Matthew Henry

Salmos 137

Argumento

Há diversos salmos que se acredita terem sido escritos nos últimos dias da igreja judaica, quando a profecia estava prestes a cessar e o cânon do Antigo Testamento, a ser encerrado. Mas nenhum deles parece tão claramente tardio quanto este, escrito quando o povo de Deus estava cativo na Babilônia e ali era insultado por seus orgulhosos opressores.

Provavelmente foi escrito perto do fim de seu cativeiro, pois agora viam aproximar-se rapidamente a destruição da Babilônia (v. 8), que lhes traria a libertação. É um salmo triste, uma lamentação; e a Septuaginta o inclui entre as lamentações de Jeremias, atribuindo-lhe a autoria. Aqui:

I. Os cativos melancólicos não conseguem alegrar-se, v. 1, 2. II. Não conseguem satisfazer seus orgulhosos opressores, v. 3, 4. III. Não conseguem esquecer Jerusalém, v. 5, 6. IV. Não conseguem perdoar Edom e Babilônia, vv. 7-9.

Ao cantar este salmo, devemos sentir profundamente os assuntos da igreja, especialmente daquela parte que está em aflição, levando a sério, no coração, as dores do povo de Deus.

Devemos consolar-nos com a perspectiva da libertação da igreja e da ruína de seus inimigos no devido tempo, mas evitar cuidadosamente toda animosidade pessoal e não misturar o fermento da malícia com nossos sacrifícios.

Versículos 1 a 6

As Dores do Cativeiro.

Temos aqui a filha de Sião coberta por uma nuvem e morando com a filha de Babilônia; o povo de Deus em lágrimas, mas semeando em lágrimas. Observe:

I. A condição de luto em que estavam, tanto em seus assuntos quanto em seu espírito:

  1. Foram colocados junto aos rios da Babilônia, numa terra estrangeira, muito longe de seu próprio país, de onde haviam sido levados como prisioneiros de guerra. A terra da Babilônia era agora uma casa de servidão para aquele povo, assim como o Egito havia sido no princípio de sua história.

Seus conquistadores os alojaram junto aos rios com o desígnio de empregá-los ali e fazê-los trabalhar em suas galés; ou talvez tenham escolhido o lugar por ser o mais melancólico e, portanto, o mais adequado ao espírito entristecido deles.

Se tinham de construir casas ali (Jeremias 29:5), não seria nas cidades, lugares de reunião, mas junto aos rios, lugares solitários, onde poderiam misturar suas lágrimas às águas. Encontramos alguns deles junto ao rio Quebar (Ezequiel 1:3), outros junto ao rio Ulai, Daniel 8:2.

  1. Ali se sentaram para entregar-se à dor, fixando o pensamento em suas misérias. Jeremias lhes havia ensinado que, sob esse jugo, se sentassem a sós, guardassem silêncio e pusessem a boca no pó, Lamentações 3:28, 29. “Sentamo-nos como quem esperava permanecer e aceitamos isso, visto que era vontade de Deus que assim fosse.”

  2. Pensar em Sião lhes arrancava lágrimas dos olhos. Não era um súbito ímpeto de choro, como às vezes nos provoca uma dificuldade que nos surpreende, mas lágrimas deliberadas (“sentamo-nos e choramos”), lágrimas refletidas: “choramos quando nos lembramos de Sião”, o monte santo em que o templo fora construído.

Seu amor pela casa de Deus absorvia a preocupação com suas próprias casas. Lembravam-se da antiga glória de Sião e da satisfação que haviam tido em seus átrios, Salmos 42:4. Jerusalém se lembrou, nos dias de sua miséria, de todas as suas coisas agradáveis que possuíra nos dias antigos, Lamentações 1:7.

Lembravam-se das desolações atuais de Sião e favoreciam o pó dela, o que era um bom sinal de que não estava longe o tempo de Deus favorecê-la, Salmos 102:13, 14.

  1. Puseram de lado seus instrumentos musicais (v. 2): “Penduramos nossas harpas nos salgueiros.” (1.) As harpas que usavam para sua própria distração e entretenimento.

Deixaram-nas de lado tanto porque julgavam que não deviam usá-las agora que Deus os chamava ao pranto e ao luto (Isaías 22:12), quanto porque estavam tristes demais para ter ânimo de usá-las.

Haviam trazido consigo as harpas, talvez com o desígnio de usá-las para aliviar sua dor, mas ela se mostrou tão grande que não admitiu a tentativa. A música torna algumas pessoas melancólicas. “Como vinagre sobre o natrão, assim é aquele que entoa cânticos a um coração abatido.”

