Matthew Henry

Salmos 71

Argumento

Davi escreveu este salmo na velhice, como mostram diversas passagens dele. Isso leva muitos a pensar que foi escrito no tempo da rebelião de Absalão, a grande tribulação dos últimos anos de Davi.

O motivo também pode ter sido a insurreição de Seba, ou alguma tribulação ocorrida naquela fase de sua vida para a qual se havia predito que a espada não se afastaria de sua casa.

Davi, porém, não expõe seu caso em muitos detalhes, pois destinou o salmo ao uso geral do povo de Deus em suas aflições, especialmente as que sobrevêm nos anos de declínio. Mais que qualquer outro, este salmo é apropriado para os discípulos idosos de Jesus Cristo.

I. Ele começa o salmo com orações de fé, orações para que Deus o livre e salve (v. 2, 4), não o rejeite (v. 9) nem fique longe dele (v. 12), e para que seus inimigos sejam envergonhados, v. 13.

Apresenta como razões sua confiança em Deus (v. 1, 3, 5, 7), a experiência que tivera da ajuda divina (v. 6) e a malícia de seus inimigos contra ele, v. 10, 11.

II. Ele conclui o salmo com louvores de fé (v. 14, etc.). Nunca sua esperança esteve mais firme, v. 16, 18, 20, 21. Nunca suas alegrias e suas ações de graças foram tão amplas, v. 15, 19, 22-24.

Ele está num arrebatamento de alegre louvor; ao cantarmos o salmo, também devemos ter nossa fé em Deus animada e nossos corações elevados para bendizer seu santo nome.

Versículos 1 a 13

Davi Declara Sua Confiança em Deus; Orações de Fé.

Davi ora aqui, em termos gerais, por duas coisas: para que não seja confundido e para que seus inimigos e perseguidores o sejam.

I. Ele ora para que nunca se envergonhe de sua dependência de Deus nem seja frustrado nas expectativas que nele deposita pela fé. Todo verdadeiro crente pode aproximar-se com ousadia do trono da graça com esse pedido, pois Deus nunca frustrará a esperança que ele mesmo suscitou. Observe aqui:

  1. Como Davi declara sua confiança em Deus e com que prazer e variedade agradecida de expressões repete essa declaração, sempre a apresentando a Deus e a usando como apelo diante dele.

Louvamos a Deus e, assim, lhe agradamos ao dizer-lhe, se for mesmo verdade, quão completa é nossa confiança nele (v. 1): “Em ti, ó Senhor, e somente em ti, deposito minha confiança. Façam os outros o que fizerem, escolho o Deus de Jacó para minha ajuda.”

Os que estão inteiramente satisfeitos com a plena suficiência de Deus e a verdade de sua promessa e, dependendo disso como compensação suficiente, se dispõem livremente a agir e sofrer, a perder e arriscar por ele, podem dizer de fato: “Em ti, ó Senhor, deposito minha confiança.”

Quem quiser tratar com Deus deve fazê-lo com base na confiança; se hesitamos em tratar com ele, é sinal de que não confiamos nele. “Tu és minha rocha e minha fortaleza” (v. 3); e, outra vez: “Tu és meu refúgio, meu forte refúgio” (v. 7).

Isto é: “Fujo para ti e estou certo de que estarei seguro em ti, sob tua proteção. Se me guardares, ninguém poderá me ferir. Tu és minha esperança e minha confiança” (v. 5).

Isto é: “Em tua palavra, apresentaste a ti mesmo como o objeto apropriado de minha esperança e confiança; esperei em ti e nunca descobri que fosse vão fazê-lo.”

  1. Como sua confiança em Deus é sustentada e animada por suas experiências (v. 5, 6): “Tu foste minha confiança desde a juventude; desde que pude distinguir minha direita da esquerda, apoiei-me em ti e vi muitas razões para fazê-lo; pois desde o ventre fui sustentado por ti.”

Desde que passou a usar a razão, ele dependia da bondade de Deus, pois, desde que existia, era um monumento dessa bondade. Repare: considerar o cuidado gracioso que a Providência divina teve conosco em nosso nascimento e infância deve levar-nos à piedade desde cedo e à constante dedicação à honra de Deus.

