Matthew Henry

Mateus 20

Argumento

Temos quatro assuntos neste capítulo: I. A parábola dos trabalhadores da vinha (vv. 1-16). II. A predição dos sofrimentos próximos de Cristo (vv. 17-19). III. A censura à súplica de dois discípulos, apresentada pela mãe deles (vv. 20-28). IV. A súplica dos dois cegos atendida e seus olhos abertos (vv. 29-34).

Versículos 1 a 16

Os Trabalhadores da Vinha.

Esta parábola dos trabalhadores da vinha tem por objetivo:

I. Representar-nos o reino dos céus (v. 1), isto é, o caminho e o modo de agir da dispensação do evangelho. As leis desse reino não estão envoltas em parábolas, mas são expostas claramente, como no sermão do monte. Seus mistérios, porém, são comunicados por parábolas e sacramentos, como aqui e em Mateus 13.

É mais necessário conhecer os deveres do cristianismo do que suas noções. Ainda assim, as noções precisam mais de ilustração do que os deveres; é para isso que servem as parábolas.

II. Em particular, representar o que Cristo havia dito sobre o reino dos céus no fim do capítulo anterior: muitos dos primeiros serão os últimos, e dos últimos, os primeiros. A parábola está ligada a essa afirmação, que precisava de mais explicação por conter uma aparente contradição.

Nada na dispensação do evangelho era mais misterioso que a rejeição dos judeus e o chamado dos gentios. É assim que o apóstolo fala do assunto (Efésios 3:3-6): os gentios seriam coerdeiros. Tampouco havia algo que mais irritasse os judeus do que a indicação disso.

Esse parece ser o objetivo principal da parábola: mostrar que os judeus seriam chamados primeiro à vinha e muitos atenderiam ao chamado; por fim, porém, o evangelho seria pregado aos gentios, que o receberiam e seriam admitidos aos mesmos privilégios e vantagens dos judeus, como concidadãos dos santos.

Os judeus, até mesmo os crentes entre eles, ficariam muito descontentes com isso, mas sem motivo.

A parábola também pode ser aplicada de modo mais amplo e nos mostra: 1. Que Deus não deve nada a ninguém. Essa grande verdade é apresentada como objetivo da parábola nos sumários de nossa Bíblia.

  1. Que muitos que começam por último e prometem pouco na religião às vezes, pela bênção de Deus, alcançam maior conhecimento, graça e utilidade do que outros que entraram antes e prometiam mais. Embora Cusi tenha saído à frente de Aimaás, Aimaás escolheu o caminho da planície e o ultrapassou.

João corre mais depressa e chega primeiro ao sepulcro, mas Pedro tem mais coragem e entra primeiro. Assim, muitos dos últimos serão os primeiros. Alguns entendem a parábola como advertência aos discípulos, que haviam se vangloriado de ter acolhido a Cristo cedo e com zelo: deixaram tudo para segui-lo.

Deviam, porém, cuidar de manter o zelo, avançar e perseverar; caso contrário, o bom começo lhes valeria pouco. Os que pareciam ser os primeiros acabariam sendo os últimos. Às vezes, os convertidos mais tarde na vida ultrapassam os que se converteram antes.

Paulo foi como alguém nascido fora do tempo; ainda assim, não ficou atrás dos principais apóstolos e fez mais do que aqueles que estavam em Cristo antes dele.

Há alguma afinidade entre esta parábola e a do filho pródigo: o filho que voltou de seu afastamento era tão querido pelo pai quanto o que nunca se desviara. Os primeiros e os últimos eram igualmente amados.

  1. Que a recompensa será dada aos santos não conforme o tempo de sua conversão, mas conforme o preparo para essa recompensa que recebem pela graça neste mundo; não conforme a antiguidade (Gênesis 43:33), mas conforme a medida da estatura da plenitude de Cristo.

Cristo havia prometido grande glória aos apóstolos que o seguiram na regeneração, no começo da dispensação do evangelho (Mateus 19:28).

Agora, porém, diz-lhes que aqueles que lhe forem igualmente fiéis até no fim do mundo receberão a mesma recompensa: sentarão com Cristo em seu trono, assim como os apóstolos (Apocalipse 2:26 até 3:21).

Os que sofrerem por Cristo nos últimos dias receberão a mesma recompensa dos mártires e confessores dos primeiros tempos, embora estes sejam mais celebrados. O mesmo vale para os ministros fiéis de hoje e os primeiros pais da igreja. A parábola tem duas partes: o acordo com os trabalhadores e o acerto de contas.

(1.) Aqui está o acordo feito com os trabalhadores (vv. 1-7). Como de costume, podemos perguntar:

[1.] Quem os contrata? Um proprietário. Deus é o grande Proprietário: pertencemos a ele e o servimos. Como proprietário, tem trabalho que quer ver feito e servos que quer ver trabalhando. Tem uma grande família no céu e na terra, que recebe o nome de Jesus Cristo (Efésios 3:15); ele é o Dono e Governante dessa família.

Deus contrata trabalhadores não porque precise deles ou de seus serviços, pois, se formos justos, que lhe daremos?

Alguns proprietários caridosos e generosos, porém, oferecem trabalho a pobres por bondade, para livrá-los da ociosidade e da pobreza, e os remuneram pelo trabalho que fazem em benefício de si mesmos. Assim age Deus.

[2.] De onde são contratados? Da praça, onde permanecem ociosos até serem contratados para o serviço de Deus (v. 3); passam o dia inteiro ociosos (v. 6).

Repare, primeiro: a alma humana está pronta a ser contratada para algum serviço. Foi criada para trabalhar, como todas as criaturas, e serve ou à iniquidade ou à justiça (Romanos 6:19).

O diabo, por meio de suas tentações, contrata trabalhadores para o seu campo, onde alimentarão porcos. Deus, por meio de seu evangelho, contrata trabalhadores para cultivar e guardar sua vinha, uma tarefa de paraíso. A escolha é nossa, pois precisamos servir a alguém (Josué 24:15): “Escolhei hoje a quem sirvais”.

Segundo: até sermos contratados para o serviço de Deus, permanecemos o dia inteiro ociosos. O estado de pecado, embora seja um estado de trabalho penoso para Satanás, pode de fato ser chamado ociosidade.

Os pecadores não fazem nada: nada que tenha propósito, nada da grande obra para a qual foram enviados ao mundo, nada que possa ser apresentado com êxito no acerto de contas.

Terceiro: o chamado do evangelho é dirigido aos que estão ociosos na praça. A praça é lugar de grande movimento, onde a Sabedoria clama (Provérbios 1:20, 21); é lugar de diversão, onde as crianças brincam (Mateus 11:16). O evangelho nos chama a sair da vaidade para a seriedade.

É também lugar de negócios, barulho e correria, de onde somos chamados a nos retirar. “Venham, saiam desta praça”.

[3.] Para que são contratados? Para trabalhar na vinha do proprietário. Repare, primeiro: a igreja é a vinha de Deus; ele a planta, rega e cerca, e seus frutos devem redundar em sua honra e louvor.

Segundo: todos somos chamados a trabalhar nessa vinha. A obra da religião é trabalho de vinha: podar, cultivar, cavar, regar, cercar e arrancar ervas daninhas. Cada um de nós tem sua própria vinha para cuidar, a própria alma; ela pertence a Deus e deve ser guardada e cultivada para ele.

Nesse trabalho, não devemos ser preguiçosos nem vadios, mas trabalhadores que se empenham em realizar a própria salvação. A obra de Deus não admite descuido. Alguém pode ir ocioso para o inferno; quem quiser ir para o céu, porém, precisa ocupar-se.

[4.] Qual será seu salário? Primeiro, Cristo promete um denário (v. 2). A moeda romana correspondia, em nosso dinheiro, a sete pence e meio: o salário de um dia de trabalho, suficiente para o sustento de um dia.

Isso não prova que a recompensa de nossa obediência a Deus venha das obras ou seja dívida — não, ela vem da graça, da graça gratuita (Romanos 4:4) —, nem que exista proporção entre nossos serviços e as glórias do céu.

Não: quando tivermos feito tudo, ainda seremos servos inúteis. Significa, isto sim, que uma recompensa nos é oferecida, e ela é suficiente.

Segundo, ele promete o que for justo (vv. 4-7). Repare: Deus certamente não ficará devendo a ninguém pelo serviço que lhe prestar. Nunca alguém saiu perdendo por trabalhar para Deus. A coroa oferecida é uma coroa de justiça, que o justo Juiz concederá.

[5.] Por quanto tempo são contratados? Por um dia. O trabalho realizado aqui dura apenas um dia. O tempo de nossa vida é o dia no qual devemos fazer as obras daquele que nos enviou ao mundo.

É pouco tempo: a recompensa dura a eternidade, mas o trabalho dura só um dia. Diz-se que o trabalhador contratado cumpre seu dia (Jó 14:6).

