Matthew Henry

Jonas 1

Argumento

Jonas

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA JONAS.

Este livro de Jonas, embora esteja colocado aqui no meio dos livros proféticos da Escritura, é, contudo, mais uma história do que uma profecia. Há nele uma linha de predição: “Ainda quarenta dias, e Nínive será derrubada”. O restante do livro é uma narrativa do que antecedeu essa predição e das suas consequências.

No meio das profecias obscuras anteriores e posteriores a este livro, nas quais há muitas coisas escuras e difíceis de entender, que confundem os eruditos e são alimento sólido para homens fortes, aparece esta história simples e agradável, que entretém os mais fracos e é leite para criancinhas.

Provavelmente o próprio Jonas escreveu este livro. Ele, assim como Moisés e outros escritores inspirados, registra as suas próprias faltas, o que evidencia que nesses escritos tinham por desígnio a glória de Deus, e não a sua própria.

Lemos sobre este mesmo Jonas em 2 Reis 14:25, onde descobrimos que era de Gate-Héfer, na Galileia, cidade que pertencia à tribo de Zebulom, num canto distante da terra de Israel. Pois o Espírito, que, como o vento, sopra onde quer, encontrará Jonas na Galileia com a mesma facilidade que Isaías em Jerusalém.

Descobrimos também que ele foi um mensageiro de misericórdia para Israel no reinado de Jeroboão II. Pois o sucesso das suas armas na restauração dos limites de Israel é apresentado como conforme à palavra do Senhor, que falou pela mão do seu servo Jonas, o profeta.

Essas profecias não foram registradas por escrito, mas esta contra Nínive foi, principalmente por causa da história que depende dela. Essa história é registrada principalmente por causa de Cristo, de quem Jonas era um tipo.

Ela também contém exemplos muito notáveis da fraqueza humana em Jonas e da misericórdia de Deus, tanto ao perdoar pecadores arrependidos, como testemunha Nínive, quanto ao suportar santos que resmungam, como testemunha Jonas.

Neste capítulo temos:

I. Uma ordem dada a Jonas para pregar em Nínive, v. 1, 2.

II. A desobediência de Jonas a essa ordem, v. 3.

III. A sua perseguição e prisão por essa desobediência, por meio de uma tormenta durante a qual estava dormindo, vv. 4-6.

IV. A descoberta de que ele e a sua desobediência eram a causa da tormenta, vv. 7-10.

V. O seu lançamento ao mar para acalmar a tormenta, vv. 11-16.

VI. A preservação milagrosa da sua vida ali, no ventre de um peixe (v. 17), que foi a sua reserva para serviços ulteriores.

Versículos 1 a 3

Uma Comissão contra Nínive; A Desobediência do Profeta. (a.C. 840.)

Observe:

  1. A honra que Deus conferiu a Jonas ao lhe dar uma comissão para ir profetizar contra Nínive. Jonas significa pomba, nome apropriado para todos os profetas de Deus, todo o seu povo, que devem ser inofensivos como pombas e gemer como pombas pelos pecados e calamidades da terra.

O nome do seu pai era Amitai, Minha verdade, pois os profetas de Deus devem ser filhos da verdade. A ele veio a palavra do Senhor, a ele ela foi, como a palavra significa. Pois a palavra de Deus é uma coisa real. As palavras dos homens são apenas vento, mas as palavras de Deus são substância.

Ele havia antes conhecido a palavra do Senhor e distinguia a voz dele da de um estranho. As ordens que agora lhe foram dadas eram: “Levanta-te, vai a Nínive, aquela grande cidade”, v. 2.

Nínive era nessa época a metrópole da monarquia assíria, uma cidade eminente (Gênesis 10:11), uma grande cidade, aquela grande cidade, com quarenta e oito milhas de circunferência, que alguns calculam muito maior.

Era grande no número dos habitantes, como se vê pela multidão de crianças nela (Jonas 4:11), grande em riqueza, pois não havia fim do seu tesouro (Naum 2:9), grande em poder e domínio. Era a cidade que por algum tempo governou os reis da terra.

Mas grandes cidades, assim como grandes homens, estão sob o governo e o julgamento de Deus. Nínive era uma grande cidade e, contudo, uma cidade pagã, sem o conhecimento e o culto do Deus verdadeiro. Quantas grandes cidades e grandes nações existem que estão sentadas nas trevas e no vale da sombra da morte!

Essa grande cidade era uma cidade perversa: A sua maldade subiu diante de mim, ou a sua malícia, como alguns leem. A sua maldade era presunçosa, e pecavam com mão levantada.

É triste pensar na grande quantidade de pecado cometido em grandes cidades, onde há muitos pecadores, que não só são todos pecadores, mas fazem uns aos outros pecar.

A sua maldade subiu, isto é, chegou a um grau elevado, ao ponto mais alto. A sua medida está cheia até a borda. A sua maldade subiu, como a de Sodoma, Gênesis 18:20, 21.

Subiu diante de mim, à minha face, como diz a palavra. É uma afronta ousada e aberta a Deus. É pecar contra ele, diante dos seus olhos. Por isso Jonas deve clamar contra ela. Deve testemunhar contra a sua grande maldade e avisá-los da destruição que estava vindo sobre eles por causa dela.

Deus está saindo contra ela e envia Jonas adiante para proclamar guerra e soar o alarme. Clame em alta voz, não poupe. Ele não deve sussurrar a sua mensagem num canto, mas publicá-la nas ruas de Nínive. Quem tem ouvidos ouça o que Deus tem a dizer pelo seu profeta contra aquela cidade perversa.

Quando o clamor do pecado sobe a Deus, o clamor da vingança sai contra o pecador. Ele deve ir a Nínive e clamar ali, no próprio lugar, contra a sua maldade.

Outros profetas receberam ordens de enviar mensagens às nações vizinhas, e a profecia de Naum é particularmente o peso de Nínive. Mas Jonas deve ir levar a mensagem pessoalmente.