Aquele que foi nossa ajuda desde o nascimento deve ser nossa esperança desde a juventude. Se recebemos tanta misericórdia de Deus antes de sermos capazes de lhe prestar qualquer serviço, não devemos perder tempo quando nos tornamos capazes.

Isso o sustenta em sua angústia atual. Deus não apenas lhe dera vida e existência, tirando-o do ventre materno para o mundo e providenciando que não morresse ao sair do ventre nem entregasse o espírito ao nascer, mas também o fizera membro de sua família desde cedo:

“Tu me tiraste do ventre de minha mãe para os braços de tua graça, para debaixo da sombra de tuas asas, para o vínculo de tua aliança; recebeste-me em tua igreja como filho de tua serva, nascido em tua casa”, Salmos 116:16. Por isso:

(1.) “Tenho razão para esperar que me protejas. Tu, que até aqui me sustentaste, não permitirás que eu caia agora; tu, que me fizeste, não desampararás a obra de tuas próprias mãos; tu, que me ajudaste quando eu não podia ajudar a mim mesmo, não me abandonarás agora que estou tão desamparado quanto então.”

(2.) “Tenho, portanto, razão para resolver dedicar-me a ti: ‘Meu louvor será continuamente dirigido a ti’”, isto é: “Farei do louvor a ti meu trabalho diário e aproveitarei todas as ocasiões para fazê-lo.”

  1. Quais são seus pedidos a Deus nessa confiança:

(1.) Que nunca seja levado à confusão (v. 1), nem seja frustrado quanto à misericórdia que esperava e, assim, se envergonhe de sua expectativa. Todos podemos orar com fé para que nossa confiança em Deus não nos traga confusão. A esperança da glória de Deus é uma esperança que não envergonha.

(2.) Que seja livrado das mãos dos inimigos (v. 2): “Livra-me em tua justiça. Como justo Juiz do mundo, que defende a causa dos prejudicados e pune os que os prejudicam, dá-me um meio de escapar” (Deus, junto com a tentação, dará um meio de escapar, 1 Coríntios 10:13).

“Inclina os ouvidos às minhas orações e, em resposta, salva-me das minhas tribulações, v. 4. Livra-me, ó meu Deus, das mãos dos que estão prontos a me despedaçar.” Ele apresenta três razões para pedir livramento:

[1.] O ânimo que Deus lhe dera para esperá-lo: “Deste ordem para me salvar” (v. 3), isto é, Deus prometera fazê-lo. As promessas divinas têm tamanha eficácia que muitas vezes são descritas como ordens, como “Haja luz”, e houve luz. Ele fala, e acontece.

[2.] O caráter de seus inimigos: são homens perversos, injustos e cruéis. Será para a honra de Deus agir contra eles (v. 4), pois ele é santo, justo e bom.

[3.] Os muitos olhos voltados para ele (v. 7): “Sou como um prodígio para muitos; todos esperam ver qual será o resultado de tribulações tão extraordinárias como as minhas e de uma confiança em Deus tão extraordinária como a que declaro.”

Ou: “Sou visto como um monstro, alguém de quem todos fogem; portanto, estarei perdido se o Senhor não for meu refúgio. Os homens me abandonam, mas Deus não o fará.”

(3.) Que sempre encontre descanso e segurança em Deus (v. 3): “Sê minha forte habitação; sê para mim uma rocha de repouso, à qual eu possa recorrer continuamente.”

Os que estão em casa com Deus, vivem em comunhão com ele e confiam nele, recorrem continuamente a ele pela fé e pela oração e mantêm os olhos sempre voltados para ele podem contar com uma forte habitação nele.

Essa habitação nunca cairá por si nem poderá ser rompida por qualquer força invasora. Eles serão bem-vindos sempre que recorrerem a Deus, em qualquer ocasião, sem que ele os repreenda por irem a ele com frequência demais.

(4.) Que tenha motivos constantes para agradecer a Deus e se ocupe continuamente dessa obra agradável (v. 8): “Que minha boca se encha de teu louvor, como agora está cheia de minhas queixas. Então não me envergonharei de minha esperança, mas meus inimigos se envergonharão de sua insolência.”