Isso deve nos levar a trabalhar com rapidez e diligência: temos pouco tempo, e a noite, quando ninguém pode trabalhar, aproxima-se. Se nossa grande obra não estiver pronta quando nosso dia acabar, estaremos perdidos para sempre.

Também devemos ser animados a enfrentar as agruras e dificuldades do trabalho, pois ele dura só um dia. A sombra que se aproxima, tão desejada pelo servo, trará descanso e a recompensa por nosso trabalho (Jó 7:2). Perseverem, fé e paciência, por mais um pouco.

[6.] São mencionadas as diversas horas do dia em que os trabalhadores foram contratados. Os apóstolos foram enviados na primeira e na terceira hora do dia do evangelho. Tiveram uma primeira e uma segunda missão enquanto Cristo estava na terra, e sua tarefa era chamar os judeus.

Depois da ascensão de Cristo, por volta da sexta e da nona hora, saíram novamente com a mesma tarefa: pregar o evangelho somente aos judeus, primeiro aos da Judeia e depois aos da dispersão.

Por fim, como à décima primeira hora, chamaram os gentios ao mesmo trabalho e aos mesmos privilégios dos judeus, dizendo-lhes que em Cristo Jesus não haveria distinção entre judeu e grego.

Essa aplicação também pode ser feita, como geralmente é, às diferentes idades da vida em que as almas se convertem a Cristo. O chamado geral é dirigido indistintamente a todos para virem trabalhar na vinha. O chamado eficaz, porém, é particular e se torna eficaz quando atendemos a ele.

Primeiro: alguns são chamados eficazmente e começam a trabalhar na vinha quando muito jovens. São enviados logo de manhã; seus tenros anos recebem a influência da graça e da lembrança de seu Criador.

João Batista foi santificado desde o ventre materno e, por isso, grande (Lucas 1:15); Timóteo, desde a infância (2 Timóteo 3:15); Obadias temia ao Senhor desde a juventude. Quem tem uma jornada dessas a percorrer precisa partir cedo: quanto mais cedo, melhor.

Segundo: outros são alcançados de modo salvador na meia-idade: vão trabalhar na vinha na terceira, sexta ou nona hora. A conversão de alguns em meio aos prazeres e às ocupações do mundo, como Paulo, engrandece o poder da graça divina. Deus tem trabalho para todas as idades; nunca é inadequado voltar-se a ele.

Ninguém pode dizer: “Ainda há muito tempo”, pois, seja qual for a hora de nosso dia, já basta termos passado a parte anterior de nossa vida servindo ao pecado. Vão também trabalhar na vinha. Deus não recusa ninguém disposto a ser contratado, pois ainda há lugar.

Terceiro: outros são contratados para a vinha na velhice, à décima primeira hora, quando o dia da vida está muito avançado e resta apenas uma das doze horas. Ninguém é contratado à décima segunda hora: quando a vida termina, termina a oportunidade. Mas, “enquanto há vida, há esperança”.

  1. Há esperança para os velhos pecadores: se se voltarem sinceramente a Deus, sem dúvida serão aceitos. O verdadeiro arrependimento nunca chega tarde demais.

  2. Há esperança a respeito dos velhos pecadores, de que sejam levados ao verdadeiro arrependimento.

Nada é difícil demais para a graça onipotente: ela pode mudar a pele do etíope e as manchas do leopardo; pode pôr para trabalhar os que adquiriram o hábito da ociosidade. Nicodemos pode nascer de novo sendo velho, e o velho homem corrompido pode ser despido.

Ainda assim, ninguém deve, confiando nisso, adiar o arrependimento até a velhice. É verdade que esses trabalhadores foram enviados à vinha à décima primeira hora; antes, porém, ninguém os contratara nem lhes oferecera trabalho.

Os gentios entraram à décima primeira hora porque o evangelho não lhes tinha sido pregado antes.

Os que receberam ofertas do evangelho à terceira ou à sexta hora e resistiram e recusaram não poderão dizer à décima primeira hora o que aqueles trabalhadores disseram: “Ninguém nos contratou”. Tampouco podem ter certeza de que alguém os contratará à nona ou à décima primeira hora.

Por isso, sem desanimar ninguém, mas para despertar a todos, lembremos que agora é o tempo aceitável. Se quisermos ouvir sua voz, deve ser hoje.

(2.) Aqui está o acerto de contas com os trabalhadores. Observe:

[1.] Quando ocorreu o acerto: ao cair da tarde, como de costume, os trabalhadores diaristas foram chamados e pagos. Repare: a tarde é a hora de prestar contas. A conta individual será apresentada na tarde de nossa vida, pois após a morte vem o juízo.

Os trabalhadores fiéis receberão sua recompensa ao morrer. Ela fica adiada até então para que a esperem com paciência, mas não por mais tempo. Deus observará sua própria regra: “O salário dos trabalhadores não ficará contigo toda a noite até pela manhã”. Veja Deuteronômio 24:15.

Quando Paulo, trabalhador fiel, parte desta vida, está imediatamente com Cristo. O pagamento não será totalmente adiado até a manhã da ressurreição; haverá, porém, um acerto geral ao entardecer do mundo, quando cada um receberá conforme o que fez enquanto estava no corpo.

Quando o tempo terminar e, com ele, o mundo do trabalho e das oportunidades, começará o estado de retribuição. Então serão chamados os trabalhadores para receber seu salário. Os ministros os chamam para a vinha a fim de trabalharem; a morte os chama para fora da vinha a fim de receberem o denário.

Para aqueles em quem o chamado para entrar na vinha foi eficaz, o chamado para sair dela será motivo de alegria. Observe: os trabalhadores não foram buscar o pagamento antes de serem chamados. Devemos esperar com paciência a hora de Deus para nosso descanso e recompensa; sigamos o relógio de nosso Senhor.

A última trombeta, no grande dia, chamará os trabalhadores (1 Tessalonicenses 4:16). “Tu chamarás”, diz o servo bom e fiel, “e eu responderei”. Ao chamar os trabalhadores, deve-se começar pelos últimos e seguir até os primeiros.

Não se ponham atrás dos demais os que chegaram à décima primeira hora; para que não desanimem, sejam chamados primeiro.

No grande dia, embora os mortos em Cristo ressuscitem primeiro, os que estiverem vivos e permanecerem, para os quais terá chegado o fim do mundo, a décima primeira hora de seu dia, serão arrebatados com eles nas nuvens.

Ninguém receberá preferência por antiguidade; cada um ocupará seu próprio lugar no fim dos dias.

[2.] Qual foi o acerto. Observe nele:

Primeiro: o pagamento geral (v. 9, 10): “cada um recebeu um denário”. Repare: todos os que, pela perseverança em fazer o bem, buscam glória, honra e imortalidade obterão sem dúvida a vida eterna (Romanos 2:7), não como salário proporcional ao valor de seu trabalho, mas como dom de Deus.

Embora haja graus de glória no céu, todos desfrutarão de felicidade completa. Os que vêm do Oriente e do Ocidente, chegando assim mais tarde, recolhidos das estradas e dos atalhos, sentarão com Abraão, Isaque e Jacó no mesmo banquete (Mateus 8:11).

No céu, todos os vasos estarão cheios até a borda, embora não tenham todos o mesmo tamanho nem a mesma capacidade. Na distribuição das alegrias futuras, como na coleta do maná, quem recolher muito não terá sobra, e quem recolher pouco não terá falta (Êxodo 16:18).

As pessoas que Cristo alimentou milagrosamente, embora de tamanhos diferentes, homens, mulheres e crianças, todas comeram e ficaram saciadas.

O pagamento de um dia inteiro a quem não trabalhou nem a décima parte do dia serve para mostrar que Deus distribui recompensas segundo sua graça e soberania, não por dívida.

Até os melhores trabalhadores, os que começam mais cedo, deixam tantas lacunas no uso do tempo e têm obras tão incompletas diante de Deus que, na verdade, mal se pode dizer que trabalharam uma hora das doze na vinha.

Mas, por estarmos sob a graça e não sob a lei, mesmo esses serviços imperfeitos, prestados com sinceridade, não só serão aceitos como ricamente recompensados pela graça gratuita. Compare Lucas 17:7, 8 com Lucas 12:37.

Segundo: a argumentação específica dirigida aos que se ofenderam com essa distribuição em partes iguais. As circunstâncias embelezam a parábola, mas seu objetivo geral é claro: os últimos serão os primeiros. Temos aqui:

  1. A ofensa sentida (v. 11, 12): os trabalhadores murmuraram contra o dono da casa. Não há, nem pode haver, descontentamento ou murmuração no céu, pois isso é tanto culpa quanto dor, e não há ali nem uma coisa nem outra.

Neste mundo, porém, pode haver, e muitas vezes há, descontentamento e murmuração acerca do céu e das coisas celestiais enquanto ainda são objeto de esperança e promessa. Isso representa o ciúme que a admissão dos gentios no reino dos céus despertou entre os judeus.

