Matthew Henry

Juízes 21

Argumento

Lemos sobre as ruínas da tribo de Benjamim no capítulo anterior; agora temos aqui:

I. O lamento que Israel fez por essas ruínas, vv. 1-4, 6, 15.

II. A provisão que fizeram para repará-las, a partir dos 600 homens que escaparam, para os quais conseguiram esposas:

  1. Das virgens de Jabes-Gileade, quando destruíram aquela cidade por não enviar suas forças ao ajuntamento geral, v. 5, 7-14.

  2. Das filhas de Siló, vv. 16-25. E assim termina esta história melancólica.

Versículos 1 a 15

Lamento pelos Benjamitas; Esposas Providenciadas para os Benjamitas. (a.C. 1409.)

Podemos observar nestes versículos:

I. O zelo ardente que os israelitas haviam demonstrado contra a perversidade dos homens de Gibeá, apoiada pela tribo de Benjamim. Aqui se oferece ocasião de mencionar dois exemplos do seu zelo nessa ocasião, que ainda não havíamos encontrado:

  1. Enquanto a assembleia geral das tribos se reunia e aguardava que todos chegassem antes de prosseguir, comprometeram-se, sob grande maldição, que chamavam de Cherum, a destruir completamente todas as cidades que não enviassem seus representantes e sua cota de homens para aquele ajuntamento, ou haviam condenado àquela maldição os que assim se recusassem (v. 5).

Pois considerariam tais recusantes como pessoas sem indignação pelo crime cometido, sem preocupação em proteger a nação dos juízos de Deus mediante a administração da justiça, e sem consideração pela autoridade de uma anuência comum, pelo qual haviam sido convocados.

  1. Quando se reuniram e ouviram o caso, fizeram outro juramento solene: se pudessem evitá-lo, nenhum dos milhares de israelitas então presentes, nem dos que representavam (sem a intenção de obrigar seus descendentes), daria uma filha em casamento a um benjamita (v. 1).

Isso foi incluído nos termos da guerra, sem qualquer desígnio de exterminar a tribo, mas porque, de modo geral, tratariam os que então praticavam e apoiavam aquela atrocidade em todos os aspectos como trataram as nações condenadas de Canaã, que não só eram obrigados a destruir, como também com as quais lhes era proibido casar.

E, em particular, julgaram indignos de se casar com uma filha de Israel aqueles que haviam sido tão bárbaros e abusivos com alguém do sexo delicado; nada poderia ser mais vil e perverso, nem haveria indicação mais certa de uma mente completamente desprovida de honra e virtude.

Podemos supor que o levita ter enviado os pedaços mutilados do corpo de sua esposa às diversas tribos contribuiu muito para inspirar neles toda essa fúria, bem mais do que um simples relato do fato, ainda que fosse plenamente comprovado; tanto o olhar afeta o coração.

II. A profunda preocupação que os israelitas demonstraram com a destruição da tribo de Benjamim depois de consumada. Observe:

  1. A maré de sua ira contra o crime de Benjamim não subiu tão alta e forte antes que a maré de sua dor pela destruição de Benjamim subisse igualmente alta e forte depois: “arrependeram-se por Benjamim, seu irmão” (v. 6, 15). Não se arrependeram do zelo contra o pecado.

Há uma santa indignação contra o pecado, fruto da tristeza segundo Deus, que conduz à salvação e da qual não se deve arrepender (2 Coríntios 7:10, 11). Arrependeram-se, porém, das tristes consequências do que haviam feito: levaram o caso além do que era justo ou necessário.

Bastaria destruir todos os que encontrassem armados; não precisavam ter eliminado os lavradores e pastores, as mulheres e as crianças. Repare: (1.) Pode haver excesso até no fazer o bem. É preciso muito cuidado para governar o nosso zelo, para que aquilo que parecia sobrenatural em suas causas não se revele antinatural em seus efeitos. Não é boa teologia aquela que sufoca a humanidade.

Muitas guerras são mal encerradas, embora tenham começado bem. (2.) Até a justiça necessária deve ser exercida com compaixão. Deus não pune com prazer, nem os homens deveriam fazê-lo. (3.) Paixões fortes dão trabalho ao arrependimento.

