Números 36
Argumento
Temos neste capítulo a determinação de outra questão que surgiu do caso das filhas de Zelofeade. Deus tinha designado que elas herdassem, Números 27:7. Ora, aqui:
I. Sugere-se um inconveniente, caso elas se casassem em alguma outra tribo, vv. 1-4.
II. Ele é evitado por uma designação divina de que elas se casem na sua própria tribo e família (vv. 5-7), e isso é estabelecido como regra em casos semelhantes (v. 8, 9); e elas se casaram de acordo com isso com alguns dos seus próprios parentes (vv. 10-12), e com isso o livro termina, v. 13.
Versículos 1 a 4
A Lei da Herança. (a.C. 1452.)
Temos aqui a humilde manifestação que os chefes da tribo de Manassés fizeram a Moisés e aos príncipes, por ocasião da ordem há pouco dada a respeito das filhas de Zelofeade.
A família a que pertenciam fazia parte daquela metade da tribo de Manassés que ainda estava por receber o seu quinhão a oeste do Jordão, e não daquela metade que já estava assentada; e ainda assim falam da terra da sua possessão, e da herança dos seus pais, com tanta certeza como se já a tivessem nas mãos, sabendo em quem tinham confiado. Em seu recurso, observe:
- Eles recitam fielmente a ordem anterior dada neste caso, e não requerem que seja posta de lado, mas estão muito dispostos a conformar-se com ela (v. 2): O Senhor ordenou dar a herança de Zelofeade às suas filhas.
E eles estão muito satisfeitos de que assim seja, sem que nenhum deles saiba se, daqui em diante, não poderia ser o caso das suas próprias famílias, e então as suas filhas teriam o benefício desta lei.
- Eles representam o inconveniente que poderia, possivelmente, seguir-se daí, se as filhas de Zelofeade achassem motivo para casar-se em quaisquer outras tribos, v. 3.
E é provável que isto não fosse mera conjetura, ou suposição, mas que eles soubessem que, naquela ocasião, alguns jovens fidalgos de outras tribos as cortejavam intensamente, porque eram herdeiras, para que firmassem pé nesta tribo e assim ampliassem a sua própria herança.
Isto, na verdade, é muitas vezes mais visado do que deveria ser ao fazer casamentos: não a idoneidade da pessoa, mas a conveniência dos bens, para acrescentar casa a casa e campo a campo. A sabedoria, de fato, é boa com uma herança; mas de que serve uma herança nessa relação sem sabedoria?
Mas aqui, podemos presumir, o mérito pessoal destas filhas as recomendava assim como as suas fortunas; de qualquer modo, os chefes da sua tribo previram o dano que se seguiria, e levaram o caso a Moisés, para que ele consultasse o oráculo de Deus a respeito.
A dificuldade que levantam Deus poderia ter obviado, e providenciado contra ela, na ordem anterior dada neste caso.
Mas, para nos ensinar que devemos, nos nossos negócios, não só aguardar a providência de Deus, mas fazer uso da nossa própria prudência, Deus não deu direção nisso até que eles próprios, os envolvidos, previssem sabiamente o inconveniente, e se dirigissem piedosamente a Moisés em busca de uma regra a respeito.
Pois, embora fossem chefes das suas famílias, e pudessem ter assumido um poder de sobrepor-se a estas filhas de Zelofeade ao disporem de si mesmas, especialmente estando morto o pai delas e estando o interesse comum da sua tribo envolvido nisso, ainda assim preferiram remeter a questão a Moisés, e isso resultou bem.
Não devemos cobiçar ser juízes em causa própria, pois é difícil sê-lo sem ser parcial. É mais fácil, em muitos casos, tomar bom conselho do que dá-lo, e é uma satisfação estar sob direção.
Duas coisas visavam na sua representação:
(1.) Preservar a designação divina das heranças.
Insistiram no mandamento (v. 2) de que a terra fosse dada por sorteio às respectivas tribos, e insistiram em que romperia a designação divina se uma parte tão considerável do quinhão de Manassés fosse, pelo casamento delas, transferida para outra tribo; pois a descendência seria denominada pela tribo do pai, não pela da mãe.
Isto, de fato, não diminuiria o quinhão das pessoas particulares daquela tribo (elas ainda teriam o seu próprio), mas diminuiria o quinhão da tribo em geral, e a tornaria menos forte e considerável.
