Matthew Henry

Jó 1

Argumento

Jó

UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO LIVRO DE
JÓ.

O livro de Jó ocupa um lugar à parte, não está ligado a nenhum outro e, por isso, deve ser considerado por si mesmo. Muitas cópias da Bíblia hebraica o situam depois dos Salmos, e algumas, depois de Provérbios. Talvez isso tenha levado alguns eruditos a imaginar que foi escrito por Isaías ou por algum dos profetas posteriores.

Mas, assim como o assunto parece ser muito mais antigo, não temos motivo para pensar que a composição do livro não seja igualmente antiga. Por isso, ele ocupa o lugar mais apropriado no início desta coletânea de ensinamentos morais divinos.

Além disso, por ser doutrinário, convém que venha antes e sirva de introdução ao livro dos Salmos, que é devocional, e ao de Provérbios, que é prático. Pois como adoraremos ou obedeceremos a um Deus que não conhecemos? Quanto a este livro:

I. Temos certeza de que foi dado por inspiração de Deus, embora não saibamos ao certo quem o escreveu. Os judeus não eram amigos de Jó, pois ele era estranho à comunidade de Israel. Ainda assim, como fiéis guardiões dos oráculos de Deus que lhes foram confiados, sempre conservaram este livro em seu cânon sagrado.

Um apóstolo remete à história (Tiago 5:11), e outro cita uma passagem (Jó 5:13) com a fórmula habitual de citação das Escrituras: “Está escrito”, 1 Coríntios 3:19.

Muitos antigos opinam que essa história foi escrita pelo próprio Moisés em Midiã e entregue a seus irmãos que sofriam no Egito, para lhes dar apoio e consolo sob suas cargas e fortalecer a esperança de que Deus, no devido tempo, os libertaria e enriqueceria, como fez com aquele sofredor paciente.

Alguns conjecturam que o livro foi originalmente escrito em árabe e depois traduzido para o hebraico, para uso da igreja judaica, por Salomão (assim pensa o senhor Jurieu) ou por outro escritor inspirado.

Parece-me mais provável que Eliú o tenha escrito, ao menos os discursos, pois em Jó 32:15, 16 ele mistura as palavras de um historiador às de um participante do debate. Talvez Moisés, porém, tenha escrito os dois primeiros capítulos e o último, para esclarecer os discursos.

Nesses capítulos Deus é frequentemente chamado Jeová, mas não recebe esse nome nem uma vez em todos os discursos, exceto em Jó 12:9. Esse nome era pouco conhecido pelos patriarcas antes de Moisés, Êxodo 6:3.

Se foi o próprio Jó quem escreveu o livro, alguns escritores judeus reconhecem nele um profeta entre os gentios. Se foi Eliú, vemos que tinha um espírito de profecia que o enchia de assuntos e o impelia a falar, Jó 32:18.

II. Temos certeza de que, em sua substância, é uma história verdadeira, e não uma ficção, embora os diálogos sejam poéticos. Não há dúvida de que existiu um homem chamado Jó: o profeta Ezequiel o menciona junto de Noé e Daniel, Ezequiel 14:14.

Sem dúvida, a narrativa de sua prosperidade e piedade, de suas aflições incomuns e paciência exemplar, a substância de suas conversas com os amigos, o discurso que Deus lhe dirigiu do meio do redemoinho e, por fim, seu retorno a uma condição muito próspera são inteiramente verdadeiros.

Isso não impede que ao escritor inspirado seja concedida a liberdade habitual de expressar em suas próprias palavras os assuntos discutidos por Jó e seus amigos.

III. Temos certeza de que o livro é muito antigo, embora não possamos fixar a época exata em que Jó viveu nem aquela em que o livro foi escrito. São tantas e tão evidentes suas cãs, as marcas de sua antiguidade, que temos razão para julgá-lo contemporâneo do próprio livro de Gênesis e o santo Jó, de Isaque e Jacó.

Embora não fosse coerdeiro com eles da promessa da Canaã terrena, esperava junto com eles a pátria melhor, isto é, a celestial. Provavelmente descendia de Naor, irmão de Abraão, cujo primogênito foi Uz (Gênesis 22:21).

Na família de Naor, a religião foi preservada durante algumas gerações, como mostra Gênesis 31:53, onde Deus é chamado não só Deus de Abraão, mas também Deus de Naor.

Jó viveu antes que a duração da vida humana fosse reduzida a setenta ou oitenta anos, como no tempo de Moisés; antes que os sacrifícios fossem limitados a um só altar; e antes da apostasia geral das nações do conhecimento e da adoração do Deus verdadeiro.

Naquele tempo, ainda não se conhecia outra idolatria além do culto ao sol e à lua, e ela era punida pelos juízes, Jó 31:26-28. Jó viveu quando Deus era conhecido mais pelo nome Deus Todo-Poderoso do que pelo nome Jeová, pois neste livro ele é chamado Shaddai, o Todo-Poderoso, mais de trinta vezes.

Viveu quando o conhecimento divino era transmitido, não pela escrita, mas pela tradição, à qual se recorre aqui em Jó 8:8; 21:29; 15:18; 5:1. Temos, portanto, razão para pensar que viveu antes de Moisés, pois não se menciona aqui a libertação de Israel do Egito nem a entrega da lei.

Há, de fato, uma passagem que poderia ser entendida como alusão ao afogamento do faraó (Jó 26:12): “Com seu poder divide o mar e, com seu entendimento, fere Raabe”, nome pelo qual o Egito é frequentemente chamado nas Escrituras, como em Salmos 87:4; 89:10; Isaías 51:9.

Mas a passagem também pode referir-se às ondas orgulhosas do mar. Concluímos, portanto, que aqui voltamos à era patriarcal e que, além da autoridade do livro, o recebemos com reverência por sua antiguidade.

IV. Temos certeza de que o livro é de grande utilidade para a igreja e para todo bom cristão, embora contenha muitas passagens obscuras e difíceis de compreender. Talvez não possamos ter certeza do verdadeiro sentido de cada palavra e expressão árabe que encontramos nele.

É um livro que dá muito trabalho aos críticos; mas há clareza suficiente para tornar o conjunto proveitoso, e tudo foi escrito para nosso ensino.

  1. Este nobre poema nos apresenta, com traços muito claros e vivos, estas cinco coisas, entre outras:

(1.) Um monumento da teologia primitiva. Os primeiros e grandes princípios da luz natural, sobre os quais se funda a religião natural, são aqui, num debate intenso, longo e erudito, não só admitidos por todos os lados, sem a menor dúvida, mas também expostos claramente, por comum acordo, como verdades eternas.

São ilustrados e defendidos como verdades comoventes e imperativas. Acaso a existência de Deus, seus gloriosos atributos e perfeições, sua sabedoria insondável, poder irresistível, glória inconcebível, justiça inflexível e soberania incontestável já foram tratados com mais clareza, plenitude, reverência e eloquência divina do que neste livro?

A criação do mundo e seu governo são aqui admiravelmente descritos, não como assuntos de especulação sutil, mas como fundamentos das obrigações mais fortes de temer e servir nosso Criador, proprietário, Senhor e governante, de sujeitar-nos a ele e nele confiar.

O bem e o mal morais, a virtude e o vício, nunca foram retratados de modo mais vivo, com a beleza de um e a deformidade do outro, do que neste livro. Tampouco a regra inviolável do juízo de Deus foi exposta com maior clareza: felizes são os justos, pois lhes irá bem; ai dos perversos, pois lhes irá mal.

Não são questões das escolas, destinadas a manter o mundo erudito ocupado, nem instrumentos do Estado para manter o mundo sem instrução amedrontado. Não: este livro mostra que são verdades sagradas de certeza indubitável, às quais, em todas as épocas, a parte sábia e sensata da humanidade deu seu assentimento e se submeteu.

(2.) Ele nos apresenta um exemplo da piedade entre os gentios. Provavelmente esse grande santo não descendia de Abraão, mas de Naor; ou, se descendia de Abraão, não vinha de Isaque, mas de um dos filhos das concubinas que foram enviados para a terra do Oriente (Gênesis 25:6).

