Salmos 111
Argumento
Este salmo e vários dos que o seguem parecem ter sido escritos por Davi para o uso da igreja em suas festas solenes, e não por ocasião de algum acontecimento particular. É um salmo de louvor. Seu título é “Aleluia — Louvai ao Senhor”, indicando que devemos começar a usá-lo com o coração disposto a louvar a Deus.
Foi composto em ordem alfabética: cada sentença começa com uma letra diferente do alfabeto hebraico, na sequência exata. Há duas sentenças em cada versículo, e três em cada um dos dois últimos.
O salmista, ao nos exortar a louvar a Deus, I. Apresenta-se como exemplo, v. 1. II. Fornece-nos matéria para o louvor a partir das obras de Deus: 1. A grandeza de suas obras e a glória delas. 2. A justiça delas. 3. A bondade delas. 4. O poder delas. 5. A conformidade delas com sua palavra de promessa. 6. A perpetuidade delas. Essas observações aparecem intercaladas nos vv. 2-9.
III. Recomenda o santo temor de Deus e a obediência conscienciosa aos seus mandamentos como a maneira mais aceitável de louvá-lo, v. 10.
Versículos 1 a 5
A Excelência das Obras Divinas.
Como o título do salmo é Aleluia, o salmista tem em vista seu título, como todo autor deveria ter, e se mantém fiel ao texto.
I. Ele próprio decide louvar a Deus, v. 1. Devemos obrigar e estimular a nós mesmos ao dever para o qual chamamos os outros.
Ou melhor, seja o que for que os outros façam, quer queiram louvar a Deus, quer não, nós e nossas casas devemos decidir fazê-lo; nós e nossos corações. Pois esta é a resolução do salmista aqui: “Louvarei ao Senhor de todo o meu coração”.
Meu coração, meu coração inteiro, dedicado à honra de Deus, será empregado nessa obra; e isso na assembleia, ou reunião reservada, dos retos, no conselho privado e na congregação dos israelitas.
Repare: devemos louvar a Deus tanto em particular quanto em público, em assembleias menores e maiores, em nossas próprias famílias e nos átrios da casa do Senhor. Em ambos os casos, porém, é mais consolador fazê-lo em união com os retos, que de coração se juntarão a nós.
Devemos manter as reuniões privadas de devoção, assim como as assembleias mais públicas e abertas a todos.
II. Ele nos recomenda as obras do Senhor como assunto próprio de nossas meditações enquanto o louvamos: as ações de sua providência para com o mundo, a igreja e as pessoas em particular:
- As obras de Deus são muito magníficas, grandes como ele próprio; não há nelas nada insignificante ou trivial. São produtos de sabedoria e poder infinitos. À primeira vista, antes de investigá-las mais detalhadamente, devemos dizer que “as obras do Senhor são grandes”, v. 2.
Há nelas algo surpreendente que nos enche de reverência. Todas as obras do Senhor são mencionadas como uma só, v. 3: é sua obra. Tais são a beleza e a harmonia da Providência, e de modo tão admirável todas as suas ações convergem para um só desígnio.
Às rodas se bradou: “Ó roda!”, Ezequiel 10:13. Tomado em conjunto, tudo é honroso e glorioso, digno dele.
- Elas cativam os que investigam e exercitam sua mente: são procuradas por todos os que nelas têm prazer. Repare:
(1.) Todos os que na verdade amam a Deus têm prazer em suas obras e consideram bom tudo o que ele faz. Seus pensamentos não se detêm em nenhum assunto com mais deleite do que nas obras de Deus; quanto mais as investigam, mais estas lhes proporcionam uma agradável surpresa.
(2.) Os que têm prazer nas obras de Deus não se satisfarão com uma visão superficial e passageira delas; irão investigá-las diligentemente e observá-las. Ao estudar tanto a história natural quanto a história política, devemos ter este objetivo em vista: descobrir a grandeza e a glória das obras de Deus.
(3.) Essas obras de Deus, investigadas com humildade e diligência, serão descobertas; os que procuram encontrarão, segundo alguns leem.
Elas são encontradas por todos os que nelas têm prazer; ou são encontradas em todas as suas partes, desígnios, propósitos e diversos aspectos, segundo o Dr. Hammond. Pois “o segredo do Senhor é para os que o temem”, Salmos 25:14.
Todas são justas e santas: “Sua justiça permanece para sempre”. Em tudo o que Deus faz, nunca cometeu nem jamais cometerá injustiça contra qualquer de suas criaturas. Por isso, suas obras permanecem para sempre, Eclesiastes 3:14, porque a justiça delas permanece.
São admiráveis e memoráveis, dignas de registro e de ser preservadas. Muito do que fazemos é tão insignificante que nem merece ser mencionado ou contado de novo; a maior bondade é esquecê-lo. Porém, deve-se reparar nas obras de Deus e manter um relato delas, v. 4.
“Fez memoráveis as suas maravilhas”: fez coisas dignas de lembrança, coisas que não podem deixar de ser lembradas, e instituiu meios de preservar a memória de algumas delas, como a libertação de Israel do Egito por meio da Páscoa.
