estes setenta anos devem ser contados desde o décimo primeiro ano de Zedequias, quando Jerusalém e o templo foram queimados.

Isso ocorreu cerca de dezenove anos depois do primeiro cativeiro; o prazo terminou neste segundo ano de Dario Histaspes, cerca de dezessete anos depois da proclamação de Ciro, ao passo que os setenta anos mencionados em Zacarias 7:5 terminaram cerca de dezenove anos depois. O cativeiro terminou gradualmente, como havia começado.

“Senhor, ainda estamos sob o peso da cólera de setenta anos; ficarás irado conosco para sempre?”

  1. Ouviu uma resposta graciosa a essa intercessão de Cristo por sua igreja. É uma intercessão eficaz, sempre aceita, e o Pai sempre o ouve (v. 13): o Senhor “respondeu ao anjo”, esse Anjo da aliança, “com palavras boas e consoladoras”, com promessas de misericórdia e libertação e de levar a termo aquilo que começara em favor deles.

Essas palavras consolaram Cristo, que se entristece com os sofrimentos de sua igreja, e todos os que pranteiam com Sião. Muitas vezes Deus responde à oração com boas palavras quando não se manifesta imediatamente por meio de grandes obras; essas boas palavras são respostas reais à oração.

As boas palavras dos homens não alimentam o corpo (Tiago 2:16), mas as boas palavras de Deus alimentam a fé, pois nele dizer e fazer não são coisas separadas, como são em nós.

  1. Ouviu a resposta dada ao anjo ser repetida a ele próprio, com a ordem de anunciá-la aos filhos de seu povo para seu consolo. Deus deu a revelação de Jesus Cristo a ele, que a comunicou a seu servo João e, por meio de João, às igrejas (Apocalipse 1:1, 4).

Assim, todas as palavras boas e consoladoras do evangelho nós as recebemos de Jesus Cristo, como ele as recebeu do Pai em resposta à oração de seu sangue; seus ministros foram designados para pregá-las ao mundo inteiro.

Agora que Deus queria falar de maneira consoladora a Jerusalém, Zacarias é a voz daquele que clama no deserto: “Preparem o caminho do Senhor”. A voz disse: “Clama”. Então, clame.

Os profetas devem clamar agora tão alto para mostrar ao povo de Deus suas consolações quanto antes para mostrar-lhe suas transgressões (Isaías 40:2, 3, 6). Se ele perguntar: “Que hei de clamar?”, recebe aqui a instrução.

(1.) Deve proclamar a cólera que Deus tem reservada para os inimigos de Jerusalém. Deus tem grande zelo por Sião (v. 14). Considera-se gravemente afrontado pelas injúrias e insultos feitos à sua igreja, assim como antes pelas iniquidades encontradas nela.

A terra estava quieta e em repouso (v. 11), sem se abrandar de modo algum nem mostrar o menor remorso por todo o dano que causara a Jerusalém. Assim agiram os irmãos de José, que, depois de vendê-lo, sentaram-se para comer pão.

Deus viu isso com grande desagrado (v. 15): “Estou profundamente descontente com os pagãos” que vivem à vontade e não se importam com a igreja aflita. Muito mais se desagradará daqueles que vivem à vontade em Sião (Amós 6:1), os próprios filhos de Sião, que não se compadecem de suas dores.

Isso, porém, não era tudo: não apenas deixavam de se importar com ela, mas agiam contra ela. Deus diz: “Eu estava só um pouco descontente” com seu povo e planejava corrigi-lo moderadamente. Porém aqueles que serviram de instrumentos da correção abandonaram toda a compaixão.

Com fúria e maldade extremas, contribuíram para que a aflição avançasse e ainda a intensificaram, perseguindo os que Deus havia ferido (Salmos 69:26) e insultando os que ele havia afligido (veja Isaías 47:6; 10:5; Ezequiel 25:12, 15).

Repare: Deus está descontente com os que contribuem para a aflição até mesmo daqueles que sofrem com justiça, pois a verdadeira humanidade, nesse caso, é boa teologia.

(2.) Deve proclamar a misericórdia que Deus tem reservada para Jerusalém e as cidades de Judá (v. 16). Deve clamar: “Assim diz o Senhor: Voltei a Jerusalém com misericórdias. Eu me afastava irado, mas agora volto com amor. Clame ainda no mesmo sentido”, v. 17.

Agora deve haver linha sobre linha para consolar, como antes houve para convencer. O Senhor, o próprio Senhor dos Exércitos, lhes assegura:

[1.] Que o templo, que agora ainda está em construção, será concluído. Essa boa obra à qual agora se dedicam, embora encontre muito desânimo, será levada a termo. Terão sinais da presença de Deus e oportunidades de ter comunhão com ele e adorá-lo, como antes.

Repare: É realmente boa notícia para qualquer lugar ouvir que Deus construirá nele sua casa.

[2.] Que Jerusalém será novamente construída como cidade bem unida, o que antes fora sua glória (Salmos 122:3). Uma linha será estendida sobre Jerusalém para reconstruí-la com grande exatidão e uniformidade.

[3.] Que a nação se tornará novamente populosa e rica, embora agora esteja reduzida e empobrecida. Não só Jerusalém, mas outras cidades hoje reduzidas e confinadas a pequeno espaço ainda se espalharão ou se difundirão.

Seus arredores se estenderão para longe, e delas sairão colônias para se estabelecer em outros lugares. Isso acontecerá por causa da prosperidade: serão tão numerosos e ricos que não haverá espaço para todos; queixar-se-ão de que o lugar é estreito demais (Isaías 49:20).