Ou, se vinha de Isaque, não descendia de Jacó, mas de Esaú. Assim, estava fora dos limites da aliança particular, não era israelita nem prosélito; no entanto, ninguém se igualava a ele em religião, e ninguém nesta terra gozava de tamanho favor do céu.

Portanto, mesmo antes de São Pedro perceber, já era verdade que, em toda nação, quem teme a Deus e pratica a justiça é aceito por ele, Atos 10:35. Havia filhos de Deus dispersos (João 11:52) além dos filhos incorporados ao reino, Mateus 8:11, 12.

(3.) Ele nos apresenta uma exposição do livro da Providência e uma solução clara e satisfatória para muitas de suas passagens difíceis e obscuras. A prosperidade dos perversos e as aflições dos justos sempre foram tidas como dois dos capítulos mais difíceis daquele livro.

Aqui, porém, são explicadas e conciliadas com a sabedoria, a pureza e a bondade divinas pelo desfecho dessas coisas.

(4.) Ele nos apresenta um grande exemplo de paciência e firme apego a Deus em meio às calamidades mais severas. Sir Richard Blackmore, com sua pena engenhosa, em seu excelente prefácio à paráfrase deste livro, apresenta Jó como herói apropriado para um poema épico. Pois, diz ele:

“Ele se mostra corajoso na adversidade e valente na aflição, preserva sua virtude e, com ela, seu caráter sob as provocações mais exasperantes que a malícia do inferno poderia inventar. Assim oferece um exemplo nobilíssimo de fortaleza passiva, caráter em nada inferior ao do herói ativo”, etc.

(5.) Ele nos apresenta uma ilustre figura de Cristo, cujos pormenores procuraremos observar à medida que avançarmos. Em termos gerais, Jó foi um grande sofredor, esvaziado e humilhado, mas com vistas a uma glória maior. Assim Cristo se humilhou para que fôssemos exaltados.

O erudito bispo Patrick cita mais de uma vez São Jerônimo, que fala de Jó como figura de Cristo. Cristo, pela alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz; foi perseguido durante algum tempo por homens e demônios e pareceu até abandonado por Deus, mas foi elevado a intercessor até por seus amigos, que haviam acrescentado aflição à sua miséria.

Quando o apóstolo fala da paciência de Jó, observa imediatamente o fim do Senhor, isto é, do Senhor Jesus, segundo entendem alguns, de quem Jó era figura, Tiago 5:11.

  1. Neste livro temos: (1.) A história dos sofrimentos de Jó e de sua paciência sob eles (Jó 1 e 2), não sem alguma mistura de fraqueza humana em Jó 3.

(2.) Uma disputa entre Jó e seus amigos a respeito desses sofrimentos. Nela, [1.] os opositores foram Elifaz, Bildade e Zofar; [2.] o respondente foi Jó; [3.] os moderadores foram, primeiro, Eliú (Jó 32–37) e, segundo, o próprio Deus (Jó 38–41).

(3.) O desfecho de tudo, com a honra e a prosperidade de Jó, está em Jó 42. No conjunto, aprendemos que muitas são as aflições dos justos, mas que, quando o Senhor os livrar de todas elas, a prova de sua fé resultará em louvor, honra e glória.

A história de Jó começa com o relato: I. De sua grande piedade em geral (v. 1) e em um caso particular, v. 5. II. De sua grande prosperidade, vv. 2-4. III. Da malícia de Satanás contra ele e da permissão que obteve para provar sua constância, vv. 6-12.

IV. Das aflições surpreendentes que lhe sobrevieram: a perda de seus bens (vv. 13-17) e a morte de seus filhos, v. 18, 19. V. De sua paciência e piedade exemplares diante dessas aflições, vv. 20-22. Em tudo isso, Jó é apresentado como exemplo de quem sofre aflição: nenhuma prosperidade pode nos proteger dela, mas a integridade e a retidão nos preservarão ao atravessá-la.

Versículos 1 a 3

O Caráter e os Bens de Jó. (a.C. 1520.)

Sobre Jó, somos informados:

I. Que era um homem e, portanto, sujeito às mesmas paixões que nós. Era ish, um homem digno, notável e eminente, um magistrado, alguém investido de autoridade. Morava na terra de Uz, no leste da Arábia, voltado para a Caldeia, perto do Eufrates e provavelmente não muito longe de Ur dos Caldeus, de onde Abraão foi chamado.

Quando Deus chamou um homem bom daquela região, não se deixou sem testemunha: levantou ali outro para pregar a justiça. Deus tem seu remanescente em todos os lugares, pessoas seladas de cada nação, assim como de cada tribo de Israel, Apocalipse 7:9.

Era privilégio da terra de Uz ter nela um homem tão bom quanto Jó; agora ela era de fato a Arábia Feliz. Também era motivo de louvor para Jó ser extraordinariamente bom num lugar tão ruim: quanto piores eram os que o rodeavam, melhor ele se mostrava.

Seu nome, Jó, ou Jjob, segundo alguns, significa alguém odiado e considerado inimigo. Outros entendem que significa alguém que se aflige ou geme; assim, a tristeza que trazia no nome poderia moderar sua alegria durante a prosperidade.

O dr. Cave deriva o nome de Jaab — amar ou desejar —, dando a entender quanto seus pais receberam bem seu nascimento e quanto ele era o desejo dos olhos deles. Houve, contudo, um tempo em que amaldiçoou o dia em que nasceu. Quem pode saber no que se tornará um dia que começa com uma manhã luminosa?

II. Que era um homem muito bom, excepcionalmente piedoso e melhor que seus vizinhos: era perfeito e reto. Isso nos mostra não apenas sua reputação entre os homens, que em geral o consideravam honesto, mas seu verdadeiro caráter. É o juízo de Deus sobre ele, e sabemos que esse juízo é verdadeiro.

  1. Jó era religioso: temia a Deus, isto é, adorava-o conforme a vontade divina e, em tudo, pautava sua conduta pelas normas da lei de Deus.

  2. Era sincero em sua religião: era perfeito. Não era sem pecado, como ele mesmo reconhece (Jó 9:20): se afirmasse ser perfeito, seria considerado perverso. Respeitava todos os mandamentos de Deus e almejava a perfeição; era de fato tão bom quanto parecia e não fingia em sua profissão de piedade. Seu coração era íntegro e seu olhar, simples.

A sinceridade é a perfeição do evangelho. Não conheço religião sem ela.

  1. Era reto ao tratar tanto com Deus quanto com os homens: fiel às promessas, firme nos conselhos, leal a toda confiança nele depositada e consciencioso em tudo o que dizia e fazia. Veja Isaías 33:15. Embora não pertencesse a Israel, era verdadeiramente um israelita sem dolo.

  2. O temor de Deus que reinava em seu coração era o princípio que governava toda a sua conduta. Isso o fazia perfeito e reto, interiormente dedicado e inteiramente consagrado a Deus, abrangente e constante na religião; mantinha-o próximo e fiel ao dever.

Temia a Deus: reverenciava sua majestade, respeitava sua autoridade e receava sua cólera.

  1. Tinha pavor até da ideia de fazer o que era errado. Com a maior aversão e repulsa, e com cuidado e vigilância constantes, afastava-se do mal, evitando toda aparência de pecado e qualquer aproximação dele. Fazia isso por temer a Deus, Neemias 5:15.

“O temor do Senhor é odiar o mal” (Provérbios 8:13), e “pelo temor do Senhor os homens se afastam do mal”, Provérbios 16:6.

III. Que prosperou muito neste mundo e se tornou uma figura importante em sua terra. Era próspero e, ainda assim, piedoso. Embora seja difícil e raro, não é impossível que um rico entre no reino dos céus. Com Deus, até isso é possível, e por sua graça as tentações da riqueza terrena não são invencíveis.

Era piedoso, e sua piedade favorecia sua prosperidade, pois a devoção a Deus tem promessa para a vida presente. Era próspero, e sua prosperidade dava brilho à sua piedade e oferecia a um homem tão bom oportunidades ainda maiores de fazer o bem.

Seus atos de piedade eram respostas de gratidão a Deus pelos sinais de sua prosperidade. Em meio à abundância de coisas boas que Deus lhe dava, servia-o com alegria ainda maior.