“Levanta-te depressa; aplica-te ao trabalho com rapidez e coragem, e com a resolução que convém a um profeta; levanta-te e vai a Nínive.”

Aqueles que vão a serviço de Deus devem levantar-se e ir, devem pôr-se em movimento para o trabalho que lhes foi destinado. Os profetas foram enviados primeiro às ovelhas perdidas da casa de Israel, contudo não só a elas. Elas tinham o pão dos filhos, mas Nínive come das migalhas.

  1. A desonra que Jonas fez a Deus ao se recusar a obedecer às suas ordens e a ir cumprir a missão para a qual foi enviado (v. 3). Mas Jonas, em vez de se levantar para ir a Nínive, levantou-se para fugir a Társis, para o mar, sem ter nenhum porto como destino, mas desejoso de se afastar da presença do Senhor.

E, se ao menos pudesse fazer isso, não se importava para onde ia. Não que pensasse poder ir a algum lugar fora do olhar da inspeção de Deus, mas fora da sua presença especial, do espírito de profecia, pelo qual, quando o impeliu a esse trabalho, julgava-se perseguido e desejava escapar de ouvi-lo.

Alguns pensam que Jonas seguiu a opinião de alguns judeus de que o espírito de profecia estava limitado à terra de Israel, o que em Ezequiel e Daniel foi efetivamente demonstrado ser um erro. Por isso esperava livrar-se dele se ao menos pudesse sair dos limites daquela terra.

(1.) Jonas não quis ir a Nínive clamar contra ela, ou porque a viagem era longa e perigosa, por um caminho que não conhecia, ou porque temia que expor uma mensagem tão desagradável àquela grande e poderosa cidade lhe custasse a vida.

Ele consultou a carne e o sangue e recusou a embaixada porque não podia ir em segurança, ou porque tinha zelo pelas prerrogativas do seu país e não queria que nenhuma outra nação partilhasse a honra da revelação divina.

Temia que fosse o começo da remoção do reino de Deus dos judeus para outra nação, que produziria mais dos seus frutos. Ele próprio reconhece (Jonas 4:2) que o motivo da sua aversão à viagem era prever que os ninivitas se arrependeriam e Deus os perdoaria e acolheria no seu favor.

Isso seria uma mancha para o povo de Israel, que durante tanto tempo havia sido um povo peculiar para Deus.

(2.) Por isso foi para Társis, para Tarso, na Cilícia, segundo alguns, provavelmente porque tinha amigos e parentes ali, com quem esperava permanecer por algum tempo. Foi a Jope, famoso porto marítimo na terra de Israel, em busca de um navio destinado a Társis, e encontrou um.

A Providência parecia favorecer o seu desígnio e lhe dar uma oportunidade de escapar. Podemos estar fora do caminho do dever e, contudo, podemos encontrar um vento favorável. O caminho disponível nem sempre é o caminho certo.

Encontrou o navio talvez exatamente prestes a levantar âncora e partir para Társis, e assim não perdeu tempo. Ou talvez tenha ido a Társis porque encontrou o navio indo para lá. De outro modo, todos os lugares lhe eram iguais.

Não se julgava fora do seu caminho, o caminho por onde queria ir, contanto que não estivesse no seu caminho, o caminho por onde deveria ir. Assim pagou a passagem, pois não se importava com a despesa, contanto que ao menos pudesse conseguir o seu intento e distanciar-se da presença do Senhor.

Foi com eles, com os marinheiros, com os passageiros, com os mercadores, quem quer que fossem os que estavam indo a Társis. Jonas, esquecendo tanto a sua dignidade quanto o seu dever, juntou-se a eles como a um rebanho e desceu ao navio para ir com eles a Társis.

Veja o que os melhores homens são quando Deus os deixa entregues a si mesmos, e a necessidade que temos, quando a palavra do Senhor vem a nós, de que o Espírito do Senhor venha junto com a palavra, para trazer todos os pensamentos dentro de nós à obediência a ela.

O profeta Isaías reconhece que, por isso, não foi rebelde nem voltou atrás, porque Deus não só falou com ele, mas abriu o ouvido dele, Isaías 50:5.

Aprendamos daqui a deixar de confiar no homem e a não confiar demais ou em nós mesmos ou nos outros num tempo de provação. Mas aquele que pensa estar de pé tome cuidado para não cair.

O Profeta na Tormenta; O Profeta Declarado Culpado pela Sorte. (a.C. 840.)

Versículos 4 a 10

Quando Jonas estava a bordo e navegando para Társis, julgava-se suficientemente seguro. Mas aqui o encontramos perseguido e alcançado, descoberto e declarado culpado como desertor de Deus, como alguém que havia abandonado a sua bandeira.

I. Deus envia um perseguidor atrás dele, uma poderosa tempestade no mar, v. 4. Deus tem os ventos no seu tesouro (Salmos 135:7), e desses tesouros Deus enviou, lançou, como diz a palavra, com força e violência, um grande vento ao mar.

Até os ventos tempestuosos cumprem a sua palavra e frequentemente são os mensageiros da sua cólera. Ele reúne os ventos no seu punho (Provérbios 30:4), onde os segura e de onde os espreme quando quer. Pois, embora, quanto a nós, o vento sopre onde quer, contudo, quanto a Deus, não é assim, mas onde ele dirige.

O efeito desse vento foi uma poderosa tempestade, pois, quando os ventos se levantam, as ondas se levantam. Repare: O pecado traz tormentas e tempestades à alma, à família, às igrejas e às nações. É uma coisa inquietante e perturbadora.

A tempestade conseguiu tal força que era provável que o navio se quebrasse. Os marinheiros não esperavam outra coisa. Aquele navio, como alguns leem, aquele e nenhum outro.

Outros navios estavam no mesmo mar ao mesmo tempo, contudo, ao que parece, aquele navio em que Jonas estava foi mais sacudido que qualquer outro e estava em maior perigo.

Esse vento foi enviado atrás de Jonas para trazê-lo de volta a Deus e ao seu dever. E é uma grande misericórdia sermos recuperados e chamados de volta para casa quando nos desviamos, embora seja por uma tempestade.

