Matthew Henry

Isaías 1

Argumento

Isaías

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA ISAÍAS.

Profeta é um título que soa muito grandioso para quem o entende, embora, aos olhos do mundo, muitos dos que foram honrados com ele parecessem muito humildes. Um profeta é alguém que tem grande intimidade com o Céu e grande interesse ali, e, consequentemente, autoridade imperativa na terra.

Profecia designa toda revelação divina (2 Pedro 1:20, 21), porque esta era mais comumente comunicada por sonhos, vozes ou visões, primeiro aos profetas, e por eles aos filhos dos homens, Números 12:6.

Uma vez, de fato, o próprio Deus falou a todos os milhares de Israel do alto do monte Sinai. Mas o efeito foi tão insuportavelmente terrível que eles suplicaram que Deus, no futuro, lhes falasse como fizera antes, por homens semelhantes a eles próprios, cujo terror não os amedrontasse, nem cujas mãos pesassem sobre eles, Jó 33:7.

Deus aprovou a proposta (“Disseram bem”, diz ele, Deuteronômio 5:27, 28). E então a questão foi resolvida por anuência das partes: nunca mais devemos esperar ouvir Deus daquela maneira, mas por profetas, que recebiam suas instruções sem mediação de Deus, com a incumbência de expô-las à sua igreja.

Antes de começar a ser escrito o cânon sagrado do Antigo Testamento, havia profetas, que faziam as vezes de Bíblias para a igreja. Nosso Salvador parece contar Abel entre os profetas, Mateus 23:31, 35. Enoque foi profeta; e por ele foi primeiro na predição aquilo que será último na execução: o juízo do grande dia.

Judas 1:14: Eis que o Senhor vem com suas santas miríades. Noé foi pregador da justiça. Deus disse de Abraão: “Ele é profeta”, Gênesis 20:7. Jacó predisse coisas por vir, Gênesis 49:1. Ou melhor: todos os patriarcas são chamados profetas. Salmos 105:15: “Não causeis prejuízo aos meus profetas”.

Moisés foi, além de toda comparação, o mais ilustre de todos os profetas do Antigo Testamento, pois com ele o Senhor falou face a face, Deuteronômio 34:10. Ele foi o primeiro profeta a escrever, e por sua mão foram lançados os primeiros alicerces da Escritura sagrada.

Até aqueles que foram chamados a ser seus auxiliares no governo tinham o espírito de profecia, tão abundante efusão desse espírito houve naquele tempo, Números 11:25.

Mas, depois da morte de Moisés, durante algumas eras, o Espírito do Senhor apareceu e agiu na igreja de Israel mais como espírito guerreiro do que como espírito de profecia, e inspirou homens mais para agir do que para falar. Refiro-me ao tempo dos juízes.

Encontramos o Espírito do Senhor vindo sobre Otniel, Gideão, Sansão e outros, para o serviço de seu país, com suas espadas, e não com suas penas. Então eram enviadas do céu mensagens por anjos, como a Gideão e Manoá, e ao povo, Juízes 2:1.

Em todo o livro de Juízes, nenhuma vez se menciona um profeta; somente Débora é chamada profetisa. Então “a palavra do Senhor era preciosa; não havia visão manifesta”, 1 Samuel 3:1. Eles tinham a lei de Moisés, escrita recentemente; que a estudassem.

Mas em Samuel a profecia reviveu, e nele começou uma época famosa, ou período da igreja, um tempo de grande luz numa sucessão constante e ininterrupta de profetas, até algum tempo depois do cativeiro, quando o cânon do Antigo Testamento foi completado em Malaquias.

E então a profecia cessou por quase 400 anos, até a vinda do grande profeta e de seu precursor. Alguns profetas foram divinamente inspirados a escrever as histórias da igreja.

Mas não puseram seus nomes em seus escritos; somente remeteram, para comprovação, aos registros autênticos daqueles tempos, que se sabia terem sido redigidos por profetas, como Gade, Ido, etc. Davi e outros foram profetas para escrever cânticos sagrados para uso da igreja.

Depois deles, lemos frequentemente sobre profetas enviados em missões específicas e levantados para serviços públicos especiais, entre os quais os mais famosos foram Elias e Eliseu no reino de Israel.

Mas nenhum deles pôs suas profecias por escrito, nem temos quaisquer vestígios delas além de alguns fragmentos nas histórias de seus tempos. Não houve nada escrito por eles próprios (que eu me lembre), além de uma epístola de Elias, 2 Crônicas 21:12.

Mas, perto do fim dos reinos de Judá e Israel, Deus teve por bem orientar seus servos, os profetas, a escrever e publicar alguns de seus sermões, ou resumos deles.

As datas de muitas de suas profecias são incertas, mas a mais antiga delas foi nos dias de Uzias, rei de Judá, e de Jeroboão, o segundo, seu contemporâneo, rei de Israel, cerca de 200 anos antes do cativeiro, e não muito depois de Joás ter abatido Zacarias, filho de Joiada, nos átrios do templo.

Se começarem a assassinar os profetas, contudo não assassinarão suas profecias; estas permanecerão como testemunhas contra eles. Oseias foi o primeiro dos profetas que escreveram; e Joel, Amós e Obadias publicaram suas profecias aproximadamente na mesma época.

Isaías começou algum tempo depois, e não muito. Mas sua profecia é colocada primeiro, porque é a maior de todas e tem em si mais daquele de quem todos os profetas deram testemunho; e, de fato, tanto de Cristo que ele é, com justiça, chamado o Profeta Evangélico, e, por alguns dos antigos, um quinto Evangelista.

Teremos o título geral deste livro (v. 1), e por isso aqui somente observaremos algumas coisas:

I. A respeito do próprio profeta. Ele era (se podemos crer na tradição dos judeus) da família real, sendo seu pai (dizem eles) irmão do rei Uzias.

Certamente frequentava muito a corte, especialmente no tempo de Ezequias, como encontramos em sua história, e muitos pensam que a isso se deve seu estilo ser mais primoroso e polido que o de alguns outros profetas, e, em alguns lugares, extremamente elevado e altaneiro.

O Espírito de Deus às vezes servia ao seu próprio propósito pelo talento particular do profeta. Pois os profetas não eram trombetas falantes, pelas quais o Espírito falava, mas homens falantes, por quem o Espírito falava, fazendo uso de suas capacidades naturais, tanto no que diz respeito à luz quanto à chama, e elevando-os acima de si mesmos.

