Rute 4
Argumento
Neste capítulo, temos o casamento de Boaz e Rute. As circunstâncias tinham algo incomum, que foi preservado no registro para ilustrar não apenas a lei sobre o casamento com a viúva de um irmão (Deuteronômio 25:5, etc.), pois os casos ajudam a explicar as leis, mas também o evangelho. Dessa união descenderam Davi e o Filho de Davi, cujas núpcias com a igreja gentia foram aqui prefiguradas.
Aqui nos é contado: I. Como Boaz se livrou do rival e o afastou com toda a justiça, vv. 1-8. II. Como seu casamento com Rute foi solenizado publicamente e acompanhado pelos bons votos dos vizinhos, vv. 9-12. III. O feliz resultado dessa união, Obede, avô de Davi, vv. 13-17. E assim o livro termina com a genealogia de Davi, vv. 18-22.
Talvez, para agradá-lo, o bendito Espírito tenha dirigido a inclusão desta história no cânon sagrado. Davi desejava que as virtudes de sua bisavó Rute, bem como sua origem gentia e as providências singulares que a acompanharam, fossem transmitidas à posteridade.
Versículos 1 a 7
Rute Recusada por Seu Parente. (a.C. 1312.)
Aqui está: 1. Boaz convoca imediatamente uma sessão pública. É provável que ele próprio fosse um dos anciãos (ou magistrados) da cidade, pois era um homem muito rico. Talvez fosse o pai da cidade e ocupasse o primeiro lugar, pois aqui parece ter subido à porta como alguém investido de autoridade, e não como uma pessoa comum, à semelhança de Jó, Jó 29:7, etc.
Não podemos supor que fosse menos que um magistrado de sua cidade, sendo neto de Naassom, príncipe de Judá. E, naqueles dias simples, ter-se deitado à noite anterior junto ao monte de cereal na eira não era de modo algum incompatível com a honra de julgar à porta.
Mas por que Boaz tinha tanta pressa e queria tanto essa união? Rute não era rica, mas vivia de esmolas; não era nobre, mas uma pobre estrangeira. Nunca se diz que fosse bela. Se algum dia o tivesse sido, podemos supor que o choro, a viagem e a respiga haviam murchado seus lírios e rosas.
O que fez Boaz amá-la e querer apressar o assunto foi o fato de todos os seus vizinhos concordarem que ela era uma mulher virtuosa. Isso elevou seu valor aos olhos dele muito acima do de rubis (Provérbios 31:10). Por isso, pensou que, se ao casar-se com ela lhe fizesse uma verdadeira bondade, também faria uma grande bondade a si mesmo. Então concluiria o assunto imediatamente.
Não era dia de sessão, mas Boaz conseguiu que dez homens entre os anciãos da cidade se reunissem na câmara municipal sobre a porta, onde se tratavam os assuntos públicos (v. 2). É provável que, segundo o costume da cidade, esse número formasse uma sessão completa.
Embora fosse juiz, Boaz não quis julgar a própria causa, mas pediu a concordância de outros anciãos. Quem tem intenções honestas não teme o exame público.
- Ele chama o rival para vir ouvir o assunto que lhe seria apresentado (v. 1): “Ei, fulano, sente-se aqui”. Sem dúvida, chamou-o pelo nome, mas o historiador divino não julgou apropriado registrá-lo. Como ele se recusou a suscitar o nome do falecido, não merecia que o seu nome fosse preservado para as gerações futuras nesta história.
A Providência favoreceu Boaz, ordenando que esse parente passasse por ali tão oportunamente, justamente quando o assunto estava prestes a ser apresentado. Às vezes, grandes negócios avançam muito por pequenas circunstâncias que os facilitam e agilizam.
- Ele propõe ao outro parente o resgate das terras de Noemi, que, ao que parece, haviam sido hipotecadas para obter dinheiro para comprar pão durante a fome na terra (v. 3): “Noemi tem um terreno para vender”, isto é, o direito de resgatá-lo das mãos do credor hipotecário, do qual está disposta a abrir mão.
Ou, como alguns pensam, era sua propriedade vitalícia e, precisando de dinheiro, ela venderia por pouco seu direito ao herdeiro legal, que era o comprador mais indicado.
Boaz dá ao parente o aviso legal disso (v. 4), para que ele tivesse a preferência. Quem ficasse com as terras teria de pagar por elas. Boaz poderia ter dito: “Meu dinheiro vale tanto quanto o do meu parente. Se eu as quero, por que não posso comprá-las em segredo, já que fui o primeiro a receber a oferta, e nada dizer a ele?”
