Josué 24
Argumento
Este capítulo encerra a vida e o governo de Josué. Nele temos:
I. O grande cuidado e empenho com que ele firmou o povo de Israel na fé e na adoração verdadeiras a Deus, para que perseverassem nelas depois de sua morte. Para isso, convocou outra assembleia geral dos líderes da congregação de Israel (v. 1) e tratou com eles:
Por meio de um relato, recordando as grandes coisas que Deus fizera por eles e por seus antepassados (vv. 2-13).
Por meio de uma exortação para que, em vista disso, servissem a Deus (v. 14).
Por meio de um tratado com o qual procura levá-los:
(1.) A escolher deliberadamente a religião; e eles o fizeram, apresentando razões para sua escolha (vv. 15-18).
(2.) A fazer dela uma escolha firme e decidida, resolvendo apegar-se a ela (vv. 19-24).
- Por meio de uma aliança firmada com base nesse tratado (vv. 25-28).
II. O encerramento desta história, com:
A morte e o sepultamento de Josué (v. 29, 30) e de Eleazar (v. 33), e a menção ao sepultamento dos ossos de José naquela ocasião (v. 32).
Um relato geral da situação de Israel naquele tempo (v. 31).
Versículos 1 a 14
A Despedida de Josué a Israel. (a.C. 1427.)
Josué pensava ter se despedido de Israel pela última vez com a exortação solene do capítulo anterior, quando disse: “Estou seguindo o caminho de toda a terra”. Mas Deus, em sua graça, prolongou-lhe a vida além do esperado e renovou suas forças; ele desejava usá-las para o bem de Israel.
Não disse: “Já me despedi deles uma vez; isso basta”. Como ainda recebeu mais tempo, convocou-os novamente para tentar fazer ainda mais por eles e comprometê-los com Deus. Repare: nunca devemos considerar concluído o nosso trabalho para Deus enquanto nossa vida não terminar.
Se ele prolonga nossos dias além do que esperávamos, devemos concluir que ainda há algum serviço para realizarmos. A assembleia era a mesma do capítulo anterior: os anciãos, os chefes, os juízes e os oficiais de Israel, v. 1. Mas aqui a reunião tem um caráter ainda mais solene.
I. O lugar escolhido para a reunião foi Siquém.
Além de ficar mais perto de Josué do que Siló, sendo portanto mais conveniente agora que estava fraco e sem condições de viajar, era o lugar em que Abraão, o primeiro depositário da aliança de Deus com aquele povo, se estabeleceu ao chegar a Canaã, e onde Deus lhe apareceu (Gênesis 12:6, 7).
Perto dali ficavam os montes Gerizim e Ebal, onde o povo renovara sua aliança com Deus ao chegar a Canaã (Josué 8:30). Aquele lugar poderia lembrá-los tanto das promessas que Deus fizera a seus antepassados quanto das promessas que eles mesmos haviam feito a Deus.
II. Na assembleia, eles se apresentaram não apenas diante de Josué, mas também diante de Deus.
Isto é, reuniram-se de maneira solene e religiosa, como quem entra na presença especial de Deus e espera que ele lhes fale por meio de Josué. É provável que o culto tenha começado com oração.
Os intérpretes conjecturam que, naquela ocasião solene, Josué mandou que os sacerdotes trouxessem a arca de Deus a Siquém — que, dizem, ficava a cerca de dez milhas de Siló — e a colocassem no local da reunião. Por isso o lugar é chamado de santuário do Senhor (v. 26): a presença da arca o tornou santo naquela ocasião.
Isso foi feito para dar honra à solenidade e inspirar reverência ao povo reunido. Hoje não temos sinais sensíveis da presença divina, mas devemos crer que, onde dois ou três se reúnem em nome de Cristo, ele está tão verdadeiramente no meio deles como Deus estava onde se encontrava a arca; de fato, ali eles se apresentam diante dele.
III. Josué lhes falou em nome de Deus, como vindo dele e na linguagem de um profeta (v. 2): “Assim diz o Senhor, Jeová, o grande Deus e Deus de Israel, seu Deus pela aliança, a quem, portanto, vocês estão obrigados a ouvir e atender”. Repare: devemos receber a Palavra de Deus como sendo dele, qualquer que seja o mensageiro que a transmite.
A grandeza do mensageiro não pode acrescentar nada à Palavra, e sua insignificância não pode diminuí-la. O discurso de Josué contém doutrina e aplicação.