(2.) As harpas que usavam no culto a Deus, as harpas dos levitas. Não as jogaram fora, pois esperavam ainda ter ocasião de usá-las; apenas as puseram de lado porque não tinham utilidade no momento. Deus lhes havia dado outra tarefa, transformando suas festas em luto e seus cânticos em lamentações, Amós 8:10.

Tudo é belo a seu tempo. Não esconderam as harpas nos arbustos ou nas cavidades das rochas, mas as penduraram à vista, para que vê-las os sensibilizasse diante dessa mudança deplorável.

Talvez, porém, tenham errado ao fazer isso, pois louvar a Deus nunca é inoportuno; é sua vontade que demos graças em todas as coisas, Isaías 24:15, 16.

II. Os maus-tratos que seus inimigos lhes impuseram quando se encontravam nessa condição melancólica, v. 3. Haviam levado os cativos de sua própria terra e depois os saquearam na terra do cativeiro, tirando-lhes o pouco que tinham. Mas isso não bastou; para completar suas desgraças, insultaram-nos: exigiram de nós alegria e uma canção. Agora:

  1. Isso era muito bárbaro e desumano; até um inimigo em situação miserável deve ser objeto de compaixão, não ser pisoteado.

Revela um espírito vil e mesquinho repreender os aflitos ou por suas alegrias passadas ou por suas dores presentes, ou exigir alegria de quem sabemos não estar em sintonia com ela. Isso é acrescentar aflição aos aflitos.

  1. Era algo muito profano e ímpio. Nenhuma canção lhes serviria senão os cânticos de Sião, com os quais Deus fora honrado; por isso, com essa exigência, afrontavam o próprio Deus, como fez Belsazar ao beber vinho nos vasos do templo. Seus inimigos zombavam de seus sábados, Lamentações 1:7.

III. A paciência com que suportaram esses maus-tratos, v. 4. Haviam posto de lado as harpas e não quiseram voltar a pegá-las, nem mesmo para conquistar o favor daqueles de quem dependiam; não quiseram responder àqueles insensatos segundo a sua insensatez.

Não se deve satisfazer zombadores profanos nem lançar pérolas aos porcos. Davi, prudentemente, calou-se até sobre o bem na presença dos ímpios, pois sabia que ridicularizariam suas palavras e fariam delas motivo de riso, Salmos 39:1, 2.

O motivo que deram é muito branda e piedosa: “Como cantaremos o cântico do Senhor em terra estranha?” Não dizem: “Como cantaremos quando estamos tão entristecidos?” Se fosse só isso, talvez pudessem ter-se forçado a agradar seus senhores com uma canção.

Mas dizem: “É o cântico do Senhor; é algo sagrado; pertence exclusivamente ao culto do templo e, portanto, não ousamos cantá-lo na terra de um estrangeiro, entre idólatras.” Não devemos usar para a alegria comum, muito menos para a alegria profana, coisa alguma que tenha sido consagrada a Deus. Por vezes, ele deve ser honrado tanto pelo silêncio religioso quanto pela fala religiosa.

IV. O afeto constante que conservavam por Jerusalém, a cidade de suas solenidades, mesmo agora que estavam na Babilônia. Embora os inimigos zombassem de tanto falarem de Jerusalém, e até de serem obcecados por ela, seu amor pela cidade não diminuíra em nada.

Podiam ser ridicularizados por esse amor, mas jamais se deixariam dissuadir pelo ridículo, v. 5, 6. Observe:

  1. O que esses cativos piedosos sentiam por Jerusalém. (1.) Sua cabeça estava cheia dela. Jerusalém estava sempre em seus pensamentos; lembravam-se dela, não a esqueciam, embora estivessem ausentes havia muito tempo.

Muitos nunca a haviam visto nem sabiam coisa alguma a seu respeito, exceto pelo que ouviam dizer e pelo que haviam lido nas Escrituras. Ainda assim, ela estava gravada na palma de suas mãos, e até suas ruínas estavam continuamente diante deles, prova da fé que tinham na promessa de sua restauração no devido tempo.

Em suas orações diárias, abriam as janelas na direção de Jerusalém; como, então, poderiam esquecê-la? (2.) Seu coração estava cheio dela. Preferiam-na à sua maior alegria e, portanto, lembravam-se dela e não podiam esquecê-la. Gostamos de pensar naquilo que amamos.

Os que se alegram em Deus, por amor a ele, fazem de Jerusalém sua alegria e a preferem àquilo que, seja o que for, ocupa o primeiro lugar entre suas alegrias e lhes é o mais caro neste mundo. O homem piedoso prefere o bem público a qualquer satisfação ou prazer pessoal.