II. A respeito da profecia. Ela é extraordinariamente excelente e útil; assim era para a igreja de Deus naquele tempo, servindo para convencimento do pecado, orientação no dever e consolação na tribulação.

Duas grandes angústias da igreja são aqui mencionadas, e prescrito conforto com referência a elas: a da invasão de Senaqueribe, que aconteceu no próprio tempo de Isaías, e a do cativeiro na Babilônia, que aconteceu muito depois.

E, nos amparos e ânimos reservados para cada um desses tempos de necessidade, encontramos abundância da graça do evangelho. Não há nos evangelhos tantas citações de nenhuma, talvez nem de todas as profecias do Antigo Testamento, como desta.

Nem há testemunhos tão expressos a respeito de Cristo; testemunha disso é o de seu nascimento de uma virgem (Isaías 7) e o de seus sofrimentos, Isaías 53. O começo deste livro é mais abundante em censuras pelo pecado e ameaças de juízo; sua parte final está cheia de boas palavras e palavras confortadoras.

O Espírito de Cristo adotou esse método anteriormente nos profetas e continua a adotá-lo: primeiro convencer e depois confortar; e aqueles que quiserem ser abençoados com os confortos devem se submeter aos convencimentos.

Sem dúvida, Isaías pregou muitos sermões e expôs muitas mensagens ao povo que não estão escritos neste livro, como Cristo fez; e provavelmente esses sermões foram expostos mais extensa e plenamente do que aqui são relatados.

Mas ficou registrado tanto quanto a Sabedoria Infinita julgou apropriado transmitir a nós, sobre quem chegaram os fins do mundo. E estas profecias, assim como as histórias de Cristo, estão escritas para que creiamos no nome do Filho de Deus, e para que, crendo, tenhamos vida por seu nome.

Pois aqui nos é pregado o evangelho, assim como àqueles que viviam então, e mais claramente. Ah, que ele seja misturado com fé!

O primeiro versículo deste capítulo se destina a ser um título de todo o livro, e é provável que este tenha sido o primeiro sermão que este profeta foi designado a publicar e afixar por escrito (como Calvino pensa que era o costume dos profetas) à porta do templo.

Como entre nós, são afixadas proclamações em lugares públicos, para que todos as possam ler (Habacuque 2:2), e aqueles que quiserem possam tirar cópias autênticas delas, sendo o original, depois de algum tempo, guardado pelos sacerdotes entre os registros do templo. O sermão contido neste capítulo tem em si:

I. Uma grave acusação apresentada, em nome de Deus, contra a igreja e a nação judaicas:

  1. Por sua ingratidão, v. 2, 3.

  2. Por sua incorrigibilidade, v. 5.

  3. Pela corrupção e degeneração universais do povo, v. 4, 6, 21, 22.

  4. Pela perversão da justiça por seus governantes, v. 23.

II. Uma triste queixa dos juízos de Deus que eles trouxeram sobre si mesmos por seus pecados, e pelos quais foram levados quase à completa ruína, vv. 7-9.

III. Uma justa rejeição daquelas aparências e sombras de religião que eles mantinham entre si, apesar desta deserção e apostasia gerais, vv. 10-15.

IV. Um fervoroso chamado ao arrependimento e à reforma, pondo diante deles a vida e a morte: vida se atendessem ao chamado, e morte se não o atendessem, vv. 16-20.

V. Uma ameaça de ruína àqueles que não quisessem ser reformados, v. 24, 28-31.

VI. Uma promessa de feliz reforma afinal, e de retorno à sua pureza e prosperidade primitivas, vv. 25-27. E tudo isso deve ser aplicado por nós, não só às comunidades de que somos membros, em seus interesses públicos, mas ao estado de nossas próprias almas.

Versículo 1

A Visão de Isaías. (a.C. 738.)

Aqui está:

I. O nome do profeta, Isaías, ou Jesahiahu (pois assim é no hebraico), que no Novo Testamento se lê Esaias. Seu nome significa a salvação do Senhor, um nome apropriado para um profeta por quem Deus dá conhecimento da salvação ao seu povo, especialmente para este profeta, que profetiza tanto sobre Jesus, o Salvador, e a grande salvação realizada por ele.

Diz-se que ele era filho de Amoz, não de Amós, o profeta (os dois nomes no hebraico diferem mais do que no inglês), mas, como pensam os judeus, de Amoz, irmão ou filho de Amazias, rei de Judá, tradição tão incerta quanto a regra que eles dão: onde se nomeia o pai de um profeta, ele próprio também era profeta.

Os alunos e sucessores dos profetas são, de fato, frequentemente chamados seus filhos, mas temos poucos exemplos, se é que algum, de seus próprios filhos serem seus sucessores.

II. A natureza da profecia. Ela é uma visão, sendo-lhe revelada numa visão, quando ele estava acordado e ouviu as palavras de Deus e viu as visões do Todo-Poderoso (como Balaão fala, Números 24:4), embora talvez não fosse de início uma visão tão ilustre quanto aquela posterior, Isaías 6:1.

Os profetas eram chamados videntes, ou homens que veem, e por isso suas profecias são adequadamente chamadas visões. Era aquilo que ele via com os olhos de sua mente e previa tão claramente pela revelação divina.

Tinha tanta certeza daquilo, estava tão plenamente informado daquilo e era tão afetado por aquilo como se o tivesse visto com seus olhos corporais. Repare:

  1. Os profetas de Deus viam aquilo de que falavam, sabiam o que diziam e não exigem que creiamos em nada além daquilo em que eles próprios criam e de que tinham certeza, João 6:69; 1 João 1:1.

  2. Eles não podiam deixar de falar o que viam, porque viam quanto aquilo dizia respeito a todos ao seu redor, Atos 4:20; 2 Coríntios 4:13.

III. O assunto da profecia. Era aquilo que ele viu a respeito de Judá e Jerusalém, a região das duas tribos, e daquela cidade que era sua metrópole; e há nela pouco relativo a Efraim, ou às dez tribos, sobre quem tanto se diz na profecia de Oseias.

Há neste livro alguns capítulos que se referem à Babilônia, ao Egito, a Tiro e a algumas outras nações vizinhas. Mas ele recebe seu título daquilo que constitui seu conteúdo principal, e por isso se diz que trata de Judá e Jerusalém, sendo as outras nações mencionadas aquelas com que o povo dos judeus tinha relação. Isaías lhes traz de maneira especial:

  1. Instrução; pois é privilégio de Judá e Jerusalém que a eles pertençam os oráculos de Deus.

  2. Censura e ameaça; pois, se em Judá, onde Deus é conhecido, se em Salém, onde seu nome é grande, for encontrada iniquidade, deles, antes de quaisquer outros, se pedirão contas por isso.