  1. Tinha uma família numerosa. Destacava-se pela religião, mas não era eremita nem recluso; era pai e chefe de família. Sua casa cheia de filhos era um sinal de prosperidade, pois os filhos são herança do Senhor e sua recompensa, Salmos 127:3. Tinha sete filhos e três filhas, v. 2.

Havia filhos dos dois sexos, com maior número do sexo mais nobre, pelo qual a família se estabelece. Os filhos devem ser vistos como bênçãos, pois é o que são, sobretudo para pessoas boas, que lhes darão bons ensinamentos, bons exemplos e farão boas orações por eles.

Jó tinha muitos filhos, mas não era opressor nem faltava à caridade; pelo contrário, era muito generoso com os pobres, Jó 31:17, etc. Quem tem uma grande família para sustentar deve considerar que a esmola dada com prudência é investida com o melhor rendimento e no melhor fundo em benefício de seus filhos.

  1. Tinha bens suficientes para sustentar a família; seu patrimônio era considerável, v. 3. As riquezas são chamadas de bens substanciais, conforme o modo comum de falar. Para a alma e para o outro mundo, porém, não passam de sombras, coisas que não são, Provérbios 23:5. Somente na sabedoria celestial herdamos bens substanciais, Provérbios 8:21.

Naqueles dias, quando a terra ainda não estava inteiramente povoada, a situação era como hoje em algumas colônias: podia-se obter bastante terra em condições fáceis, desde que houvesse recursos para povoá-la de rebanhos. Por isso, os bens de Jó são descritos não pela extensão das terras que possuía, mas:

(1.) Por seus animais — ovelhas e camelos, bois e jumentos. Os números de cada espécie são registrados aqui, provavelmente não como quantidade exata, mas aproximada, com uma pequena diferença para mais ou para menos.

As ovelhas aparecem primeiro porque eram as mais úteis à família, como observa Salomão (Provérbios 27:23, 26, 27): “Cordeiros para a tua roupa, e leite para alimento da tua casa.” É provável que Jó também possuísse prata e ouro, assim como Abraão (Gênesis 13:2).

Naquela época, porém, os homens avaliavam os próprios bens e os dos vizinhos mais pelo que servia e podia ser usado de imediato do que pelo que dava ostentação e prestígio e só se prestava a ser acumulado.

Logo depois de criar o homem e prover seu sustento com plantas e frutos, Deus o fez rico e importante ao lhe dar domínio sobre as criaturas, Gênesis 1:28. Como esse domínio permaneceu com o homem apesar de sua rebelião (Gênesis 9:2), ainda deve ser considerado um dos sinais mais importantes da riqueza, honra e autoridade humanas, Salmos 8:6.

(2.) Por seus servos. Mantinha uma casa e uma atividade agrícola muito bem organizadas, com muitos empregados que trabalhavam para ele e eram sustentados por ele. Assim, recebia honra e fazia o bem, mas também assumia muitos cuidados e grandes despesas.

Veja a vaidade deste mundo: quando os bens aumentam, também precisam aumentar os que cuidam deles e os utilizam, assim como os que os consomem. Que proveito tem o dono deles, senão vê-los com os próprios olhos? (Eclesiastes 5:11).

Em suma, Jó era o maior de todos os homens do Oriente, e aqueles homens eram os mais ricos do mundo. Eram de fato ricos os que estavam mais supridos que o Oriente, Isaías 2:6, nota marginal.

A riqueza de Jó, somada à sua sabedoria, deu-lhe direito à honra e à autoridade que possuía em sua terra, descritas por ele em Jó 29, e o fez ocupar o primeiro lugar.

Jó era reto e honesto e, ainda assim, enriqueceu; ou melhor, enriqueceu por isso, pois a honestidade é a melhor política, e a piedade e a caridade costumam ser os caminhos mais seguros para prosperar.

Tinha uma casa grande e muitos negócios, e mesmo assim mantinha o temor e a adoração a Deus; ele e sua casa serviam ao Senhor. O relato da piedade e da prosperidade de Jó vem antes da história de suas grandes aflições para mostrar que nenhuma das duas nos protege das calamidades comuns da vida humana, nem mesmo das incomuns.

A piedade não nos protege, como supunham equivocadamente os amigos de Jó, pois as mesmas coisas acontecem a todos. A prosperidade também não, embora um mundo descuidado pense o contrário, Isaías 47:8: Assento-me como rainha e, portanto, não conhecerei tristeza.

Versículo 4

O Cuidado de Jó com Seus Filhos. (a.C. 1520.)

Temos aqui mais informações sobre a prosperidade e a piedade de Jó.

I. Seu grande consolo nos filhos é mencionado como sinal de prosperidade, pois nossos consolos temporais são emprestados, dependem de outras pessoas e variam conforme a situação de quem nos rodeia. O próprio Jó menciona como uma das maiores alegrias de seu tempo próspero ter os filhos ao redor, Jó 29:5.

Eles mantinham um ciclo de banquetes em ocasiões determinadas (v. 4), indo festejar em suas casas. Era um consolo para esse homem bom:

  1. Ver os filhos crescidos e estabelecidos no mundo. Todos os seus filhos homens tinham casa própria, provavelmente eram casados, e ele havia dado a cada um uma porção suficiente para começar a vida. Os que tinham sido oliveiras novas ao redor de sua mesa agora se assentavam às próprias mesas.

  2. Ver que prosperavam nos negócios e podiam oferecer banquetes uns aos outros, além de sustentar a si mesmos. Bons pais desejam, promovem e celebram a riqueza e a prosperidade dos filhos como se fossem suas.

  3. Vê-los com saúde, sem enfermidade em suas casas, pois isso teria estragado os banquetes e transformado a festa em luto.

  4. Sobretudo vê-los viver em amor, união e afeição mútua, sem atritos ou desavenças, sem estranheza nem reserva uns com os outros, sem mesquinhez. Embora cada um conhecesse o que lhe pertencia, conviviam com tanta liberdade como se tudo fosse comum a todos.

Ver irmãos assim unidos consola o coração dos pais e é belo aos olhos de todos. “Vede como é bom e agradável!”, Salmos 133:1.

  1. Também aumentava seu consolo ver os irmãos tratarem as irmãs com tamanha bondade que as chamavam para festejar com eles. Elas eram tão recatadas que não teriam ido sem convite.

Os irmãos que desprezam as irmãs, não apreciam sua companhia e não se preocupam com o bem-estar delas são mal-educados, duros de coração e muito diferentes dos filhos de Jó. Ao que parece, os banquetes eram tão sóbrios e decentes que as irmãs eram boas companheiras à mesa.

  1. Festejavam nas próprias casas, não em estabelecimentos públicos, onde estariam mais expostos a tentações e que eram menos respeitáveis. Não encontramos notícia de que Jó participasse dos banquetes. Sem dúvida, os filhos o convidavam, e ele seria o hóspede mais bem-vindo à mesa de qualquer um deles.

Não se ausentava por azedume ou mau humor, nem por falta de afeto natural. Era idoso e já não se prendia a tais coisas, como Barzilai (2 Samuel 19:35), e considerava que os jovens ficariam mais à vontade e se divertiriam melhor entre si.

Ainda assim, não privava os filhos da diversão de que ele próprio abria mão. Pode-se conceder aos jovens certa liberdade própria da idade, contanto que fujam dos desejos da mocidade.

II. Seu grande cuidado com os filhos é mencionado como sinal de piedade, pois somos de fato aquilo que somos em nossas relações. As pessoas boas serão boas para os filhos e farão especialmente tudo o que puderem pelo bem da alma deles. Observe (v. 5) a piedosa preocupação de Jó com o bem-estar espiritual dos filhos:

  1. Tinha por eles um zelo santo, como devemos ter por nós mesmos e pelos que mais amamos, na medida necessária para cuidar deles e trabalhar pelo seu bem. Jó havia dado aos filhos uma boa educação, encontrava neles consolo e tinha boas esperanças a seu respeito.

