Matthew Henry

Marcos 16

Argumento

Neste capítulo temos um breve relato da ressurreição e da ascensão do Senhor Jesus. As alegrias e os triunfos que isso proporcionou a todos os crentes serão muito bem recebidos por aqueles que se compadeceram de Cristo e sofreram com ele nos capítulos anteriores. Temos aqui:

I. A ressurreição de Cristo anunciada por um anjo às mulheres que foram ao sepulcro para ungi-lo, vv. 1-8.

II. A aparição de Cristo a Maria Madalena e o relato que ela fez aos discípulos, vv. 9-11.

III. A aparição de Cristo aos dois discípulos a caminho de Emaús e o relato que fizeram aos irmãos, v. 12, 13.

IV. A aparição de Cristo aos onze, com a comissão que lhes deu para estabelecer seu reino no mundo e com instruções e credenciais completas para esse fim, vv. 14-18.

V. A ascensão de Cristo ao céu, a dedicação intensa dos apóstolos ao trabalho e o reconhecimento deles por Deus nesse serviço, v. 19, 20.

Versículos 1 a 8

As Mulheres no Sepulcro; Os Apóstolos Censurados.

Nunca houve sábado como este desde que o sábado foi instituído; as primeiras palavras deste capítulo nos dizem que ele já havia passado. Durante todo esse sábado, nosso Senhor Jesus permaneceu no sepulcro. Para ele foi um sábado de descanso, mas silencioso; para os discípulos, um sábado melancólico, passado entre lágrimas e temores.

Nunca os serviços do sábado no templo foram tão abomináveis para Deus, embora muitas vezes já o tivessem sido, como agora, quando os principais sacerdotes que os presidiam tinham as mãos cheias de sangue, o sangue de Cristo. Bem, esse sábado terminou, e o primeiro dia da semana é o primeiro dia de um novo mundo. Temos aqui:

I. A visita afetuosa que as boas mulheres que haviam acompanhado Cristo fizeram ao seu sepulcro; não uma visita supersticiosa, mas piedosa. Saíram de seus alojamentos muito cedo pela manhã, ao raiar do dia ou antes.

Mas, ou tinham um longo caminho a percorrer, ou encontraram algum obstáculo, de modo que o sol já nascia quando chegaram ao sepulcro. Também haviam comprado aromas e vieram não só para regar o corpo morto com suas lágrimas, pois nada poderia renovar mais a sua dor, mas também para perfumá-lo com seus aromas (v. 1).

Nicodemos havia comprado uma quantidade muito grande de especiarias secas, mirra e aloés, que serviam para secar as feridas e o sangue (João 19:39).

Aquelas boas mulheres, porém, não acharam que isso bastasse; compraram aromas, talvez de outro tipo, alguns óleos perfumados, para ungi-lo. Repare: o respeito que outros demonstraram pelo nome de Cristo não deve nos impedir de demonstrar o nosso respeito por ele.

II. A preocupação delas com a remoção da pedra e o fim dessa preocupação (v. 3, 4). Enquanto se aproximavam do sepulcro, disseram entre si: “Quem removerá para nós a pedra da entrada do sepulcro?” Ela era muito grande, maior do que poderiam mover juntas, com toda a força que tinham.

Deveriam ter pensado nisso antes de sair; então a prudência lhes teria dito que não fossem, a menos que levassem consigo alguém capaz de fazê-lo. Havia ainda outra dificuldade, muito maior que essa, a superar, da qual nada sabiam: uma guarda de soldados posta para vigiar o sepulcro.

Se as mulheres tivessem chegado antes que os soldados fossem aterrorizados e fugissem, eles também as teriam aterrorizado e feito fugir. Mas o amor cheio de graça delas por Cristo as levou ao sepulcro. Veja como, quando chegaram, ambas as dificuldades haviam sido removidas: tanto a pedra, que conheciam, quanto a guarda, de que não sabiam.