  3. Consolo e ânimo nos tempos maus; pois os filhos de Sião se alegrarão em seu rei.

IV. A data da profecia. Isaías profetizou nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Por isso se evidencia:

  1. Que ele profetizou por muito tempo, especialmente se (como dizem os judeus) foi afinal morto por Manassés, numa morte cruel, sendo serrado ao meio, à qual alguns supõem que o apóstolo se refira, Hebreus 11:37.

Do ano em que morreu o rei Uzias (Isaías 6:1) à doença e recuperação de Ezequias foram quarenta e sete anos; quanto antes e depois disso ele profetizou não é certo; alguns calculam sessenta, outros oitenta anos ao todo.

Foi uma honra para ele, e uma felicidade para seu país, que ele fosse mantido por tanto tempo em sua utilidade. E devemos supor tanto que começou jovem quanto que perseverou até a velhice; pois os profetas não estavam presos, como os sacerdotes, a uma idade determinada para o começo ou o fim de seu ministério.

  1. Que ele atravessou uma variedade de tempos. Jotão foi um bom rei, e Ezequias um melhor, e sem dúvida deram ânimo a este profeta e receberam seus conselhos, foram seus protetores, e ele, conselheiro privado deles.

Mas entre eles, e quando Isaías estava no auge de seu tempo, o reinado de Acaz foi muito profano e perverso. Então, sem dúvida, ele foi visto com desaprovação na corte e, provavelmente, forçado a se esconder. Homens bons e ministros bons devem esperar tempos ruins neste mundo e preparar-se para eles.

Então a religião foi abatida a tal ponto que as portas da casa do Senhor foram fechadas e altares idólatras foram erguidos em cada esquina de Jerusalém; e Isaías, com toda a sua eloquência divina e mensagens sem mediação do próprio Deus, não conseguiu impedir isso. Os melhores homens, os melhores ministros não conseguem fazer no mundo o bem que desejariam fazer.

A Degeneração de Israel; A Pecaminosidade de Israel; Os Sofrimentos de Israel. (a.C. 738.)

Versículos 2 a 9

Esperaremos encontrar uma cena mais luminosa e agradável antes de chegar ao fim deste livro; mas, na verdade, aqui, no começo dele, tudo parece muito ruim, muito sombrio, com Judá e Jerusalém. Como será o deserto do mundo, se a igreja, a vinha, tem um aspecto tão desolador quanto este?

I. O profeta, embora fale em nome de Deus, contudo, desesperando de conseguir ser ouvido pelos filhos de seu povo, dirige-se aos céus e à terra e solicita sua atenção (v. 2): “Ouvi, ó céus, e dá ouvidos, ó terra!” Antes ouvirão as criaturas inanimadas, que observam a lei e atendem à finalidade de sua criação, do que este povo estúpido e irrefletido.

Que as luzes do céu envergonhem suas trevas, e a fertilidade da terra, sua esterilidade, e a pontualidade de cada um em seu tempo, sua irregularidade. Moisés começa assim em Deuteronômio 32:1, ao que o profeta aqui se refere, indicando que agora haviam chegado aqueles tempos que Moisés ali predisse, Deuteronômio 31:29.

Ou isto é um recurso ao céu e à terra, aos anjos e então aos habitantes do mundo superior e inferior. Que julguem entre Deus e sua vinha; algum deles pode apresentar semelhante exemplo de ingratidão? Repare: Deus será justificado quando falar, e tanto o céu quanto a terra declararão sua justiça, Miquéias 6:1, 2; Salmos 50:6.

II. Ele os acusa de vil ingratidão, crime da mais alta gravidade. Chame um homem de ingrato, e não poderá chamá-lo de coisa pior. Que o céu e a terra ouçam e se admirem de:

  1. Os graciosos tratos de Deus com um povo tão mal-humorado e provocador como eles eram: Eu os nutri e criei como filhos; eles foram bem alimentados, e lhes foi bem ensinado (Deuteronômio 32:6).

“Eu os engrandeci e exaltei” (assim dizem alguns), “não só os fiz crescer, mas os fiz grandes; não só os sustentei, mas os elevei; não só os eduquei, mas os ergui ao alto”. Repare: devemos a continuidade de nossas vidas e confortos, e todos os nossos avanços, ao zelo paternal de Deus por nós e à sua bondade para conosco.

  1. Sua conduta maldosa para com ele, que foi tão terno para com eles: “Eles se rebelaram contra mim”, ou (como alguns leem) “eles se revoltaram contra mim; foram desertores, ou melhor, traidores contra minha coroa e dignidade”.

Repare: todos os exemplos do favor de Deus para conosco, como Deus tanto de nossa natureza quanto de nossa criação, agravam nossos afastamentos traiçoeiros dele e todas as nossas oposições presunçosas a ele: filhos, e contudo rebeldes!

III. Ele atribui isso à sua ignorância e falta de reflexão (v. 3): “O boi conhece”, mas Israel não. Observe:

  1. A sagacidade do boi e do jumento, que não são só criaturas brutas, mas do tipo mais obtuso. Contudo, o boi tem tal percepção do dever que conhece seu dono e o serve, se submete ao seu jugo e puxa sob ele.

O jumento tem tal percepção do interesse que conhece o cocho, ou manjedoura, de seu senhor, onde é alimentado, e permanece junto dela; irá até ela por conta própria se for solto.

A que situação o homem chegou quando é envergonhado até no conhecimento e entendimento por esses animais tolos, e não só é enviado à escola deles (Provérbios 6:6, 7), mas colocado numa classe abaixo deles (Jeremias 8:7), sendo-lhe ensinado mais que aos animais da terra (Jó 35:11), e contudo sabendo menos.

  1. A imbecilidade e estupidez de Israel. Deus é seu dono e proprietário. Ele nos fez, e somos dele mais do que nosso gado é nosso; ele proveu bem para nós; a providência é o cocho de nosso Senhor.

Contudo, muitos que são chamados povo de Deus não sabem e não querem considerar isso, mas perguntam: “Que é o Todo-Poderoso para que o sirvamos? Ele não é nosso dono; e que proveito teremos se orarmos a ele? Ele não tem cocho em que nos alimentemos”.