- A parte doutrinária é um relato das grandes coisas que Deus fez pelo seu povo e pelos antepassados deles. Por meio de Josué, Deus recorda as maravilhas antigas: “Fiz isto e aquilo”. Eles devem saber e considerar não apenas que certas coisas aconteceram, mas que foi Deus quem as fez.
O relato traz uma série de maravilhas; talvez Josué tenha mencionado muitas outras, omitidas aqui por brevidade. Veja o que Deus realizou.
(1.) Ele tirou Abraão de Ur dos caldeus, v. 2, 3. Abraão e seus antepassados haviam servido a outros deuses naquela região.
Embora célebre por seu saber, alguns pensam que foi ali que a idolatria surgiu; naquele lugar, o mundo, por meio da sabedoria, não conheceu a Deus. Abraão, que depois se tornou amigo de Deus e grande favorito dos céus, foi criado na idolatria e nela viveu por muito tempo, até que Deus, por sua graça, o arrancou como um tição do fogo.
Que se lembrem da rocha da qual foram cortados e não recaiam no pecado do qual seus antepassados foram libertos por um milagre da graça gratuita. “Eu o tomei”, diz Deus, “pois, do contrário, ele jamais teria saído daquele estado pecaminoso”. Por isso o apóstolo apresenta a justificação de Abraão como exemplo de Deus justificar o ímpio (Romanos 4:5).
(2.) Deus o levou a Canaã e edificou sua família: conduziu-o pela terra até Siquém, onde estavam reunidos, multiplicou sua descendência por meio de Ismael, que gerou doze príncipes, mas finalmente lhe deu Isaque, o filho prometido, e por meio dele multiplicou sua descendência.
Quando Isaque teve dois filhos, Jacó e Esaú, Deus providenciou uma herança para Esaú em outro lugar, no monte Seir, para que a terra de Canaã fosse reservada por inteiro à descendência de Jacó e os descendentes de Esaú não pudessem reivindicar uma parte dela.
(3.) Deus libertou com mão poderosa a descendência de Jacó do Egito (v. 5, 6) e a resgatou das mãos do faraó e de seu exército no mar Vermelho, v. 6, 7. As mesmas águas protegeram os israelitas e serviram de sepultura aos egípcios.
Isso aconteceu em resposta à oração, pois, embora o relato nos mostre que, naquela aflição, eles murmuraram contra Deus (Êxodo 14:11, 12), aqui se registra que clamaram a Deus. Ele aceitou graciosamente os que oraram e deixou passar a insensatez dos que se desentenderam com ele.
(4.) Deus os protegeu no deserto, onde, segundo este texto, não vagaram, mas habitaram por muito tempo, v. 7. Seus movimentos foram dirigidos com tanta sabedoria e eles foram protegidos com tanta segurança que, mesmo ali, tinham uma morada tão certa como se estivessem numa cidade murada.
(5.) Deus lhes deu a terra dos amorreus do outro lado do Jordão (v. 8) e frustrou a trama de Balaque e Balaão contra eles. Balaão não pôde amaldiçoá-los como desejava; por isso Balaque não ousou lutar contra eles como planejara, embora seja dito aqui que o fez, visto que era essa a sua intenção.
Fazer a língua de Balaão voltar-se para abençoar Israel, quando ele pretendia amaldiçoá-lo, é frequentemente mencionado como exemplo do poder divino exercido em favor de Israel. É tão notável quanto qualquer outro, porque nele Deus demonstrou — e ainda demonstra, muito mais do que percebemos — seu domínio sobre os poderes das trevas e sobre os espíritos dos homens.
(6.) Deus os conduziu em segurança e triunfo até Canaã e entregou os cananeus nas mãos deles (v. 11). Enviou vespões adiante deles quando os israelitas travaram batalha contra o inimigo; com suas picadas, os atormentaram e, com o zumbido, os aterrorizaram, tornando-os presa fácil para Israel.
Esses enxames terríveis de insetos apareceram primeiro na guerra contra Seom e Ogue, os dois reis amorreus, e depois nas demais batalhas, v. 12. Deus lhes prometera fazer isso (Êxodo 23:27, 28), e Josué destaca o cumprimento dessa promessa. Veja Êxodo 23:27, 28; Deuteronômio 7:20. Ao que parece, os vespões afligiram o inimigo mais do que as armas de Israel.