Não. Embora desejasse bastante a compra, Boaz não faria algo tão mesquinho quanto tomar o negócio da frente de outro homem que tinha parentesco mais próximo. Seu exemplo nos ensina a ser não apenas justos e honestos, mas também leais e honrados em todos os nossos negócios; a nada fazer que não estejamos dispostos a trazer à luz, mas a agir às claras.
- O parente pareceu disposto a resgatar as terras até ser informado de que, se o fizesse, teria de se casar com a viúva; então recuou. Gostou bastante das terras e provavelmente se agarrou a elas com ainda mais avidez porque esperava que a pobre viúva, obrigada a vendê-las, lhe proporcionasse um negócio ainda melhor.
“Eu as resgatarei”, disse ele de todo o coração, pensando que seria um belo acréscimo à sua propriedade (v. 4). Mas Boaz lhe contou que havia uma jovem viúva envolvida e que, se ficasse com as terras, teria de levá-la junto. Terra transit cum onere — a propriedade passa com esse ônus.
Ou a lei divina ou o costume do país o obrigaria a isso, ou Noemi insistira que só venderia as terras sob essa condição (v. 5). Alguns pensam que isso não se refere à lei do casamento com a viúva de um irmão, pois essa parece obrigar apenas filhos do mesmo pai, Deuteronômio 25:5, a menos que o costume depois a estendesse ao parente mais próximo.
Em vez disso, seria a lei do resgate de heranças (Levítico 25:24, 25), pois aqui se procura um goel, um resgatador.
Se assim for, não era a lei, mas a própria decisão de Noemi que determinava que o comprador se casasse com a viúva. Seja como for, quando ouviu as condições do negócio, o parente recusou (v. 6): “Não posso resgatá-la para mim. Não quero me comprometer com isso nessas condições, para não arruinar a minha própria herança”.
Ele pensou que as terras aumentariam sua herança, mas não se viessem acompanhadas da mulher; isso a arruinaria. Talvez julgasse que seria uma desonra casar-se com uma viúva tão pobre, vinda de um país estrangeiro e que quase vivia de esmolas. Imaginou que ela seria uma mancha para sua família, arruinaria sua linhagem e desonraria seus descendentes.
Aos olhos dele, as virtudes notáveis de Rute não bastavam para compensar isso. A paráfrase caldeia apresenta como motivo da recusa o fato de que ele já tinha outra esposa e que, se tomasse Rute, isso poderia ocasionar contendas e disputas em sua família e arruinar o conforto de sua herança.
Ou talvez pensasse que ela lhe daria muitos filhos, todos esperando receber parte de sua propriedade, que assim se espalharia por muitas mãos e deixaria a família menos importante. Isso faz muitos se esquivarem da grande redenção: não querem abraçar a religião.
Ouviram falar bem dela e nada têm contra ela; até a elogiam, mas, ao mesmo tempo, a deixam partir com esses elogios. Estão dispostos a abrir mão dela e não podem se prender a ela, com medo de arruinar a própria herança neste mundo.
Ficariam felizes com o céu, mas podem dispensar a santidade. Ela não combina com as cobiças que já desposaram; por isso, que outro compre o céu a esse preço, pois eles não podem.
- O direito de resgate é transferido com toda a justiça a Boaz. Se esse parente sem nome perdeu um bom negócio, uma boa propriedade e também uma boa esposa, só pode culpar a si mesmo por não ter refletido melhor. Boaz lhe agradecerá por ter desimpedido o caminho para aquilo que ele valorizava e desejava acima de tudo.
Naqueles tempos antigos, não era costume transferir propriedades por escrito, como mais tarde (Jeremias 32:10, etc.). Fazia-se isso por algum sinal ou cerimônia, como entre nós pela entrega e imissão na posse, como costumamos chamar: a entrega da posse de uma casa por meio da chave; da terra, por meio de um torrão e um ramo.
Esta foi a cerimônia usada: aquele que renunciava tirava a sandália — a paráfrase caldeia diz que era a luva da mão direita — e a entregava à pessoa a quem fazia a cessão. Com isso, indicava que transferia ao comprador, mediante justa compensação, qualquer direito que tivesse de pisar ou caminhar sobre a terra. Isso servia de testemunho em Israel (v. 7). E foi assim que fizeram neste caso (v. 8).