O que dizemos e fazemos no calor do momento, nossos pensamentos mais serenos geralmente desejam desfazer. (4.) Numa guerra civil (segundo o costume dos romanos), nenhuma vitória deve ser celebrada com triunfos, pois, seja qual for o lado vencedor, a comunidade perde, como aqui, em que uma tribo foi eliminada de Israel. Em que o corpo fica melhor quando um membro esmaga outro? Agora:

  1. Como expressaram essa preocupação? (1.) Com a tristeza pela ruptura que se dera. Foram à casa de Deus, pois para lá levavam todas as suas dúvidas, todos os seus conselhos, todos os seus cuidados e todas as suas tristezas.

Naquela ocasião, não se ouviu voz de alegria e louvor, mas apenas lamento, choro e aflição: “ergueram suas vozes e choraram amargamente” (v. 2), não tanto pelos 40 mil que haviam perdido (não fariam tanta falta entre onze tribos), mas pela destruição completa de uma tribo inteira. Pois esta era a queixa que derramaram diante de Deus (v. 3): “Falta uma tribo”.

Deus tivera zelo por cada tribo; o número doze era aquilo pelo qual eram reconhecidos. Cada tribo tinha seu lugar designado no acampamento e sua pedra no peitoral do sumo sacerdote; cada tribo recebera sua bênção tanto de Jacó quanto de Moisés.

E seria um descrédito intolerável para eles se deixassem de fora uma delas daquele ilustre júri e perdessem uma das doze, sobretudo Benjamim, o mais jovem, particularmente querido por Jacó, seu ancestral comum, e por quem todos os demais deviam ter especial ternura.

Benjamim não existe mais! O que será de Jacó? Benjamim tornou-se Benoni: o filho da mão direita tornou-se filho da tristeza! Em meio a essa aflição, construíram um altar, não para competir com o altar designado junto à porta do tabernáculo, mas em comunhão com ele, pois não era grande o bastante para receber todos os sacrifícios que tinham por desígnio oferecer.

Apresentaram holocaustos e ofertas pacíficas: agradeceram pela vitória, ainda assim, fizeram expiação pela sua própria tolice ao prosseguir na luta e imploraram o favor divino em sua presente dificuldade. Tudo o que nos entristece deve nos levar a Deus. (2.) Por meio do tratado amigável com os pobres refugiados aflitos, escondidos na rocha de Rimom.

Enviaram-lhes um decreto de anistia, assegurando-lhes, sob a fé pública, que não mais os tratariam como inimigos, mas os receberiam como irmãos (v. 13). Assim, a desavença entre amigos deve renovar a amizade.

Até os que pecaram, se enfim se arrependem, devem ser perdoados e consolados (2 Coríntios 2:7). (3.) Cuidando de providenciar esposas para eles, para que a tribo pudesse se reerguer e suas ruínas fossem reparadas.

Se os homens de Israel tivessem buscado os próprios interesses, teriam ficado secretamente satisfeitos com o desaparecimento das famílias de Benjamim, pois então a terra destinada a eles reverteria às demais tribos, ob defectum sanguinis — por falta de herdeiros, e seria facilmente tomada por falta de ocupantes.

Mas quem tem por alvo elevar-se sobre as ruínas dos seus vizinhos não tem o espírito dos israelitas.

Estavam tão longe de ter qualquer desígnio desse tipo que todos se empenharam em encontrar meios para reconstruir aquela tribo. Todas as mulheres e crianças de Benjamim haviam sido mortas; eles juraram não dar suas filhas a nenhum deles; e a lei divina proibia que se casassem com os cananeus. Obrigá-los a isso seria, na prática, mandá-los servir a outros deuses.

O que deviam fazer, então, para lhes conseguir esposas? Enquanto os pobres benjamitas aflitos, escondidos na rocha, temiam que seus irmãos estivessem maquinando arruiná-los, estes ao mesmo tempo trabalhavam num projeto para elevá-los. E foi assim: [1.] Havia um ato de justiça necessária a praticar contra a cidade de Jabes-Gileade, pertencente à tribo de Gade, do outro lado do Jordão.