Quem ama a Deus ama louvá-lo e deseja fazê-lo o dia inteiro, não apenas nas devoções da manhã e da noite, nem apenas sete vezes ao dia (Salmos 119:164), mas ao longo de todo o dia, misturando a tudo o que diz algo que reverta em honra e louvor a Deus.

Esses resolvem louvá-lo enquanto viverem e esperam continuar a fazê-lo eternamente num mundo melhor.

(5.) Que não seja negligenciado agora, nos anos de declínio (v. 9): Não me rejeite agora, no tempo da velhice; não me desampare quando minha força falhar. Observe aqui:

[1.] A percepção natural que tinha das fraquezas da idade: “Minha força falha.” Onde havia força corporal e vigor mental, vista forte, voz forte e membros fortes, na velhice, infelizmente, tudo isso falha. A vida continua, mas a força se foi, ou o que há é fadiga e dor, Salmos 90:10.

[2.] O desejo gracioso de continuar a ter a presença de Deus em meio a essas fraquezas: “Senhor, não me rejeites; não me desampares então.” Isso mostra que ele se consideraria perdido se Deus o abandonasse.

Ser rejeitado e desamparado por Deus é algo a temer em qualquer tempo, especialmente na velhice e quando as forças nos faltam, pois Deus é a força de nosso coração. Isso mostra, porém, que Davi tinha razão para esperar que Deus não o abandonasse.

Os servos fiéis de Deus podem ter a consoladora certeza de que ele não os rejeitará na velhice nem os desamparará quando suas forças faltarem. Ele é um Mestre que não costuma dispensar servos antigos.

Com essa confiança, Davi torna a orar (v. 12): “Ó Deus, não fiques longe de mim; não me deixes sob o temor de que te afastes, pois então serei infeliz. Ó meu Deus, Deus que estás em aliança comigo, apressa-te a ajudar-me, para que eu não pereça antes que chegue o socorro.”

II. Ele ora para que seus inimigos se envergonhem dos desígnios que tramam contra ele. Observe:

  1. O que diziam injustamente contra ele, v. 10, 11. Sua trama era profunda e desesperada; visava sua vida: “Armam ciladas à minha alma” (v. 10), e são adversários dela, v. 13. Seus poderes e suas manobras se uniam: “Deliberam juntos.” E agiam com muita insolência. Dizem: “Deus o desamparou; persegui-o e capturai-o.”

As premissas deles são inteiramente falsas: por um homem bom estar em grande tribulação e nela permanecer por muito tempo, sem ser livrado tão depressa quanto talvez esperasse, não se segue que Deus o tenha desamparado e não vá mais ter nada com ele.

Nem todos os que se julgam desamparados por Deus, ou que os outros julgam assim, foram desamparados por ele.

Assim como as premissas eram falsas, a conclusão era bárbara. Se Deus o desamparou, então persigam-no e capturem-no, sem duvidar de que farão dele sua presa. Isso é falar para aumentar a dor daquele a quem Deus feriu, Salmos 69:26.

Desse modo, tentam desanimar Davi, como Senaqueribe tentou intimidar Ezequias ao sugerir que Deus era inimigo dele e lutava contra ele: “Por acaso subi sem o Senhor contra esta cidade para destruí-la?”, Isaías 36:10.

É verdade que, se Deus desampara alguém, ninguém pode livrá-lo; mas insultá-lo por isso não convém aos que sabem, em sua consciência, que merecem ser desamparados por Deus para sempre.

Mas não se alegre contra mim, ó meu inimigo; ainda que eu caia, me levantarei. Aquele que parece abandonar por um breve momento recolherá com bondade eterna.

  1. O que ele pedia com justiça, movido pelo espírito de profecia, não por paixão (v. 13): “Sejam confundidos e consumidos os adversários de minha alma. Se não forem confundidos pelo arrependimento, para serem salvos, sejam confundidos com desonra eterna, para serem arruinados.”

Deus converterá em vergonha a glória daqueles que convertem em vergonha a glória de Deus e de seu povo.

Versículos 14 a 24

Louvores Alegres; Regozijo na Esperança.