II. A tripulação do navio ficou alarmada com essa poderosa tempestade, mas somente Jonas, a pessoa diretamente envolvida, não se preocupava, v. 5. Os marinheiros foram afetados pelo seu perigo, embora não fosse com eles que Deus tem essa controvérsia:

  1. Estavam com medo. Embora o seu trabalho os levasse a conhecer muito os perigos desse tipo, e costumassem fazer pouco caso deles, contudo agora os mais velhos e robustos começaram a tremer. Percebiam haver algo além do comum nessa tempestade, tão repentinamente ela se levantou e tão fortemente se enfureceu.

Repare: Deus pode infundir terror nos mais ousados e fazer até grandes homens e principais capitães pedir abrigo às rochas e montanhas.

  1. Clamavam cada um ao seu deus. Esse era o efeito do seu medo. Muitos não serão levados à oração até serem assustados a ponto de fazê-lo. Quem quiser aprender a orar, vá para o mar. “Senhor, na aflição te visitaram.”

Cada um deles orou. Não eram alguns orando e outros vituperando, mas cada um se empenhou. Assim como o perigo era geral, assim também a súplica ao céu. Não havia um orando por todos eles, mas cada um por si.

Clamavam cada um ao seu deus, o deus do seu país ou cidade, ou a sua própria divindade tutelar. É um testemunho contra o ateísmo que cada homem tivesse um deus e cresse num Deus.

Mas é um exemplo da insensatez do paganismo que tivessem muitos deuses, cada homem o deus que lhe agradava, quando só pode haver um Deus, e não há necessidade de mais.

Mas, embora tivessem perdido aquele ditame da luz da natureza de que há apenas um Deus, continuavam governados pela orientação da lei da natureza de que se deve orar a Deus. “Não deve um povo buscar ao seu Deus?”, Isaías 8:19.

Deve-se especialmente orar a ele quando estamos em angústia e perigo. Invoque-me no tempo da aflição. Alguém está aflito? Alguém está assustado? Ore.

  1. As suas orações por livramento foram acompanhadas de esforços, e, tendo invocado os seus deuses para ajudá-los, fizeram o que podiam para ajudar a si mesmos. Essa é a regra: Ajude a si mesmo e Deus o ajudará.

Lançaram ao mar as mercadorias que estavam no navio, para aliviá-lo delas, assim como os marinheiros de Paulo, em situação semelhante, lançaram até os equipamentos do navio e o trigo, Atos 27:18, 19, 38.

Estavam numa viagem comercial, ao que parece, carregados de muitos bens e muita mercadoria, com os quais esperavam obter lucro. Mas agora aceitam sofrer prejuízo lançando-os ao mar para salvar a sua vida.

Veja como é poderoso o amor natural à vida. Pele por pele, e tudo o que um homem tem dará por ela. E não atribuiremos igual valor à vida espiritual, à vida da alma, considerando que ganhar o mundo inteiro não pode compensar a perda da alma?

Veja a vaidade da riqueza mundana e a incerteza da sua permanência conosco. As riquezas criam asas e voam para longe. Ou melhor: e pode acontecer que precisemos criar asas para elas e expulsá-las.

Assim ocorreu aqui, quando não podiam ser conservadas para os seus donos sem prejudicá-los, de modo que eles próprios ficam contentes em livrar-se delas e afundam aquilo que, de outro modo, os afundaria, embora não tenham perspectiva de recuperá-lo.

Ah, que os homens fossem assim sábios para com as suas almas, e estivessem dispostos a abandonar aquela riqueza, prazer e honra que não podem conservar sem naufragar na fé e na boa consciência e arruinar a sua alma para sempre!

Aqueles que assim abandonam os seus interesses temporais para assegurar o seu bem-estar espiritual terão ganhos indizíveis no fim. Pois aquilo que perdem nesses termos encontrarão novamente para a vida eterna.

Mas onde está Jonas durante tudo isso? Seria de esperar... Desceu à sua cabine, ou melhor, ao porão, entre os lados do navio, e ali está deitado e profundamente adormecido. Nem o barulho de fora nem a percepção da culpa dentro dele o despertaram.

Talvez algum tempo antes tivesse evitado dormir, por medo de Deus falar com ele novamente num sonho. E agora que se imaginava fora do alcance desse perigo, dormia muito mais profundamente.

Repare: O pecado é de natureza entorpecente, e nos importa tomar cuidado para que em nenhum momento o nosso coração seja endurecido pelo seu engano.

É a estratégia de Satanás, quando pelas suas tentações afastou os homens de Deus e do seu dever, embalá-los até adormecerem na segurança carnal, para que não percebam a sua miséria e perigo. Portanto, importa a todos nós vigiar.

III. O capitão do navio chamou Jonas para se levantar e orar, v. 6. O capitão aproximou-se e, envergonhando-o, ordenou-lhe que se levantasse, tanto para orar pela vida quanto para se preparar para a morte. Deu-lhe:

  1. Uma altercação justa e necessária: “Que pretendes, ó adormecido?” Aqui elogiamos o capitão, que lhe deu essa censura. Embora Jonas lhe fosse estranho, era, naquele momento, como alguém da sua família. Quem quer que tenha uma alma preciosa, devemos ajudá-lo, como pudermos, a salvá-la da morte.

Temos pena de Jonas, que precisava dessa censura. Como profeta do Senhor, se estivesse no seu lugar, poderia estar censurando o rei de Nínive. Mas, estando fora do caminho do seu dever, fica ele próprio exposto às censuras de um insignificante capitão de navio.

Veja como os homens, pelo seu pecado e insensatez, se diminuem e se tornam desprezíveis. Contudo, devemos admirar a bondade de Deus ao lhe enviar essa censura oportuna, pois foi o primeiro passo para a sua recuperação, como o canto do galo foi para Pedro.

Repare: Àqueles que dormem numa tormenta bem se pode perguntar o que pretendem.