Por isso acrescenta: “não com a tua espada, nem com o teu arco”. A obra foi inteiramente do Senhor. Por fim, já viviam em paz na posse de uma boa terra e desfrutavam confortavelmente o fruto do trabalho de outros, v. 13.
- A aplicação desse relato das misericórdias de Deus para com eles é uma exortação a temer e servir a Deus, em gratidão pelo favor recebido e para que ele continuasse, v. 14. Portanto, em vista de tudo isso:
(1.) Temam o Senhor, o Senhor e a sua bondade (Oseias 3:5). “Reverenciem um Deus de poder infinito; tenham medo de ofendê-lo e perder sua bondade. Conservem o temor de sua majestade, o respeito por sua autoridade, o receio de seu desagrado e a lembrança constante de que seus olhos veem tudo.”
(2.) “Que a prática de vocês esteja de acordo com esse princípio: sirvam-no tanto por meio dos atos exteriores de adoração quanto por cada gesto de obediência em toda a conduta, com sinceridade e verdade, com olhar indiviso e coração reto, e com impressões interiores à altura das demonstrações exteriores”.
Essa é a verdade no íntimo, que Deus exige (Salmos 51:6). De que nos adiantaria fingir diante de um Deus que sonda o coração?
(3.) Abandonem os deuses estranhos, tanto os ídolos dos caldeus como os do Egito, pois era a eles que corriam maior risco de voltar a servir.
Pelo que indica essa ordem, repetida no v. 23, alguns guardavam escondidas em seus aposentos imagens ou figuras desses deuses de esterco, relíquias de família herdadas de seus antepassados, embora talvez não as adorassem. Josué insiste para que as joguem fora: “Desfigurem-nas e destruam-nas, para não serem tentados a servi-las”.
Jacó também insistiu que sua família fizesse isso, naquele mesmo lugar, pois, quando lhe entregaram os pequenos ídolos que possuíam, ele os enterrou debaixo do carvalho que ficava junto a Siquém (Gênesis 35:2, 4). Talvez o carvalho mencionado aqui (v. 26) fosse o mesmo ou outro no mesmo lugar.
Poderia muito bem ser chamado de carvalho da reforma, pois havia carvalhos dedicados à idolatria.
Versículos 15 a 28
Nunca houve um tratado negociado com maior habilidade nem levado a melhor resultado do que o que Josué firmou com o povo, para levá-lo a servir a Deus. A maneira como lidou com eles mostra que falava muito a sério e que desejava, de todo o coração, deixá-los sob todas as obrigações possíveis de permanecerem apegados a Deus, especialmente a obrigação de escolher e a de firmar uma aliança.
I. Seria uma obrigação para eles se escolhessem servir a Deus? Josué os chama a escolher, não como se antes disso fosse indiferente servir a Deus ou como se tivessem liberdade para recusar seu serviço, mas porque a perseverança na religião seria muito favorecida se a abraçassem com a razão e a resolução próprias dos seres humanos. Ele os conduz a essas duas coisas.
- Ele os leva a abraçar sua religião com razão e entendimento, pois ela é um serviço racional. A vontade humana tende a se orgulhar de sua liberdade natural e, zelosa por sua honra, adere com mais prazer ao que escolhe por si mesma e não lhe é imposto. Por isso, é da vontade de Deus que esse serviço seja nossa escolha, e não obra do acaso nem algo forçado sobre nós. Assim:
(1.) Josué lhes apresenta a escolha com franqueza, v. 15. Aqui:
[1.] Ele apresenta os candidatos à eleição. De um lado, o Senhor, Jeová; do outro, ou os deuses de seus antepassados, que alegariam ter a seu favor a antiguidade e as tradições recebidas dos pais, ou os deuses dos amorreus, seus vizinhos, que tentariam conquistar os complacentes e os que apreciavam a boa companhia.
[2.] Ele supõe que alguns considerariam ruim servir ao Senhor por algum motivo. Há preconceitos e objeções que algumas pessoas levantam contra a religião e que exercem grande força sobre os que se inclinam para o mundo e a carne. Para eles, parece ruim, difícil e irracional ter de negar a si mesmos, mortificar a carne, carregar a cruz etc.
Mas, como estão num período de provação, é justo que encontrem algumas dificuldades pelo caminho; caso contrário, não haveria prova.