Davi está aqui num santo arrebatamento de alegria e louvor, nascido de sua fé e esperança em Deus. As duas aparecem juntas no v. 14, onde há uma mudança súbita e notável em sua voz: todos os seus temores se calam, suas esperanças se elevam e suas orações se transformam em ações de graças.

“Digam meus inimigos o que quiserem para me levar ao desespero; esperarei continuamente, em todas as condições, no dia mais nublado e escuro. Viverei sustentado pela esperança e esperarei até o fim.”

Uma vez que esperamos naquele que nunca nos faltará, não deixemos que nossa esperança nele nos falte; então o louvaremos cada vez mais. “Quanto mais me desacreditarem, mais firmemente me apegarei a ti; eu te louvarei mais e melhor do que jamais fiz.”

Quanto mais vivemos, mais hábeis devemos nos tornar no louvor a Deus e mais devemos abundar nele. Acrescentarei ainda mais louvor a todo o louvor que te ofereci até aqui, pois tudo isso é pouco demais.

Depois de dizermos tudo o que podemos para glorificar a graça de Deus, ainda haverá mais a dizer. É um assunto que nunca se esgota; por isso, nunca devemos nos cansar dele. Observe nestes versículos:

I. Como seu coração está firmado na fé e na esperança. É bom que o coração esteja assim firmado. Observe:

  1. Em que ele deposita sua esperança, v. 16:

(1.) No poder de Deus: “Irei na força do Senhor Deus. Não me sentarei em desespero, mas me animarei e me aplicarei com vigor à minha obra e à minha guerra; partirei e prosseguirei, não com força própria, mas com a força de Deus.”

“Reconhecerei que não sou suficiente por mim mesmo e dependerei somente dele, que é inteiramente suficiente; irei na força de sua providência e na força de sua graça.” Devemos sempre realizar a obra de Deus com a força dele, mantendo os olhos voltados para ele, para que opere em nós tanto o querer como o realizar.

(2.) Na promessa de Deus: “Mencionarei tua justiça”, isto é, tua fidelidade a cada palavra que disseste, a equidade de tudo o que dispões e tua bondade para com teu povo que confia em ti. “Mencionarei tudo isso como meu apelo, ao pedir tua misericórdia.”

Podemos, com toda propriedade, aplicar isso à justiça de Cristo, chamada justiça de Deus pela fé e testemunhada pela lei e pelos profetas. Devemos depender da força de Deus para receber ajuda e da justiça de Cristo para sermos aceitos. “No Senhor tenho justiça e força”, Isaías 45:24.

  1. O que ele espera:

(1.) Espera que Deus não o deixe na velhice, mas continue até o fim sendo para ele o mesmo que sempre foi, v. 17, 18. Observe aqui:

[1.] O que Deus fizera por ele quando jovem: “Tu me ensinaste desde a juventude.” Ele reconhece que a boa educação e as boas instruções dadas por seus pais quando era jovem eram um grande favor pelo qual devia agradecer a Deus.

É uma bênção receber o ensino de Deus desde a juventude e conhecer as Sagradas Escrituras desde a infância; por isso temos motivo para bendizê-lo.

[2.] O que fizera para Deus na meia-idade: havia anunciado todas as obras maravilhosas de Deus. Os que receberam o bem quando jovens devem fazer o bem depois de adultos e continuar a transmitir o que receberam.

Devemos reconhecer que todas as obras da bondade de Deus para conosco são maravilhosas, admirando-nos de que ele faça tanto por nós, tão indignos. Devemos fazer de sua proclamação nosso trabalho, para a glória de Deus e o bem dos outros.

[3.] O que desejava de Deus agora que era idoso: “Agora que estou velho e de cabelos brancos, morrendo para este mundo e apressando-me para outro, ó Deus, não me desampares.” É isso que ele deseja ardentemente e espera com confiança.

Quem recebeu o ensino de Deus desde a juventude e fez da honra a ele o trabalho de sua vida pode estar certo de que Deus não o deixará quando estiver velho e de cabelos brancos, nem sem ajuda ou consolo.

Deus fará dos dias difíceis da velhice seus melhores dias, dias dos quais terão motivo para dizer que lhes dão prazer.