Elas viram que a pedra havia sido removida; essa foi a primeira coisa que as deixou maravilhadas. Repare: os que são levados por santo zelo a buscar Cristo com diligência verão desaparecer de modo surpreendente as dificuldades em seu caminho e receberão ajuda para superá-las, além do que esperavam.

III. Um anjo lhes deu a certeza de que o Senhor Jesus havia ressuscitado dos mortos, despedira-se do sepulcro e o deixara ali para que informasse isso àquelas que viessem procurá-lo.

  1. Elas entraram no sepulcro, ao menos um pouco, e viram que o corpo de Jesus não estava onde o haviam deixado naquela outra noite. Com sua morte, ele se comprometeu a pagar a nossa dívida; com sua ressurreição, obteve a quitação em nosso favor.

Foi uma quitação justa e legal, pela qual se demonstrou que sua satisfação fora aceita para todos os propósitos a que se destinava e que a questão em disputa fora decidida por uma prova incontestável de que ele era o Filho de Deus.

  1. Viram um jovem sentado à direita do sepulcro. O anjo apareceu na semelhança de um homem, um jovem; pois os anjos, embora criados no princípio, não envelhecem, mas conservam sempre a mesma perfeição de beleza e força. Assim também serão os santos glorificados quando forem como os anjos.

Esse anjo estava sentado à direita de quem entrava no sepulcro, vestido com uma longa roupa branca, que descia até os pés, como se vestiam os grandes homens. A visão dele poderia justamente tê-las animado, mas elas ficaram aterrorizadas. Assim, muitas vezes aquilo que deveria nos confortar se torna motivo de terror por causa de nossos próprios erros e equívocos.

  1. Ele acalma os temores delas, assegurando que havia motivo suficiente para triunfar, mas nenhum para tremer (v. 6): “Não vos aterrorizeis.” Repare: assim como os anjos se alegram quando pecadores se convertem, também se alegram quando são consolados.

“Não vos aterrorizeis”, pois:

(1.) “Amais fielmente Jesus Cristo e, portanto, em vez de serdes confundidas, deveis ser consoladas. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado.” Repare: as buscas das almas crentes por Cristo têm consideração especial por ele como crucificado (1 Coríntios 2:2), para que o conheçam e conheçam a comunhão de seus sofrimentos.

O fato de Cristo ter sido levantado da terra é o que atrai todos a ele. A cruz de Cristo é o estandarte para o qual os gentios se voltam. Observe: o anjo fala de Jesus como aquele que foi crucificado. “Esse fato passou, aquela cena terminou. Não deveis deter-vos tanto nas tristes circunstâncias de sua crucificação que vos torneis incapazes de crer na alegre notícia de sua ressurreição.”

“Ele foi crucificado em fraqueza, contudo isso não impede que possa ser ressuscitado em poder. Portanto, vós que o buscais, não temais deixar de encontrá-lo.” Ele foi crucificado, mas está glorificado; a vergonha de seus sofrimentos não diminui a glória de sua exaltação. Essa glória, ao contrário, apaga perfeitamente todo o descrédito de seus sofrimentos.

Por isso, depois de entrar em sua glória, ele nunca velou seus sofrimentos nem se esquivou de que falassem de sua cruz. O anjo que anuncia aqui sua ressurreição o chama de Jesus, aquele que foi crucificado. Ele próprio declara: “Eu sou aquele que vive e estive morto” (Apocalipse 1:18), e aparece em meio aos louvores da hoste celestial como um Cordeiro que havia sido morto (Apocalipse 5:6).

(2.) “Portanto, será boa notícia para vós ouvir que, em vez de ungi-lo morto, podeis alegrar-vos nele vivo. Ele ressuscitou; não está aqui, não está morto, mas vive outra vez. Ainda não podemos mostrá-lo a vós, mas depois o vereis, e aqui podeis ver o lugar onde o puseram.”

“Vedes que ele partiu daqui, não foi roubado nem pelos inimigos nem pelos amigos, mas ressuscitou.”