Se esse parente estivesse obrigado pela lei a se casar com Rute e sua recusa fosse desprezo por essa lei, Rute teria de tirar-lhe a sandália e cuspir-lhe no rosto (Deuteronômio 25:9). Mas, embora o parentesco pudesse obrigá-lo em certa medida ao dever, a distância do parentesco talvez o desculpasse da penalidade; ou Rute podia muito bem abrir mão dela, já que só queria que ele recusasse.
O bispo Patrick e os melhores intérpretes pensam, porém, que isso não tinha relação com aquela lei e que a retirada da sandália não era uma desonra, como naquele caso, mas uma confirmação da cessão e uma prova de que ela não fora obtida por fraude nem às escondidas.
Repare: quem quer ser israelita de fato, sem falsidade, deve considerar dever de consciência agir com justiça e transparência em todos os contratos e negócios. Boaz obteve essa compra com muito mais honra e honestidade do que se tivesse prejudicado secretamente o parente e fechado negócio em particular com Noemi, sem que ele soubesse. A honestidade se revelará a melhor política.
Versículos 9 a 12
Rute Casada com Boaz. (a.C. 1312.)
Agora Boaz vê que seu caminho está livre e, por isso, não demora a cumprir a promessa que fez a Rute: agiria como parente resgatador. À porta da cidade, diante dos anciãos e de todo o povo, ele anuncia publicamente um contrato de casamento entre si e Rute, a moabita, e também a compra de todas as propriedades que pertenciam à família de Elimeleque.
Se Boaz não fosse (Rute 2:1) um homem muito rico, não teria conseguido realizar esse resgate nem prestar esse serviço à família do parente. Para que serve uma grande propriedade, senão para permitir que alguém faça ainda mais bem em sua geração, especialmente aos de sua própria casa, se tiver disposição para usá-la assim? A respeito desse casamento, vemos:
I. Foi solenizado, ou pelo menos anunciado, diante de muitas testemunhas (v. 9, 10). “Vocês são testemunhas: 1. Que comprei a propriedade. Quem a tiver, ou tiver alguma parte dela hipotecada em seu favor, venha a mim e receberá seu dinheiro segundo o valor da terra”.
Esse valor era calculado pelo número de anos que faltavam para o ano do jubileu (Levítico 25:15), quando ela voltaria naturalmente à família de Elimeleque.
Quanto mais públicas forem as vendas de propriedades, mais protegidas estarão contra fraudes. 2. “Que comprei a viúva para ser minha esposa”. Ela não tinha dote; qualquer propriedade vitalícia que tivesse estava onerada, e ele não poderia obtê-la sem pagar por ela o valor justo.
Por isso, podia dizer que a comprara; ainda assim, por ser uma mulher virtuosa, considerava ter feito um ótimo negócio.
A casa e as riquezas são herança dos pais, mas a esposa prudente é mais valiosa e vem do Senhor como dádiva especial. Ao casar-se com ela, Boaz pretendia preservar a memória do falecido, para que o nome de Malom, embora não tivesse deixado filho que o perpetuasse, não fosse apagado da porta de seu lugar.
Assim, poderia constar no registro público que Boaz se casara com Rute, viúva de Malom, filho de Elimeleque, algo a que a posteridade daria especial atenção sempre que consultasse o registro. Essa história foi preservada por causa desse casamento e de seus descendentes, e acabou sendo um meio eficaz de perpetuar o nome de Malom até o fim do mundo, muito além do pensamento ou da intenção de Boaz.
Observe: por ter honrado os mortos e sido bondoso com os vivos, Deus o honrou ao incluí-lo na genealogia do Messias. Sua família foi dignificada acima de todas as famílias de Israel. O outro parente, que tanto temia diminuir a si mesmo e arruinar sua herança ao se casar com a viúva, teve nome, família e herança sepultados no esquecimento e na desonra.
O cuidado terno e generoso com a honra dos mortos e o conforto de viúvas pobres e estrangeiros — nenhum deles pode retribuir essa bondade (Lucas 14:14) — certamente agrada muito a Deus e será recompensado por ele. Nosso Senhor Jesus é nosso goel, nosso Redentor, nosso Redentor eterno.
Como Boaz, ele olhou com compaixão para a condição deplorável da humanidade caída. A um custo imenso, resgatou para nós a herança celestial, que o pecado havia hipotecado e confiscado em favor da justiça divina, e que jamais conseguiríamos resgatar.