  1. Uma palavra pertinente de conselho: “Levanta-te, invoca o teu Deus; estamos aqui clamando cada um ao seu deus, por que não te levantas e clamas ao teu? Não estás igualmente envolvido com os demais tanto no perigo temido quanto no livramento desejado?”

Repare: As devoções dos outros devem avivar as nossas. Aqueles que esperam partilhar uma misericórdia comum devem, com toda razão, contribuir com a sua parte para as orações e súplicas feitas por ela.

Em tempos de angústia pública, se temos algum acesso ao trono da graça, devemos aproveitá-lo para o bem público. Os próprios servos de Deus às vezes precisam ser chamados e despertados para essa parte do seu dever.

  1. Um bom motivo para esse conselho: “Talvez Deus pense em nós, para que não pereçamos”. Ao que parece, os muitos deuses que invocavam eram considerados por eles apenas mediadores entre eles e o Deus supremo, e intercessores em seu favor junto dele.

O capitão continua falando de um só Deus, de quem esperava socorro. Para estimular a oração, sugeriu que o perigo era muito grande e iminente: “Todos estamos prestes a perecer; há apenas um passo entre nós e a morte, e ele está prestes a ser dado”.

Contudo, sugeriu que restava alguma esperança de que a sua destruição pudesse ser evitada e eles não perecessem. Enquanto ainda há vida, há esperança; e, enquanto há esperança, há espaço para oração.

Sugeriu também que só Deus podia efetuar o seu livramento, e que este deveria vir do poder e da compaixão dele. “Se ele pensar em nós e agir em nosso favor, ainda podemos ser salvos.” Por isso devemos olhar para ele e nele pôr a nossa confiança, por mais iminente que seja o perigo.

IV. Descobre-se que Jonas é a causa da tormenta:

  1. Os marinheiros observaram tantas coisas peculiares e incomuns ou na própria tormenta ou na sua própria angústia causada por ela, que concluíram ser ela um mensageiro da justiça divina enviado para prender alguém naquele navio, por ter sido culpado de algum crime enorme.

Julgavam como o povo bárbaro (Atos 28:4): “Sem dúvida um de nós é um assassino, ou culpado de sacrilégio, ou perjúrio, ou algo semelhante, que assim é perseguido pela vingança do mar, e por causa dele todos nós sofremos”.

Até a luz da natureza ensina que em julgamentos extraordinários a cólera de Deus se revela do céu contra alguns pecados e pecadores extraordinários.

Seja qual for o mal sobre nós em qualquer momento, devemos concluir que há uma causa para ele. Há um mal cometido por nós, ou esse mal não estaria sobre nós. Há um fundamento para a controvérsia de Deus.

  1. Decidiram recorrer à sorte para saber qual deles era o criminoso que havia ocasionado essa tormenta: “Lancemos sortes, para sabermos por causa de quem este mal está sobre nós”.

Nenhum deles suspeitava de si mesmo ou dizia: “Sou eu, Senhor; sou eu?” Mas suspeitavam uns dos outros e queriam descobrir o homem.

Repare: É desejável, quando algum mal está sobre nós, saber por que causa está sobre nós, para que o que está errado seja corrigido e, remediada a queixa, a dor possa ser removida.

Para isso devemos olhar para o céu e orar: “Senhor, mostra-me por que contendes comigo; o que não vejo, ensina-me”.

Esses marinheiros desejavam conhecer a pessoa que era o peso morto no seu navio, a coisa maldita, para que aquele único homem morresse pelo povo e o navio inteiro não se perdesse. Isso não era apenas conveniente, mas altamente justo.

Para isso lançaram sortes, pelas quais recorreram ao julgamento de Deus, a quem todos os corações estão abertos e de quem nenhum segredo está escondido. Concordavam em aceitar a sua descoberta e decisão e em tomar por verdadeiro aquilo que a sorte dissesse.

Pois pela luz da natureza conheciam aquilo que a Escritura nos diz: “A sorte é lançada no regaço, mas todo o seu dispor é do Senhor”.

Até os pagãos consideravam o lançamento de sortes uma coisa sagrada, a ser feita com seriedade e solenidade, e que não devia virar brincadeira. É uma vergonha para os cristãos se não têm reverência semelhante por um recurso à Providência.

  1. A sorte caiu sobre Jonas, que poderia ter poupado esse trabalho a eles se ao menos lhes tivesse dito o que a sua própria consciência lhe dizia: “Você é o homem”. Mas, como é comum entre criminosos, nunca confessa até descobrir que não pode evitá-lo, até a sorte cair sobre ele.

Podemos supor que houvesse no navio pessoas que, por outros motivos, fossem pecadores maiores do que Jonas. Contudo, é ele o homem que a tempestade persegue e que a sorte aponta.

Pois é o seu próprio filho que o pai corrige, é o seu próprio servo que o senhor corrige, se agirem mal. Os outros que transgridem, ele deixa à lei. A tormenta é enviada atrás de Jonas porque Deus tem trabalho para ele fazer, e é enviada para trazê-lo de volta a esse trabalho.

Repare: Deus tem muitas maneiras de trazer à luz pecados e pecadores escondidos, e de manifestar aquela insensatez que se julgava oculta aos olhos de todos os viventes.

A mão direita de Deus descobrirá todos os seus servos que o abandonam, assim como todos os seus inimigos que têm desígnios contra ele. Sim, e ainda: embora fujam para as partes mais distantes do mar ou desçam aos lados do navio.

  1. Jonas, então, é interrogado diante do capitão e dos marinheiros. Era um estranho. Nenhum deles podia dizer que conhecia o prisioneiro ou que tivesse algo de que acusá-lo. Por isso precisavam extrair dele uma confissão e julgá-lo pela sua própria boca.

E para isso não era necessária nenhuma máquina de tortura. O naufrágio do qual estavam em perigo bastava para assustá-lo de modo que dissesse a verdade.

Embora a sorte tivesse descoberto que era ele a pessoa por cuja causa estavam assim prejudicados e expostos, contudo não se lançaram furiosamente sobre ele, como se poderia temer que tivessem feito, mas investigaram o seu caso calma e suavemente.