Ele se queixara (v. 2) da obstinação de suas vontades: “Eles se rebelaram contra mim”. Aqui a faz remontar à sua causa: “Por isso se rebelaram: porque não sabem, não consideram”. O entendimento está obscurecido, e por isso a alma inteira está alienada da vida de Deus, Efésios 4:18.

“Israel não sabe, embora sua terra seja terra de luz e conhecimento; em Judá Deus é conhecido, contudo, porque não vivem à altura daquilo que sabem, na prática é como se não soubessem. Sabem; mas seu conhecimento não lhes faz bem algum, porque não consideram o que sabem; não o aplicam ao seu caso, nem aplicam suas mentes a ele”. Repare:

(1.) Até entre aqueles que se professam povo de Deus, que têm as vantagens e estão sob os compromissos de seu povo, há muitos que são muito negligentes nos assuntos de suas almas.

(2.) A falta de reflexão sobre aquilo que de fato sabemos é um inimigo tão grande para nós na religião como a ignorância daquilo que deveríamos saber.

(3.) Por isso os homens se revoltam contra Deus e se rebelam contra ele: porque não conhecem nem consideram suas obrigações para com Deus quanto ao dever, à gratidão e ao interesse.

IV. Ele lamenta a depravação e corrupção universais de sua igreja e reino. A doença do pecado era epidêmica, e todas as ordens e classes de homens estavam infectadas por ela: “Ah, nação pecadora!”, v. 4.

O profeta pranteia aqueles que não queriam prantear a si mesmos: “Que tristeza por eles! Ai deles!” Ele fala com santa indignação por sua degeneração, e com temor de suas consequências. Veja aqui:

  1. Como ele agrava seu pecado e mostra a malignidade que havia nele, v. 4:

(1.) A perversidade era universal. Eles eram uma nação pecadora; a maioria do povo era viciosa e profana. Eram assim em sua condição nacional. Na condução de seus tratados públicos no exterior, e na administração da justiça pública em seu país, eram corruptos. Repare: vai mal a um povo quando o pecado se torna nacional.

(2.) Ele era muito grande e hediondo em sua natureza. Estavam carregados de iniquidade; sua culpa e a maldição incorrida por essa culpa pesavam muito sobre eles.

Era uma grave acusação apresentada contra eles, e da qual nunca poderiam se livrar; sua perversidade estava sobre eles como um talento de chumbo, Zacarias 5:7, 8. Seu pecado, assim como facilmente os assediava e eles eram inclinados a ele, era um peso sobre eles, Hebreus 12:1.

(3.) Eles provinham de uma linhagem má, eram uma descendência de malfeitores. A traição corria em seu sangue; eles a tinham por natureza, o que tornava a questão tanto pior, mais provocadora e menos curável.

Levantaram-se no lugar de seus pais e seguiram os passos de seus pais, para encher a medida de sua iniquidade, Números 32:14. Eram uma raça e família de rebeldes.

(4.) Aqueles que eram eles próprios depravados faziam o que podiam para depravar outros. Não eram só filhos corruptos, nascidos contaminados, mas filhos que eram corruptores, que propagavam o vício e infectavam outros com ele: não só pecadores, mas tentadores; não só movidos por Satanás, mas agentes em favor dele.

Se aqueles que são chamados filhos, filhos de Deus, que são considerados pertencentes à sua família, forem perversos e vis, seu exemplo exerce a influência mais maligna.

(5.) Seu pecado era um afastamento traiçoeiro de Deus. Eram desertores de sua fidelidade: “Abandonaram o Senhor, a quem se haviam unido; foram para trás, estão alienados ou separados de Deus, deram-lhe as costas, desertaram de suas bandeiras e deixaram seu serviço”.

Quando eram impelidos para a frente, corriam para trás, como um novilho desacostumado ao jugo, como uma novilha que recua, Oseias 4:16.

(6.) Era um desafio insolente e ousado a ele: “Provocaram o Santo de Israel à ira”, voluntariamente e de caso pensado; sabiam o que o iraria e fizeram isso. Repare: os desvios daqueles que professaram religião e relação com Deus são de maneira especial provocadores para ele.

  1. Como ele o ilustra por uma comparação tirada de um corpo enfermo e doente, todo coberto de lepra ou, como o de Jó, de furúnculos dolorosos, v. 5, 6:

(1.) A enfermidade tomou os órgãos vitais, e assim ameaça ser mortal. As doenças na cabeça e no coração são as mais perigosas; agora “a cabeça”, toda a cabeça, “está enferma”; “o coração”, todo o coração, “está desfalecido”.

Eles se haviam tornado corruptos em seu julgamento: a lepra estava em sua cabeça. Estavam completamente impuros; sua afeição por Deus e pela religião estava fria e desaparecera; as coisas que restavam estavam prontas para morrer, Apocalipse 3:2.

(2.) Ela se espalhou por todo o corpo, e assim se torna extremamente repugnante: “Desde a planta do pé até mesmo a cabeça”, do mais humilde camponês ao maior nobre, “não há sanidade”, nem bons princípios, nem religião (pois esta é a saúde da alma).

São somente “feridas e contusões”, culpa e corrupção, os tristes efeitos da queda de Adão, repugnantes ao santo Deus, dolorosos à alma consciente; assim eram para Davi quando se queixou (Salmos 38:5): “Minhas feridas fedem e estão corrompidas, por causa de minha insensatez”. Veja Salmos 32:3, 4.

Não se fizeram tentativas de reforma, ou, se foram feitas, mostraram-se ineficazes: As feridas não foram fechadas, nem atadas, nem amolecidas com unguento.

Enquanto o pecado permanece sem arrependimento, as feridas não são sondadas nem lavadas, a carne exuberante nelas não é cortada. E enquanto, consequentemente, ele permanece sem perdão, as feridas não são amolecidas nem fechadas, nem se faz coisa alguma para curá-las e impedir suas consequências fatais.

V. Ele pranteia tristemente os juízos de Deus que eles trouxeram sobre si mesmos por seus pecados, e sua incorrigibilidade sob esses juízos:

  1. Seu reino estava quase arruinado, v. 7. Eram tão miseráveis que tanto suas cidades quanto suas terras estavam devastadas, e contudo tão estúpidos que precisavam que isso lhes fosse dito, que lhes fosse mostrado.