Ele também comprou um povo especialmente seu, que desposaria para si, embora fossem estrangeiros e forasteiros como Rute, pobres e desprezados, para que o nome daquela raça morta e sepultada não fosse apagado para sempre.
Ele arriscou arruinar sua própria herança para fazer isso, pois, embora fosse rico, por nossa causa se tornou pobre. Mas o Pai o recompensou abundantemente: por ter se humilhado assim, foi exaltado sobremaneira e recebeu um nome acima de todo nome.
Reconheçamos nossa obrigação para com ele, confirmemos nosso pacto com ele e dediquemos todos os nossos dias a descobrir como honrá-lo. Ao declarar publicamente o casamento e a compra, Boaz não só garantiu seu direito contra todos os pretendentes, como que por uma formalização pública acompanhada de proclamações, mas também honrou Rute.
Mostrou não ter vergonha dela, de sua origem ou pobreza e deixou um testemunho contra casamentos clandestinos.
Somente o mal odeia a luz e não vem para ela. Boaz chamou testemunhas para o que fez, pois podia justificá-lo e jamais o renegaria. E havia tanto respeito até mesmo pela multidão desprezada que não só os anciãos, mas todo o povo que passava pela porta foi chamado a testemunhar (v. 9) e ouvido (v. 11), quando disseram: “Somos testemunhas”.
II. O casamento foi acompanhado de muitas orações. Os anciãos e todo o povo, ao testemunharem, desejaram-lhes o bem e os abençoaram (v. 11, 12). Ao que parece, Rute foi chamada, pois falam dela (v. 12) como presente: “Esta jovem”. Como Boaz a tomara por esposa, consideram que ela já entrara em sua casa. E oram de coração pelo novo casal.
- É provável que o ancião mais velho tenha feito essa oração, e os demais anciãos, junto com o povo, se uniram a ela; por isso, é apresentada como feita por todos. Nas orações públicas, embora apenas um fale, todos devemos orar.
Observe: (1.) Os casamentos devem ser abençoados e acompanhados de oração, pois cada criatura e cada condição são para nós apenas aquilo que Deus faz delas. É cortês e amistoso desejar felicidade a quem entra nessa condição; e devemos pedir à fonte de todo bem o bem que desejamos.
O ministro que se dedica à palavra e à oração é a pessoa mais indicada para exortar e também para abençoar e orar por aqueles que entram nessa relação. (2.) Devemos desejar e pedir o bem-estar e a prosperidade uns dos outros, em vez de invejá-los ou nos entristecermos com eles.
- Vejamos o que pediram: (1.) Oraram por Rute: Que o Senhor faça com que a mulher que entrou em tua casa seja como Raquel e Lia, isto é: “Que Deus faça dela uma boa esposa e uma mãe fecunda”. Rute era uma mulher virtuosa e, ainda assim, precisava das orações dos amigos, para que a graça de Deus a tornasse uma bênção para a família em que entrara.
Oraram para que ela fosse como Raquel e Lia, em vez de Sara e Rebeca, pois Sara teve apenas um filho e Rebeca apenas um que estava na aliança; o outro era Esaú, que foi rejeitado. Raquel e Lia, porém, edificaram a casa de Israel: todos os seus filhos estavam na igreja, e seus descendentes eram numerosos. “Que ela seja uma videira próspera, fecunda e fiel junto à tua casa.”
(2.) Oraram por Boaz, para que continuasse a agir com mérito na cidade, da qual era ornamento, e se tornasse ali cada vez mais famoso. Desejavam que a esposa fosse uma bênção nas questões privadas da casa e o marido, nos assuntos públicos da cidade, para que cada um, em seu lugar, fosse sábio, virtuoso e bem-sucedido.
Observe: o caminho para a fama é agir com mérito. Uma grande reputação deve ser conquistada por grandes méritos. Não basta não agir indignamente, sendo inofensivo e irrepreensível; devemos agir com mérito, sendo úteis e prestativos à nossa geração. Quem deseja ser verdadeiramente ilustre deve brilhar em seu lugar como luz.
(3.) Oraram pela família: “Que a tua casa seja como a casa de Perez”, isto é: “Que seja muito numerosa, cresça e se multiplique grandemente, como a casa de Perez”. Os habitantes de Belém eram da casa de Perez e sabiam bem quão numerosa ela era.
Na distribuição das tribos, aquele neto de Jacó recebeu a honra que nenhum outro teve, exceto Manassés e Efraim: seus descendentes foram divididos em duas famílias distintas, Hezrom e Hamul (Números 26:21). Oraram, então, para que, com o passar do tempo, a família de Boaz, um ramo daquela linhagem, se tornasse tão numerosa e importante quanto toda a linhagem era então.