[4.] O que tinha por desígnio fazer para Deus na velhice: “Não apenas mostrarei tua força a esta geração por minha própria experiência, mas deixarei por escrito minhas observações para benefício da posteridade; assim a mostrarei a todos os que virão.”

Enquanto vivermos, devemos nos empenhar em glorificar a Deus e edificar uns aos outros. Aqueles que tiveram a experiência mais ampla e duradoura da bondade de Deus para com eles devem aproveitá-la para o bem de seus amigos.

Os discípulos idosos de Cristo têm para com as gerações seguintes a dívida de deixar um testemunho solene do poder, do prazer e da vantagem da religião, bem como da verdade das promessas de Deus.

(2.) Espera que Deus o reanime e o levante de sua atual condição abatida e desconsolada (v. 20): “Tu, que me fizeste ver e sentir tribulações grandes e dolorosas, mais que a maioria dos homens, tornarás a dar-me vida.” Repare:

[1.] Os melhores santos e servos de Deus às vezes passam por tribulações grandes e dolorosas neste mundo.

[2.] Devemos reconhecer a mão de Deus em todas as tribulações dos santos; isso nos ajudará a atenuá-las e a vê-las como leves. Davi não diz: “Sobrecarregaste-me com essas tribulações”, mas: “Mostraste-mas”, como o pai terno mostra a vara ao filho para mantê-lo em reverente temor.

[3.] Ainda que os membros do povo de Deus sejam levados à mais baixa condição, Deus pode reanimá-los e levantá-los. Estão mortos? Deus pode tornar a dar-lhes vida. Veja 2 Coríntios 1:9.

Estão sepultados, como mortos esquecidos? Ele pode fazê-los subir novamente das profundezas da terra, animar o espírito mais abatido e erguer a causa mais ameaçada.

[4.] Se reconhecermos devidamente a mão de Deus em nossas tribulações, podemos contar com o livramento delas no tempo devido. Nossas tribulações atuais, por maiores e mais dolorosas que sejam, não impedirão nossa alegre ressurreição das profundezas da terra.

Nosso grande Mestre é testemunha disso, e a passagem talvez se refira a ele: seu Pai lhe mostrou tribulações grandes e dolorosas, mas lhe deu vida e o trouxe de volta do sepulcro.

(3.) Espera que Deus não apenas o livre das tribulações, mas eleve sua honra e alegria mais que nunca (v. 21): “Não apenas me devolverás a grandeza, mas a aumentarás e, depois desse abalo, me darás uma posição melhor que antes.”

“Não apenas me consolarás, mas me consolarás por todos os lados, de modo que não veja nada escuro nem ameaçador em direção alguma.” Repare: às vezes Deus faz as tribulações de seu povo contribuírem para o aumento da grandeza desse povo; seu sol brilha ainda mais depois de ter estado sob uma nuvem.

Se Deus fizer essas tribulações contribuírem para o aumento da bondade deles, isso resultará, no fim, no aumento de sua grandeza e glória. Se ele os consolar por todos os lados conforme o tempo e a intensidade com que os afligiu por todos os lados, não terão motivo para se queixar.

Quando nosso Senhor Jesus tornou a viver e voltou das profundezas da terra, sua grandeza aumentou, e ele entrou na alegria que lhe estava proposta.

(4.) Espera que todos os seus inimigos sejam confundidos, v. 24. Fala disso com a maior certeza, como algo realizado, e por isso triunfa: “São confundidos, são envergonhados os que procuram me prejudicar.” A honra dele seria a desonra deles, e seu consolo lhes causaria aflição.

II. Vejamos agora como seu coração se expande em alegria e louvores, como ele se alegra e canta na esperança, pois somos salvos pela esperança.

  1. Ele falará da justiça e da salvação de Deus como coisas grandiosas, que conhece bem e o comovem muito. Deseja que Deus receba a glória por elas e que outros tenham delas um conhecimento consolador (v. 15): “Minha boca anunciará tua justiça e tua salvação.”

E novamente (v. 24): “Minha língua falará de tua justiça”, e isso o dia inteiro. A justiça de Deus, pela qual Davi parece estar especialmente comovido aqui, abrange muita coisa: a retidão de sua natureza, a equidade do que dispõe em sua providência e as leis justas que nos deu para nos reger.