Mesmo assim, dizia: talvez meus filhos tenham pecado nos dias de seus banquetes mais do que em outras ocasiões, alegrando-se demais, tomando liberdade excessiva ao comer e beber e amaldiçoando a Deus em seu coração. Isto é: “Talvez tenham acolhido pensamentos ateus ou profanos, ideias indignas sobre Deus, sua providência e as práticas da religião”.

Quando ficavam fartos, podiam negar a Deus e dizer: “Quem é o Senhor?” (Provérbios 30:9). Podiam esquecer-se de Deus e dizer que o poder de suas próprias mãos lhes obtivera aquela riqueza, Deuteronômio 8:12, etc. Nada afasta mais a mente de Deus que satisfazer sem freio os desejos da carne.

  1. Assim que terminavam os dias de banquete, Jó os chamava aos exercícios solenes da religião. Não durante a festa — que aproveitassem aquele tempo, pois há tempo para tudo —, mas depois dela. O bom pai lhes lembrava que deviam saber quando parar e não imaginar que poderiam banquetear-se suntuosamente todos os dias.

Embora tivessem dias de festa durante toda a semana, não deveriam pensar que os teriam durante todo o ano; havia outras coisas a fazer. Repare: os que se alegram precisam encontrar tempo para a seriedade.

  1. Mandava que se preparassem para os atos solenes de culto: enviava-lhes recado e os santificava, ordenando-lhes que examinassem a própria consciência e se arrependessem de qualquer erro cometido durante os banquetes. Deviam abandonar a vaidade e dispor a mente para os exercícios religiosos.

Assim conservava sua autoridade sobre os filhos para o bem deles, e estes se submetiam, embora já tivessem casas próprias. Jó continuava sacerdote da família, e todos compareciam ao seu altar, dando mais valor à participação em suas orações do que à participação em seus bens.

Os pais não podem dar graça aos filhos — é Deus quem santifica —, mas devem favorecer sua santificação com advertências e conselhos oportunos. No batismo, nossos filhos foram santificados para Deus; desejemos e nos empenhemos para que sejam consagrados a ele.

  1. Oferecia sacrifícios por eles, tanto para fazer expiação pelos pecados que temia terem cometido nos dias de festa quanto para implorar misericórdia que os perdoasse e graça que impedisse que a liberdade desfrutada depravasse sua mente e corrompesse seus costumes. Queria preservar-lhes a piedade e a pureza.

Pois com olhos tristes ele muitas vezes avistara,
Espalhados na maré suave, mas traiçoeira, do Prazer,
Os despojos da virtude vencida pelos sentidos,
E os destroços flutuantes da inocência arruinada.

Sir R. Blackmore.

Jó, como Abraão, tinha um altar para a família, no qual provavelmente oferecia sacrifícios todos os dias. Nessa ocasião especial, porém, ofereceu mais sacrifícios que o costume, com maior solenidade, conforme o número de todos os filhos: um por filho.

Os pais devem ser específicos ao dirigir-se a Deus por cada membro da família. “Por esta criança orei, de acordo com seu temperamento, suas aptidões e sua situação particulares.” Tanto as orações quanto os esforços devem ajustar-se a essas particularidades.

Quando chegava o momento desses sacrifícios, (1.) Jó se levantava cedo, preocupado para que os filhos não permanecessem por muito tempo sob culpa e porque seu coração estava voltado para a tarefa e a desejava cumprir.

(2.) Exigia que os filhos assistissem ao sacrifício, para se unirem às orações que fazia ao oferecê-lo. Ver a vítima ser morta os humilharia profundamente por seus pecados, pelos quais eles próprios mereciam morrer; vê-la ser oferecida os conduziria a um Mediador.

Essa tarefa séria os ajudaria a recuperar a seriedade após os dias de alegria.

  1. Fazia isso continuamente, não apenas quando surgia ocasião semelhante, pois quem se banhou precisa lavar os pés, João 13:10. Os atos de arrependimento e fé devem ser renovados com frequência, porque repetimos muitas vezes as transgressões.

Todos os dias, sem exceção, oferecia seus sacrifícios, perseverava nas devoções e não as omitia em dia algum. Os exercícios religiosos ocasionais não nos dispensam dos regulares. Quem serve a Deus com retidão o servirá continuamente.

Versículos 6 a 12

Satanás diante de Deus; Satanás Recebe Permissão para Afligir Jó. (a.C. 1520.)

Jó não era apenas rico e importante, mas também sábio e bom. Tinha tanta influência no céu e na terra que se poderia pensar que a montanha de sua prosperidade permanecia firme e inabalável. Aqui, porém, uma nuvem espessa se reúne sobre sua cabeça, carregada de uma tempestade terrível.

Enquanto estivermos nesta região inferior, nunca devemos nos julgar livres de tempestades. Antes de sabermos como as aflições o surpreenderam e atingiram neste mundo visível, somos informados de como foram tramadas no mundo dos espíritos.

O diabo, muito hostil a Jó por sua piedade extraordinária, pediu e obteve permissão para atormentá-lo. Admitir que o diálogo entre Deus e Satanás nestes versículos seja parabólico, como o de Micaías (1 Reis 22:19, etc.), não diminui em nada a credibilidade da história de Jó como um todo.

Ele seria uma alegoria destinada a representar a malícia do diabo contra os homens bons e os limites que Deus impõe a essa malícia. Indica também algo mais: os assuntos da terra ocupam bastante os conselhos do mundo invisível. Esse mundo é obscuro para nós, mas estamos bem expostos a ele. Temos aqui:

I. Satanás entre os filhos de Deus (v. 6), adversário — é o que significa Satanás — de Deus, dos homens e de tudo o que é bom. Ele se intrometeu numa assembleia dos filhos de Deus que vieram apresentar-se diante do Senhor. Isso significa uma de duas coisas:

  1. Uma reunião dos santos na terra. Na época dos patriarcas, os que professavam a religião eram chamados filhos de Deus (Gênesis 6:2); já realizavam reuniões religiosas em horários determinados. O Rei entrou para ver seus convidados; os olhos de Deus observavam todos os presentes.

Havia, porém, uma serpente no paraíso, um Satanás entre os filhos de Deus. Quando se reúnem, ele está no meio deles para distraí-los e perturbá-los, postando-se à sua direita para resistir-lhes. “O Senhor te repreenda, Satanás!” Ou:

  1. Uma reunião dos anjos no céu. Eles são os filhos de Deus, Jó 38:7. Vieram prestar contas de suas atividades na terra e receber novas instruções. Satanás era originalmente um deles; mas como caíste, ó Lúcifer! Nunca mais terá lugar naquela assembleia.

Ainda assim, ele é aqui apresentado chegando entre os anjos, seja convocado a comparecer como criminoso, seja tolerado por enquanto, embora fosse um intruso.

II. A pergunta sobre como chegou ali (v. 7): “O Senhor disse a Satanás: De onde vens?” Deus sabia muito bem de onde vinha e com que intenção: enquanto os anjos bons vinham para fazer o bem, Satanás buscava permissão para fazer o mal. Ao pedir-lhe contas, porém, Deus lhe mostrava que estava sujeito a limites e controle.

“De onde vens?” Deus pergunta: 1. Como quem se admira de vê-lo ali. “Está Saul também entre os profetas? Satanás entre os filhos de Deus?” Sim, pois ele se transforma em anjo de luz (2 Coríntios 11:13, 14) e gostaria de parecer um deles.

Repare: alguém pode ser filho do diabo e, ainda assim, ser encontrado nas assembleias dos filhos de Deus neste mundo. Ali pode passar despercebido pelos homens, mas Deus, que tudo vê, lhe pedirá explicações: “Amigo, como entraste aqui?” Ou:

  1. Como quem pergunta o que ele fazia antes de chegar. Talvez a mesma pergunta tenha sido feita aos outros que se apresentaram diante do Senhor: “De onde vindes?” Devemos prestar contas a Deus de todos os lugares que frequentamos e de todos os caminhos que percorremos.

III. O relato que Satanás dá de si e do percurso que fizera. “Venho de percorrer a terra de um lado para outro”, diz ele. 1. Não podia alegar que fizera algum bem nem prestar as mesmas contas que os filhos de Deus, que vinham de cumprir suas ordens, servir aos interesses de seu reino e ministrar aos herdeiros da salvação.