  1. Ele lhes ordena que avisem logo os discípulos. Assim elas se tornaram apóstolas dos apóstolos, uma recompensa por seu afeto e fidelidade a ele, acompanhando-o na cruz, até o sepulcro e enquanto estava no sepulcro.

Elas chegaram primeiro e foram as primeiras a receber a notícia. Nenhum outro discípulo ousou aproximar-se do sepulcro nem procurá-lo. Havia tão pouco risco de que viessem à noite para roubá-lo que ninguém se aproximou dele, a não ser algumas mulheres, que nem sequer conseguiam remover a pedra.

(1.) Devem contar aos discípulos que ele ressuscitou. Para eles era um tempo sombrio: seu querido Mestre estava morto, e todas as esperanças e alegrias deles haviam sido enterradas em seu sepulcro. Consideravam sua causa perdida e estavam prestes a cair como presa fácil nas mãos dos inimigos.

Não lhes restava mais ânimo; estavam completamente sem saber o que fazer, e cada um maquinava como cuidar de si. “Oh, ide depressa até eles”, disse o anjo. “Contai-lhes que seu Mestre ressuscitou; isso lhes dará alguma vida e ânimo e os impedirá de afundar no desespero.”

Repare: [1.] Cristo não se envergonha de reconhecer seus pobres discípulos, nem mesmo agora que está exaltado. Sua posição elevada não o faz se afastar deles; ele cuidou logo para que fossem informados.

[2.] Cristo não é excessivamente rigoroso em registrar os erros daqueles cujo coração é reto diante dele. Os discípulos o haviam abandonado com grande falta de bondade, e, mesmo assim, ele demonstrou preocupação por eles.

[3.] Consolos oportunos serão enviados aos que lamentam por causa do Senhor Jesus, e ele encontrará o momento de se manifestar a eles.

(2.) Devem ter o cuidado de contar a Pedro. Este evangelista dá atenção especial a isso e, segundo se supõe, escreveu sob a direção de Pedro.

Se a notícia fosse contada aos discípulos, também seria contada a Pedro, pois, como sinal de arrependimento por ter renegado o Mestre, ele continuava junto dos discípulos. Ainda assim, seu nome é mencionado em particular: “Contai a Pedro”, pois:

[1.] A notícia será boa para ele, mais bem-vinda do que para qualquer outro; ele está pesaroso por causa do pecado, e nenhuma notícia pode ser mais bem-vinda aos verdadeiros penitentes que a ressurreição de Cristo, pois ele ressuscitou para justificá-los.

[2.] Ele terá receio de que a alegria dessa boa notícia não seja para ele. Se o anjo dissesse apenas “Ide, contai aos seus discípulos”, o pobre Pedro estaria pronto a suspirar e dizer: “Mas duvido que possa considerar-me um deles, pois reneguei-o e mereço ser renegado por ele.”

Para evitar isso, “Ide a Pedro pelo nome e dizei-lhe que será tão bem-vindo quanto qualquer dos demais para vê-lo na Galileia.” Repare: a visão de Cristo será muito bem-vinda ao verdadeiro penitente, e o verdadeiro penitente será muito bem-vindo à presença de Cristo, pois há alegria no céu por causa dele.

(3.) Devem convocar todos eles, e Pedro pelo nome, para se encontrarem com ele na Galileia, como ele disse a vocês, Mateus 26:32. Na descida para a Galileia teriam tempo de se recompor e recordar o que ele tantas vezes lhes dissera ali: que sofreria e morreria e ressuscitaria no terceiro dia.

Enquanto estivessem em Jerusalém, entre estranhos e inimigos, não conseguiriam se recuperar do susto que haviam passado nem se preparar para receber devidamente notícias melhores. Repare: [1.] Cristo é quem determina todos os encontros entre ele e seus discípulos.