[3.] Ele deixa a decisão com eles: “Escolham a quem querem servir. Escolham hoje, agora que a questão foi exposta com clareza; decidam logo e não continuem hesitando”. Muito tempo depois, Elias deixou a decisão entre o Senhor e Baal à consciência daqueles com quem conversava (1 Reis 18:21). Ao levar a questão a esse ponto, Josué deixa claramente implícitas duas coisas.
Primeiro, Deus quer que cada um de nós faça da religião uma escolha séria e ponderada. Examinemos a questão com imparcialidade, pesemos os fatores numa balança justa e escolhamos o que descobrirmos ser realmente verdadeiro e bom. Resolvamos viver com devoção séria, não apenas por não conhecermos outro caminho, mas porque, depois de examinar, vemos que nenhum outro é melhor.
Segundo, a religião tem tanta razão e retidão evidentes a seu favor que pode ser submetida com segurança à escolha de qualquer pessoa que se permita pensar livremente, para aceitá-la ou recusá-la. Os méritos da causa são tão claros que ninguém ponderado pode deixar de escolhê-la. O caso é tão evidente que se decide por si mesmo.
Talvez Josué quisesse, ao lhes dar essa escolha, descobrir se alguém, diante de uma ocasião tão favorável, demonstraria frieza e indiferença pelo serviço de Deus, pedindo tempo para pensar ou consultar os amigos antes de responder. Se alguém se manifestasse assim, Josué poderia assinalá-lo e advertir os demais a evitá-lo.
[4.] Ele orienta a escolha declarando abertamente a própria resolução: “Mas, quanto a mim e à minha casa, façam vocês o que fizerem, serviremos ao Senhor; espero que todos pensem do mesmo modo”. Primeiro, ele decide por si mesmo: “Quanto a mim, servirei ao Senhor”. Repare: o serviço de Deus não está abaixo dos homens mais importantes.
Longe de diminuir e desonrar príncipes e pessoas da alta posição, a religião é a maior honra deles e acrescenta a coroa mais brilhante à sua glória. Observe como ele fala com firmeza: “Servirei a Deus”. Vincular-nos a Deus por um compromisso não restringe nossa liberdade.
Segundo, decide por sua casa, isto é, por sua família, filhos e servos, os que estavam diretamente sob seus olhos e cuidados, sua supervisão e influência. Josué era governador e juiz de Israel, mas não usava a atenção necessária aos assuntos públicos como desculpa para negligenciar a religião em família.
Os que cuidam de muitas famílias, como magistrados e ministros, devem zelar de maneira especial pela própria casa (1 Timóteo 3:4, 5): “Eu e a minha casa serviremos a Deus”.
“Não a minha casa sem mim”. Ele não os empenharia numa tarefa à qual não se dedicaria pessoalmente. Alguns querem filhos e servos bons, mas não querem ser bons: querem que eles vão para o céu, embora pretendam ir para o inferno.
“Nem eu sem a minha casa”.
Josué supõe que seu povo poderia abandoná-lo, mas, dentro de sua casa, onde sua autoridade era maior e mais direta, ela se sobreporia. Repare:
Quando não conseguimos levar tantas pessoas quanto gostaríamos ao serviço de Deus, devemos levar tantas quantas pudermos e estender nossos esforços até o limite do nosso campo de ação. Se não podemos reformar a terra, afastemos a iniquidade de nossa própria tenda.
- “Primeiro eu, depois a minha casa”. Repare: os que lideram e governam em outras áreas devem ser os primeiros no serviço de Deus e dar o exemplo nas melhores coisas. Terceiro, ele resolve agir assim independentemente do que os outros fizerem.
Mesmo que todas as famílias de Israel se rebelassem contra Deus e servissem aos ídolos, Josué e sua família permaneceriam firmes junto ao Deus de Israel. Repare: os que decidem servir a Deus não devem se importar em ser diferentes nem se deixar levar pela multidão a abandonar seu serviço.
Os que caminham rumo ao céu devem estar dispostos a nadar contra a correnteza: não devem fazer o que a maioria faz, mas o que fazem os melhores.
(2.) Depois de submetê-los à escolha, eles decidem imediatamente, de modo livre, racional e consciente, em favor do Deus de Israel e contra todos os rivais, vv. 16-18. Aqui:
[1.] Eles concordam com a resolução de Josué, influenciados pelo exemplo de um homem tão importante que fora uma grande bênção para eles (v. 18): “Nós também serviremos ao Senhor”. Veja quanto bem os grandes homens poderiam fazer se fossem zelosos na religião e influenciassem seus subordinados.