Na parábola do filho pródigo, o irmão mais velho se ressentiu do acolhimento do mais novo e se queixou da generosidade do pai para com ele. Do mesmo modo, esses trabalhadores altercaram com seu senhor e o censuraram, não tanto por receberem menos do que o suficiente, mas por outros terem sido igualados a eles.

Como o irmão mais velho do pródigo, gabaram-se dos bons serviços prestados: “Suportamos o peso e o calor do dia”. Era o máximo que podiam alegar.

Diz-se que os pecadores trabalham em pleno fogo (Habacuque 2:13), enquanto os servos de Deus, na pior das hipóteses, trabalham apenas ao sol: não no calor de uma fornalha de ferro, mas só no calor do dia.

Os últimos, porém, trabalharam uma hora apenas, e ainda na parte fresca do dia; contudo, “tu os igualaste a nós”.

Os gentios, recém-chamados, têm tantos privilégios no reino do Messias quanto os judeus, que há tanto tempo trabalhavam na vinha da igreja do Antigo Testamento sob o jugo da lei cerimonial, à espera desse reino.

Repare: temos grande tendência a pensar que recebemos poucos sinais do favor de Deus e os outros recebem muitos; que fazemos demais e os outros fazem de menos na obra de Deus. Somos muito propensos a depreciar os méritos alheios e a superestimar os nossos.

Talvez Cristo dê aqui a entender a Pedro que não se vanglorie tanto, como parecia fazer, de ter deixado tudo para segui-lo. Seria como se Pedro e os demais, por terem suportado o peso e o calor do dia, devessem ter um céu só para si.

É difícil para os que fazem ou sofrem por Deus mais do que é comum não se exaltarem com isso nem esperarem adquirir mérito por esse esforço. O bendito Paulo se precaveu contra essa atitude: embora fosse o principal dos apóstolos, reconhecia que nada era e que era menos do que o menor de todos os santos.

  1. A ofensa removida:

O dono da casa apresenta três argumentos em resposta a essa suposição maldosa:

(1.) O queixoso não tinha motivo algum para dizer que sofrera injustiça (v. 13, 14). O proprietário afirma sua justiça: “Amigo, não te faço injustiça”. Chama-o de amigo porque, ao discutir com os outros, devemos usar palavras brandas e argumentos firmes.

Mesmo que pessoas sob nossa autoridade estejam irritadas e sejam provocadoras, não devemos nos enfurecer por isso; devemos falar-lhes com calma.

[1.] É incontestável que Deus não pode praticar injustiça. Essa é a prerrogativa do Rei dos reis. “Há injustiça em Deus?” O apóstolo se espanta com a ideia: “De modo nenhum!” (Romanos 3:5, 6).

A palavra de Deus deve calar todas as nossas murmurações: faça ele o que fizer conosco, ou retenha o que retiver, não nos fará injustiça.

[2.] Se Deus concede a outros uma graça que nos nega, isso é bondade para com eles, mas não injustiça para conosco. Não devemos censurar sua generosidade para com outra pessoa enquanto ela não nos prejudicar.

Como a graça concedida aos que a recebem é gratuita, toda vanglória fica para sempre excluída. Como também é gratuita a graça negada aos que não a recebem, toda murmuração fica para sempre excluída. Assim, toda boca se calará e toda a humanidade guardará silêncio diante de Deus.

Para convencer o murmurador de que não lhe fizera injustiça, o proprietário recorda o acordo: “Não ajustaste comigo um denário? Se recebeste o que ajustaste, não tens motivo para reclamar de injustiça. Receberás o que combinamos”.

Embora Deus não deva nada a ninguém, em sua graça teve por bem tornar-se devedor por sua própria promessa. É para se beneficiarem dela que os crentes entram em acordo com ele por meio de Cristo; Deus cumprirá sua parte. Repare: convém refletirmos com frequência sobre o que ajustamos com Deus.

Primeiro: os mundanos dominados pela carne ajustam com Deus seu denário neste mundo. Escolhem sua porção nesta vida (Salmos 17:14) e se contentam em receber aqui sua recompensa (Mateus 6:2, 5), seu consolo (Lucas 6:24) e suas coisas boas (Lucas 16:25).

Com isso ficarão, mas serão privados das bênçãos espirituais e eternas. Deus não lhes faz injustiça: recebem o que escolheram, o denário pelo qual ajustaram. Sua condenação será, portanto, a que eles mesmos decidiram, uma sentença definitiva contra si.

Segundo: os crentes obedientes ajustam com Deus seu denário no outro mundo e precisam lembrar-se disso. Você não concordou em aceitar a palavra de Deus como garantia? Concordou; irá agora fazer um acordo com o mundo?

Você não concordou em aceitar o céu como sua porção, como seu tudo, sem se contentar com nada menos que isso? Irá buscar felicidade nas criaturas ou procurar nelas o que julga faltar à sua felicidade em Deus?

Por isso, 1. O proprietário o prende ao acordo (v. 14): “Toma o que é teu e vai-te”. Se entendermos isso como aquilo que nos pertence por dívida ou por direito absoluto, será uma palavra terrível: estaremos perdidos se recebermos apenas o que podemos chamar de nosso.

A mais elevada das criaturas voltaria ao nada se tivesse de partir levando somente aquilo que lhe pertence por direito próprio. Se, porém, entendermos a frase como referência ao que nos pertence por doação, dom gratuito de Deus, ela nos ensina a estar contentes com o que temos.

Em vez de nos ressentirmos por não possuir mais, recebamos o que temos e sejamos gratos. Se Deus for melhor para outros do que para nós em algum aspecto, ainda assim não temos motivo de queixa, pois ele é muito melhor para nós do que merecemos ao dar-nos o denário, embora sejamos servos inúteis.

  1. O proprietário lhe diz que aqueles de quem tinha inveja seriam tratados tão bem quanto ele: “Quero dar a este último tanto quanto a ti; estou decidido a fazê-lo”. Repare: a imutabilidade dos propósitos de Deus ao distribuir seus dons deve calar nossas murmurações.

Se ele quer agir assim, não nos cabe contradizê-lo, pois sua decisão é uma só: quem a mudará? Ele tampouco precisa prestar contas de seus atos, nem seria apropriado exigir isso dele.

(2.) O trabalhador não tinha motivo para altercar com o senhor, pois aquilo que este dera lhe pertencia inteiramente (v. 15). Assim como antes o senhor afirmou sua justiça, aqui afirma sua soberania: “Não me é lícito fazer o que quero com o que é meu?” Repare:

[1.] Deus é o Dono de tudo o que é bom; seu direito de propriedade é absoluto, soberano e ilimitado.

[2.] Por isso, pode conceder ou reter suas bênçãos conforme lhe aprouver. O que temos não nos pertence; por isso, não nos é lícito fazer com nossos bens tudo o que quisermos. O que Deus tem, porém, pertence a ele. Isso o justifica:

Primeiro: em tudo o que dispõe por sua providência. Quando Deus nos tira algo que nos era querido e cuja falta sentimos profundamente, devemos calar nosso descontentamento com esta pergunta: “Não pode ele fazer o que quiser com o que é seu?”

Abstulit, sed et dedit — Ele tirou, mas foi ele quem primeiro deu. Não cabe a criaturas dependentes como nós altercar com nosso Soberano.

Segundo: em todas as distribuições de sua graça, Deus concede ou retém os meios da graça e o Espírito da graça como lhe agrada. Isso não significa que lhe falte uma razão para cada decisão; aquilo que nos parece arbitrário acabará mostrando ter sido feito com sabedoria e para fins santos.

Basta, para calar todas as murmurações e todos os que fazem objeções, saber que Deus é o Senhor soberano de tudo e pode fazer com o que é seu aquilo que quiser. Estamos em sua mão como barro nas mãos do oleiro; não nos cabe ditar-lhe regras nem contender com ele.

(3.) O trabalhador não tinha motivo para invejar o companheiro ou sentir rancor dele, nem para zangar-se porque entrara na vinha tão tarde, pois não havia sido chamado antes. Não tinha motivo para se irritar por o senhor lhe dar o salário do dia inteiro, apesar de ter passado ocioso a maior parte desse dia.

Por isso, o senhor pergunta: “Teu olho é mau porque eu sou bom?” Veja aqui:

[1.] A natureza da inveja: é um olho mau. O olho muitas vezes é tanto a entrada quanto a saída desse pecado. Saul viu que Davi prosperava e passou a observá-lo com desconfiança (1 Samuel 18:9, 15).

Um olho mau se desagrada com o bem dos outros e deseja que sofram dano. O que poderia conter mais maldade? A inveja é dor para nós, ira contra Deus e má vontade para com o próximo. É um pecado sem prazer, proveito ou honra: é um mal, e nada mais que mal.