“Olhem e vejam como está; sua terra está desolada; o solo não é cultivado, por falta de habitantes, sendo as aldeias abandonadas”, Juízes 5:7. “E assim os campos e vinhas se tornam como desertos, todos cobertos de espinhos”, Provérbios 24:31.

“Suas cidades são queimadas com fogo pelos inimigos que os invadem” (fogo e espada comumente andam juntos). “Quanto aos frutos de sua terra, que deveriam ser alimento para suas famílias, estrangeiros os devoram; e, para sua maior inquietação, isso acontece diante de seus olhos, e vocês não conseguem impedi-lo”.

“Vocês morrem de fome enquanto seus inimigos se fartam daquilo que deveria ser seu sustento. A destruição de sua terra é como a destruição de estrangeiros; ela é tratada pelos invasores como se poderia esperar que fosse tratada por estrangeiros”.

A própria Jerusalém, que era como a filha de Sião (o templo construído em Sião era uma mãe, uma mãe nutridora, para Jerusalém), ou a própria Sião, o santo monte, que fora querida para Deus como uma filha, estava agora perdida, abandonada e exposta como uma cabana numa vinha, na qual, quando termina a vindima, ninguém mora nem tem zelo algum por ela.

E parece tão humilde e desprezível como uma choça ou barraca num jardim de pepinos; e todos têm medo de se aproximar dela e estão ansiosos para tirar dela seus bens, como se fosse uma cidade sitiada, v. 8. E alguns pensam que é um estado calamitoso do reino que é representado por um corpo doente, v. 6.

Provavelmente este sermão foi pregado no reinado de Acaz, quando Judá foi invadida pelos reis da Síria e de Israel, pelos edomitas e pelos filisteus, que abateram muitos e levaram muitos para o cativeiro, 2 Crônicas 28:5, 17, 18. Repare: a impiedade e imoralidade nacionais trazem desolação nacional.

Canaã, a glória de todas as terras, o monte Sião, a alegria de toda a terra, ambos se tornaram um descrédito e uma ruína; e o pecado os fez assim, esse grande causador de danos.

  1. Contudo, nem todos eles foram reformados, e por isso Deus ameaça adotar outro procedimento com eles (v. 5): Por que vocês seriam feridos mais, com alguma expectativa de lhes fazer bem com isso, quando aumentam suas revoltas à medida que suas repreensões são aumentadas? Vocês se revoltarão cada vez mais, como fizeram.

Como particularmente fez Acaz, que, em sua angústia, transgrediu ainda mais contra o Senhor, 2 Crônicas 28:22. Assim o médico, quando vê que o caso do paciente é desesperador, não o incomoda mais com remédio; e o pai resolve não corrigir mais seu filho quando, achando-o endurecido, determina deserdá-lo. Repare:

(1.) Há aqueles que são tornados piores pelos métodos que Deus adota para torná-los melhores; quanto mais são feridos, mais se revoltam; suas corrupções, em vez de serem mortificadas, são irritadas e exasperadas por suas aflições, e seus corações mais endurecidos.

(2.) Deus às vezes, num procedimento de justo juízo, cessa de corrigir aqueles que há muito são incorrigíveis, e que por isso tem o desígnio de destruir. A prata reprovada será lançada, não na fornalha, mas no monturo, Jeremias 6:29, 30. Veja Ezequiel 24:13; Oseias 4:14. Quem é imundo, que continue imundo.

VI. Ele se conforta ao considerar um remanescente de pessoas que seriam monumentos da graça e da misericórdia divinas, apesar desta corrupção e desolação gerais, v. 9. Veja aqui:

  1. Quão perto estavam de uma completa extirpação. Eram quase como Sodoma e Gomorra, tanto quanto ao pecado como quanto à ruína, haviam se tornado quase tão maus que não poderiam ser encontrados dez justos entre eles, e quase tão miseráveis como se ninguém tivesse sido deixado vivo, mas sua terra transformada num lago sulfuroso.

A Justiça Divina disse: “Faze-os como Admá; põe-nos como Zeboim”. Mas a Misericórdia disse: “Como o farei?” Oseias 11:8, 9.

  1. O que os salvou disso: O Senhor dos exércitos deixou-lhes um remanescente muito pequeno, que foi mantido puro da apostasia comum e mantido seguro e vivo da calamidade comum.

Isso é citado pelo apóstolo (Romanos 9:29) e aplicado àqueles poucos da nação judaica que em seu tempo abraçaram o cristianismo, quando o conjunto do povo o rejeitou, e em quem se cumpriram as promessas feitas aos pais. Repare:

(1.) Nos piores tempos há um remanescente preservado da iniquidade e reservado para a misericórdia, como Noé e sua família no dilúvio, Ló e os seus na destruição de Sodoma. A graça divina triunfa em distinguir por um ato de soberania.

(2.) Esse remanescente é frequentemente muito pequeno em comparação com o vasto número de pecadores revoltosos e arruinados. Multidão não é marca da verdadeira igreja. O de Cristo é um pequeno rebanho.

(3.) É obra de Deus santificar e salvar alguns, quando outros são deixados para perecer em sua impureza. É obra de seu poder como Senhor dos exércitos. Se ele não nos tivesse deixado esse remanescente, ninguém teria sido deixado.

Os corruptores (v. 4) fizeram o que puderam para depravar todos, e os devoradores (v. 7), para destruir todos, e teriam conseguido seu intento se o próprio Deus não tivesse intervindo para assegurar para si um remanescente, que está obrigado a lhe dar toda a glória.

(4.) É bom para um povo que foi salvo de completa ruína olhar para trás e ver quão perto estava dela, exatamente à sua beira, ver quanto devia a uns poucos homens bons que se puseram na brecha, e que isso se devia a um Deus bom, que lhes deixou esses homens bons. São as misericórdias do Senhor que fazem com que não sejamos consumidos.

Versículos 10 a 15

A Vaidade da Mera Obediência Ritual. (a.C. 738.)

Aqui:

I. Deus os chama (mas chama em vão) a ouvir sua palavra, v. 10:

  1. O título que lhes dá é muito estranho: Vocês, governantes de Sodoma e povo de Gomorra. Isso indica quão justo teria sido Deus torná-los como Sodoma e Gomorra quanto à ruína (v. 9), porque eles se haviam tornado como Sodoma e Gomorra quanto ao pecado.

“Os homens de Sodoma eram perversos e pecadores diante do Senhor, excessivamente” (Gênesis 13:13), e assim eram os homens de Judá. Quando os governantes eram maus, não admira que o povo fosse assim.