Há uma compaixão devida aos transgressores quando são descobertos e declarados culpados. Não lhe dirigem palavras duras, mas: “Dize-nos, pedimos, o que acontece?” Duas coisas lhe perguntam:

(1.) Se ele próprio reconheceria ser a pessoa por cuja causa a tormenta foi enviada, como a sorte havia indicado: “Dize-nos por causa de quem este mal está sobre nós; é de fato por tua causa e, se assim é, por que causa? Qual é esta transgressão pela qual és assim processado?”

Talvez a gravidade e o decoro da aparência e do comportamento de Jonas os fizessem suspeitar que a sorte havia errado o homem, errado o alvo. Por isso não confiariam nela a menos que ele próprio reconhecesse a sua culpa. Pediram-lhe, portanto, que os esclarecesse nessa questão.

Repare: Aqueles que querem descobrir a causa das suas dificuldades devem não só começar, mas prosseguir na investigação, descer aos pormenores e realizar uma exploração diligente.

(2.) Qual era a sua condição, tanto no que diz respeito ao seu ofício quanto ao seu país:

[1.] Perguntam sobre o seu ofício: “Qual é a tua ocupação?” Essa era uma pergunta apropriada a um errante. Talvez suspeitassem que o seu ofício fosse tal que pudesse trazer essa dificuldade sobre eles.

“És um adivinho, um feiticeiro, um estudante de magia negra? Estiveste conjurando esse vento? Ou a que trabalho vais agora? É como o de Balaão, para amaldiçoar algum do povo de Deus, e esse vento foi enviado para te deter?”

[2.] Perguntam sobre o seu país. Um perguntou: “De onde vens?” Outro, sem paciência para esperar a resposta, perguntou: “Qual é o teu país?” Um terceiro perguntou com o mesmo teor: “De que povo és?”

“És dos caldeus”, conhecidos pela adivinhação, “ou dos árabes”, conhecidos pelo roubo? Desejavam saber de que país ele era, para que, sabendo quem era o deus do seu país, pudessem adivinhar se era alguém que poderia fazer-lhes alguma bondade nessa tormenta.

  1. Em resposta a essas perguntas, Jonas faz uma revelação completa:

(1.) Perguntaram sobre o seu país? Diz-lhes que é hebreu (v. 9), não só da nação de Israel, mas da sua religião, que receberam dos seus pais.

É hebreu e, por isso, fica mais envergonhado de reconhecer que é criminoso. Pois os pecados dos hebreus, que fazem tal profissão de religião e desfrutam tais privilégios, são maiores que os pecados dos outros e muito mais pecaminosos.

(2.) Perguntaram sobre o seu ofício: “Qual é a tua ocupação?” Em resposta, dá o relato da sua religião, pois esse era o seu ofício, essa era a sua ocupação, isso era aquilo de que fazia um trabalho.

“Temo ao Senhor Jeová; esse é o Deus que adoro, o Deus a quem oro, o próprio Deus do céu, o soberano Senhor de todos, que fez o mar e a terra seca e tem domínio sobre ambos.”

Não o deus de um país particular, sobre o qual perguntaram e como eram os deuses que cada um vinha invocando, mas o Deus da terra inteira, que, tendo feito tanto o mar quanto a terra seca, faz em ambos o trabalho que quer e faz de ambos o uso que quer.

Menciona isso não só para condenar a si mesmo pela sua insensatez ao fugir da presença desse Deus, mas com o desígnio de levar esses marinheiros do culto e serviço dos seus muitos deuses ao conhecimento e à obediência do único Deus vivo e verdadeiro.

Quando estamos entre pessoas que nos são estranhas, devemos fazer o que pudermos para levá-las a conhecer Deus, estando prontos em todas as ocasiões a reconhecer a nossa relação com ele e a nossa reverência por ele.

(3.) Perguntaram sobre o seu crime, pelo qual agora é perseguido? Ele reconhece que fugiu da presença do Senhor, que estava ali fugindo do seu dever e que a tormenta foi enviada para trazê-lo de volta.

Temos motivo para pensar que lhes contou isso com tristeza e vergonha, justificando Deus e condenando a si mesmo, e indicando aos marinheiros que grande Deus é Jeová, que podia enviar um mensageiro como aquela tempestade atrás de um servo fugitivo.

  1. Somos informados da impressão que isso causou nos marinheiros: “Os homens temeram grandemente”, e com razão, pois perceberam:

(1.) Que Deus estava irado, o próprio Deus que fez o mar e a terra seca. Essa tempestade vem da mão de uma justiça ofendida, e por isso têm motivo para temer que as coisas lhes sejam difíceis. Julgamentos infligidos por algum pecado particular têm em si um peso e terror peculiares.

(2.) Que Deus estava irado com alguém que o temia e adorava, só por fugir uma vez do seu trabalho num caso particular. Isso os fez temer por si mesmos.

“Se um profeta do Senhor é assim severamente punido por uma transgressão, o que será de nós, que fomos culpados de tantas transgressões, e grandes, e hediondas?”

Se os justos são assim salvos com dificuldade e por um único ato de desobediência tão de perto perseguidos, onde aparecerão o ímpio e o pecador? 1 Pedro 4:17, 18.

Disseram-lhe: “Por que fizeste isso? Se temes o Deus que fez o mar e a terra seca, por que foste tão insensato a ponto de pensar que podias fugir da sua presença? Que coisa absurda e inexplicável!”

Assim foi censurado, como Abraão por Abimeleque (Gênesis 20:16). Pois, se os que professam religião fazem algo errado, devem esperar ouvir isso daqueles que não fazem tal profissão.

“Por que fizeste isso a nós?”, como se pode entender. “Por que nos envolveste no processo?” Repare: Aqueles que cometem um pecado deliberado não sabem até onde as suas consequências danosas podem alcançar, nem que dano pode ser feito por ele.