[2.] O que agrava esse pecado: “É porque eu sou bom”. A inveja nos torna diferentes de Deus, que é bom, faz o bem e se agrada em fazê-lo. Ou melhor, é oposição e contradição a Deus: desaprova seus atos e se desagrada daquilo que ele faz e aprova.

É uma violação direta dos dois grandes mandamentos ao mesmo tempo: amar a Deus, com cuja vontade devemos concordar, e amar o próximo, com cujo bem devemos nos alegrar. Assim, a maldade humana aproveita a bondade de Deus como ocasião para tornar-se ainda mais pecaminosa.

Por fim, vem a aplicação da parábola (v. 16), retomando a observação que a motivou (Mateus 19:30): “Assim, os primeiros serão os últimos, e os últimos, os primeiros”. Muitos seguiram Cristo na regeneração, quando o reino do evangelho foi estabelecido, e esses judeus convertidos pareciam ter saído à frente dos demais.

Para impedir e calar sua vanglória, Cristo lhes diz:

  1. Que talvez fossem ultrapassados pelos que depois os sucederiam na profissão de fé. Embora tivessem professado antes dos outros, poderiam mostrar-se inferiores a eles em conhecimento, graça e santidade.

A igreja gentílica, ainda não nascida, e o mundo gentílico, ainda ocioso na praça, produziriam mais cristãos eminentes e úteis do que os encontrados entre os judeus. Os filhos da desolada seriam mais numerosos e mais excelentes do que os da mulher casada (Isaías 54:1).

Quem sabe se a igreja, na velhice, não poderá tornar-se mais viçosa e florescente do que nunca, mostrando que o Senhor é reto? É verdade que o cristianismo primitivo possuía mais da pureza e da força dessa santa religião do que se encontra na época degenerada em que vivemos.

Ainda assim, quem pode dizer que trabalhadores poderão ser enviados à vinha na décima primeira hora do dia da igreja, no período de Filadélfia, ou que efusões abundantes do Espírito, maiores do que as vistas até então, poderão ocorrer nessa época?

  1. Que tinham motivo para recear que, no fim, fossem descobertos hipócritas, pois “muitos são chamados, mas poucos escolhidos”. Essa afirmação se aplica aos judeus (Mateus 22:14). Era verdade então e continua sendo, infelizmente: muitos recebem um chamado geral, mas não são escolhidos com uma escolha que salva.

Todos os escolhidos desde a eternidade são chamados eficazmente quando chega o tempo devido (Romanos 8:30). Portanto, ao confirmar nosso chamado eficaz, confirmamos também nossa eleição (2 Pedro 1:10). Isso não acontece com o chamado exterior: muitos são chamados e, mesmo assim, recusam (Provérbios 1:24).

Ou melhor: à medida que Deus os chama, afastam-se dele (Oseias 11:2, 7). Isso indica que não foram escolhidos, pois a eleição prevalecerá (Romanos 11:7).

Repare: os cristãos escolhidos são poucos em comparação com os muitos que apenas recebem o nome de cristãos. Por isso, devemos construir nossa esperança do céu sobre a rocha de uma escolha eterna, não sobre a areia de um chamado exterior.

Devemos recear ser considerados apenas cristãos de aparência e, assim, realmente ficar aquém; ou mesmo cristãos maculados e, assim, parecer ficar aquém (Hebreus 4:1).

Versículos 17 a 19

Os Sofrimentos de Cristo Preditos.

Esta é a terceira vez que Cristo avisa seus discípulos dos sofrimentos que se aproximavam. Ele estava agora subindo a Jerusalém para celebrar a Páscoa e oferecer a si mesmo como a grande Páscoa; ambas as coisas deviam acontecer em Jerusalém.

Ali devia ser celebrada a Páscoa (Deuteronômio 12:5), e ali um profeta devia morrer, pois naquela cidade se reunia o grande Sinédrio, cujos membros julgavam esses casos (Lucas 13:33). Observe:

I. O caráter reservado dessa predição: ele tomou os doze discípulos à parte no caminho. Era uma das coisas ditas a eles nas trevas que depois deveriam proclamar na luz (Mateus 10:27).

Seu segredo era compartilhado com eles, como amigos, especialmente este. Era uma palavra difícil; se alguém podia suportá-la, eram eles. Estariam mais diretamente expostos ao perigo com ele e, por isso, precisavam saber do que aconteceria, para que, advertidos de antemão, estivessem preparados.

Ainda não era conveniente falar disso em público: 1. Porque muitas pessoas que tinham pouco entusiasmo por ele seriam levadas a voltar-lhe as costas; o escândalo da cruz as assustaria e as faria deixar de segui-lo.

  1. Porque muitas pessoas que o defendiam com fervor seriam levadas a pegar em armas por ele. Isso poderia causar um tumulto entre o povo (Mateus 26:5), cuja culpa recairia sobre Cristo caso ele lhes tivesse falado publicamente do assunto antes.

Além de esses métodos serem inteiramente contrários à natureza de seu reino, que não é deste mundo, Cristo jamais apoiou coisa alguma que tendesse a impedir seus sofrimentos.

Esse discurso não ocorreu na sinagoga nem em uma casa, mas no caminho, enquanto viajavam. Isso nos ensina a manter, ao passearmos ou viajarmos com amigos, conversas boas e úteis para edificação. Veja Deuteronômio 6:7.

II. A predição propriamente dita (v. 18, 19). Observe:

  1. Ela apenas repete o que ele já dissera mais de uma vez (Mateus 16:21; 17:22, 23). Isso mostra não somente que via claramente as aflições que o aguardavam, mas que seu coração estava voltado para a obra de seus sofrimentos.

Ela o enchia não de medo, pois nesse caso teria procurado evitá-la e poderia tê-lo feito, mas de desejo e expectativa. Falava tantas vezes de seus sofrimentos porque, por meio deles, entraria em sua glória.

Repare: é bom pensarmos e falarmos com frequência de nossa morte e dos sofrimentos que provavelmente encontraremos entre agora e o túmulo. Ao torná-los mais familiares, faremos com que se tornem menos temíveis.

Uma maneira de morrer diariamente e de tomar a cruz todos os dias é falar diariamente da cruz e da morte. Nossos pensamentos e conversas não farão com que venham mais cedo nem com maior certeza, mas nos permitirão enfrentá-las muito melhor.

  1. Aqui ele prediz seus sofrimentos de modo mais específico do que em qualquer ocasião anterior. Dissera que sofreria muitas coisas e seria morto (Mateus 16:21); e que seria entregue por traição nas mãos dos homens, que o matariam (Mateus 17:22).

Aqui acrescenta que seria condenado e entregue aos gentios, que zombariam dele, o açoitariam e o crucificariam.

São coisas terríveis; a certeza antecipada delas bastaria para abalar uma determinação comum. Ainda assim, como fora predito a seu respeito (Isaías 42:4), ele não falhou nem desanimou. Quanto mais claramente previa seus sofrimentos, mais alegremente ia ao encontro deles.

Ele prediz quem lhe infligiria os sofrimentos: os principais sacerdotes e escribas, como já havia dito. Mas aqui acrescenta que eles o entregariam aos gentios, tornando mais clara a predição; pois os principais sacerdotes e escribas não tinham poder para executá-lo, e a crucificação não era uma forma de execução usada entre os judeus.

Cristo sofreu pela malícia tanto de judeus quanto de gentios porque devia sofrer pela salvação de ambos. Ambos participaram de sua morte porque ele devia reconciliar ambos por sua cruz (Efésios 2:16).

  1. Aqui, como antes, ele acrescenta a menção de sua ressurreição e glória à de sua morte e de seus sofrimentos: “Ao terceiro dia ressuscitará”. Sempre menciona isso:

(1.) Para animar a si mesmo em seus sofrimentos e atravessá-los com alegria. Suportou a cruz pela alegria proposta diante dele; sabia que ressuscitaria, e logo, no terceiro dia. Ele logo seria glorificado (João 13:32). A recompensa não era apenas certa, mas estava bem próxima.

(2.) Para animar e consolar os discípulos, que ficariam oprimidos e muito aterrorizados por seus sofrimentos.

(3.) Para nos ensinar, em todos os sofrimentos deste tempo presente, a conservar a perspectiva da glória que será revelada, sustentada pela fé, e a olhar para as coisas invisíveis e eternas. Assim poderemos chamar as aflições presentes de leves e momentâneas.

Versículos 20 a 28

A Ambição Corrigida.

Aqui está, primeiro, o pedido dos dois discípulos a Cristo e a retificação do engano em que se fundamentava (vv. 20-23). Os filhos de Zebedeu eram Tiago e João, dois dos três primeiros discípulos de Cristo; Pedro e eles eram seus favorecidos; João era o discípulo que Jesus amava.

Contudo, ninguém era censurado tão frequentemente como eles; os que Cristo mais ama são os que mais censura (Apocalipse 3:19).