  1. Tampouco quis admitir que fizera o mal, afastando os homens da lealdade a Deus, enganando e destruindo almas. Não: “Não fiz mal algum” (Provérbios 30:20). “Teu servo não foi a lugar nenhum.” Ao dizer que percorrera a terra, sugeria ter permanecido nos limites designados e não os ter ultrapassado.

O dragão foi lançado à terra (Apocalipse 12:9), sem ainda estar confinado ao lugar de tormento. Enquanto vivermos aqui, estaremos ao seu alcance. Com tanta astúcia, rapidez e empenho ele penetra todos os cantos da terra que em lugar algum estaremos livres de suas tentações.

  1. Ainda assim, parece revelar algo de seu próprio caráter. (1.) Talvez fale com orgulho e arrogância, como se fosse realmente o príncipe deste mundo, como se os reinos e sua glória lhe pertencessem (Lucas 4:6) e acabasse de percorrer os próprios territórios.

(2.) Talvez fale com irritação e descontentamento. Andara de um lado para outro sem encontrar descanso, tão fugitivo e errante quanto Caim na terra de Node.

(3.) Talvez fale como alguém atento à tarefa: “Tenho trabalhado muito, indo de um lado para outro”, ou, segundo outra leitura, “procurando pela terra”, em busca de uma oportunidade de causar dano. Anda ao redor procurando a quem possa devorar. Por isso, devemos ser sóbrios e vigilantes.

IV. A pergunta de Deus a Satanás sobre Jó (v. 8): “Observaste meu servo Jó?” Quando encontramos alguém que esteve num lugar distante onde mora um amigo muito querido, logo perguntamos: “Você esteve lá; por acaso viu meu amigo?” Observe:

  1. Com quanta honra Deus fala de Jó: “É meu servo.” Os homens bons são servos de Deus, e ele tem prazer em considerar-se honrado por seus serviços. Para ele, são motivo de renome e louvor (Jeremias 13:11) e coroa de glória, Isaías 62:3.

“Lá está meu servo Jó; não há outro semelhante a ele nem alguém, entre todos os príncipes e potentados da terra, a quem eu dê tanto valor. Um santo como ele vale mais que todos eles. Ninguém se compara a ele em retidão e piedade séria. Muitos fazem o bem, mas ele supera a todos; não se encontra fé tão grande, nem mesmo em Israel.”

Assim Cristo, muito tempo depois, elogiou o centurião e a mulher cananeia, ambos, como Jó, estrangeiros à comunidade de Israel. Os santos se gloriam em Deus: “Quem é como tu entre os deuses?” E ele tem prazer em gloriar-se neles: “Quem é como Israel entre os povos?”

Aqui também se diz que ninguém na terra se compara a Jó, pois a terra é um estado de imperfeição. No céu, há quem o supere amplamente; os menores naquele reino são maiores que ele. Na terra, porém, não há outro como Jó. Não há semelhante em seu país; assim, alguns homens bons são a glória de sua terra.

  1. Com que insistência Deus apresenta a Satanás esse bom caráter de Jó: “Puseste o coração em meu servo Jó?” Seu propósito era: (1.) Agravar a apostasia e a miséria daquele espírito perverso: “Como és diferente dele!” Repare: a santidade e a felicidade dos santos envergonham e atormentam o diabo e seus filhos.

(2.) Responder à aparente ostentação do diabo sobre a influência que exercia na terra. “Eu a percorri de um lado para outro”, diz ele, “e toda ela é minha. Toda carne corrompeu seu caminho; todos permanecem tranquilos e descansam em seus pecados”, Zacarias 1:10, 11. “Não”, responde Deus, “Jó é meu servo fiel.” Satanás pode vangloriar-se, mas não triunfará.

(3.) Antecipar suas acusações, como se dissesse: “Satanás, conheço tua intenção. Vieste denunciar Jó; mas já o observaste? Seu caráter incontestável não desmente tua acusação?” Repare: Deus conhece toda a malícia do diabo e de seus instrumentos contra seus servos, e temos um advogado pronto a defender-nos até antes de sermos acusados.

V. A vil insinuação do diabo contra Jó em resposta ao elogio de Deus. Satanás não podia negar que Jó temia a Deus, mas insinuou que servia à religião por interesse e, portanto, era hipócrita (v. 9): “Porventura Jó teme a Deus sem receber nada em troca?” Observe:

  1. Como o diabo se irritou ao ouvir Jó ser elogiado, embora o elogio viesse do próprio Deus. São semelhantes a ele os que não toleram o louvor a ninguém além de si mesmos e invejam a justa reputação de outros, como Saul (1 Samuel 18:5, etc.) e os fariseus, Mateus 21:15.

  2. Como lhe faltava algo para objetar contra Jó. Não podia acusá-lo de maldade alguma; por isso, atribuiu interesses ocultos às suas boas obras. Se metade das acusações que seus amigos irados lhe fizeram no calor da discussão fosse verdadeira (Jó 15:4; 22:5), Satanás sem dúvida as teria apresentado agora. Nada disso, porém, podia ser alegado.

  3. Veja com que astúcia o censurou como hipócrita: não afirmou que Jó o era, apenas perguntou: “Não será?” É a maneira habitual dos difamadores, dos que espalham boatos e falam pelas costas: insinuam em forma de pergunta aquilo que não têm motivo para julgar verdadeiro.

Repare: não é estranho que os aprovados e aceitos por Deus sejam censurados injustamente pelo diabo e por seus instrumentos. Se sua conduta não permite objeção, é fácil acusá-los de hipocrisia, como Satanás acusou Jó; só lhes resta esperar com paciência pelo juízo de Deus para que sejam inocentados.

Assim como nada devemos temer mais que ser hipócritas, nada precisamos temer menos que receber esse nome e ser assim considerados sem motivo.

  1. Veja quão injustamente o acusou de servir por interesse para demonstrar que era hipócrita. Era verdade que Jó não temia a Deus sem receber nada: ganhava muito com isso, pois a piedade traz grande proveito. Era mentira, porém, que deixaria de temer a Deus se não recebesse esse proveito, como os acontecimentos mostraram.

Os amigos de Jó o acusavam de hipocrisia por ser muito afligido; Satanás o acusava por prosperar muito. Quem busca pretexto para caluniar não encontra dificuldade. Não é servir por interesse esperar a recompensa eterna da obediência.

Visar vantagens temporais na religião e subordiná-la a elas, porém, é idolatria espiritual: é adorar a criatura mais que o Criador e tende a terminar numa apostasia fatal. Os homens não conseguem servir por muito tempo a Deus e a Mamom.

VI. A queixa de Satanás sobre a prosperidade de Jó, v. 10. Observe: 1. O que Deus havia feito por Jó. Protegeu-o, cercando-o com uma sebe que defendia sua pessoa, família e todos os seus bens. Repare: o povo especial de Deus e tudo o que lhe pertence ficam sob sua proteção particular.

A graça divina cerca sua vida espiritual, e a providência divina, sua vida natural; assim vivem seguros e tranquilos. Deus também fez Jó prosperar, não na ociosidade nem na injustiça — Satanás não podia acusá-lo disso —, mas pelo trabalho honesto e diligente: “Abençoaste a obra de suas mãos.”

Sem essa bênção, por mais fortes e hábeis que sejam as mãos, o trabalho não prospera. Com ela, porém, os bens de Jó cresceram maravilhosamente na terra. É a bênção do Senhor que enriquece; o próprio Satanás o reconhece.

  1. Como o diabo reparou nisso e o usou contra Jó. Fala com irritação: “Vejo que o cercaste com uma sebe por todos os lados”, como se tivesse percorrido todo o perímetro procurando uma única abertura pela qual pudesse entrar para causar-lhe dano. Frustrou-se: a sebe estava completa.

O perverso viu isso e se entristeceu, alegando que Jó servia a Deus apenas porque Deus o fazia prosperar. “Não há mérito em ser fiel ao governo que o promove e servir a um Senhor que lhe paga tão bem.”