O Profeta Confessa a Sua Insensatez; O Profeta Lê a Sua Própria Condenação; O Profeta Lançado ao Mar; A Preservação de Jonas no Ventre do Peixe. (a.C. 840.)

Versículos 11 a 17

Está claro que Jonas é o homem por cuja causa esse mal está sobre eles. Mas a descoberta disso não bastava para atender às exigências dessa tempestade. Haviam descoberto o homem, mas algo mais precisava ser feito, pois o mar ainda se agitava e era tempestuoso (v. 11).

Novamente (v. 13), tornava-se cada vez mais tempestuoso, como diz a margem. Pois, se descobrimos que o pecado é a causa das nossas dificuldades e não o abandonamos, apenas pioramos o que está ruim. Por isso prosseguiram com o processo.

I. Perguntaram ao próprio Jonas o que pensava que deveriam fazer com ele (v. 11): “Que te faremos, para que o mar se acalme para nós?” Perceberam que Jonas era um profeta do Senhor e, por isso, não fariam nada, não, nem mesmo no caso dele próprio, sem consultá-lo.

Ele parece um transgressor, mas parece também um penitente, e por isso não o insultarão nem o tratarão com dureza. Repare: Devemos agir com grande ternura para com aqueles que são surpreendidos numa falta e são levados à angústia por ela.

Não o lançariam ao mar se ele pudesse pensar em algum outro meio de salvar o navio. Ou talvez assim quisessem mostrar como o caso era claro, que não havia solução senão lançá-lo ao mar. Que ele fosse o seu próprio juiz, como havia sido o seu próprio acusador, e ele mesmo o diria.

Repare: Quando o pecado levantou uma tormenta e nos colocou sob os sinais do desagrado de Deus, importa-nos perguntar o que faremos para que o mar se acalme. E o que faremos? Devemos orar e crer quando estamos numa tormenta e empenhar-nos em atender ao fim para o qual ela foi enviada. E então a tormenta se tornará calmaria.

Mas especialmente devemos considerar o que fazer com o pecado que levantou a tormenta. Ele deve ser descoberto e confessado com arrependimento. Deve ser detestado, repudiado e inteiramente abandonado. Que tenho eu ainda com ele? Crucifiquem-no, crucifiquem-no, por esse mal que fez.

II. Jonas lê a sua própria condenação (v. 12): “Levantai-me e lançai-me ao mar”. Não quis saltar pessoalmente ao mar, mas colocou-se nas mãos deles para que o lançassem ao mar e lhes assegurou que então o mar se acalmaria, e de nenhum outro modo.

Propôs isso por ternura para com os marinheiros, para que não sofressem por sua causa. “Esteja a tua mão sobre mim”, diz Davi, 1 Crônicas 21:17, “que sou culpado; que eu morra pelo meu próprio pecado, mas que os inocentes não sofram por ele”.

Essa é a linguagem dos verdadeiros penitentes, que desejam ardentemente que ninguém além deles próprios jamais sofra ou fique em situação pior por causa dos seus pecados e insensatezes.

Propôs isso também em submissão à vontade de Deus, que enviou essa tempestade para persegui-lo. Por isso julgou a si mesmo para ser lançado ao mar, porque via claramente que Deus o julgava para isso, para que não fosse julgado pelo Senhor à miséria eterna.

Repare: Aqueles que estão na verdade humilhados pelo pecado se submeterão de boa vontade à vontade de Deus, até numa sentença de morte em si. Se Jonas vê que essa é a punição da sua iniquidade, ele a aceita, sujeita-se a ela e nela justifica Deus.

Não importa que a carne seja destruída, não importa como seja destruída, contanto que o espírito ao menos seja salvo no dia do Senhor Jesus, 1 Coríntios 5:5.

O motivo que apresenta é: “Pois sei que por minha causa esta grande tempestade está sobre vós”. Veja como Jonas está pronto a tomar toda a culpa sobre si e a considerar toda a dificuldade como deles:

“É exclusivamente por minha causa, que pequei, que esta tempestade está sobre vós; por isso lançai-me ao mar; pois:”

  1. “Eu mereço isso. Afastei-me perversamente do meu Deus, e por minha causa ele está irado convosco. Certamente sou indigno de respirar esse ar que por minha causa foi agitado por ventos, de viver nesse navio que por minha causa foi assim sacudido.”

“Lançai-me ao mar atrás das mercadorias que por minha causa lançastes nele. O afogamento é bom demais para mim; uma única morte é punição pequena demais para uma transgressão tão complexa.”

  1. “Por isso não há maneira de ter o mar calmo. Se fui eu que levantei a tormenta, não será lançar as mercadorias ao mar que a fará cessar novamente; não, deveis lançar-me ali.”

Quando a consciência desperta e uma tormenta se levanta nela, nada a transformará em calmaria senão separar-se do pecado que ocasionou a perturbação e abandoná-lo.

Não é separar-nos do nosso dinheiro que pacificará a consciência. Não: é o Jonas que deve ser lançado ao mar. Jonas é nisso um tipo de Cristo, pois dá a sua vida em resgate por muitos.

Mas há esta diferença substancial: a tormenta que Jonas se entregou para acalmar foi levantada por ele próprio, mas aquela tormenta que Cristo se entregou para acalmar foi levantada por nós.

Contudo, assim como Jonas se entregou para ser lançado num mar enfurecido para que este se acalmasse, assim fez o nosso Senhor Jesus, quando morreu para que nós vivêssemos.

III. Os pobres marinheiros fizeram o que puderam para livrar-se da necessidade de lançar Jonas ao mar, mas tudo em vão (v. 13). Remaram com força para levar o navio à terra, para que, se precisassem separar-se de Jonas, pudessem colocá-lo em segurança na praia. Mas não conseguiram.

Todos os seus esforços foram inúteis, pois o mar se agitava com mais força do que eles podiam fazer e era tempestuoso contra eles, de modo que de nenhuma maneira podiam alcançar a terra. Se às vezes pensavam ter conseguido o seu intento, eram rapidamente lançados ao mar novamente.