O vício sobrepujava a virtude, pois tinha os governantes, os homens de destaque, do seu lado; e a vencia em votos, pois tinha o povo, os homens da maioria, do seu lado. Sendo assim tão fortes as correntes, nenhum poder menor que o do Senhor dos exércitos poderia assegurar um remanescente, v. 9.

Os governantes são aqui ousadamente atacados pelo profeta como governantes de Sodoma; pois ele não sabia dar títulos aduladores. A tradição dos judeus é que por isso ele foi acusado muito depois e morto, como alguém que amaldiçoara os deuses e falara mal do governante de seu povo.

  1. Sua exigência a eles é muito razoável: “Ouvi a palavra do Senhor” e “dai ouvidos à lei de nosso Deus”; atentem para o que Deus tem a lhes dizer, e que sua palavra seja uma lei para vocês.

A declaração seguinte de desagrado com seus sacrifícios seria uma espécie de nova lei para eles, embora na realidade fosse apenas uma explicação da lei antiga; mas deve-se ter especial consideração por ela, como se exige com respeito à semelhante, Salmos 50:7, 8. “Ouçam isto e tremam; ouçam-no e recebam o aviso”.

II. Ele justamente se recusa a ouvir suas orações e aceitar seus serviços, seus sacrifícios e holocaustos, a gordura e o sangue deles (v. 11), a presença deles nos átrios de Deus (v. 12), suas oblações, seu incenso e suas assembleias solenes (v. 13), suas luas novas e suas festas designadas (v. 14), suas mais devotas súplicas (v. 15).

Todos são rejeitados porque suas mãos estavam cheias de sangue. Agora observe:

  1. Há muitos que são estranhos, ou melhor, inimigos, ao poder da religião, e contudo parecem muito zelosos por sua aparência, sombra e forma.

Esta nação pecadora, esta descendência de malfeitores, estes governantes de Sodoma e povo de Gomorra traziam, não aos altares de deuses falsos (não são aqui acusados disso), mas ao altar do Deus de Israel, sacrifícios, uma multidão deles, tantos quantos a lei exigia, e até mais.

Não só ofertas pacíficas, das quais eles próprios tinham sua parte, mas holocaustos, que eram inteiramente consumidos para honra de Deus. Nem traziam o dilacerado, o coxo e o doente, mas animais cevados e sua gordura, os melhores de sua espécie.

Não enviavam outros para oferecer seus sacrifícios em favor deles, mas vinham eles próprios comparecer diante de Deus. Observavam os lugares instituídos (não em lugares altos ou bosques, mas nos próprios átrios de Deus), e o tempo instituído, as luas novas, os sábados e as festas designadas, nenhum dos quais omitiam.

Ou melhor: ao que parece, convocavam assembleias extraordinárias e realizavam reuniões solenes para o culto religioso, além daquelas que Deus designara. Contudo, isso não era tudo: recorriam a Deus, não só com suas observâncias cerimoniais, mas com os exercícios de devoção.

Oravam, oravam frequentemente, faziam muitas orações, pensando que seriam ouvidos por seu muito falar. Ou melhor: eram fervorosos e importunos na oração, estendiam suas mãos como homens empenhados.

Ora, teríamos considerado estes, e sem dúvida eles próprios se consideravam, um povo piedoso e religioso; e contudo estavam longe de ser assim, pois:

(1.) Seus corações estavam vazios de verdadeira devoção. Vinham comparecer diante de Deus (v. 12), ser vistos diante dele (assim lê a margem); repousavam no exterior dos deveres; não olhavam além de serem vistos pelos homens, e não iam além daquilo que os homens veem.

(2.) Suas mãos estavam cheias de sangue. Eram culpados de assassinato, rapina e opressão, sob aparência de lei e justiça. O povo derramava sangue, e os governantes não os puniam por isso; os governantes derramavam sangue, e o povo ajudava e favorecia, como os anciãos de Jezreel a Jezabel no derramamento do sangue de Nabote.

A malícia é assassinato no coração segundo a avaliação de Deus; quem odeia seu irmão em seu coração tem, na prática, suas mãos cheias de sangue.

  1. Quando os pecadores estão sob os juízos de Deus, serão mais facilmente levados a recorrer às suas devoções do que a abandonar seus pecados e reformar suas vidas.

Sua terra agora estava desolada, e suas cidades queimadas (v. 7), o que os despertou para trazer seus sacrifícios e ofertas a Deus mais constantemente do que haviam feito, como se subornassem Deus Todo-Poderoso para retirar o castigo e lhes dar licença para continuar no pecado.

“Quando ele os abatia, então o buscavam”, Salmos 78:34. “Senhor, na tribulação te visitaram”, Isaías 26:16. Muitos que prontamente se desfazem de seus sacrifícios não se deixarão persuadir a se desfazer de seus pecados.

  1. As devoções mais pomposas e dispendiosas de pessoas perversas, sem uma completa reforma do coração e da vida, estão tão longe de serem aceitáveis a Deus que, na realidade, são uma abominação para ele.

Mostra-se aqui, numa grande variedade de expressões, que obedecer é melhor que sacrificar; ou melhor, que o sacrifício sem obediência é uma zombaria, uma afronta e provocação a Deus.

A negligência comparativa que Deus aqui expressa pela observância cerimonial era uma indicação tácita do que essas observâncias chegariam a ser afinal, quando todas seriam abolidas pela morte de Cristo. Aquilo de que agora se fazia pouco caso, no devido tempo seria reduzido a nada.

Sacrifício e oferta, e oração feita em virtude deles, você não quis; então eu disse: Eis que venho. Seus sacrifícios são aqui representados:

(1.) Como infrutíferos e insignificantes: “Para que propósito é a multidão de vossos sacrifícios?”, v. 11. São “oblações vãs”, v. 13. “Em vão me adoram”, Mateus 15:9. Sua atenção às instituições de Deus era toda trabalho perdido e não servia para atender a nenhuma boa intenção, pois:

[1.] Não era considerada nenhum ato de dever ou obediência a Deus: Quem exigiu estas coisas de suas mãos? v. 12. Não que Deus renegue suas instituições, ou se recuse a sustentar suas próprias determinações.

Mas, naquilo que faziam, não tinham em vista aquele que o exigia, nem, de fato, ele o exigia daqueles cujas mãos estavam cheias de sangue e que continuavam impenitentes.

[2.] Não os recomendava ao favor de Deus. Ele não tinha prazer no sangue de seus sacrifícios, pois não se considerava honrado por ele.