Assim como haviam sido dispersos e espalhados por suas calamidades, agora o seriam por sua prosperidade. “Sejam dispersas as tuas fontes” (Provérbios 5:16). Deus chama de suas as cidades que assim crescerão. Abençoadas por ele, serão frutíferas, se multiplicarão e encherão a terra.

[4.] Que todas as suas dores presentes não serão apenas compensadas, mas silenciadas para sempre pelo consolo divino: “O Senhor ainda consolará Sião”. Ainda que suas dores e aflições durem muito tempo, Deus tem consolações reservadas para Sião e todos os que pranteiam com ela.

[5.] Que tudo isso será fruto do favor antecedente e distintivo de Deus: “Ele ainda escolherá Jerusalém”. Renovará sua escolha e sua aliança; fará manifesto que escolheu Jerusalém.

Assim como primeiro os edificou como povo ao tirá-los do Egito, agora os reconstruirá ao tirá-los da Babilônia, não por qualquer mérito deles, mas em cumprimento de sua própria escolha (Deuteronômio 7:7, 8). Jerusalém é a cidade que ele escolheu e não a rejeitará.

Versículos 18 a 21

Consolo para Jerusalém. (a.C. 520.)

É consolo e triunfo para a igreja (Isaías 59:19) que, “quando o inimigo vier como uma inundação”, com grande força e fúria, “o Espírito do Senhor levantará contra ele uma bandeira”. Nesta visão, a segunda que o profeta teve, vemos uma ilustração disso: o Espírito de Deus resiste e enfrenta o temível poder dos adversários da igreja.

I. Temos aqui os inimigos da igreja, ousados e atrevidos, ameaçando matá-la e apagar o nome de Israel. O povo de Deus fora recentemente afrontado por inimigos assim: “Olhei, e eis quatro chifres” (v. 18), explicados no v. 19.

São os chifres que dispersaram Judá, Israel e Jerusalém, isto é, os judeus tanto no campo quanto na cidade, pois eram o Israel de Deus. Eles os arremessaram, conforme outra leitura, como touros furiosos arremessam com os chifres aquilo que provoca sua ira.

Dispersaram-nos “de modo que ninguém levantava a cabeça” (v. 21). Ninguém ousava mostrar o rosto por medo deles, muito menos oferecer-lhes resistência ou fazer frente a eles. São chifres, símbolo de sua dignidade e domínio, chifres exaltados que também representam força, poder e violência.

São quatro chifres, pois os judeus estavam cercados por eles de todos os lados: ao escapar de um chifre que os atacava, iam de encontro a outro. Os homens de Judá, os moradores de Jerusalém e muitos israelitas que se juntaram a eles empreenderam a construção do templo.

Os inimigos dessa obra, porém, os atacavam de todos os lados e os afastavam dela. Reum, Sinsai e os outros samaritanos que se opunham à construção do templo eram esses chifres (Esdras 4:8).

Também o eram Sambalate, Tobias, os amonitas e os árabes que se opunham à construção do muro (Neemias 4:7). Repare: Os inimigos da igreja têm chifres e os usam para impedir toda boa obra.

O grande inimigo da igreja do Novo Testamento tem sete cabeças e dez chifres (Apocalipse 17:3); assim, quem procura prestar algum serviço à igreja deve esperar ser atacado.

II. Temos aqui os amigos da igreja, ativos e vitoriosos. O próprio profeta ergueu os olhos e viu os quatro chifres. Pareceram-lhe tão temíveis que começou a perder a esperança quanto à segurança de toda pessoa boa e ao êxito de toda boa obra.

Então o Senhor lhe mostrou quatro carpinteiros, ou ferreiros, capacitados a cortar aqueles chifres (v. 20, 21). Com os olhos naturais, vemos o poder dos inimigos da igreja: olhemos para onde quisermos, o mundo nos mostra isso.

É, porém, com os olhos da fé que a vemos segura apesar de tudo. É o Senhor quem nos mostra isso, assim como abriu os olhos do servo do profeta para que visse os guardas angelicais ao redor de seu senhor (2 Reis 6:17). Observe:

Os que haveriam de amedrontar ou quebrar os chifres dos gentios e expulsá-los eram:

  1. Carpinteiros ou ferreiros, pois alguns supõem que os chifres fossem de ferro. Eram homens com perícia e capacidade para fazê-lo; era seu ofício próprio, conheciam-no bem e tinham à mão as ferramentas necessárias.

Repare: Deus chama para servir aos interesses de sua igreja aqueles que encontra aptos para isso ou torna aptos. Se contra a igreja há chifres, que representam a força e a fúria dos animais, em favor dela há carpinteiros, que representam a sabedoria e a previsão dos homens.

Por meio dessa sabedoria encontram maneiras de dominar os animais mais fortes, pois “todo tipo de animal é domado e já foi domado pela humanidade” (Tiago 3:7).

  1. Eram quatro carpinteiros: tantos chifres, tantas mãos para serrá-los. Repare: Por qualquer lado que a igreja seja ameaçada de dano e seus interesses sofram oposição, Deus pode encontrar meios e recursos para deter a força, conter a cólera e fazê-la redundar em seu louvor.

Alguns entendem que esses quatro carpinteiros representam Zorobabel e Josué, Esdras e Neemias, que levaram adiante a obra de Deus apesar da oposição que receberam. Aquelas feras com chifres invadiram a vinha de Deus para pisoteá-la.

Os bons magistrados e ministros que Deus levantou, porém, embora não tivessem poder para cortar os chifres dos ímpios, como Davi fez (Salmos 75:5, 10), amedrontaram-nos e os expulsaram.

Repare: Quando Deus tem uma obra a realizar, levantará uns para fazê-la e outros para defendê-la e proteger os que nela trabalham.


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