Ao examinar a lista de convocados (feita em Juízes 20:2), perceberam que ninguém daquela cidade comparecera à convocação geral (vv. 8-9). Antes de se saber quem faltara, resolveram que qualquer cidade de Israel culpada de tamanho desprezo pela autoridade e pelo interesse público seria condenada ao anátema. Jabes-Gileade estava sob essa sentença severa, da qual não se podia abrir exceção.

Aqueles que em muitos lugares haviam poupado os cananeus, destinados à destruição por ordem divina, não conseguiam encontrar em si a disposição de poupar seus irmãos, condenados pela sua própria maldição. Por que não enviaram homens para expulsar os jebuseus de Jerusalém, para evitar os quais o pobre levita fora forçado a ir a Gibeá? Juízes 19:11-12.

Em geral, os homens são mais zelosos em sustentar a própria autoridade do que a de Deus. Enviou-se, então, um destacamento de 12 mil homens para executar a sentença contra Jabes-Gileade. Havendo percebido que, quando todo o exército foi contra Gibeá, o povo parecia numeroso demais para que Deus o entregasse em suas mãos, nessa expedição enviaram apenas alguns (v. 10).

A ordem era passar todos à espada, homens, mulheres e crianças (v. 11), conforme aquela lei (Levítico 27:29), “Tudo o que é consagrado dentre os homens”, por aqueles que têm autoridade para fazê-lo, “certamente será morto”. [2.] Dessa medida surgiu uma solução para conseguir esposas para os benjamitas.

Quando Moisés enviou o mesmo número de homens para vingar o Senhor contra Midiã, foram dadas as mesmas ordens de aqui: abater todas as mulheres casadas com seus maridos, como uma só coisa com eles, mas deixar vivas as virgens (Números 31:17, 18). Esse precedente bastava para justificar a distinção aqui feita entre mulher casada e virgem (vv. 11-12).

Encontraram em Jabes-Gileade 400 virgens em idade de casar, que foram dadas em casamento a igual número dos benjamitas sobreviventes (v. 14). Seus pais não estavam presentes quando se fez o voto de não casar com benjamitas, portanto não estavam sujeitos a nenhuma obrigação aparente por ele; além disso, como presa de guerra, elas estavam à disposição dos vencedores.

Talvez o vínculo então contraído entre Benjamim e Jabes-Gileade tenha feito Saul, que era benjamita, se interessar mais por aquele lugar (1 Samuel 11:4), embora então fosse habitado por novas famílias.

Versículos 16 a 25

As Virgens de Siló Surpreendidas. (a.C. 1409.)

Temos aqui o método adotado para conseguir esposas para os 200 benjamitas que restavam. Embora a tribo tivesse sido reduzida a um número pequeno, ocuparam-se apenas de providenciar uma esposa para cada homem, e não mais de uma sob a alegação de multiplicá-los mais depressa.

Não podiam dar-lhes suas filhas; mas, para cumprir o juramento e ainda assim casar algumas de suas filhas com eles, indicaram-lhes um meio de tomá-las de surpresa e casar-se com elas, o que seria ratificado pela anuência dos pais, ex post facto — posteriormente. Quanto menos consideração se usa antes de fazer um voto, mais comumente é necessária depois para cumpri-lo.

I. A oportunidade para isso foi um baile público em Siló, nos campos, ao qual todas as moças daquela cidade e dos arredores que desejassem compareciam para dançar em honra a uma festa do Senhor então celebrada, provavelmente a Festa dos Tabernáculos (v. 19).

Pois, segundo o bispo Patrick, aquela era a única ocasião em que as virgens judias tinham permissão para dançar; e não tanto para se divertirem, mas para expressar sua alegria santa, como Davi ao dançar diante da arca. De outro modo, a presente situação melancólica dos assuntos públicos teria tornado a dança inoportuna, como em Isaías 22:12, 13. A dança era muito modesta e casta.

Não era dança mista: nenhum homem dançava com aquelas filhas de Siló, nem mulheres casadas esqueciam tanto a própria dignidade a ponto de se juntar a elas. Contudo, ao dançarem assim em público, tornavam-se presa fácil para quem tinham um desígnio contra elas. Por isso o bispo Hall observa que as emboscadas dos espíritos malignos arrebatam muitas almas da dança para uma terrível desolação.