I. Aqui está a súplica ambiciosa que fizeram a Cristo: que se sentassem, um à sua direita e o outro à sua esquerda, em seu reino (v. 20, 21). Era grande medida de fé estarem certos de seu reino, embora agora ele aparecesse em humildade.

Mas era grande medida de ignorância ainda esperarem um reino temporal, com pompa e poder mundanos, quando Cristo lhes havia falado tantas vezes de sofrimentos e abnegação. Nele esperavam ser grandes dignitários.

Não pedem trabalho neste reino, mas apenas honra; e nenhum lugar nesse reino imaginário lhes serviria senão o mais alto, junto a Cristo e acima de todos os outros. É provável que a última palavra do discurso anterior de Cristo ocasionasse este pedido, que no terceiro dia ressuscitaria.

Concluíram que sua ressurreição seria sua entrada no reino e, por isso, resolveram candidatar-se cedo ao melhor lugar; não o perderiam por falta de falar cedo. Assim abusaram do que Cristo disse para consolá-los e se ensoberbeceram com isso.

Alguns não conseguem suportar consolos, mas os voltam a um propósito errado; como doces num estômago impuro produzem bile. Agora observe:

  1. Houve sagacidade na condução dessa súplica: instigaram sua mãe a apresentá-la para que fosse considerada pedido dela, e não deles. Embora os orgulhosos pensem bem de si mesmos, não querem que se pense que o fazem.

E, por isso, nada afetam mais do que uma aparência de humildade (Colossenses 2:18); e outros devem ser instigados a cortejar em favor deles aquela honra que se envergonham de cortejar para si mesmos.

A mãe de Tiago e João era Salomé, como aparece comparando Mateus 27:56 com Marcos 15:40. Alguns pensam que era filha de Cléopas ou Alfeu e irmã ou prima de primeiro grau de Maria, a mãe de nosso Senhor.

Era uma das mulheres que acompanhavam Cristo e o serviam; e julgavam que tinha tal influência sobre ele que nada poderia negar-lhe, e, por isso, fizeram dela sua advogada. Assim, quando Adonias tinha um pedido razoável a fazer a Salomão, instigou Bate-Seba a falar em favor dele.

Foi fraqueza de sua mãe tornar-se assim instrumento da ambição deles, a qual deveria ter contido. Os sábios e bons não desejariam ser vistos numa coisa de má aparência.

Nos pedidos cheios de graça, devemos aprender esta sabedoria: desejar as orações dos que têm influência junto ao trono da graça; devemos pedir a nossos amigos que oram que orem em nosso favor e considerar isso uma bondade real.

Foi igualmente sagacidade pedir primeiro uma concessão geral, que fizesse certa coisa em favor deles; por presunção, e não por fé, naquela promessa geral: “Pedi, e vos será dado”.

Nela está implícita esta qualificação de nosso pedido: que seja segundo a vontade revelada de Deus; de outro modo, pedimos e não temos, se pedimos para gastar em nossas cobiças (Tiago 4:3).

  1. Havia orgulho no fundamento disso, uma concepção orgulhosa de seu próprio mérito, um desprezo orgulhoso de seus irmãos e um desejo orgulhoso de honra e cargo. O orgulho é pecado que nos cerca muito facilmente e do qual é árduo nos livrar.

É santa ambição contender para superar outros em graça e santidade; mas é ambição pecaminosa cobiçar ultrapassar outros em pompa e grandeza. Você busca grandes coisas para si mesmo, quando acaba de ouvir que seu Mestre será escarnecido, açoitado e crucificado? Que vergonha! “Não as busques” (Jeremias 45:5).

II. A resposta de Cristo a esta súplica (v. 22, 23), dirigida aos filhos que a instigaram, e não à mãe. Embora outros sejam nossa boca na oração, a resposta nos será dada conforme nossa disposição. A resposta de Cristo é muito branda; foram surpreendidos na falta da ambição, mas Cristo os restaurou com o espírito de mansidão. Observe:

  1. Como censurou a ignorância e o erro de sua petição: “Não sabeis o que pedis”:

(1.) Estavam muito no escuro acerca do reino que tinham em vista; sonhavam com um reino temporal, ao passo que o reino de Cristo não é deste mundo. Não sabiam o que era sentar-se à sua direita e à sua esquerda; falavam disso como os cegos falam de cores.

Nossas concepções daquela glória que ainda será revelada são como as concepções que uma criança tem dos cargos de adultos. Se ao fim, pela graça, chegarmos à perfeição, então deixaremos de lado tais fantasias infantis.

Quando virmos face a face, saberemos o que desfrutamos; mas agora, ai, não sabemos o que pedimos; só podemos pedir o bem como está na promessa (Tito 1:2). O que será em seu cumprimento, olho não viu nem ouvido ouviu.

(2.) Estavam muito no escuro acerca do caminho para aquele reino. Não sabem o que pedem os que pedem o fim, mas deixam de olhar os meios e assim separam o que Deus uniu.

Os discípulos pensavam que, quando tivessem deixado por Cristo o pouco de tudo que tinham e andado pelo país por algum tempo pregando o evangelho do reino, todo o seu serviço e sofrimento estaria terminado e seria tempo de perguntar: “Que teremos?”

Como se agora nada devesse ser esperado além de coroas e grinaldas; ao passo que havia diante deles agruras e dificuldades muito maiores do que as que haviam encontrado. Imaginavam sua guerra terminada quando mal começara, e ainda tinham corrido apenas com os homens a pé.

Sonham estar em Canaã imediatamente e não consideram o que farão nas enchentes do Jordão. Repare:

[1.] Todos somos inclinados, quando estamos apenas cingindo a armadura, a nos gabar como se a tivéssemos tirado.

[2.] Não sabemos o que pedimos quando pedimos a glória de usar a coroa e não pedimos graça para suportar a cruz em nosso caminho para ela.

  1. Como reprimiu a vaidade e a ambição de seu pedido. Estavam agradando a si mesmos com a fantasia de se sentar à sua direita e à sua esquerda, com grande majestade; agora, para conter isso, leva-os aos pensamentos de seus sofrimentos e os deixa no escuro acerca de sua glória.

(1.) Leva-os aos pensamentos de seus sofrimentos, a que não davam tanta atenção quanto deveriam. Olhavam tão intensamente a coroa, o prêmio, que estavam prontos a se lançar de cabeça e despreparados no caminho sujo que levava a ele.

E, por isso, julga necessário lembrá-los das agruras que estavam diante deles, para que não fossem surpresa ou terror para eles. Observe:

[1.] Como lhes apresenta honestamente a questão acerca dessas dificuldades (v. 22): “Vocês se candidatariam ao primeiro posto de honra no reino; mas são capazes de beber do cálice de que eu beberei?”

“Falam de que grandes coisas devem ter quando terminarem sua obra; mas são capazes de resistir até seu fim?” Apresentem a questão seriamente a si mesmos.

Esses mesmos dois discípulos certa vez não sabiam de que tipo de espírito eram quando foram perturbados pela ira (Lucas 9:55); e agora não percebiam o que estava errado em seus espíritos quando se exaltavam pela ambição. Cristo vê em nós aquele orgulho que não discernimos em nós mesmos. Repare:

Primeiro, que sofrer por Cristo é beber de um cálice e ser batizado com um batismo. Nesta descrição dos sofrimentos:

  1. É verdade que a aflição abunda. Pressupõe-se que seja um cálice amargo do qual se bebe, absinto e fel, aquelas águas de um cálice cheio que são espremidas para o povo de Deus (Salmos 73:10).

Um cálice de tremor de fato, mas de fogo e enxofre não, a porção do cálice dos homens maus (Salmos 11:6). Pressupõe-se que seja um batismo, uma lavagem com as águas da aflição; alguns são mergulhados nelas; as águas os cercam até a alma (Jonas 2:5).

Outros têm apenas uma aspersão delas; ambos são batismo, alguns são submersos nelas como num dilúvio, outros ficam muito molhados como numa chuva forte. Mas:

  1. Até nisto a consolação abunda mais. É apenas um cálice, não um oceano; é apenas um gole, talvez amargo, mas veremos seu fundo; é um cálice na mão de um Pai (João 18:11); e está cheio de mistura (Salmos 75:8).

É apenas um batismo; se mergulhados, esse é o pior dele, não afogados; perplexos, mas sem desesperar. O batismo é uma ordenança pela qual nos unimos ao Senhor em aliança e comunhão; e assim é sofrer por Cristo (Ezequiel 20:37; Isaías 48:10).

O batismo é “um sinal exterior e visível de uma graça interior e espiritual”; e assim é sofrer por Cristo, pois nos é concedido (Filipenses 1:29).

Segundo, é beber do mesmo cálice de que Cristo bebeu e ser batizado com o mesmo batismo com que ele foi batizado. Cristo está adiante de nós no sofrimento e nisso, como em outras coisas, nos deixou exemplo:

  1. Isso declara a condescendência de um Cristo sofredor, que beberia de tal cálice (João 18:11), ou melhor, e de tal ribeiro (Salmos 110:7), e beberia tão profundamente e, contudo, tão alegremente; que seria batizado com tal batismo e estava tão disposto a ele (Lucas 12:50).