O navio continuava sobrecarregado. Aliviá-lo das mercadorias não o tornava nem um pouco mais leve enquanto Jonas estivesse nele. Além disso, remavam contra vento e maré, o vento da vingança de Deus, a maré dos seus conselhos.

É em vão contender com Deus, em vão pensar em salvar-nos de qualquer outra maneira que não seja destruir os nossos pecados.

Isso mostra que esses marinheiros estavam muito relutantes em executar a sentença de Jonas contra si mesmo, embora soubessem que por causa dele essa tempestade estava sobre eles.

Estavam assim muito resistentes em parte pelo temor de trazer sobre si a culpa de sangue, e em parte pela compaixão que não podiam deixar de ter pelo pobre Jonas, como um homem bom, como um homem em angústia e como um homem de sinceridade.

Repare: Quanto mais os pecadores se humilham e se rebaixam, julgam e condenam a si mesmos, mais provavelmente encontrarão compaixão tanto em Deus quanto no homem. Quanto mais pronto Jonas estava a dizer “Lançai-me ao mar”, mais relutantes eles estavam em fazê-lo.

IV. Quando viram ser necessário lançar Jonas ao mar, primeiro oraram a Deus para que a culpa do seu sangue não recaísse sobre eles nem lhes fosse imputada, v. 14. Quando viram ser inútil remar com força, abandonaram os remos e passaram às suas orações.

Por isso clamaram ao Senhor, a Jeová, o Deus verdadeiro e vivo, e não mais aos muitos deuses e muitos senhores aos quais haviam clamado, v. 5. Oraram ao Deus de Israel, agora convencidos pelas providências de Deus quanto a Jonas e pelas informações que ele lhes dera de que só ele é Deus.

Tendo decidido lançar Jonas ao mar, primeiro apresentam uma declaração no tribunal do céu de que não o fazem voluntariamente, muito menos maliciosamente ou com algum desígnio de se vingar dele porque por causa dele essa tempestade estava sobre eles.

Não: que o seu deus o perdoe, como eles perdoam! Mas são forçados a fazer isso se defendendo, em legítima defesa, não tendo outro meio de salvar a sua própria vida.

Fazem isso como ministros da justiça, pois tanto Deus quanto ele próprio o haviam sentenciado a tão grande morte. Por isso apresentam uma petição humilde ao Deus que Jonas temia, para que não perecessem pela vida dele. Veja:

  1. Que medo tinham de contrair a culpa de sangue, especialmente o sangue de alguém que temia Deus, o adorava e tinha comunhão com ele, como percebiam que Jonas tinha, embora num único caso tivesse sido faltoso.

A consciência natural não pode deixar de ter temor da culpa de sangue e tornar os homens muito fervorosos em oração, como Davi foi, para serem livres dela, Salmos 51:14.

Assim estavam aqui: “Rogamos-te, ó Senhor! Rogamos-te, não ponhas sobre nós sangue inocente”. Agora estão tão fervorosos em orar para ser salvos do perigo do pecado quanto antes estavam em orar para ser salvos do perigo do mar.

Especialmente porque Jonas lhes parecia ser uma pessoa incomum, mas um homem muito bom, um homem de Deus, um adorador do grande Criador do céu e da terra. Por causa disso até esses marinheiros rudes conceberam veneração por ele e tremeram ao pensar em tirar-lhe a vida.

O sangue inocente é precioso, mas o sangue dos santos, o sangue dos profetas, é muito mais precioso. Aqueles que de qualquer maneira se colocam sob a sua culpa descobrirão isso à sua custa.

Os marinheiros viram Jonas perseguido pela vingança divina e, contudo, não podiam pensar sem horror em ser os seus executores. Embora o seu Deus tenha uma controvérsia com ele, contudo pensam: “Não seja a nossa mão sobre ele”.

Os israelitas nessa época estavam matando os profetas por cumprirem o seu dever, como testemunha a recente perseguição de Jezabel, e desperdiçavam a vida deles.

Isso é agravado pela ternura que esses pagãos tinham por alguém que percebiam ser um profeta, embora agora estivesse fora do caminho do seu dever.

  1. Que medo tinham de incorrer na cólera de Deus. Temiam que ele ficasse irado se causassem a morte de Jonas, pois havia dito: “Não toqueis nos meus ungidos, e não façais mal aos meus profetas”. Vocês o fazem por sua conta e risco.

“Senhor”, dizem, “não pereçamos pela vida deste homem. Que não seja para nós um dilema tão fatal. Vemos que devemos perecer se pouparmos a sua vida; ah, não pereçamos por tirar-lhe a vida.”

O seu apelo é bom: “Pois tu, ó Senhor, fizeste como te agradou; tu nos colocaste sob a necessidade de fazer isso; o vento que o perseguiu e a sorte que o descobriu estavam ambos sob a tua direção, pela qual somos governados nisso”.

“Somos apenas os instrumentos da Providência, e é dolorosamente contra a nossa vontade que fazemos isso; mas devemos dizer: Seja feita a vontade do Senhor.”

Repare: Quando a Providência claramente nos conduz a fazer coisas contrárias às nossas próprias inclinações e inteiramente além das nossas próprias intenções, será alguma satisfação para nós podermos dizer: “Tu, ó Senhor, fizeste como te agradou”.

E, se Deus agrada a si mesmo, devemos estar satisfeitos, embora não nos agrade.

V. Tendo suplicado contra a culpa que temiam, passaram à execução (v. 15): “Levantaram Jonas e o lançaram ao mar”. Expulsaram-no do seu navio, da sua companhia, e o lançaram ao mar, um mar enfurecido e tempestuoso, que clamava: “Dá, dá; entrega o traidor, ou não esperes paz”.

Bem podemos pensar na confusão e no espanto em que o pobre Jonas estava quando se viu prestes a ser levado à presença daquele Deus como Juiz, de cuja presença como Mestre estava agora fugindo.