[2.] Cristo nunca se esquece do que determinou; certamente encontrará seu povo, em cada lugar onde registra o seu nome, para dar-lhe a bênção prometida. [3.] Em todos os encontros entre Cristo e seus discípulos, ele é o mais disposto a ir. “Ele vai adiante de vós.”

IV. O relato que as mulheres levaram aos discípulos (v. 8): elas saíram depressa e correram do sepulcro para chegar o quanto antes aos discípulos, tremendo e maravilhadas.

Veja como somos inimigos de nós mesmos e do nosso próprio consolo quando não consideramos o que Cristo nos disse nem o misturamos com fé. Cristo lhes dissera muitas vezes que ressuscitaria no terceiro dia.

Se tivessem dado a essas palavras a devida atenção e crédito, teriam ido ao sepulcro esperando encontrá-lo ressuscitado e recebido a notícia com alegre convicção, não com todo aquele terror e espanto.

Mas, como foram instruídas a contar aos discípulos, porque eles deveriam contá-la ao mundo inteiro, não contaram a mais ninguém; nada disseram a ninguém que encontraram pelo caminho, pois tinham medo: temiam que a notícia fosse boa demais para ser verdade.

Repare: nossos temores, que nos perturbam, muitas vezes nos impedem de prestar a Cristo e às almas dos homens o serviço que poderíamos prestar se a fé e a alegria da fé fossem fortes.

Versículos 9 a 13

As Aparições de Cristo a Maria Madalena e aos Dois Discípulos.

Temos aqui um relato muito breve de duas aparições de Cristo e da pouca credibilidade que os discípulos deram a esses relatos.

I. Ele apareceu a Maria Madalena; foi a ela que apareceu primeiro, no jardim, como João 20:14 conta em particular. Era aquela de quem ele expulsara sete demônios; muito lhe foi perdoado, muito lhe foi dado e feito em seu favor, e ela amou muito.

Cristo lhe concedeu esta honra: ela foi a primeira a vê-lo depois da ressurreição. Quanto mais nos apegamos a Cristo, mais cedo podemos esperar vê-lo e mais podemos ver dele. Agora:

  1. Ela contou aos discípulos o que vira; não apenas aos onze, mas também aos demais que o seguiam, enquanto choravam e lamentavam (v. 10). Chegara o tempo de que Cristo lhes falara, quando chorariam e lamentariam (João 16:20). Isso era prova do grande amor deles por Cristo e da profunda consciência que tinham de sua perda.

Mas, depois de uma ou duas noites de choro, o consolo voltou, como Cristo prometera: “Outra vez vos verei, e o vosso coração se alegrará.” Não se pode trazer notícia melhor a discípulos em lágrimas do que a ressurreição de Cristo.

Devemos procurar consolar os discípulos que estão de luto, contando-lhes nossas experiências e o que temos visto de Cristo.

  1. Eles não puderam acreditar no relato que ela lhes trouxe. Ouviram que ele estava vivo e que ela o tinha visto. A história era bastante plausível, mas eles não acreditaram.

Não diriam que ela mesma inventara a história ou tinha o desígnio de enganá-los; temem, porém, que seja iludida e que a visão não passasse de uma fantasia. Se tivessem acreditado nas frequentes previsões que ele próprio fizera, não teriam sido tão incrédulos diante da notícia.

II. Ele apareceu a dois dos discípulos quando iam para o campo (v. 12). Isso sem dúvida se refere ao episódio narrado em detalhes (Lucas 24:13, etc.), sobre o que aconteceu entre Cristo e os dois discípulos a caminho de Emaús.

Diz-se aqui que lhes apareceu em outra forma, com uma roupa diferente da que costumava usar, na aparência de um viajante. No jardim, Maria Madalena o tomou pelo jardineiro, pois estava vestido de tal modo.