[3.] Não lhes obteria nenhum alívio. Eles oram, mas Deus não ouvirá, porque acolhem a iniquidade (Salmos 66:18); ele não os libertará, pois, embora façam muitas orações, nenhuma delas vem de um coração reto. Todo o seu serviço religioso não lhes trouxe proveito algum. Ou melhor:

(2.) Como odiosos e ofensivos. Deus não só não os aceitava, mas os detestava e abominava. “São seus sacrifícios, não são meus; estou cheio deles, até farto deles”. Ele não precisava deles (Salmos 50:10), não os desejava, tinha tido o suficiente deles, e mais que o suficiente.

Sua vinda aos seus átrios ele chama pisá-los, ou pisoteá-los; sua própria presença em suas ordenanças foi interpretada como desprezo por elas. Seu incenso, por mais perfumado que fosse, era uma abominação para ele, pois era queimado em hipocrisia e com um mau desígnio.

Suas assembleias solenes ele não podia suportar, não podia vê-las com qualquer paciência, nem tolerar a afronta que lhe faziam. A reunião solene é iniquidade; embora a coisa em si não fosse, contudo, da maneira como eles a conduziam, tornou-se assim.

É uma inquietação (assim leem alguns), uma provocação para Deus ter ordenanças assim prostituídas, não só por pessoas perversas, mas para propósitos perversos: “Minha alma as odeia; são uma tribulação para mim, um peso, um estorvo; estou completamente enojado delas e cansado de suportá-las”.

Deus nunca se cansa de ouvir as orações dos retos, mas logo se cansa dos sacrifícios dispendiosos dos perversos. Ele esconde seus olhos de suas orações, como daquilo por que tem aversão e de que se ira. Tudo isso é para mostrar:

[1.] Que o pecado é muito odioso a Deus, tão odioso que torna até as orações dos homens e seus serviços religiosos odiosos para ele.

[2.] Que a piedade dissimulada é dupla iniquidade. A hipocrisia na religião é, de todas as coisas, a mais abominável ao Deus do céu.

Jerônimo aplica a passagem aos judeus do tempo de Cristo, que alegavam grande zelo pela lei e pelo templo, mas tornaram a si mesmos e a todos os seus serviços abomináveis a Deus ao encherem suas mãos do sangue de Cristo e de seus apóstolos, e assim encherem a medida de suas iniquidades.

Versículos 16 a 20

Um Chamado ao Arrependimento; Exortação ao Arrependimento e à Reforma. (a.C. 738.)

Embora Deus houvesse rejeitado seus serviços como insuficientes para expiar seus pecados enquanto persistiam neles, contudo não os rejeita como estando numa condição sem esperança, mas aqui os chama a abandonar seus pecados, que impediam a aceitação de seus serviços, e então tudo estaria bem.

Que não digam que Deus procurava desavenças com eles; não: ele propõe um método de reconciliação. Observe aqui:

I. Um chamado ao arrependimento e à reforma: “Se vocês quiserem ter seus sacrifícios aceitos e suas orações respondidas, devem começar seu trabalho pelo lado certo: Convertam-se à minha lei” (assim o caldeu começa esta exortação), “façam questão de consciência dos deveres da segunda tábua, senão não esperem ser aceitos nos atos de sua devoção”.

Assim como a justiça e a caridade nunca expiarão o ateísmo e a irreverência, assim as orações e os sacrifícios nunca expiarão a fraude e a opressão; pois a justiça para com os homens é tão parte da religião pura quanto a religião para com Deus é parte da justiça universal.

  1. Eles devem cessar de fazer o mal, não devem fazer mais injustiça nem derramar mais sangue inocente. Esse é o significado de se lavarem e se tornarem limpos, v. 16.

Não é só entristecer-se pelo pecado que cometeram, mas romper com sua prática no futuro e mortificar todas aquelas afeições e disposições viciosas que os inclinavam a ele. O pecado macula a alma. Nosso trabalho é nos lavarmos dele, arrependendo-nos dele e voltando-nos dele para Deus.

Devemos afastar não só aquele mal de nossos atos que está diante dos olhos do mundo, abstendo-nos dos atos grosseiros de pecado, mas aquele que está diante dos olhos de Deus, as raízes e hábitos de pecado que estão em nossos corações; estes devem ser esmagados e mortificados.

  1. Eles devem aprender a fazer bem. Isso era necessário para completar seu arrependimento. Repare: não basta cessarmos de fazer o mal, mas devemos aprender a fazer bem:

(1.) Devemos estar fazendo, não cessar de fazer o mal e então ficar ociosos.

(2.) Devemos estar fazendo o bem, o bem que o Senhor nosso Deus exige e que resultará em bom proveito.

(3.) Devemos fazê-lo bem, da maneira certa e para a finalidade certa; e:

(4.) Devemos aprender a fazer bem; devemos nos empenhar para obter o conhecimento de nosso dever, indagar a respeito dele, ter zelo por ele e acostumar-nos a ele, para que prontamente ponhamos nossas mãos no trabalho e nos tornemos mestres desta santa arte de fazer bem.

Ele os insta particularmente àqueles exemplos de fazer bem em que haviam sido deficientes, aos deveres da segunda tábua: “Buscai o juízo”; indaguem o que é certo, para que o façam; sejam ansiosos por serem encontrados no caminho de seu dever, e não andem negligentemente.

“Busquem oportunidades de fazer o bem: Aliviem os oprimidos, aqueles que vocês próprios oprimiram; aliviem-nos de seus fardos”, Isaías 58:6. “Vocês, que têm poder em suas mãos, usem-no para o alívio daqueles que outros oprimem, pois esse é seu trabalho”.

“Façam justiça aos que sofrem injustiça, interessando-se de maneira especial pelo órfão e pela viúva, a quem, porque são fracos e desamparados, homens orgulhosos pisoteiam e maltratam; vocês compareçam em favor deles perante o tribunal, na cadeira de juiz, conforme houver ocasião”.

“Falem em favor daqueles que não sabem falar por si mesmos e que não têm com que recompensá-los por sua bondade”. Repare: estamos na verdade honrando Deus quando fazemos o bem no mundo; e atos de justiça e caridade são mais agradáveis a ele que todos os holocaustos e sacrifícios.