VII. A prova que Satanás se propõe a dar da hipocrisia e do interesse da religião de Jó, se apenas lhe permitissem despojá-lo da riqueza. “Ponhamos isso à prova”, diz ele (v. 11): “Empobrece-o, mostra-lhe teu desagrado, volta tua mão contra ele e então vê o que será de sua religião. Toca no que possui, e se verá quem ele é.”

“Se ele não te amaldiçoar diante do teu rosto, nunca mais acreditem em mim; exponham-me como mentiroso e falso acusador. Que eu pereça se ele não te amaldiçoar!” Alguns completam assim a maldição que o próprio diabo ocultou modestamente, mas que os blasfemos de nossa época proferem com insolência e ousadia. Observe:

  1. Como ele fala com pouco caso da aflição que desejava impor a Jó como prova: “Apenas toca em tudo o que ele possui; apenas começa a agir contra ele; apenas ameaça empobrecê-lo. Um pequeno revés mudará seu tom.”

  2. Com que malícia descreve o efeito que isso teria sobre Jó: “Ele não só abandonará a devoção, mas passará ao desafio aberto. Não apenas pensará mal de ti, mas te amaldiçoará diante do teu rosto.”

A palavra traduzida por “amaldiçoar” é barac, a mesma que costuma significar, e originalmente significa, “abençoar”. Amaldiçoar a Deus, porém, é tão ímpio que a língua santa não admitia nomear esse ato. Ainda assim, pelo sentido, às vezes é necessário entendê-la assim, como mostra 1 Reis 21:10-13, onde a palavra descreve o crime atribuído a Nabote: blasfemar contra Deus e contra o rei.

(1.) É provável que Satanás realmente pensasse que Jó, ao empobrecer, abandonaria a religião e desmentiria sua profissão de fé. Nesse caso, como observou um erudito em Mount of Spirits, Satanás teria demonstrado seu domínio universal sobre os filhos dos homens.

Deus declarara que Jó era o melhor homem vivo. Se Satanás provasse que ele era hipócrita, seguir-se-ia que Deus não tinha um único servo fiel entre os homens e que a piedade verdadeira e sincera não existia no mundo. Toda religião seria uma farsa, e Satanás seria rei de facto — de fato — sobre toda a humanidade.

Ficou claro, porém, que o Senhor conhece os que são seus e não se engana a respeito de nenhum deles.

(2.) Mesmo que Jó conservasse a religião, Satanás teria a satisfação de vê-lo muito afligido. Odeia os homens bons e se alegra com suas dores, assim como Deus tem prazer em sua prosperidade.

VIII. A permissão que Deus deu a Satanás para afligir Jó e provar sua sinceridade. Satanás queria que Deus o fizesse: “Estende agora a tua mão.” Deus permitiu que Satanás o fizesse (v. 12): “Tudo o que ele possui está em teu poder. Torna a prova tão dura quanto puderes; faze-lhe o pior que conseguires.”

  1. É espantoso que Deus concedesse a Satanás tal permissão, entregando a alma de sua rola nas mãos do adversário, um cordeiro como Jó a um leão como aquele. Deus o fez, porém, para sua própria glória, para a honra de Jó, para esclarecer a Providência e para animar seu povo afligido em todas as épocas, estabelecendo um caso que, uma vez julgado, serviria de precedente útil.

Permitiu que Jó fosse provado, como permitiu que Pedro fosse peneirado, mas cuidou para que sua fé não faltasse (Lucas 22:32). Assim, a prova dessa fé resultou em louvor, honra e glória, 1 Pedro 1:7.

  1. É consolador saber que Deus mantém o diabo preso a uma corrente, uma grande corrente, Apocalipse 20:1. Satanás não podia afligir Jó sem primeiro pedir e obter permissão de Deus; mesmo depois, não podia ir além do permitido: “Somente contra ele não estendas a mão. Não toques em seu corpo, apenas em seus bens.”

O poder do diabo é limitado: não pode corromper os homens além do poder que eles mesmos lhe dão, nem afligi-los além do poder que lhe é concedido do alto.

IX. A saída de Satanás dessa reunião dos filhos de Deus. Antes que a assembleia terminasse, ele se retirou da presença do Senhor, como Caim (Gênesis 4:16). Não permaneceu ali detido, como Doegue (1 Samuel 21:7), além do tempo necessário para alcançar seu propósito malicioso.

Saiu: 1. Satisfeito por ter conseguido o que queria e orgulhoso da permissão para causar dano a um homem bom; e 2. Decidido a não perder tempo e executar logo seu plano.

Partiu não mais para vagar pela terra de um lado para outro, mas em direção certa para atacar o pobre Jó, que prosseguia cuidadosamente no dever sem saber de nada. Não conhecemos o que os espíritos bons e maus conversam a nosso respeito.

As Aflições que Sobrevieram a Jó; A Morte dos Filhos de Jó. (a.C. 1520.)

Versículos 13 a 19

Temos aqui um relato pormenorizado das aflições de Jó.

I. Satanás as trouxe sobre ele no mesmo dia em que seus filhos começaram a série de banquetes na casa do irmão mais velho (v. 13). Como ele tinha, podemos supor, a porção dobrada, o banquete era o mais rico e abundante.

Toda a família, sem dúvida, estava em perfeito sossego; todos se sentiam tranquilos, sem qualquer pressentimento da aflição, quando retomaram esse costume. Satanás escolheu essa ocasião para que a aflição, vindo então, fosse mais penosa. “A noite do meu prazer ele transformou em medo”, Isaías 21:4.

II. Todas as aflições lhe sobrevieram de uma vez: enquanto um mensageiro de más notícias falava, chegou outro; antes que este terminasse seu relato, vieram imediatamente um terceiro e um quarto. Assim Satanás dispôs as coisas, com a permissão divina:

  1. Para que as aflições parecessem revelar contra Jó um desagrado de Deus maior que o habitual. Isso poderia exasperá-lo contra a providência divina, como se ela estivesse decidida, com ou sem razão, a arruiná-lo sem lhe dar tempo de se defender.

  2. Para que ele não tivesse tempo de refletir, recobrar-se e, pelo raciocínio, chegar a uma submissão piedosa, mas fosse subjugado e dominado por uma série de calamidades. Sem um instante para parar, estaria propenso a falar precipitadamente; e então, se alguma vez o fizesse, amaldiçoaria seu Deus.

Observemos: os filhos de Deus muitas vezes ficam entristecidos por múltiplas provações. Um abismo chama outro abismo; ondas e vagas vêm umas após as outras. Que uma aflição nos desperte e ajude a nos preparar para outra.

Por mais que tenhamos bebido do cálice amargo, enquanto estivermos neste mundo não podemos ter certeza de já termos bebido nossa porção, nem de que ele se afastará de nós definitivamente.

III. As aflições lhe tiraram tudo o que possuía e puseram fim a tudo de que desfrutava. O relato pormenorizado das perdas corresponde ao inventário anterior de suas posses.

  1. Ele tinha quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e um número suficiente de servos para cuidar deles; perdeu tudo de uma só vez, vv. 14-15. O relato que recebeu lhe permitiu saber:

(1.) Que não foi por negligência de seus servos; nesse caso, ele poderia ter descarregado neles sua indignação. Os bois estavam arando, não brincando; as jumentas não tinham sido deixadas à solta para serem recolhidas como animais perdidos, mas pastavam junto deles, sob os olhos do servo, cada qual em seu lugar.

Podemos supor que os passantes os abençoavam e diziam: “Deus favoreça a lavoura.” Observemos: toda a nossa prudência, cuidado e diligência não podem nos proteger da aflição, nem mesmo daquelas aflições geralmente causadas pela imprudência e pela negligência.

Se o Senhor não guardar a cidade, por mais vigilante que seja, o guarda vigia em vão. Contudo, há algum consolo em meio à aflição quando ela nos encontra no caminho do dever, e não por algum desvio.

(2.) Que a perda se devia à maldade de seus vizinhos sabeus, provavelmente um povo de ladrões que vivia de saques e pilhagens. Eles levaram os bois e as jumentas e mataram os servos que, com fidelidade e coragem, fizeram todo o possível para defendê-los.