Mas parece que ele conservava o próprio rosto porque os olhos deles estavam impedidos de reconhecê-lo. Quando essa restrição foi removida, imediatamente o reconheceram (Lucas 24:16-31). Agora:

  1. Essas duas testemunhas apresentaram seu testemunho como prova da ressurreição de Cristo: “Foram e contaram aos demais”, v. 13. Como estavam convencidos, desejavam dar aos irmãos a mesma certeza que tinham recebido, para que também fossem consolados.

  2. Isso não recebeu crédito de todos: “Nem creram nestes.” Suspeitaram que os olhos deles também os haviam enganado.

Havia nisso uma sábia providência: as provas da ressurreição de Cristo foram apresentadas gradualmente e recebidas com cautela. Assim, a certeza com que os apóstolos depois pregariam essa doutrina, arriscando tudo por ela, seria ainda mais convincente.

Temos ainda mais razão para acreditar naqueles que demoraram tanto a crer. Se tivessem aceitado a notícia imediatamente, poderiam ser considerados crédulos e seu testemunho receberia menos atenção; mas a incredulidade inicial deles mostra que só acreditaram depois de pleno convencimento.

Versículos 14 a 18

A Aparição de Cristo aos Onze.

Temos aqui: I. O convencimento que Cristo deu aos seus apóstolos da verdade de sua ressurreição (v. 14). Ele próprio lhes apareceu quando estavam todos reunidos e sentados à mesa, dando-lhe a oportunidade de comer e beber com eles para que tivessem plena certeza; veja Atos 10:41.

E, quando lhes aparecia, continuava a repreendê-los por sua incredulidade e dureza de coração, pois até na reunião geral na Galileia alguns duvidaram, como vemos em Mateus 28:17. Repare: as provas da verdade do evangelho são tão completas que os que não o recebem podem ser justamente repreendidos por sua incredulidade.

Isso não se deve a qualquer fraqueza ou insuficiência das provas, mas à dureza do coração deles, à sua insensibilidade e estupidez. Embora ainda não o tivessem visto pessoalmente, eram justamente censurados por não acreditarem nos que o haviam visto depois de ressuscitado.

Talvez isso se devesse em parte ao orgulho de seu coração. Pensavam: “Se ele de fato ressuscitou, a quem teria prazer em honrar aparecendo, senão a nós?” Se ele os deixava de lado e aparecia primeiro a outros, não conseguiam acreditar que fosse ele.

Assim, muitos não acreditam na doutrina de Cristo por julgarem indigno dar crédito àqueles que ele escolheu para serem suas testemunhas e anunciá-la. Observe: no grande dia, não bastará como desculpa para nossa incredulidade dizer: “Não o vimos depois de ressuscitado”, pois deveríamos ter crido no testemunho dos que o viram.

II. A comissão que lhes deu para estabelecer seu reino entre os homens pela pregação de seu evangelho, as boas-novas da reconciliação com Deus por meio de um Mediador. Observe agora:

  1. A quem deveriam pregar o evangelho. Até então, haviam sido enviados somente às ovelhas perdidas da casa de Israel e proibidos de seguir pelo caminho dos gentios ou entrar em qualquer cidade dos samaritanos.

Agora, porém, sua comissão se ampliava: estavam autorizados a ir por todo o mundo, a todas as partes do mundo habitado, e pregar o evangelho de Cristo a toda criatura, aos gentios assim como aos judeus, a todo ser humano capaz de recebê-lo.

“Informai as pessoas a respeito de Cristo, da história de sua vida, morte e ressurreição. Instruí-as sobre o significado e o propósito dessas coisas e sobre as vantagens que os filhos dos homens têm, ou podem ter, por meio delas. Convidai todos, sem exceção, a vir e participar delas. Este é o evangelho.”

“Que ele seja pregado em todos os lugares e a todas as pessoas.” Esses onze homens não poderiam pregá-lo sozinhos a todo o mundo, muito menos a cada criatura que nele havia.

Eles e os outros discípulos, em número de setenta, além dos que depois fossem acrescentados a eles, deveriam seguir em várias direções e levar consigo o evangelho aonde fossem. Deviam enviar outros aos lugares a que não pudessem ir e, em suma, dedicar a vida a levar essas boas-novas pelo mundo com toda a fidelidade e cuidado possíveis.