  1. Com que firmeza resolveram conservar esse afeto. Expressaram essa resolução com uma solene imprecação de dano contra si mesmos caso o abandonassem: “Que eu fique para sempre incapaz ou de cantar ou de tocar harpa, se esquecer a religião de meu país a ponto de usar minhas canções e harpas para agradar os filhos de Babilônia ou louvar seus deuses.”

“Que minha mão direita esqueça sua arte” (o que a mão de um músico hábil jamais faria, a menos que definhasse); “ou melhor, que minha língua se apegue ao céu da boca, se eu não tiver uma boa palavra a dizer por Jerusalém onde quer que esteja.”

Embora não se atrevam a cantar os cânticos de Sião entre os babilônios, ainda assim não podem esquecê-los; mas, assim que cessar a restrição presente, voltarão a cantá-los com a mesma prontidão de sempre, apesar do longo período em que deixaram de usá-los.

Versículos 7 a 9

As Dores do Cativeiro.

Os judeus piedosos na Babilônia, tendo-se afligido com a lembrança das ruínas de Jerusalém, aqui encontram satisfação na perspectiva da ruína de seus inimigos impenitentes e implacáveis. Isso, porém, não procede de espírito vingativo, mas de santo zelo pela glória de Deus e pela honra de seu reino.

I. Os edomitas certamente prestarão contas, assim como todos os demais cúmplices da destruição de Jerusalém, que prestaram ajuda e incentivo, “fizeram avançar a aflição” (Zacarias 1:15) e triunfaram nela.

No dia de Jerusalém, o dia de seu juízo, disseram: “Arrasai-a, arrasai-a até os alicerces; derrubai-a, derrubai-a; não deixeis pedra sobre pedra.” Assim tornaram mais furioso o exército caldeu, que já estava tão enfurecido que não precisava de estímulo.

Assim envergonharam Israel, que seria visto como um povo digno de ser exterminado quando seus vizinhos mais próximos lhe mostravam tanta má vontade.

Tudo isso era fruto da antiga inimizade de Esaú contra Jacó, porque este obteve o direito de primogenitura e a bênção, e um ramo da inimizade ainda mais antiga entre a descendência da mulher e a da serpente.

Senhor, lembre-se deles, diz o salmista, recorrendo à justiça de Deus contra eles. Longe de nós vingar-nos, mesmo que algum dia tenhamos poder para isso; deixemos a vingança àquele que disse: “A vingança é minha.”

Repare: os que se alegram com as calamidades, especialmente as de Jerusalém, não ficarão impunes. Os que se aliam aos perseguidores das pessoas boas, os instigam, os incitam e se agradam do que eles fazem certamente serão chamados a prestar contas disso em outro dia, e Deus se lembrará disso contra eles.

II. Babilônia é a principal culpada, e sua vez também chegará de beber o cálice dos tremores até a borra (v. 8, 9). Ó filha de Babilônia! Por mais orgulhosa e segura que você esteja, sabemos bem, pelas Escrituras da verdade, que você será destruída; ou, conforme a leitura do dr. Hammond, que você é a destruidora.

Os destruidores serão destruídos, Apocalipse 13:10. Talvez seja em referência a isso que o homem do pecado, chefe da Babilônia do Novo Testamento, é chamado filho da perdição, 2 Tessalonicenses 2:3.

Como a destruição da Babilônia foi prevista como certa (você será destruída), fala-se dela: 1. Como uma destruição justa. Ela receberá na mesma moeda: “Tu serás tratada como nos trataste, tão barbaramente maltratada pelos destruidores quanto nós o fomos por ti.” Veja Apocalipse 18:6.

Não esperem encontrar misericórdia aqueles que, quando tinham poder, não mostraram misericórdia.

  1. Como uma destruição completa. Até os pequeninos da Babilônia, quando a cidade for tomada de assalto e todos nela forem passados ao fio da espada, serão despedaçadas pelo conquistador enfurecido e impiedoso. Ninguém escapará se esses pequeninos perecerem.

Eles são a descendência de outra geração; portanto, se forem eliminados, a ruína não será somente total, como foi a de Jerusalém, mas definitiva. Babilônia afundou como uma pedra de moinho no mar, para nunca mais se erguer.

  1. Como uma destruição que traria honra aos seus instrumentos. Felizes serão os que a executarem, pois cumprem os conselhos de Deus. Por isso, ele chama Ciro, que a executou, de seu servo, seu pastor e seu ungido (Isaías 44:28; 45:1), e chama de seus santificados os soldados empregados nela, Isaías 13:3.

Eles estão abrindo caminho para a soltura do Israel de Deus, e felizes são os que de algum modo contribuem para isso. A queda da Babilônia do Novo Testamento será o triunfo de todos os santos, Apocalipse 19:1.


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