Segundo outra leitura, fez de si mesmo um memorial por meio de suas maravilhas. Veja Isaías 63:12. Pelo que Deus fez com seu braço glorioso, deu a si mesmo um nome eterno.
- São obras de grande bondade. Nelas o Senhor mostra que é gracioso e cheio de compaixão. Assim como das obras da criação, também das obras da providência devemos dizer que não são apenas todas muito grandes, mas também todas muito boas.
O Dr. Hammond entende que esse é o nome que Deus deu a si mesmo por suas maravilhas, o mesmo que proclamou a Moisés: o Senhor Deus é gracioso e misericordioso, Êxodo 34:6. O perdão dos pecados por Deus é a mais maravilhosa de todas as suas obras e deve ser lembrado para sua glória.
Mais um exemplo de sua graça e compaixão é que “deu alimento aos que o temem”, v. 5. Dá-lhes o pão de cada dia, alimento apropriado para eles.
Também o dá a outras pessoas pela providência comum; mas aos que o temem, dá-o por aliança e em cumprimento da promessa. Pois o texto prossegue: “Lembrar-se-á para sempre da sua aliança”. Assim, eles podem provar o amor da aliança até nas misericórdias comuns.
Alguns relacionam isso ao maná com que Deus alimentou seu povo Israel no deserto; outros, ao despojo que obtiveram dos egípcios quando saíram com muitos bens, conforme a promessa, Gênesis 15:14. Quando Deus esmagou as cabeças de Leviatã, deu-o como alimento ao seu povo, Salmos 74:14.
Deu uma presa aos que o temem, segundo a leitura da margem: não apenas os alimentou, mas também os enriqueceu e lhes deu seus inimigos por presa.
- São penhores do que Deus fará segundo sua promessa: “Ele se lembrará para sempre de sua aliança”, pois sempre se lembrou dela. Assim como nunca deixou, jamais deixará que caia por terra um só jota ou til de sua aliança.
Embora o povo de Deus tenha suas fraquezas e muitas vezes se esqueça de seus mandamentos, ainda assim, ele sempre se lembrará de sua aliança.
Versículos 6 a 10
A Felicidade dos Justos.
Aqui nos é ensinado que devemos dar glória a Deus:
I. Pelas grandes coisas que ele fez em favor de seu povo, de seu povo Israel, tanto antigamente quanto em tempos mais recentes. “Ele mostrou ao seu povo o poder de suas obras” (v. 6), por meio daquilo que realizou em favor dele.
Muitas vezes deu provas de sua onipotência, mostrou-lhes o que pode fazer e que nada é árduo demais para ele. Duas coisas são especificadas para mostrar o poder de suas obras:
- A posse que Deus deu a Israel na terra de Canaã, para dar-lhe, ou ao dar-lhe, a herança das nações. Fez isso no tempo de Josué, quando as sete nações foram subjugadas, e no tempo de Davi, quando muitas das nações vizinhas foram sujeitas a Israel e passaram a pagar tributo a Davi.
Nisso Deus mostrou sua soberania, dispondo dos reinos como lhe agrada, e seu poder, cumprindo o que determinou para eles. Se Deus quiser fazer da herança das nações a herança de Israel, quem poderá ou contestar seu conselho ou deter sua mão?
- Os muitos livramentos que realizou em favor de seu povo quando, por suas iniquidades, ele se vendeu às mãos de seus inimigos, v. 9. “Enviou redenção ao seu povo”, não só ao tirá-lo do Egito no início, mas também muitas vezes depois.
Essas redenções eram símbolos da grande redenção que, na plenitude dos tempos, seria realizada pelo Senhor Jesus, aquela redenção em Jerusalém pela qual tantos esperavam.
II. Pela estabilidade tanto de sua palavra quanto de suas obras, que nos asseguram as grandes coisas que ele fará em favor de seu povo:
- O que Deus fez jamais será desfeito. Ele próprio não o desfará, e homens e demônios não podem desfazê-lo, v. 7. As obras de sua mão são verdade e juízo, v. 7, isto é, são feitas com verdade e retidão.
Tudo o que ele faz está de acordo com as regras e razões eternas da equidade, tudo conforme o conselho de sua sabedoria e com o propósito de sua vontade. Tudo é bem-feito e, portanto, nada precisa ser alterado ou emendado: suas obras são firmes e imutáveis.
Podemos confiar que ele aperfeiçoará suas obras depois de iniciá-las. Uma obra feita como convém durará; não se deteriorará nem cederá sob a pressão que lhe for imposta.
- O que Deus disse jamais será desdito: “Todos os seus mandamentos são seguros”, todos retos e, por isso, todos estáveis. Todos os seus propósitos, regra de suas ações, terão cumprimento: ele falou e não cumprirá? Sem dúvida o realizará; quer ordene a luz, quer as trevas, tudo se faz como ele ordena.
Seus preceitos, regra de nossas ações, são inquestionavelmente justos e bons e, portanto, imutáveis e não devem ser revogados. Suas promessas e ameaças são todas certas e serão cumpridas; a incredulidade humana não tornará nenhuma delas sem efeito.