Versículos 13 a 22
A Genealogia de Davi; Noemi Consolada com Seu Neto. (a.C. 1312.)
Aqui está: I. Rute, esposa. Boaz a levou para sua casa com as solenidades habituais, e ela se tornou sua esposa (v. 13). Sem dúvida, toda a cidade celebrou a boa posição alcançada por uma mulher virtuosa unicamente por suas virtudes.
Podemos pensar que Orfa, que voltou de junto de Noemi para seu povo e seus deuses, nunca foi favorecida nem pela metade do que Rute foi. Quem abandona tudo por Cristo encontrará com ele mais do que tudo; receberá cem vezes mais nesta vida. Agora Orfa desejava ter ido também com Noemi, mas, como o outro parente, foi seu próprio obstáculo.
Boaz orara para que essa prosélita piedosa recebesse do Deus de Israel a plena recompensa por sua coragem e firmeza, pois fora buscar refúgio sob as asas dele. Agora Boaz se tornou instrumento dessa bondade, em resposta à sua oração, ajudando a tornar verdadeiras suas próprias palavras.
Agora ela tinha autoridade sobre os servos com quem convivera e sobre os campos em que respigara. Assim, às vezes Deus levanta o pobre do pó e o coloca entre príncipes (Salmos 113:7, 8).
II. Rute, mãe. O Senhor fez com que ela concebesse, pois “o fruto do ventre é sua recompensa” (Salmos 127:3). Uma das chaves está em sua mão. Às vezes, ele faz da mulher estéril, que assim permaneceu por muito tempo, uma mãe feliz de filhos (Salmos 113:9; Isaías 54:1).
III. Rute, ainda nora de Noemi e a mesma que sempre fora. Noemi estava longe de ser esquecida; foi uma das principais participantes dessas novas alegrias. As boas mulheres presentes no parto congratularam Noemi mais do que Boaz ou Rute, pois ela havia promovido o casamento e, por meio dele, a família de seu marido fora edificada.
Veja aqui, como antes, o tom devoto que havia até nas expressões comuns de cortesia entre os israelitas. A oração a Deus acompanhou o nascimento da criança. Que pena que essa linguagem piedosa tenha sido abandonada pelos cristãos ou se degenerado em formalidade!
Bendito seja o Senhor, que te enviou este neto (v. 14, 15). 1. Ele preservaria o nome da família dela e, esperavam, seria famoso, pois seu pai também o era. 2. Esperavam que mais tarde fosse obediente e bondoso com ela, assim como sua mãe era.
Se ele apenas seguisse o exemplo dela, seria um consolo para a avó idosa, restauraria sua vida e, se necessário, teria recursos para sustentá-la na velhice. É um grande consolo para quem envelhece ver crescer algum descendente que, pela bênção de Deus, possa ampará-lo quando chegarem os anos em que precisará disso, anos dos quais dirá não encontrar prazer.
Observe: dizem que Rute amava Noemi e, por isso, lhe era melhor do que sete filhos. Veja como Deus, em sua providência, às vezes compensa a falta e a perda dos parentes de quem esperávamos maior consolo por meio daqueles de quem menos esperávamos.
Os laços do amor se mostram mais fortes que os da natureza. Há um amigo mais chegado que um irmão; assim, uma nora se mostrou melhor que um filho do próprio sangue. Veja o que a sabedoria e a graça podem fazer.
Agora temos aqui: (1.) Os vizinhos deram nome à criança (v. 17). As boas mulheres quiseram chamá-la Obede, “servo”, talvez em lembrança da baixa condição e pobreza da mãe, ou por preverem que ele um dia seria servo e muito prestativo à avó.
Não é desonra, por melhor que seja a origem de alguém, servir a Deus, aos amigos e à própria geração. O lema dos príncipes de Gales é Ich dien — “Eu sirvo”. (2.) A avó criou a criança, isto é, cuidou dela sem amamentá-la, depois que a mãe a desmamou (v. 16). Pôs o menino no colo, sinal de seu terno afeto e cuidado. As avós costumam ser as mais afetuosas.
IV. Assim Rute é incluída entre os antepassados de Davi e de Cristo, a maior honra. A genealogia é traçada aqui de Perez, passando por Boaz e Obede, até Davi; conduz, portanto, ao Messias e não é uma genealogia sem fim.