Não deveriam tratá-las como diversão ou entretenimento, mas como mensagem solene de Deus aos homens e meio designado para torná-los felizes. “Contai a quantos puderdes e ordenai que contem a outros. Esta mensagem diz respeito a todos e, por isso, deve ser recebida por todos, pois oferece acolhida universal.”

  1. Qual é o resumo do evangelho que deveriam pregar (v. 16): “Apresentai ao mundo a vida e a morte, o bem e o mal. Dizei aos filhos dos homens que todos estão em estado de miséria e perigo, condenados por seu príncipe, conquistados e escravizados por seus inimigos.”

Isso está implícito no fato de que precisam ser salvos; não precisariam disso se não estivessem perdidos.

“Agora ide e dizei-lhes”:

(1.) “Que, se crerem no evangelho e se entregarem para serem discípulos de Cristo, se renunciarem ao diabo, ao mundo e à carne, e se dedicarem a Cristo como seu profeta, sacerdote e rei, e a Deus em Cristo como seu Deus na aliança, demonstrando sinceridade pela constante fidelidade a essa aliança, serão salvos da culpa e do poder do pecado.”

“O pecado não os dominará nem os destruirá. Quem é um verdadeiro cristão será salvo por meio de Cristo.” O batismo foi instituído como rito de iniciação, pelo qual os que aceitavam Cristo o reconheciam; mas aqui é usado mais pela realidade que significa do que pelo sinal.

Simão, o mago, creu e foi batizado, mas não foi salvo (Atos 8:13). Crer de coração e confessar com a boca o Senhor Jesus (Romanos 10:9) parece significar quase o mesmo que isso. Ou podemos dizer: devemos assentir às verdades do evangelho e anuir às suas condições.

(2.) “Se não crerem, se não receberem o testemunho que Deus dá a respeito de seu Filho, não podem esperar outra via de salvação; inevitavelmente perecerão. Serão condenados pela sentença de um evangelho desprezado, acrescentada à de uma lei quebrada.”

Até isso é evangelho, é boa notícia: somente a incredulidade condenará os homens, pois é pecado contra o remédio.

O dr. Whitby observa aqui que os que concluem, com base nesta passagem, “que os filhos pequenos dos crentes não podem ser batizados porque não podem crer, também terão de concluir que não podem ser salvos, pois a fé é exigida para a salvação de modo ainda mais explícito do que para o batismo.”

“E que o batismo foi omitido na segunda parte porque não é a simples falta de batismo, mas o desprezo deliberado por ele, que torna os homens culpados de condenação. Caso contrário, os bebês poderiam ser condenados pelos erros ou pela profanação dos pais.”

  1. De que poder seriam dotados para confirmar a doutrina que pregariam (v. 17): “Estes sinais seguirão aos que crerem.” Isso não significa que todos os que creem poderão realizar esses sinais, mas alguns, tantos quantos fossem empregados em propagar a fé e conduzir outros a ela.

Os sinais se destinam aos que não creem; veja 1 Coríntios 14:22. A glória e as provas do evangelho aumentaram muito porque os pregadores não só realizavam milagres, como também conferiam a outros o poder de realizá-los.

Esse poder acompanhou alguns dos que creram aonde quer que fossem pregar. Realizarão maravilhas em nome de Cristo, o mesmo nome em que foram batizados, por meio do poder recebido dele e alcançado pela oração. São mencionados sinais específicos:

(1.) Expulsarão demônios. Esse poder era mais comum entre os cristãos do que qualquer outro e durou mais tempo, como mostram os testemunhos de Justino Mártir, Orígenes, Irineu, Tertuliano, Minúcio Félix e outros, citados por Grócio sobre esta passagem.