[2.] Eles se assustam ao pensar em apostatar de Deus (v. 16): “Deus nos livre!”
Essas palavras indicam o maior temor e a maior repulsa possíveis. “Longe de nós, longe de nós, que nós ou os nossos abandonemos o Senhor para servir a outros deuses. Teríamos de perder todo senso de justiça, gratidão e honra para sequer alimentar tal pensamento”.
Assim nosso coração deve se revoltar contra toda tentação de abandonar o serviço de Deus: “Para trás de mim, Satanás!”
[3.] Eles apresentam razões muito substanciais para a escolha, mostrando que não a fizeram apenas para agradar Josué, mas por plena convicção da razoabilidade e da justiça dela. Escolhem assim em consideração a:
Primeiro, as muitas coisas grandiosas e muito bondosas que Deus fez por eles, tirando-os do Egito, conduzindo-os pelo deserto e levando-os a Canaã, v. 17, 18. Assim, repetem para si mesmos o sermão de Josué e depois declaram concordar sinceramente com a intenção dele.
Segundo, a relação que tinham com Deus e a aliança dele com eles: “Serviremos ao Senhor, pois ele é o nosso Deus” (v. 18), que graciosamente se comprometeu conosco por promessa e a quem nós, por solene juramento, também nos comprometemos.
- Josué os leva a abraçar resolutamente a religião e a expressar de coração o firme propósito de permanecer apegados ao Senhor. Agora que estão dispostos, ele dá sequência ao golpe e finca o prego até a cabeça, para que, se possível, fique bem preso. “Prenda bem para encontrar depois.”
(1.) Para isso, ele lhes apresenta as dificuldades da religião e aquilo que poderia desanimá-los (v. 19, 20): “Vocês não podem servir ao Senhor, pois ele é Deus santo”; ou, como diz o hebraico, “ele é os deuses santos”, expressão que indica o mistério da Trindade, três em um: santo, santo, santo; Pai santo, Filho santo, Espírito Santo. “Ele não perdoará. Se o abandonarem, ele lhes fará mal”.
Certamente Josué não pretende dissuadi-los do serviço a Deus, como se fosse impossível e perigoso. Mas:
[1.] Talvez queira expor as sugestões dos sedutores que tentavam afastar Israel de Deus e de seu serviço: diziam que ele era um senhor severo, que era impossível cumprir sua obra e agradá-lo e que, se fosse contrariado, era implacável e vingativo.
Também alegavam que ele reservava para si toda a atenção e não permitia que demonstrassem a menor bondade a qualquer outro; por isso, seria muito diferente dos deuses das nações, brandos, nada santos nem ciumentos.
É provável que essa objeção fosse levantada com frequência contra a religião judaica, pois esse tem sido o artifício de Satanás desde que tentou nossos primeiros pais, deturpando Deus e suas leis como se fossem severos e duros. Talvez o tom e o modo de falar de Josué mostrassem que ele apresentava aquilo como uma objeção e lhes perguntava como resistiriam à sua força.
Ou, [2.] ele expressa seu santo zelo por eles e seu temor de que, apesar da atual profissão de fervor por Deus e seu serviço, viessem a retroceder e, se o fizessem, descobrissem que Deus é justo e zeloso para vingar-se.
Ou, [3.] ele decide informá-los do pior e das condições rigorosas em que teriam de se apresentar diante de Deus, para que calculassem o custo.
“Vocês não podem servir ao Senhor sem abandonar todos os outros deuses, pois ele é santo e zeloso e não admite rival algum. Por isso, precisam ser muito vigilantes e cuidadosos; se abandonarem o serviço dele, correrão perigo. Melhor seria nunca o terem conhecido”.
Embora nosso Mestre tenha garantido que seu jugo é suave, para que não fiquemos relaxados e descuidados, também nos disse que estreita é a porta e apertado o caminho que conduz à vida, para que nos esforcemos por entrar, em vez de apenas procurar. “Vocês não podem servir a Deus e a Mamom. Portanto, se decidirem servir a Deus, terão de renunciar a todos os rivais dele.”
“Vocês não podem servir a Deus com as próprias forças, e ele não perdoará suas transgressões por causa de alguma justiça própria. Toda a descendência de Israel precisa ser justificada e gloriar-se somente no Senhor, sua justiça e sua força” (Isaías 45:24, 25). Precisam, portanto, abandonar toda confiança na própria capacidade; do contrário, suas resoluções serão inúteis.