Apenas um servo escapou, não por bondade para com ele ou seu senhor, mas para que Jó recebesse a notícia certa de uma testemunha ocular antes de ouvi-la por um boato, que lhe teria chegado aos poucos.

Não temos motivo para suspeitar que Jó ou seus servos houvessem provocado os sabeus a fazer essa incursão. Satanás, porém, pôs no coração deles a ideia de fazê-la naquele momento e assim alcançou dois objetivos: fez Jó sofrer e os sabeus pecar.

Observemos: quando Satanás tem a permissão de Deus para causar dano, não lhe faltam homens perversos que sirvam de instrumentos. Ele é o espírito que atua nos filhos da desobediência.

  1. Jó tinha sete mil ovelhas e pastores que cuidavam delas; perdeu todos ao mesmo tempo por um raio, v. 16. Talvez Jó já estivesse prestes a censurar os sabeus e a irromper contra sua injustiça e crueldade, quando a notícia seguinte imediatamente o fez olhar para o alto: “O fogo de Deus caiu do céu”.

Assim como o trovão é sua voz, o raio é seu fogo. Mas este foi um raio tão extraordinário e dirigido tão diretamente contra Jó que todas as suas ovelhas e todos os pastores não foram apenas mortos: foram consumidos de uma só vez. Apenas um pastor ficou vivo para levar a notícia ao pobre Jó.

O diabo, visando levá-lo a amaldiçoar a Deus e renunciar à sua religião, conduziu essa parte da provação com muita astúcia para alcançar tal fim.

(1.) Suas ovelhas, com as quais costumava honrar a Deus especialmente nos sacrifícios, foram todas tiradas dele, como se Deus estivesse irado com suas ofertas e quisesse puni-lo justamente naquilo que ele empregava em seu serviço.

Depois de ter apresentado Jó falsamente a Deus como um servo desleal, Satanás prosseguiu em seu antigo desígnio de pôr o céu e a terra em conflito: apresentou falsamente Deus a Jó como um senhor severo, que não protegeria os rebanhos dos quais recebera tantos holocaustos.

Isso tentaria Jó a dizer: “É inútil servir a Deus”.

(2.) O mensageiro chamou o raio de fogo de Deus, de modo bastante inocente; talvez, porém, Satanás quisesse assim incutir em Jó o pensamento de que Deus se tornara seu inimigo e combatia contra ele. Isso lhe seria muito mais doloroso do que todos os ataques dos sabeus.

Jó reconheceu (Jó 31:23) que a destruição vinda de Deus o aterrorizava. Quão terrível, então, foi a notícia dessa destruição, que parecia vir diretamente da mão de Deus!

Se o fogo do céu tivesse consumido as ovelhas sobre o altar, ele poderia interpretá-lo como sinal do favor divino. Mas, consumindo-as no pasto, não podia deixar de vê-lo como sinal do desagrado de Deus. Não houve nada semelhante desde o incêndio de Sodoma.

  1. Jó tinha três mil camelos e servos que cuidavam deles; perdeu todos ao mesmo tempo para os caldeus, que vieram em três bandos, levaram os animais e mataram os servos, v. 17.

Se o fogo de Deus, que caiu sobre os servos honestos de Jó enquanto cumpriam seu dever, tivesse caído sobre os ladrões sabeus e caldeus enquanto causavam dano, os juízos de Deus seriam como as grandes montanhas: evidentes e visíveis.

Mas, quando o caminho dos perversos prospera e eles levam sua presa enquanto homens justos e bons são subitamente eliminados, a justiça de Deus é como o grande abismo, cujo fundo não podemos alcançar, Salmos 36:6.

  1. Suas posses mais queridas e preciosas eram seus dez filhos. Para completar a tragédia, chegou-lhe ao mesmo tempo a notícia de que haviam morrido e sido sepultados sob as ruínas da casa em que festejavam, juntamente com todos os servos que os atendiam, exceto um que veio expressamente dar a notícia, vv. 18-19.

Essa foi a maior perda de Jó e não podia deixar de ser a que mais profundamente o atingiu. Por isso o diabo a reservou para o fim: se as demais provocações falhassem, talvez esta o levasse a amaldiçoar a Deus.

Nossos filhos são partes de nós mesmos. É muito difícil separar-nos deles; a perda toca um homem bom em um de seus pontos mais sensíveis. Mas separar-se de todos de uma vez, vê-los eliminados num instante, depois de tantos anos de cuidados e esperanças, era algo que feria de fato o âmago de Jó.

(1.) Todos morreram juntos, e nenhum deles ficou vivo. Davi, embora fosse homem sábio e bom, ficou muito perturbado com a morte de um único filho. Quanto mais dura, então, foi a perda para o pobre Jó, que perdeu todos e, num só momento, viu-se sem filhos!

(2.) Morreram repentinamente. Se uma doença prolongada os tivesse levado, Jó teria sido avisado para esperar sua morte e preparar-se para a separação. Mas isso lhe sobreveio sem nenhum aviso.

(3.) Morreram enquanto festejavam e se alegravam. Se tivessem morrido repentinamente durante uma oração, Jó poderia suportar melhor a perda. Ele teria esperança de que a morte os encontrara em boa disposição.

Mas o sangue deles foi, por assim dizer, misturado à festa na qual ele mesmo costumava recear que tivessem pecado e amaldiçoado a Deus no coração. Aquele dia os surpreendeu como ladrão à noite, talvez quando já estivessem entorpecidos pela gula e pela embriaguez.

Isso não podia deixar de aumentar muito sua tristeza, pois ele sempre se preocupou ternamente com a alma dos filhos, e agora eles estavam fora do alcance dos sacrifícios que costumava oferecer segundo o número de todos eles.

Vejam como todas as coisas sucedem igualmente a todos. Jó orava constantemente por seus filhos; eles viviam em amor uns com os outros e, ainda assim, tiveram esse fim prematuro.

(4.) Morreram por um vento levantado pelo diabo, o príncipe da potestade do ar (Efésios 2:2). Contudo, o acontecimento foi visto como uma ação direta de Deus e um sinal de sua ira.

Foi assim que Bildade o interpretou (Jó 8:4): os filhos de Jó pecaram contra Deus, e Deus os lançou fora por causa da transgressão deles.

(5.) Foram levados quando Jó mais precisava deles para consolá-lo em todas as outras perdas. Quão miseráveis consoladores são todas as criaturas! Somente em Deus temos socorro sempre presente.

Versículos 20 a 22

A Dor e a Submissão de Jó. (a.C. 1520.)

O diabo já fizera contra Jó tudo o que pedira permissão para fazer, a fim de provocá-lo a amaldiçoar a Deus. Tocara em tudo o que ele possuía, e com que força! O homem que o sol nascente vira como o mais rico de todo o Oriente era, antes do anoitecer, proverbialmente pobre.

Se, como insinuara Satanás, suas riquezas fossem o único fundamento de sua religião, ao perdê-las ele certamente teria perdido também a religião. Mas o relato, nestes versículos, de sua conduta piedosa sob a aflição provou suficientemente que o diabo era mentiroso e Jó, um homem íntegro.

I. Ele se portou como homem em meio às aflições, não como alguém entorpecido e insensível, feito um tronco ou uma pedra, nem como alguém indiferente e desprovido de afeto diante da morte de seus filhos e servos.

Não: ele se levantou, rasgou o manto e rapou a cabeça (v. 20), expressões habituais de grande tristeza, para mostrar que sentia a mão do Senhor estendida contra ele. Ainda assim, não se entregou a nenhum ato indecoroso nem revelou paixão desmedida.

Não desmaiou: levantou-se como um campeão para o combate. Não arrancou as roupas num impulso, mas, com muita compostura e conforme o costume do país, rasgou o manto, sua capa ou veste exterior. Não arrancou os cabelos furiosamente, mas rapou a cabeça de modo deliberado.

Tudo isso mostrou que manteve o domínio de si e, com coragem, conservou a posse e a tranquilidade da própria alma em meio a todas aquelas provocações. É digno de nota o momento em que começou a manifestar seus sentimentos: somente ao saber da morte dos filhos ele se levantou e rasgou o manto.