Repare: Aqueles que fogem de Deus não sabem para que ruína correm. “Ai deles! Pois fugiram de mim.” Quando o pecado é o Jonas que levanta a tormenta, ele deve assim ser lançado ao mar. Devemos abandoná-lo e causar a sua morte, devemos afogar aquilo que de outro modo nos afogará em destruição e perdição.

E se assim, por um completo arrependimento e reforma, lançarmos os nossos pecados ao mar, para nunca chamá-los de volta ou voltar a eles novamente, Deus, pela misericórdia perdoadora, sujeitará as nossas iniquidades e também as lançará nas profundezas do mar, Miquéias 7:19.

VI. O lançamento de Jonas ao mar imediatamente pôs fim à tormenta. O mar tem o que veio buscar e, por isso, descansa satisfeito. Cessa a sua fúria.

É um exemplo do poder soberano de Deus que possa rapidamente transformar a tormenta em calmaria, e da equidade do seu governo que, quando o fim de uma aflição é atendido e alcançado, a aflição seja imediatamente removida.

Ele não contenderá para sempre, não contenderá mais quando nos submetermos e abandonarmos a causa. Se nos afastarmos dos nossos pecados, ele logo se afastará da sua ira.

VII. Os marinheiros foram por isso mais confirmados na sua crença de que o Deus de Jonas era o único Deus verdadeiro (v. 16). Então os homens temeram o Senhor com grande temor, foram tomados de profunda veneração pelo Deus de Israel e decidiram adorá-lo somente no futuro.

Pois não há outro Deus que possa destruir, que possa livrar, dessa maneira. Quando viram o poder de Deus ao levantar e fazer cessar a tempestade, quando viram a sua justiça sobre Jonas, o seu próprio servo, e quando viram a sua bondade para com eles ao salvá-los da beira da ruína, então temeram o Senhor, Jeremias 5:22.

Como evidência do seu temor por ele, ofereceram-lhe sacrifício quando voltaram à praia na terra de Israel e, naquele momento, fizeram votos de fazê-lo, em gratidão pelo seu livramento e para fazer expiação pelas suas almas.

Ou talvez tivessem alguma coisa ainda a bordo que pudesse servir imediatamente como sacrifício a Deus. Ou pode tratar-se dos sacrifícios espirituais de oração e louvor, com os quais Deus se agrada mais do que com o de um boi ou novilho que tenha chifres e cascos.

Veja Salmos 107:2, etc. Devemos fazer votos não só quando buscamos misericórdia, mas, o que é muito mais generoso, quando recebemos misericórdia, como aqueles que continuamente procuram saber o que daremos em retribuição.

VIII. A vida de Jonas, depois de tudo, é salva por um milagre, e ouviremos sobre ele novamente apesar de tudo isso. No meio do julgamento Deus se lembra da misericórdia. Jonas será mais assustado que ferido, não tanto punido pelo seu pecado quanto reconduzido ao seu dever.

Embora fuja da presença do Senhor e pareça cair nas suas mãos vingadoras, contudo Deus tem mais trabalho para ele fazer e, por isso, preparou um grande peixe para engolir Jonas (v. 17), que o nosso Salvador chama de baleia (Mateus 12:40).

Era de uma das maiores espécies de baleias, que têm gargantas mais largas que outras, no ventre das quais às vezes foi encontrado o corpo morto de um homem em armadura.

Na história da criação, chama-se particularmente atenção para Deus ter criado grandes baleias (Gênesis 1:21) e o leviatã nas águas, feito para brincar nelas, Salmos 104:26.

Mas Deus encontra trabalho para esse leviatã, preparou-o, contou-o, como diz a palavra, designou-o para receber e livrar Jonas.

Repare: Deus tem domínio de todas as criaturas e pode fazer qualquer uma delas servir aos seus desígnios de misericórdia para com o seu povo. Até os peixes do mar, que estão mais afastados do conhecimento do homem, até as grandes baleias, que estão inteiramente fora do governo do homem.

Esse peixe foi preparado, estava pronto debaixo d'água perto do navio, para impedir Jonas de afundar até o fundo e salvá-lo vivo, embora merecesse morrer.

Fiquemos quietos e vejamos essa salvação do Senhor, e admiremos o seu poder, por poder assim salvar um homem que se afogava, e a sua compaixão, por estar disposto a assim salvar alguém que estava fugindo dele e o havia ofendido.

Foi pelas misericórdias do Senhor que Jonas não foi agora consumido. O peixe engoliu Jonas, não para devorá-lo, mas para protegê-lo. Do devorador sai alimento.

Pois Jonas estava vivo e bem no ventre do peixe por três dias e três noites, sem ser consumido pelo calor do animal nem sufocado por falta de ar. Admite-se que para a natureza isso era impossível, mas não para o Deus da natureza, com quem todas as coisas são possíveis.

Por essa preservação milagrosa, o desígnio era que Jonas se tornasse:

  1. Um monumento da misericórdia divina, para o ânimo daqueles que pecaram e se afastaram de Deus, para que voltassem e se arrependessem.

  2. Um pregador bem-sucedido em Nínive. Esse milagre realizado para o seu livramento, se a notícia dele chegou a Nínive, contribuiria para o seu sucesso.

  3. Um ilustre tipo de Cristo, que foi sepultado e ressuscitou segundo as Escrituras (1 Coríntios 15:4), segundo esta Escritura. Pois, assim como Jonas esteve três dias e três noites no ventre da baleia, assim o Filho do homem esteve três dias e três noites no coração da terra, Mateus 12:40.

O sepultamento de Jonas foi uma figura do de Cristo. Deus preparou o túmulo de Jonas, e assim fez com o de Cristo, quando muito antes foi ordenado que fizesse o seu túmulo com os ricos, Isaías 53:9.

O túmulo de Jonas era estranho, novo? Assim era o de Cristo, no qual nunca antes um homem havia sido colocado. Jonas ficou ali a maior parte de três dias e três noites? Assim também Cristo.

Mas ambos com vista à sua ressurreição para levar a doutrina do arrependimento ao mundo gentio. “Vinde, vede o lugar onde o Senhor esteve deitado.”


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