Era muito que fosse batizado com água como um pecador comum, muito mais com sangue como um malfeitor incomum. Mas em tudo isso foi feito à semelhança da carne pecaminosa e foi feito pecado em nosso favor.

  1. Isso declara a consolação dos cristãos sofredores: apenas acompanham Cristo no cálice amargo, são participantes de seus sofrimentos e preenchem o que resta deles. Por isso, devemos nos armar com o mesmo pensamento e ir a ele fora do arraial.

Terceiro, é bom que frequentemente nos perguntemos se somos capazes de beber deste cálice e ser batizados com este batismo. Devemos esperar sofrimento e não considerar árduo sofrer bem e como nos convém.

Somos capazes de sofrer alegremente e, nos piores tempos, continuar a manter firme nossa integridade? De que podemos abrir mão por Cristo? Até que ponto confiaremos nele? Eu poderia dispor-me a beber de um cálice amargo e ser batizado com um batismo de sangue em vez de soltar meu apego a Cristo?

A verdade é que a religião, se vale alguma coisa, vale tudo; mas vale pouco se não vale sofrer por ela. Agora nos sentemos e contemos o custo de morrer por Cristo em vez de negá-lo, e perguntemos: podemos recebê-lo nesses termos?

[2.] Veja como ousadamente se comprometem por si mesmos; disseram: “Somos capazes”, na esperança de se sentar à sua direita e à sua esquerda; mas, ao mesmo tempo, esperavam tolamente que nunca fossem provados. Assim como antes não sabiam o que pediam, assim agora não sabiam o que respondiam.

“Somos capazes”; teriam feito bem em acrescentar: “Senhor, por tua força e em tua graça somos capazes, de outro modo não somos”.

Mas a mesma tentação de Pedro, estar confiante em sua própria suficiência e presumir de sua própria força, era aqui a tentação de Tiago e João; e é um pecado ao qual todos somos propensos. Não sabiam o que era o cálice de Cristo nem o que era seu batismo e, por isso, eram tão ousados em prometer por si mesmos. Mas geralmente são os mais confiantes os que menos conhecem a cruz.

[3.] Veja como claramente e positivamente seus sofrimentos são preditos aqui (v. 23): “Bebereis de meu cálice”. Os sofrimentos previstos serão mais facilmente suportados, especialmente se forem vistos sob uma concepção correta, como beber de seu cálice e ser batizados com seu batismo.

Cristo começou sofrendo em nosso favor e espera que o acompanhemos sofrendo em favor dele. Cristo nos fará conhecer o pior para aproveitarmos o melhor de nosso caminho para o céu; “Bebereis”, isto é, sofrerão. Tiago bebeu o cálice de sangue primeiro de todos os apóstolos (Atos 12:2).

João, embora ao fim tenha morrido em sua cama, se podemos dar crédito aos historiadores eclesiásticos, ainda assim frequentemente bebeu deste cálice amargo, como quando foi banido para a ilha de Patmos (Apocalipse 1:9).

E quando, como dizem, em Éfeso foi posto num caldeirão de óleo fervente, mas foi miraculosamente preservado. Era, como os demais apóstolos, frequentemente exposto à morte. Tomou o cálice, ofereceu-se ao batismo, e isso foi aceito.

(2.) Deixa-os no escuro acerca dos graus de sua glória. Para levá-los alegremente através de seus sofrimentos, bastava terem certeza de que teriam lugar em seu reino. O assento mais baixo no céu é uma recompensa abundante pelos maiores sofrimentos na terra.

Mas, quanto aos cargos ali, não convinha que fosse dada qualquer indicação de para quem eram destinados; pois a fraqueza de seu estado presente não poderia suportar tal revelação com qualquer equilíbrio.

Sentar-se à minha direita e à minha esquerda não é meu dar, e, por isso, não cabe a vocês pedi-lo nem conhecê-lo; mas será dado àqueles em favor de quem é preparado por meu Pai. Repare:

[1.] É muito provável que haja graus de glória no céu; pois nosso Salvador parece consentir em que alguns se sentarão à sua direita e à sua esquerda, nos lugares mais altos.

[2.] Assim como a própria glória futura, assim seus graus são planejados e preparados no conselho eterno de Deus; assim como a salvação comum, assim as honras mais peculiares são designadas.

Todo o assunto está resolvido há muito, e há uma medida certa da estatura, tanto na graça quanto na glória (Efésios 4:13).

[3.] Cristo, ao distribuir os frutos de sua própria compra, segue exatamente as medidas do propósito de seu Pai: “Não é meu dar”, salvo àqueles, assim pode ser lido, em favor de quem está preparado.

Cristo tem o poder exclusivo de dar vida eterna, mas então é a tantos quantos lhe foram dados (João 17:2). “Não é meu dar”, isto é, prometer agora; esse assunto está resolvido e combinado, e o Pai e o Filho se entendem perfeitamente bem neste assunto.

Não é meu dar aos que o buscam e são ambiciosos por isso, mas aos que por grande humildade e abnegação estão preparados para isso.

III. Aqui estão a censura e a instrução que Cristo deu aos outros dez discípulos por seu desagrado com o pedido de Tiago e João. Tinha muito a suportar em todos eles, eram tão fracos em conhecimento e graça, contudo, suportava seus modos:

  1. A irritação em que estavam os dez discípulos (v. 24). Ficaram indignados contra os dois irmãos; porque desejavam ser elevados acima deles, o que era uma censura contra eles, e não porque desejavam ser elevados, o que era seu pecado e pelo que Cristo estava descontente com eles.

Muitos parecem ter indignação contra o pecado; mas porque os atinge, e não porque é pecado. Denunciarão um homem que pragueja; mas somente se ele praguejar contra eles e os afrontar, e não porque desonra a Deus.

Esses discípulos estavam irados com a ambição de seus irmãos, embora eles próprios, ou melhor, porque eles próprios, fossem igualmente ambiciosos. Repare: é comum as pessoas ficarem iradas com aqueles pecados nos outros que consentem e cultivam em si mesmas.

Os que são orgulhosos e cobiçosos não gostam de ver outros assim. Nada causa mais dano entre irmãos, nem mais indignação e disputa, do que a ambição e o desejo de grandeza. Nunca encontramos os discípulos de Cristo em desavença sem que algo disso estivesse no fundo.

  1. A contenção que Cristo lhes deu, muito branda, mais para instruí-los sobre o que deveriam ser do que para repreendê-los pelo que eram. Já havia censurado este mesmo pecado antes (Mateus 18:3) e lhes dito que deviam ser humildes como crianças pequenas; contudo, recaíram nele, e, contudo, assim brandamente os censurou por isso.

Chamou-os a si, o que indica grande ternura e familiaridade. Não lhes ordenou com ira que saíssem de sua presença, mas chamou-os com amor para virem a sua presença; pois é por isso apto a ensinar e somos convidados a aprender dele, porque é manso e humilde de coração.

O que tinha a dizer concernia tanto aos dois discípulos quanto aos dez e, por isso, os quer todos juntos. E lhes diz que, ao passo que perguntavam qual deles teria domínio num reino temporal, realmente não havia tal domínio reservado para nenhum deles. Pois:

(1.) Não devem ser como os príncipes dos gentios. Os discípulos de Cristo não devem ser como os gentios, não, nem mesmo como os príncipes dos gentios. O principado não convém mais aos ministros do que o gentilismo aos cristãos. Observe:

[1.] Qual é o caminho dos príncipes dos gentios (v. 25): exercer domínio e autoridade sobre seus súditos e, se ao menos puderem ganhar superioridade com mão forte, também uns sobre os outros. O que os sustenta nisso é serem grandes, e os grandes homens pensam que podem fazer qualquer coisa.

Domínio e autoridade são as grandes coisas que os príncipes dos gentios perseguem e de que se orgulham; desejam exercer poder, levar tudo diante de si, ter todos se curvando a eles e cada feixe se inclinando ao seu.

Querem que se grite diante deles: dobrem o joelho; como Nabucodonosor, que matava e conservava vivos conforme sua vontade.

[2.] Qual é a vontade de Cristo acerca de seus apóstolos e ministros neste assunto:

Primeiro, não será assim entre vocês. A constituição do reino espiritual é inteiramente diferente disso. Vocês devem ensinar os súditos deste reino, instruí-los e suplicar-lhes, aconselhá-los e consolá-los, empenhar-se por eles e sofrer com eles, e não exercer domínio ou autoridade sobre eles.

Vocês devem trabalhar na herança de Deus, e não agir como senhores dela (1 Pedro 5:3). Isso proíbe não apenas a tirania e o abuso de poder, mas a reivindicação ou uso de qualquer autoridade secular como a que os príncipes dos gentios exercem licitamente.