Um coração mundano e incrédulo teria dito: “Agora que se foi a comida, é bom que se foram também as bocas; agora que não há herança, é bom que não haja filhos”. Mas Jó sabia mais que isso.

Ele teria dado graças se a providência tivesse poupado seus filhos, ainda que lhe restasse pouco ou nada para lhes dar, pois Jeová-Jiré: o Senhor proverá.

Alguns comentaristas, lembrando que era costume entre os judeus rasgar as roupas ao ouvir uma blasfêmia, conjecturam que Jó as rasgou em santa indignação diante dos pensamentos blasfemos que Satanás agora lançava em sua mente, tentando-o a amaldiçoar a Deus.

II. Ele se portou como homem sábio e bom em meio à aflição, como homem perfeito e reto, que temia a Deus e se afastava do mal do pecado mais do que do mal da adversidade exterior.

  1. Humilhou-se sob a mão de Deus e ajustou-se às circunstâncias que a providência lhe impunha, como alguém que sabia tanto passar necessidade quanto viver em abundância.

Quando Deus o chamou ao pranto e ao luto, chorou e lamentou, rasgou o manto e rapou a cabeça. Como alguém que se abate até o pó diante de Deus, caiu por terra com arrependida consciência do pecado e paciente submissão à vontade divina, aceitando o castigo de sua iniquidade.

Assim demonstrou sua sinceridade, pois os hipócritas não clamam quando Deus os prende, Jó 36:13. Assim se preparou para tirar proveito da aflição: como podemos aproveitar a dor que não queremos sentir?

  1. Aquietou o espírito mediante considerações consoladoras, para que esses acontecimentos não o perturbassem nem o fizessem perder o domínio da própria alma.

Ele raciocina com base na condição comum da vida humana, descrevendo-a em relação a si mesmo: “Nu saí do ventre de minha mãe”, como todos, “e nu voltarei para lá”, para o regaço de nossa mãe comum, a terra. Assim a criança, quando está doente ou cansada, repousa a cabeça no peito da mãe.

Em nossa origem éramos pó e, ao partir, ao pó retornamos (Gênesis 3:19); voltamos à terra como antes éramos (Eclesiastes 12:7). Nus voltaremos àquele lugar de onde fomos tirados, isto é, ao barro, Jó 33:6. Paulo se refere a essas palavras de Jó em 1 Timóteo 6:7.

Não trouxemos ao mundo nenhum dos bens deste mundo; nós os recebemos de outros. É certo que nada podemos levar dele, mas devemos deixar esses bens para outros.

Chegamos nus ao mundo: além de desarmados, sem roupa, desamparados, incapazes de cuidar de nós mesmos, menos cobertos e protegidos que as outras criaturas. O pecado em que nascemos nos torna nus, para nossa vergonha, aos olhos do Deus santo.

Saímos nus do mundo; isso acontece ao corpo, embora a alma santificada parta vestida, 2 Coríntios 5:3. A morte nos despoja de tudo de que desfrutamos. As roupas não podem aquecer nem adornar um corpo morto. Essa consideração fez Jó calar-se diante de todas as perdas.

(1.) Ele apenas voltou ao lugar de onde partira. Vê-se somente nu, não mutilado nem ferido. Ainda era ele mesmo, quando nada mais lhe pertencia; portanto, apenas voltara à condição inicial.

Nemo tam pauper potest esse quam natus est: ninguém pode ser tão pobre quanto era ao nascer. Minúcio Félix. Se empobrecemos, não fomos injustiçados nem muito prejudicados, pois apenas voltamos à condição em que nascemos.

(2.) Ele apenas chegou à condição a que finalmente teria de chegar; simplesmente foi despido, ou melhor, descarregado um pouco antes do que esperava. Tirar a roupa antes de ir para a cama é um inconveniente, mas pode ser suportado mais facilmente quando já se aproxima a hora de deitar.

  1. Deu glória a Deus e, naquela ocasião, expressou grande reverência pela providência divina e mansa submissão às suas determinações. Podemos nos alegrar ao ver Jó nessa boa disposição, pois precisamente disso dependia a prova de sua integridade, embora ele não soubesse.

O diabo afirmara que Jó amaldiçoaria a Deus em meio à aflição; ele, porém, o bendisse e assim se mostrou um homem íntegro.

(1.) Reconheceu a mão de Deus tanto nas misericórdias que antes desfrutara quanto nas aflições pelas quais agora passava: “O Senhor deu, e o Senhor tirou”. Devemos reconhecer a providência divina:

[1.] Em todos os nossos consolos. Deus nos deu a existência; foi ele quem nos fez, e não nós mesmos. Deu-nos nossos bens: não foi nossa própria engenhosidade ou diligência que nos enriqueceu, mas a bênção de Deus sobre nossos cuidados e esforços.

Ele nos deu a capacidade de adquirir riquezas; não apenas criou as coisas para nós, mas também nos concedeu nossa porção.

[2.] Em todas as nossas adversidades. O mesmo que deu tirou; e não pode ele fazer o que quiser com o que é seu? Vejam como Jó olha acima dos instrumentos e mantém os olhos na causa primeira.

Não diz: “O Senhor deu, e os sabeus e caldeus tiraram; Deus me fez rico, e o diabo me fez pobre”. Diz, antes: “Aquele que deu tirou”. Por isso fica em silêncio, sem nada a objetar, porque foi Deus quem o fez.

Quem deu tudo pode tirar o que quiser, quando quiser e quanto quiser. Sêneca também podia raciocinar assim: Abstulit, sed et dedit: ele tirou, mas também deu.

E Epicteto diz com excelência (cap. 15): “Quando fores privado de algum consolo, por exemplo, se um filho te for tirado pela morte ou perderes parte dos bens, não digas apolesa auto: ‘Eu o perdi’; mas apedoka: ‘Eu o restituí ao legítimo dono’”.

“Mas objetarás”, prossegue ele, “kakos ho aphelomenos: ‘É um homem mau quem me roubou’”. Ao que responde: “ti de soi melei: ‘Que te importa por qual mão aquele que dá reclama de volta o que deu?’”.

(2.) Adorou a Deus em ambas as situações. Quando tudo se fora, caiu por terra e adorou. Observemos: as aflições não devem nos afastar dos exercícios da religião, mas nos estimular a eles. O choro não deve impedir a semeadura nem a adoração.

Em suas aflições, Jó contemplou não apenas a mão de Deus, mas também o nome de Deus, e lhe deu glória: “Bendito seja o nome do Senhor”. Ainda tinha os mesmos pensamentos elevados e bons sobre Deus e estava tão disposto quanto antes a expressá-los em louvor.

Seu coração podia bendizer a Deus tanto quando ele tirava quanto quando dava. Assim devemos cantar tanto a misericórdia quanto o juízo, Salmos 101:1.

[1.] Jó bendiz a Deus pelo que lhe fora dado, embora agora lhe tivesse sido tirado. Quando nossos consolos nos são retirados, devemos agradecer a Deus por tê-los tido e por tê-los conservado por muito mais tempo do que merecíamos.

Mais ainda: [2.] ele adora a Deus até mesmo no ato de tirar, honrando-o com a submissão voluntária. Dá-lhe graças pelo bem que lhe destinava mediante as aflições, pelo amparo gracioso em meio a elas e pela esperança, sustentada pela fé, de um desfecho feliz.

Por fim, temos aqui o honroso testemunho que o Espírito Santo dá da constância e da boa conduta de Jó em meio às aflições. Ele passou pela prova com louvor, v. 22.

Em tudo isso Jó não agiu mal, pois não atribuiu loucura a Deus nem lançou a menor censura sobre a sabedoria do que ele havia feito. O descontentamento e a impaciência, na verdade, acusam Deus de loucura.

Jó vigiou cuidadosamente contra esses impulsos, e nós também devemos fazê-lo, reconhecendo que, assim como Deus agiu com justiça e nós agimos perversamente, Deus agiu com sabedoria e nós agimos com loucura, com muita loucura.

Quem, além de manter o domínio de si em meio às adversidades e provocações, conserva bons pensamentos sobre Deus e doce comunhão com ele, receberá louvor de Deus, quer seja louvado pelos homens ou não, como aconteceu aqui com Jó.


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