Eles, portanto, julgavam-se envolvidos com a reputação da sua tribo, e talvez fossem tanto mais zelosos por ela porque já estava muito enfraquecida pelo assentar-se de uma metade dela deste lado do Jordão.
(2.) Evitar pleitos e desavenças entre a posteridade.
Se os de outras tribos viessem para o meio deles, talvez isso pudesse ocasionar alguns pleitos. Estariam sujeitos a dar e receber perturbação, e o seu título poderia, com o correr do tempo, vir a ser questionado; e que grande matéria este fogo atearia!
É sabedoria e dever dos que têm bens no mundo assentá-los, e dispor deles, de modo que nenhuma contenda e disputa surja a respeito deles entre a posteridade.
Versículos 5 a 13
Aqui está:
I. A questão assentada por ordem expressa de Deus entre as filhas de Zelofeade e o resto da tribo de Manassés. A petição é atendida, e toma-se o cuidado de evitar o inconveniente temido: “A tribo dos filhos de José falou bem”, v. 5.
Assim, os que consultam os oráculos de Deus a respeito de tornar segura a sua herança celestial não só serão dirigidos quanto ao que fazer, mas as suas indagações serão graciosamente aceitas, e receberão reconhecimento não só pelo que fizeram bem, mas também pelo que disseram bem, como servos bons e fiéis.
Ora, a questão é assim ajustada: estas herdeiras devem ser obrigadas a casar-se, não só dentro da sua própria tribo de Manassés, mas dentro da família particular dos heferitas, a que pertenciam.
- Não lhes é determinado com quem casar; havia escolha suficiente na família do pai delas: “Que se casem com quem julgarem melhor.”
Assim como os filhos devem preservar a autoridade dos seus pais, e não se casar contra a vontade deles, assim os pais devem consultar as afeições dos seus filhos ao dispor deles, e não compeli-los a casar com aqueles que não podem amar. Não é provável que casamentos forçados se revelem bênçãos.
- Contudo, ficam confinadas aos seus próprios parentes, para que a sua herança não vá para outra família. Deus queria que soubessem que, tendo a terra de ser dividida por sorteio, cujo dispor era do Senhor, não podiam emendar, e por isso não deviam alterar, a designação dele.
As heranças não deviam passar de tribo para tribo (v. 7), para que não houvesse confusão entre eles, os seus bens enredados e as suas genealogias perplexas. Deus não queria que uma tribo fosse enriquecida pelo estreitamento e empobrecimento de outra, visto que todas eram igualmente a semente de Abraão, seu amigo.
II. A lei, neste caso particular, foi tornada perpétua, e devia ser observada sempre que, daí em diante, ocorresse caso semelhante, v. 8. As que não eram herdeiras podiam casar-se em qualquer tribo que quisessem (embora possamos supor que, ordinariamente, ficavam dentro da sua própria tribo).
Mas as que eram deviam ou renunciar ao seu direito à herança ou casar-se com um da sua própria família, para que cada uma das tribos se mantivesse na sua própria herança, e uma tribo não invadisse outra, mas por todas as suas gerações permanecessem imóveis os antigos marcos, postos não por seus pais, mas pelo Deus de seus pais.
III. A submissão das filhas de Zelofeade a esta designação. Como poderiam deixar de casar-se bem, e à sua satisfação, quando o próprio Deus as dirigia? Casaram-se com os filhos dos irmãos do seu pai, vv. 10-12. Por isto se vê:
- Que o casamento de primos-irmãos não é em si ilícito, nem está dentro dos graus proibidos, pois então Deus não teria aprovado estes casamentos.
Mas, 2. Que ordinariamente não é aconselhável; pois, se não tivesse havido uma razão particular para isso (a qual não pode valer em caso algum agora, não sendo as heranças dispostas, como então, por designação especial do Céu), elas não se teriam casado com parentes tão próximos. O mundo é amplo, e quem anda com retidão procurará andar com segurança.
IV. A conclusão deste livro inteiro, referindo-se à última parte dele: Estes são os juízos que o Senhor ordenou nas planícies de Moabe (v. 13), estes que precedem, desde Números 26, a maioria dos quais se relacionava com o seu estabelecimento em Canaã, na qual agora estavam entrando.
Em qualquer nova condição em que Deus, pela sua providência, nos esteja introduzindo, devemos suplicar-lhe que nos ensine o dever dela, e nos habilite a cumpri-lo, para que façamos a obra do dia no seu dia, a do lugar no seu lugar.