Ou, [4.] Josué insiste nas aparentes dificuldades que encontrariam para aguçar a resolução deles e arrancar-lhes uma promessa ainda mais explícita e solene de que permaneceriam fiéis a Deus e à religião. Ele os leva a prometer para que assumam esse compromisso com maior empenho e o mantenham com mais firmeza.
(2.) Apesar dessa exposição das dificuldades da religião, eles declaram uma resolução firme e inabalável de continuar e perseverar nela (v. 21): “Não! Nós serviremos ao Senhor. Não pensaremos menos dele por ser Deus santo e zeloso, nem por exigir que seus servos adorem somente a ele. É justo que consuma os que o abandonam, mas nós jamais o abandonaremos.”
“Não apenas desejamos servi-lo e esperamos fazê-lo; já decidimos. Não suportamos ouvir qualquer pedido para deixá-lo ou parar de segui-lo (Rute 1:16). Pela força da graça divina, estamos resolvidos a servir ao Senhor.”
Eles repetem essa resolução, agora explicada (v. 24): “Serviremos ao Senhor, nosso Deus; não seremos apenas chamados de servos dele nem usaremos seu uniforme, mas nossa religião governará tudo, e obedeceremos à sua voz”. Em vão o chamamos de Mestre e Senhor se não fazemos o que ele diz (Lucas 6:46). Essa última promessa responde à ordem que Josué lhes dera (v. 23), que, para perseverarem, era:
[1.] Que jogassem fora as imagens e relíquias dos deuses estranhos e não conservassem nenhum sinal daqueles outros amantes, se decidiram que seu Criador seria seu marido. Quanto a isso, prometem obedecer à voz dele.
[2.] Que inclinassem o coração ao Deus de Israel, exercendo autoridade sobre o próprio coração para comprometê-lo com Deus. Não apenas dedicariam a ele suas afeições, mas as firmariam nele. Eles aceitam essas condições e, assim, como Josué explica o negócio, firmam-no: “Serviremos ao Senhor, nosso Deus”.
II. Como o serviço de Deus se tornou, assim, uma escolha deliberada deles, Josué os vincula a ela por meio de uma aliança solene, v. 25. Moisés ratificara publicamente essa aliança entre Deus e Israel duas vezes: no monte Sinai (Êxodo 24) e nas planícies de Moabe (Deuteronômio 29:1). Josué também já a ratificara uma vez (Josué 8:31 etc.) e agora o faz pela segunda vez.
Ela é chamada de estatuto e ordenança por causa da força e da permanência de sua obrigação, e porque os vinculava apenas ao que já estavam obrigados a cumprir por mandamento divino.
Para formalizar a aliança:
- Josué chama testemunhas, que são eles mesmos (v. 22): “Vocês são testemunhas de que escolheram o Senhor”. Espera que jamais se esqueçam da solenidade daquele dia; mas, se um dia romperem a aliança, as declarações e promessas que fizeram certamente se levantarão para julgá-los e condená-los.
Eles concordam: “Somos testemunhas; que sejamos julgados pela nossa própria boca, se algum dia formos infiéis ao nosso Deus”.
- Ele põe a aliança por escrito e a inclui, como vemos aqui, no cânon sagrado: escreveu-a no livro da lei (v. 26), no original guardado ao lado da arca. De lá, provavelmente, foi copiada nos exemplares que os líderes tinham para uso de cada tribo.
Ficou escrita ali para que permanecessem juntas no registro tanto a obrigação religiosa imposta pelo preceito divino como aquela assumida pela própria promessa do povo.
- Ergue um memorial da aliança em benefício dos que talvez não tivessem familiaridade com escritos, v. 26, 27.
Põe uma grande pedra debaixo de um carvalho, como monumento daquela aliança, e talvez escreva nela uma inscrição — por meio da qual as pedras falam — indicando a finalidade do monumento. Quando Josué diz que a pedra ouviu tudo o que se passou, censura indiretamente a dureza do coração do povo, como se ela tivesse ouvido tão bem quanto alguns deles.
Se esquecessem o que fora feito naquela ocasião, aquela pedra conservaria a lembrança para censurar sua insensatez e seu descuido e servir de testemunha contra eles.
Resolvida a questão, Josué despede aquela assembleia de autoridades de Israel (v. 28) e se despede deles pela última vez, satisfeito por ter cumprido sua parte e livrado a própria alma. Se perecessem, o sangue seria sobre a cabeça deles.