Abrange também as promessas justas que nos deu para nelas confiar e a justiça eterna que seu Filho trouxe para nossa justificação. A justiça de Deus e sua salvação aparecem juntas aqui; ninguém as separe nem espere salvação sem justiça, Salmos 50:23.

Se essas duas coisas são objeto de nosso desejo, que sejam também assunto de nossa conversa o dia inteiro, pois são temas inesgotáveis.

  1. Ele falará delas com espanto e admiração, como alguém maravilhado com as dimensões do amor e da graça de Deus, sua altura e profundidade, comprimento e largura: “Não lhes conheço o número”, v. 15.

“Embora eu não possa relatar individualmente teus favores para comigo, pois são tantos e tão grandes (se tentasse contá-los, seriam mais numerosos que a areia, Salmos 40:5), ainda assim continuarei falando deles, pois sei que são incontáveis e neles encontrarei novos motivos”, v. 19.

A justiça que há em Deus é altíssima; o que ele faz por seu povo é grandioso. Se juntarmos as duas coisas, diremos: “Ó Deus, quem é semelhante a ti?” Louvar a Deus é reconhecer que suas perfeições e seus feitos estão:

(1.) Acima de nossa compreensão: são elevados e grandiosos, tão elevados que não podemos alcançá-los, tão grandiosos que não podemos abrangê-los.

(2.) Sem igual: não há ser semelhante a ele nem obras como as suas. “Ó Deus, quem é semelhante a ti?” Ninguém no céu nem na terra, nenhum anjo, nenhum rei. Deus não tem igual; não o louvamos corretamente se não reconhecemos isso.

  1. Ele falará delas com todas as expressões de alegria e exultação, v. 22, 23. Observe:

(1.) Como considerará Deus ao louvá-lo:

[1.] Como Deus fiel: “Eu te louvarei, até mesmo tua verdade.” Deus se dá a conhecer por sua palavra; se a louvamos e louvamos sua verdade, louvamos a Deus. Pela fé, atestamos com nosso selo que Deus é verdadeiro e, assim, louvamos sua verdade.

[2.] Como Deus em aliança com ele: “Ó meu Deus, a quem anuí e reconheci como meu.” Tanto nas orações como nos louvores, devemos olhar para Deus como nosso Deus e dar-lhe glória por pertencermos a ele e pela relação que temos com ele.

[3.] Como o Santo de Israel, Deus de Israel de modo peculiar, glorioso em sua santidade entre aquele povo e fiel à aliança que fez com ele. É honra para Deus ser o Santo; é honra para seu povo que ele seja o Santo de Israel.

(2.) Como expressará sua alegria e exultação:

[1.] Com as mãos, na música sagrada, com o saltério e com a harpa. Davi se destacava nesses instrumentos; empregará o melhor de sua habilidade para apresentar os louvores de Deus de maneira que comova outros.

[2.] Com os lábios, em cânticos sagrados: “A ti cantarei, para tua honra e com o desejo de ser aceito por ti. Meus lábios muito se alegrarão quando eu cantar a ti, pois sei que não poderiam ser mais bem empregados.”

[3.] Em ambos, com o coração: “Minha alma, que redimiste, se alegrará.” Repare: Primeiro, a alegria santa é o coração e a vida do louvor agradecido. Segundo, não fazemos melodia ao Senhor ao cantar seus louvores se não o fizermos com o coração.

“Meus lábios se alegrarão”, mas isso não basta. O trabalho dos lábios, por mais bem-feito que seja, se for tudo, não passa de trabalho perdido no serviço a Deus. A alma precisa agir e tudo o que há em nós precisa bendizer seu santo nome; caso contrário, todo o exterior vale pouco.

Terceiro, almas redimidas devem ser almas alegres e agradecidas. A obra da redenção, mais que todas as obras de Deus, deve ser celebrada em nossos louvores. Por isso, o Cordeiro que foi abatido e nos redimiu para Deus deve ser considerado digno de toda bênção e louvor.


Ajustes de leitura

Tamanho do texto
Tipo de letra