É tão árduo os homens vãos, até os bons, terem tal autoridade sem se ensoberbecer com ela e causar mais prejuízo do que bem com ela, que nosso Senhor Jesus julgou adequado bani-la inteiramente de sua igreja.

O próprio Paulo rejeita o domínio sobre a fé de qualquer pessoa (2 Coríntios 1:24). A pompa e a grandeza dos príncipes dos gentios não convêm aos discípulos de Cristo.

Agora, se nenhum poder e honra assim estavam destinados a existir na igreja, era absurdo contenderem por quem os teria. Não sabiam o que pediam.

Segundo, como então será entre os discípulos de Cristo? O próprio Cristo havia indicado algo de grandeza entre eles e aqui explica: quem será grande entre vocês, quem será chefe, quem desejaria realmente sê-lo e ser considerado assim ao fim, seja seu ministro, seu servo (v. 26, 27). Observe aqui:

  1. Que é dever dos discípulos de Cristo servir uns aos outros para edificação mútua. Isso inclui tanto humildade quanto utilidade.

Os seguidores de Cristo devem estar prontos a se abaixar aos mais humildes serviços de amor para o bem uns dos outros, submeter-se uns aos outros (1 Pedro 5:5; Efésios 5:21), edificar uns aos outros (Romanos 14:19), agradar uns aos outros para o bem (Romanos 15:2). O grande apóstolo se fez servo de todos; veja 1 Coríntios 9:19.

  1. É dignidade dos discípulos de Cristo cumprir fielmente esse dever. O caminho para ser grande e chefe é ser humilde e prestativo. Devem ser mais estimados e mais respeitados na igreja, e serão assim considerados por todos os que entendem corretamente as coisas:

Não os que são honrados com nomes altos e poderosos, como os nomes dos grandes da terra, que aparecem em pompa e assumem um poder proporcional, mas os mais humildes e abnegados, e os que mais se dedicam a fazer o bem, embora se diminuam.

Esses honram mais a Deus, e a eles honrará. Assim como deve tornar-se insensato quem desejaria ser sábio, assim deve tornar-se servo quem desejaria ser chefe.

São Paulo foi grande exemplo disso; trabalhou mais abundantemente do que todos eles, fez-se, como alguns diriam, um trabalhador braçal em sua obra; e não é ele chefe? Não o chamamos de comum acordo de grande apóstolo, embora ele se chamasse menor que o menor?

E talvez nosso Senhor Jesus tivesse em vista ele quando disse que havia últimos que seriam primeiros; pois Paulo era um nascido fora do tempo devido (1 Coríntios 15:8); o filho mais novo da família dos apóstolos e, não apenas isso, um póstumo, contudo, tornou-se o maior.

E talvez fosse ele para quem o primeiro posto de honra no reino de Cristo estava reservado e preparado por seu Pai, e não Tiago, que o buscava.

E, por isso, pouco antes de Paulo começar a ser famoso como apóstolo, a Providência ordenou que Tiago fosse eliminado (Atos 12:2), para que Paulo o substituísse no colégio dos doze.

(2.) Devem ser como o próprio Mestre; e muito convém que, enquanto estavam no mundo, fossem como ele era quando estava no mundo. Pois para ambos o estado presente é um estado de humilhação; a coroa e a glória estavam reservadas para ambos no estado futuro.

Considerem que o Filho do Homem veio não para ser servido, mas para servir e dar sua vida como resgate por muitos (v. 28). Nosso Senhor Jesus aqui se coloca diante de seus discípulos como padrão das duas coisas antes recomendadas, humildade e utilidade:

[1.] Nunca houve exemplo de humildade e condescendência como na vida de Cristo, que veio não para ser servido, mas para servir. Quando o Filho de Deus veio ao mundo, seu Embaixador aos filhos dos homens, pensaríamos que deveria ter sido servido, aparecido com uma comitiva condizente com sua pessoa e caráter.

Mas não o fez; não fez figura, não tinha séquito pomposo de servos de estado para acompanhá-lo, nem estava vestido com trajes de honra, pois assumiu a forma de servo.

Foi de fato servido como um pobre, o que era parte de sua humilhação; havia os que o serviam com seus bens (Lucas 8:2, 3); mas nunca foi servido como um grande homem. Nunca assumiu majestade, não era servido à mesa; certa vez lavou os pés de seus discípulos, mas nunca lemos que lavaram seus pés.

Veio prestar auxílio a todos os que estavam em angústia; fez-se servo dos enfermos e doentes; estava tão pronto a atender aos pedidos deles quanto qualquer servo jamais esteve ao sinal de seu senhor, e se esforçou tanto para servi-los.

Aplicou-se continuamente a essa mesma coisa e negou a si mesmo tanto alimento quanto descanso para aplicar-se a ela.

[2.] Nunca houve exemplo de beneficência e utilidade como na morte de Cristo, que deu sua vida como resgate por muitos. Viveu como servo e andou fazendo o bem; mas morreu como sacrifício, e nisso fez o maior bem de todos.

Veio ao mundo com o propósito de dar sua vida como resgate; foi o primeiro em sua intenção. Os príncipes ambiciosos dos gentios fazem das vidas de muitos um resgate por sua própria honra e talvez um sacrifício por seu próprio capricho.

Cristo não faz assim; o sangue de seus súditos é precioso para ele, e não é pródigo dele (Salmos 72:14). Mas, ao contrário, dá sua honra e vida para resgatar seus súditos. Repare:

Primeiro, Jesus Cristo entregou sua vida como resgate. Nossas vidas foram confiscadas para as mãos da justiça divina pelo pecado. Cristo, ao se separar de sua vida, fez expiação pelo pecado e assim resgatou as nossas.

Foi feito pecado e maldição em nosso favor e morreu não apenas para nosso bem, mas em nosso lugar (Atos 20:28; 1 Pedro 1:18, 19).

Segundo, foi um resgate por muitos, suficiente para todos, eficaz para muitos; e, se por muitos, então diz a pobre alma que duvida: “Por que não por mim?” Foi por muitos para que por ele muitos possam ser feitos justos.

Esses muitos eram sua descendência, em favor da qual sua alma esteve em dores (Isaías 53:10, 11); por muitos, assim serão quando todos se reunirem, embora agora pareçam apenas um pequeno rebanho.

Agora este é um bom motivo para não contender pela precedência, porque a cruz é nossa bandeira e a morte de nosso Mestre é nossa vida.

É um bom motivo para nos dedicarmos a fazer o bem e, considerando o amor de Cristo ao morrer em nosso favor, não hesitarmos em entregar nossas vidas em favor dos irmãos (1 João 3:16).

Os ministros devem estar mais dispostos do que os outros a servir e sofrer para o bem das almas, como o bendito Paulo estava (Atos 20:24; Filipenses 2:17).

Quanto mais intimamente todos estamos envolvidos na humildade e humilhação de Cristo, e quanto mais somos beneficiados por ela, mais prontos e cuidadosos devemos ser para imitá-la.

Versículos 29 a 34

A Visão Concedida aos Cegos.

Temos aqui o relato da cura de dois pobres mendigos cegos. Nele podemos observar:

I. O pedido que fizeram a Cristo (v. 29, 30). E nisso:

  1. As circunstâncias são dignas de nota. Cristo e seus discípulos estavam saindo de Jericó. Ele se despediu com essa bênção daquele lugar condenado, reconstruído sob maldição, pois recebeu dádivas até para os rebeldes.

Isso aconteceu na presença da grande multidão que o seguia. Cristo tinha um séquito numeroso, embora sem pompa; fazia o bem àquelas pessoas, embora não assumisse para si ares de grandeza.

Alguns naquela multidão o seguiam por causa dos pães, outros por amor, outros por curiosidade e outros na expectativa de seu reinado terreno, com o qual até os discípulos sonhavam. Muito poucos desejavam aprender o próprio dever.

Ainda assim, por causa desses poucos, ele confirmou sua doutrina com milagres realizados diante de grandes multidões. Os que não fossem convencidos por eles teriam ainda menos desculpa.

Dois cegos se uniram no pedido, pois a oração conjunta agrada a Cristo (Mateus 18:19). Companheiros no mesmo sofrimento, tornaram-se companheiros na mesma súplica.

Repare: é bom que os que passam pela mesma calamidade ou pela mesma enfermidade do corpo ou da mente se unam na mesma oração a Deus por alívio. Assim podem avivar mutuamente o fervor e animar mutuamente a fé. Há misericórdia suficiente em Cristo para todos os que pedem.

Esses cegos estavam sentados à beira do caminho, como costumavam fazer os mendigos cegos. Repare: quem deseja receber misericórdia de Cristo deve colocar-se onde ele passa, onde se manifesta aos que o buscam. É bom aguardar Cristo assim, à espera em seu caminho.