(2.) Falarão em novas línguas, que nunca haviam aprendido nem conhecido. Isso era tanto um milagre — um milagre na mente — que confirmava a verdade do evangelho, como um meio de espalhá-lo entre as nações que ainda não o tinham ouvido.

Isso poupava aos pregadores enorme trabalho de aprender idiomas. Sem dúvida, os que receberam milagrosamente o domínio das línguas também se tornaram mestres completos delas e de todas as suas elegâncias naturais, próprias para instruir e comover, o que muito os recomendaria e recomendaria sua pregação.

(3.) Pegarão em serpentes. Isso se cumpriu em Paulo, que não foi ferido pela víbora que se prendeu à sua mão. Os povos bárbaros reconheceram nisso um grande milagre (Atos 28:5, 6).

Serão conservados sem prejuízo por parte dessa geração de víboras entre as quais vivem e da malícia da antiga serpente.

(4.) Se seus perseguidores os obrigarem a beber algum veneno mortal, isso não lhes fará prejuízo. Há alguns exemplos desse mesmo fato na história eclesiástica.

(5.) Não só serão preservados do prejuízo, como também serão capacitados a fazer o bem a outros: imporão as mãos sobre os enfermos, e estes se recuperarão, como muitos haviam se recuperado pelo toque curador de seu Mestre.

Muitos presbíteros da igreja tinham esse poder, como se vê em Tiago 5:14, onde se fala de ungirem os enfermos com óleo em nome do Senhor, como sinal instituído dessa cura milagrosa. Com que confiança poderiam cumprir sua comissão, tendo credenciais como essas para apresentar!

Versículos 19 a 20

A Ascensão.

Aqui está:

  1. Cristo é recebido no mundo do alto (v. 19). Depois de dizer aos discípulos tudo o que tinha a dizer, subiu ao céu numa nuvem, como o relato detalhado de Atos 1:9 nos informa.

Não foi apenas admitido; teve entrada abundante em seu reino. Foi recebido com toda a solenidade, entre as altas aclamações das hostes celestiais, e sentou-se à direita de Deus.

Sentou-se em postura de descanso, pois agora havia concluído sua obra, e em postura de governo, pois agora tomava posse de seu reino. Sentar-se à direita de Deus indica a dignidade soberana a que foi elevado e a atuação universal que lhe foi confiada.

Tudo o que Deus faz a nosso respeito, nos dá ou aceita de nós, é por meio de seu Filho. Agora ele é glorificado com a glória que tinha antes da criação do mundo.

  1. Cristo é recebido neste mundo inferior. A fé nele no mundo e sua recepção na glória são mencionadas juntas (1 Timóteo 3:16).

(1.) Vemos aqui os apóstolos trabalhando com diligência para ele: saíram e pregaram em toda parte, perto e longe.

Embora a doutrina que pregavam fosse espiritual e celestial, diretamente contrária ao espírito e à índole do mundo, embora encontrasse abundante oposição e fosse inteiramente destituída de todo apoio e vantagem secular, contudo os pregadores não tinham medo nem vergonha.

Foram tão diligentes em espalhar o evangelho que, em poucos anos, o som dele chegou aos confins da terra (Romanos 10:18).

(2.) Vemos aqui Deus agindo eficazmente com eles para tornar seus trabalhos bem-sucedidos, confirmando a palavra com sinais que a acompanhavam. Isso se dava em parte pelos milagres realizados no corpo das pessoas, selos divinos da doutrina cristã, e em parte pela influência sobre a mente delas, por meio da ação do Espírito de Deus; veja Hebreus 2:4.

Esses eram propriamente sinais que acompanhavam a palavra: a reforma do mundo, a destruição da idolatria, a conversão dos pecadores e o consolo dos santos. Esses sinais continuamente a acompanham.

Que continuem a fazê-lo cada vez mais, para a honra de Cristo e o bem da humanidade, é o que o evangelista ora e nos ensina a dizer Amém. Pai no céu, assim seja santificado seu nome e venha seu reino.


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