Foram estabelecidos e, assim, permanecem firmes para todo o sempre, e a Escritura não pode ser anulada. O Deus sábio jamais é obrigado a adotar novos conselhos ou a tomar novas medidas, seja em suas leis, seja em suas providências. Tudo é dito, assim como tudo é feito, com verdade e retidão; por isso é imutável.
A insensatez e a falsidade dos homens os tornam instáveis em todos os seus caminhos. A sabedoria e a verdade infinitas, porém, excluem para sempre a retratação e a revogação: “Ordenou sua aliança para sempre”.
A aliança de Deus é ordenada, pois ele a fez como quem tem autoridade incontestável para determinar tanto o que devemos fazer quanto o que devemos esperar. Também tem capacidade inquestionável para cumprir tanto o que prometeu nas bênçãos da aliança quanto o que ameaçou nas maldições dela, Salmos 105:8.
III. Pela implantação e pelo estabelecimento da religião entre os homens. Como “santo e digno de reverência é o seu nome” e o temor a ele é o princípio da sabedoria, “seu louvor permanece para sempre”; isto é, Deus deve ser louvado eternamente:
- Porque as revelações da religião contribuem muito para sua honra. Relembre o que Deus deu a conhecer de si mesmo em sua palavra e em suas obras. Você verá e dirá que Deus é grande e deve ser grandemente temido, pois seu nome é santo.
Sua pureza e retidão infinitas aparecem em tudo aquilo por meio do qual ele se deu a conhecer. Por ser santo, seu nome é digno de reverência e deve ser lembrado e mencionado com santa reverência.
Repare: aquilo que é santo é digno de reverência. Os anjos têm em vista a santidade de Deus quando cobrem o rosto diante dele, e nada dá mais honra ao ser humano do que sua santificação. É em seus lugares santos que Deus se mostra mais temível, Salmos 68:35; Levítico 10:3.
- Porque os ensinamentos da religião contribuem muito para a felicidade humana. Temos motivo para louvar a Deus porque as coisas foram dispostas tão bem que nossa reverência e obediência a ele são tanto do nosso interesse quanto do nosso dever:
(1.) Nossa reverência a ele contribui para isso: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. Não é apenas razoável temer a Deus, pois seu nome é digno de reverência e sua natureza é santa; isso também nos beneficia.
É sabedoria: ela nos orientará a falar e agir como nos convém, de maneira coerente conosco mesmos e para nosso próprio bem.
É a cabeça da sabedoria, isto é, como lemos, seu princípio. Os homens não podem começar a ser sábios antes de começar a temer a Deus. Toda verdadeira sabedoria nasce da verdadeira religião e nela encontra seu fundamento.
Ou, segundo alguns, trata-se da sabedoria principal, a mais excelente, a primeira em dignidade. É a sabedoria principal, e o que há de principal na sabedoria, adorar a Deus e honrá-lo como nosso Pai e Senhor. Conduzem-se bem aqueles que sempre agem sob o governo do santo temor dele.
(2.) Nossa obediência a ele também contribui para isso: “Bom entendimento têm todos os que praticam seus mandamentos”. Onde o temor do Senhor governa o coração, haverá zelo constante e consciencioso de guardar seus mandamentos: não falar deles, mas praticá-los. Essas pessoas têm bom entendimento, isto é:
[1.] São bem compreendidas: sua obediência é bondosamente aceita como clara indicação de que, em seu íntimo, de fato temem a Deus. Compare Provérbios 3:4: “Assim encontrarás favor e bom entendimento”.
Deus e os homens considerarão bem-intencionados e aprovarão aqueles que cumprem seu dever por consciência, embora cometam erros. O que é intentado com honestidade será bem recebido.
[2.] Compreendem bem. Primeiro, isso indica que compreendem bem. Os mais obedientes são considerados os mais inteligentes. Conhecem melhor a si mesmos e aos seus interesses aqueles que tomam a lei de Deus por regra e por ela são governados em tudo.
Têm grande entendimento os que conhecem os mandamentos de Deus e conseguem discorrer sobre eles com erudição; mas têm bom entendimento os que os praticam e andam de acordo com eles.
Segundo, esse é o caminho para compreender melhor: os mandamentos dão bom entendimento a todos os que os praticam. O temor do Senhor e suas leis dão às pessoas bom entendimento e podem torná-las sábias para a salvação.
Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, conhecerá cada vez mais claramente a doutrina de Cristo, João 7:17.
Bom êxito têm todos os que praticam os mandamentos, segundo a leitura da margem, conforme a promessa feita a Josué caso observasse e cumprisse a lei, Josué 1:8: “Então farás prosperar o teu caminho e terás bom êxito”.
Temos motivo para louvar a Deus, para louvá-lo para sempre, por ter colocado o ser humano num caminho tão favorável à felicidade. Alguns aplicam as últimas palavras antes ao homem bom, que teme ao Senhor, do que ao Deus bom: “Seu louvor permanece para sempre”.
Talvez não seja o louvor dos homens, mas é o de Deus, Romanos 2:29. O louvor que vem de Deus permanece para sempre, quando o louvor dos homens já murchou e desapareceu.