Ouviram que Jesus passava. Eram cegos, mas não surdos. A visão e a audição são os sentidos pelos quais aprendemos. A falta de qualquer um deles é grande calamidade; a deficiência de um, porém, pode ser compensada, e muitas vezes é, pela agudeza do outro.

Por isso, alguns observaram, como exemplo da bondade da Providência, que jamais se soube de alguém nascido ao mesmo tempo cego e surdo, de modo que todas as pessoas, de uma forma ou de outra, seriam capazes de adquirir conhecimento.

Esses cegos tinham ouvido falar de Cristo, mas desejavam vê-lo com os próprios olhos. Ao ouvirem que Jesus passava, não fizeram mais perguntas sobre quem o acompanhava ou se tinha pressa: clamaram imediatamente.

Repare: é bom aproveitar a oportunidade presente e fazer o melhor uso do recurso que agora temos em mãos. Se a deixarmos passar, talvez nunca volte. Esses cegos assim fizeram, e agiram com sabedoria, pois não encontramos registro de que Cristo tenha voltado a Jericó. Agora é o tempo aceitável.

  1. O pedido propriamente dito é ainda mais digno de nota: “Tem misericórdia de nós, Senhor, Filho de Davi”, repetido no v. 31. Quatro coisas desse pedido são recomendadas como exemplo para nós. Embora os olhos do corpo estivessem escuros, os da mente estavam iluminados quanto à verdade, ao dever e ao próprio interesse.

(1.) Aqui está um exemplo de insistência na oração. Clamaram como homens que falavam sério; naturalmente, os necessitados são insistentes. Desejos frios apenas pedem uma recusa. Quem quer alcançar resposta na oração precisa despertar a si mesmo para apegar-se a Deus no dever.

Quando os desanimaram, clamaram ainda mais alto. A corrente do fervor, se detida, sobe e incha ainda mais. Essa luta com Deus em oração nos torna mais aptos a receber misericórdia; quanto maior o esforço para obtê-la, mais a valorizaremos e reconheceremos com gratidão.

(2.) De humildade na oração, nas palavras “Tem misericórdia de nós”. Não especificam o favor nem prescrevem o que desejam, muito menos alegam mérito. Entregam-se à misericórdia do Mediador e se confiam a ela de bom grado, seja qual for o modo que ele escolher: “Apenas tem misericórdia”.

Não pedem prata nem ouro, embora sejam pobres, mas misericórdia, misericórdia. É nisso que nosso coração deve se concentrar quando nos aproximamos do trono da graça, para que alcancemos misericórdia (Hebreus 4:16; Salmos 130:7).

(3.) De fé na oração, no título que dão a Cristo, que serve como apelo: “Senhor, Filho de Davi”. Confessam que Jesus Cristo é Senhor e, portanto, tem autoridade para ordenar o livramento deles. Certamente foi pelo Espírito Santo que chamaram Cristo de Senhor (1 Coríntios 12:3).

Ao chamá-lo Senhor, encontram no poder dele ânimo para orar. Ao chamá-lo Filho de Davi, encontram ânimo em sua bondade como Messias, a respeito de quem tantas coisas bondosas e ternas foram preditas, especialmente sua compaixão pelos pobres e necessitados (Salmos 72:12, 13).

É de excelente proveito, na oração, ter em vista Cristo na graça e na glória de sua condição de Messias; lembrar-se de que ele é o Filho de Davi, cujo ofício é ajudar e salvar, e apresentar-lhe isso como apelo.

(4.) De perseverança na oração, apesar do desânimo. A multidão os repreendeu por serem barulhentos, clamorosos e impertinentes, mandando-os calar-se e não perturbar o Mestre, que talvez, de início, parecesse não lhes dar atenção.

Ao seguir Cristo com nossas orações, devemos esperar obstáculos e muitos motivos de desânimo, interiores e exteriores, algo que nos mande calar. Essas repreensões são permitidas para pôr à prova a fé e o fervor, a paciência e a perseverança.

A multidão que seguia Cristo repreendeu aqueles pobres cegos. Repare: os mendigos sinceros e sérios à porta de Cristo costumam receber as piores repreensões dos que o seguem apenas por aparência e hipocrisia.

Eles, porém, não se deixaram afastar. Ao buscar tal misericórdia, não era hora de cumprir formalidades nem de mostrar uma delicadeza tímida; não, clamaram ainda mais alto.

Repare: as pessoas devem orar sempre e não desfalecer, orar com toda perseverança (Lucas 18:1), continuar a orar com firmeza e não ceder à oposição.

II. A resposta de Cristo ao pedido deles. A multidão os repreendeu, mas Cristo os animou. Seria triste para nós se o Mestre não fosse mais bondoso e terno que a multidão.

Ele gosta de mostrar favor especial aos que sofrem a desaprovação, as repreensões e o desprezo das pessoas. Não permitirá que seus humildes suplicantes sejam humilhados e desanimados.

  1. Ele parou e os chamou (v. 32). Estava a caminho de Jerusalém e sentia urgência até que sua obra ali se completasse; ainda assim, parou para curar os cegos. Repare: por mais pressa que tenhamos em qualquer assunto, devemos estar dispostos a parar para fazer o bem.

Chamou-os não por ser incapaz de curá-los à distância, mas porque queria fazê-lo do modo mais atencioso e instrutivo e dar ânimo a pacientes e suplicantes fracos, porém dispostos. Cristo não apenas nos manda orar: ele nos convida, estende-nos o cetro de ouro e nos chama a tocar sua ponta.

  1. Perguntou mais a respeito da necessidade deles: “Que quereis que eu vos faça?” Isso implica:

(1.) Uma oferta muito generosa: “Aqui estou. Digam-me o que desejam e o receberão”. Que mais poderíamos querer? Ele é capaz de fazer por nós e tão disposto quanto capaz: “Pedi, e ser-vos-á dado”.

(2.) Uma condição ligada à oferta, muito simples e razoável: que lhe dissessem o que queriam que ele fizesse por eles. Alguém poderia julgar estranha essa pergunta, pois qualquer pessoa saberia dizer o que desejavam.

Cristo sabia muito bem, mas queria ouvi-los dizer se pediam somente esmolas, como fariam a uma pessoa comum, ou a cura, como pediriam ao Messias.

Repare: é vontade de Deus que lhe apresentemos em tudo nossos pedidos por meio de orações e súplicas. Não fazemos isso para informá-lo ou movê-lo, mas para nos prepararmos a receber a misericórdia.

O barqueiro que, no barco, agarra a margem com seu gancho não puxa a margem até o barco, mas o barco até a margem. Assim, na oração, não atraímos a misericórdia para nós: aproximamo-nos dela.

Logo lhe apresentaram um pedido que nunca haviam feito a outra pessoa: “Senhor, que nossos olhos sejam abertos”. Percebemos rapidamente as necessidades e os fardos do corpo e somos capazes de relatá-los sem dificuldade: Ubi dolor, ubi digitus — O dedo prontamente aponta para o lugar da dor.

Ah, se percebêssemos nossas enfermidades espirituais e nos queixássemos delas com igual sensibilidade, especialmente de nossa cegueira espiritual! “Senhor, que os olhos de nossa mente sejam abertos!” Muitos são espiritualmente cegos e ainda dizem que veem (João 9:41).

Se percebêssemos nossa escuridão, logo procuraríamos aquele que, sozinho, tem o colírio, com este pedido: “Senhor, que nossos olhos sejam abertos”.

  1. Ele os curou. Depois de animá-los a buscá-lo, não lhes disse: “Buscai em vão”. O que fez foi uma demonstração:

(1.) De sua compaixão: teve compaixão deles. A miséria é objeto da misericórdia. Os pobres e cegos são infelizes e miseráveis (Apocalipse 3:17), dignos de compaixão.

Foi a terna misericórdia de nosso Deus que deu luz e visão aos que estavam sentados nas trevas (Lucas 1:78, 79). Não podemos socorrer os que passam por essas calamidades do mesmo modo que Cristo os socorreu, mas podemos e devemos ter compaixão deles, como ele teve, e abrir-lhes nossa alma.

(2.) De seu poder: aquele que formou o olho não pode curá-lo? Sim, pode, e o fez com facilidade: tocou os olhos deles. Fez isso com eficácia: imediatamente seus olhos receberam a visão.

Desse modo, não apenas provou que fora enviado por Deus, mas mostrou qual era sua missão: dar visão aos espiritualmente cegos e tirá-los das trevas para a luz.

Por fim, depois de receber a visão, os cegos o seguiram. Repare: ninguém segue Cristo de olhos vendados. Primeiro, por sua graça, ele abre os olhos das pessoas e assim atrai o coração delas para segui-lo.

Seguiram Cristo como discípulos, para aprender com ele, e como testemunhas oculares, para dar testemunho dele, de seu poder e de sua bondade. A melhor prova de iluminação espiritual é a adesão constante e inseparável a Jesus Cristo como nosso Senhor e Guia.


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