II. Os anciãos de Israel autorizaram os benjamitas a fazer isso: ficar à espreita nos vinhedos que cercavam o terreno aberto onde costumavam dançar e, quando estivessem no meio da diversão, aparecer de repente, cada homem agarrar uma esposa para si e levá-la imediatamente para sua própria terra (vv. 20-21).

Sabiam que nenhuma de suas próprias filhas estaria ali; portanto, não se poderia dizer que os pais dessas virgens as haviam entregado, pois nada sabiam do assunto. Uma desculpa ruim é melhor do que nenhuma, quando se quer evitar quebrar um juramento; seria muito melhor ter cautela ao fazer votos, para que não haja depois motivo, como houve aqui, de dizer diante do anjo que foi um erro.

Era uma maneira muito absurda de arranjar casamentos, pois tanto a afeição mútua dos jovens quanto o anuência dos pais teriam de ser presumidos somente depois. O caso era extraordinário e de modo algum deve servir de precedente.

Casamentos apressados muitas vezes causam arrependimento prolongado; e que consolo se pode esperar de um casamento feito ou por força ou por fraude? As virgens de Jabes-Gileade foram tomadas em meio a sangue e matança; estas de Siló, em meio à alegria e à diversão.

As primeiras tinham razão para agradecer por terem suas vidas como presa; e espera-se que as últimas, depois de algum tempo, não tivessem motivo de queixa, quando descobriram que se casaram não com homens de fortuna arruinada e desesperadora, como pareciam ser, recentemente trazidos de uma caverna, mas com homens das maiores e melhores propriedades da nação.

Assim devia ser, pois os bens de toda a tribo de Benjamim, que contava 45.600 homens (Números 26:41), seriam novamente divididos entre 600, que tinham tudo por direito de sobrevivência.

III. Os anciãos se comprometeram a apaziguar os pais dessas moças. Quanto à violação da autoridade paterna, eles facilmente perdoariam quando considerassem as boas propriedades com as quais suas filhas se casariam e que grandes mães em Israel elas provavelmente seriam. Talvez alguns, porém, de consciência sensível, se apegassem ao juramento de não dar suas filhas aos benjamitas.

Quanto a isso, poderiam se satisfazer com o seguinte: 1. A necessidade era urgente (v. 22): “Não reservamos para cada homem sua mulher”; reconheciam que agiram mal ao destruir todas as mulheres e desejavam reparar a interpretação rígida demais que deram ao voto de destruí-las, pela interpretação mais favorável do voto de não se casar com eles.

“E, portanto, por nossa causa, nós que fomos severos demais, deixem que eles fiquem com o que conseguiram.” Pois, 2. Estritamente falando, não era quebra do juramento: haviam jurado não lhes dar suas filhas, mas não juraram trazê-las de volta se fossem tomadas à força.

Assim, se houve culpa, os anciãos deviam responder por ela, não os pais. Quod fieri non debuit, factum valet — aquilo que não devia ter sido feito ainda assim vale depois de feito. O fato estava consumado e foi ratificado apenas por conivência, de acordo com a lei (Números 30:4).

Por fim, no encerramento de tudo, temos: 1. O restabelecimento da tribo de Benjamim. Os poucos que restaram voltaram à herança daquela tribo (v. 23). Pouco depois, dentre eles surgiu Eúde, célebre em sua geração, o segundo juiz de Israel (Juízes 3:15). 2. A desmobilização e dispersão do exército de Israel (v. 24).

Não estabeleceram um exército permanente, nem alegaram fazer quaisquer mudanças ou estabelecer novas instituições no governo; quando terminou o assunto para o qual haviam sido convocados, partiram tranquilamente sob a paz de Deus, cada homem para sua família.

Os serviços públicos não devem nos fazer pensar que estamos acima de nossos assuntos particulares e do dever de cuidar da nossa própria casa.

  1. A repetição da causa dessas confusões (v. 25). Embora Deus fosse o Rei deles, cada homem queria ser seu próprio senhor, como se não houvesse rei. Bendito seja Deus pela magistratura.

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