Versículos 29 a 33
A Morte de Josué. (a.C. 1427.)
Este livro começou com triunfos e termina com funerais, que mancham toda a glória humana. Temos aqui:
- O sepultamento de José, v. 32. Ele morreu no Egito cerca de duzentos anos antes, mas dera ordem a respeito de seus ossos: não deveriam descansar na sepultura enquanto Israel não descansasse na terra prometida.
Por isso, os israelitas, que haviam trazido do Egito aquele caixão cheio de ossos, levaram-no consigo em todas as marchas pelo deserto — provavelmente as tribos de Efraim e Manassés cuidaram dele de modo especial — e o mantiveram no acampamento até que Canaã fosse completamente conquistada.
Por fim, depositaram-no naquele pedaço de terra que seu pai lhe dera perto de Siquém (Gênesis 48:22). É provável que tenha sido nessa ocasião que Josué convocou todo o Israel para se reunir em Siquém (v. 1), a fim de acompanhar o caixão de José até a sepultura. Assim, o discurso deste capítulo serviu tanto de sermão fúnebre para José como de despedida de Josué.
Se, como se supõe, isso aconteceu no último ano da vida de Josué, a ocasião bem poderia tê-lo lembrado de que sua própria morte estava próxima. Ele estava exatamente com a mesma idade que seu ilustre antepassado José tinha ao morrer: 110 anos. Compare o v. 29 com Gênesis 50:26.
- A morte e o sepultamento de Josué, v. 29, 30.
Não nos dizem quanto tempo viveu depois de Israel chegar a Canaã. O dr. Lightfoot pensa que foram cerca de dezessete anos; os cronologistas judeus, porém, geralmente dizem que foram vinte e sete ou vinte e oito anos. Ele é chamado aqui de servo do Senhor, o mesmo título dado a Moisés (Josué 1:1) quando se mencionou sua morte.
Embora Josué fosse inferior a Moisés em muitos aspectos, neste foi igual a ele: conforme a obra que recebeu, mostrou-se servo diligente e fiel de Deus. O servo que negociou com seus dois talentos recebeu a mesma aprovação que aquele que negociou com cinco: “Muito bem, servo bom e fiel”.
Diz-se aqui que o lugar do sepultamento de Josué ficava ao norte do monte Gaás, ou monte do tremor. Os judeus dizem que recebeu esse nome porque tremeu quando Josué foi sepultado, para repreender a insensibilidade do povo de Israel, que não lamentou como devia a morte daquele homem grande e bom. Assim também, por ocasião da morte de Cristo, nosso Josué, a terra tremeu.
O erudito bispo Patrick observa que não se mencionam dias de luto por Josué, como se mencionam por Moisés e Arão.
Segundo ele, São Jerônimo e outros pais da Igreja veem nisso um mistério: sob a lei, quando a vida e a imortalidade ainda não tinham sido reveladas com tanta clareza como agora, havia razão para lamentar e chorar a morte dos amigos; mas, agora que Jesus, nosso Josué, abriu o reino dos céus, podemos antes nos alegrar.
- A morte e o sepultamento de Eleazar, o sumo sacerdote, que provavelmente morreu por volta da mesma época que Josué, assim como Arão morreu no mesmo ano que Moisés, v. 33. Os judeus dizem que, pouco antes de morrer, Eleazar reuniu os anciãos e lhes deu uma exortação, como Josué fizera. Ele foi sepultado numa colina que pertencia a Fineias, seu filho.
A colina não veio a Fineias por herança, pois, nesse caso, teria pertencido primeiro a seu pai; os sacerdotes tampouco tinham cidades no monte Efraim.
Talvez coubesse a Fineias por casamento, como conjecturam os judeus, ou algum israelita piedoso, favorável ao sacerdócio, a tenha doado para que construísse ali uma casa de campo, pois se diz que foi dada a ele. Ali Fineias sepultou seu querido pai.
- Um panorama geral da situação de Israel naquela época, v. 31. Enquanto Josué viveu, a religião foi mantida entre eles sob seu cuidado e influência; mas, pouco depois de sua morte e da de seus contemporâneos, entrou em decadência. Tanta coisa pode, muitas vezes, ser sustentada por um só líder.
Como é bom para a igreja do evangelho que Cristo, nosso Josué, continue com ela por meio de seu Espírito e esteja sempre conosco, até o fim do mundo!