II. Uma demonstração, perante o tribunal da reta razão, da equidade dos procedimentos de Deus com eles: “Vinde agora, e raciocinemos juntos” (v. 18); enquanto suas mãos estiverem cheias de sangue, não terei nada a ver com vocês, embora me tragam uma multidão de sacrifícios.

Mas, se vocês se lavarem e se tornarem limpos, serão bem-vindos para se aproximar de mim; venham agora, e conversemos sobre a questão. Repare: aqueles, e somente aqueles, que rompem seu pacto com o pecado serão bem-vindos à aliança e à comunhão com Deus.

Ele diz: “Vinde agora”, aquele que antes lhes proibira seus átrios. Veja Tiago 4:8. Ou, antes, assim: havia entre eles aqueles que se consideravam afrontados pelos desdéns de Deus pela multidão de seus sacrifícios, como em Isaías 58:3: “Por que jejuamos” (dizem eles) “e tu não vês?”

Eles representavam Deus como um Senhor severo, a quem era impossível agradar. Venham, diz Deus, debatamos a questão imparcialmente, e não duvido de que demonstrarei que meus caminhos são equitativos, mas os seus são desiguais, Ezequiel 18:25.

Repare: a religião tem a razão do seu lado; há toda a razão do mundo para fazermos como Deus quer que façamos. O Deus do céu condescende em discutir a causa com aqueles que o contradizem e criticam seus procedimentos; pois será justificado quando falar, Salmos 51:4.

A causa só precisa ser apresentada (como o é aqui muito imparcialmente), e se decidirá por si mesma. Deus mostra aqui em que condições eles estavam (como faz em Ezequiel 18:21-24; 33:18, 19), e então lhes deixa julgar se essas condições não são justas e razoáveis.

  1. Eles não poderiam, com razão, esperar nada mais do que, se se arrependessem e se reformassem, seriam restaurados ao favor de Deus, apesar de suas provocações anteriores. “Isso vocês podem esperar”, diz Deus, e é muito bondoso; quem poderia ter a ousadia de desejá-lo sob quaisquer outras condições?

(1.) É muito pouco o que se exige: “Somente que vocês estejam dispostos e sejam obedientes, que anuam a obedecer” (assim leem alguns), “que submetam suas vontades à vontade de Deus, aquiesçam a ela e se entreguem em todas as coisas para serem governados por aquele que é infinitamente sábio e bom”.

Aqui não se impõe penitência por sua obstinação anterior, nem o jugo se torna mais pesado ou é apertado mais fortemente em seus pescoços; somente: “Enquanto até aqui vocês foram perversos e refratários, e não quiseram atender àquilo que era para seu próprio bem, agora sejam dóceis, sejam governáveis”.

Ele não diz: “Se forem perfeitamente obedientes”, mas: “Se forem assim voluntariamente”; pois, se houver uma mente disposta, ela é aceita.

(2.) É muito grande o que se promete em consequência disso:

[1.] Que todos os seus pecados lhes seriam perdoados e não seriam mencionados contra eles. “Embora sejam tão vermelhos quanto a escarlata e o carmesim, embora vocês estejam sob culpa de sangue, contudo, mediante seu arrependimento, até isso lhes será perdoado, e vocês aparecerão à vista de Deus tão brancos quanto a neve”.

Repare: os maiores pecadores, se na verdade se arrependerem, terão seus pecados perdoados, e assim suas consciências pacificadas e purificadas.

Embora nossos pecados tenham sido como a escarlata e o carmesim, como um tingimento profundo, um duplo tingimento, primeiro na lã da corrupção original e depois nos muitos fios da transgressão praticada, embora tenhamos sido frequentemente mergulhados no pecado por nossos muitos desvios, e embora tenhamos ficado muito tempo de molho nele, como o tecido na tintura escarlata.

Contudo, a misericórdia perdoadora removerá completamente a mancha, e, sendo por ela purificados como com hissopo, seremos limpos, Salmos 51:7. Se nos tornarmos limpos pelo arrependimento e pela reforma (v. 16), Deus nos tornará brancos por uma plena remissão.

[2.] Que eles teriam toda a felicidade e conforto que pudessem desejar. “Ao menos estejam dispostos e sejam obedientes, e comerão o bem da terra, a terra da promessa; terão todas as bênçãos da nova aliança, da Canaã celestial, todo o bem da terra”.

Aqueles que continuam no pecado, embora possam habitar numa boa terra, não podem com qualquer conforto comer seu bem; a culpa amarga tudo; mas, se o pecado é perdoado, os confortos das coisas criadas se tornam confortos de fato.

  1. Eles não poderiam, com razão, esperar outra coisa senão que, se continuassem obstinados em sua desobediência, seriam abandonados à ruína, e a sentença da lei seria executada contra eles; que pode ser mais justo? (v. 20).

Se vocês recusarem e se rebelarem, se continuarem a se rebelar contra o governo divino e recusarem as ofertas da graça divina, serão devorados pela espada, pela espada de seus inimigos, que receberá a incumbência de destruí-los.

Será pela espada da justiça de Deus, sua cólera e vingança, que será desembainhada contra vocês; pois isso é o que a boca do Senhor falou, e o que ele cumprirá para a manutenção de sua própria honra. Repare: aqueles que não quiserem ser governados pelo cetro de Deus serão certamente e justamente devorados por sua espada.

“E agora a vida e a morte, o bem e o mal, são assim postos diante de vocês. Venham, e raciocinemos juntos. Que vocês têm a objetar contra a equidade disso, ou contra atender às condições de Deus?”

Versículos 21 a 31

A Degeneração de Jerusalém; Reforma da Igreja. (a.C. 738.)

Aqui:

I. A lastimável degeneração de Judá e Jerusalém é tristemente lamentada. Veja:

  1. O que a cidade real havia sido: uma cidade fiel, fiel a Deus e aos interesses de seu reino entre os homens, fiel à nação e a seus interesses públicos. Estava cheia de juízo; a justiça era devidamente administrada nos tronos de juízo que ali estavam estabelecidos, os tronos da casa de Davi, Salmos 122:5.

Os homens eram geralmente honestos em seus tratos e abominavam fazer uma coisa injusta. A justiça nela habitava, residia constantemente em seus palácios e em todas as suas moradas, não era chamada de vez em quando para servir a uma conveniência, mas estava em casa ali.

Repare: nem cidades santas nem reais, nem lugares onde se professa religião nem lugares onde se administra governo, são fiéis à sua responsabilidade se a religião não habitar neles.

  1. O que ela agora se tornara. Aquela bela e virtuosa esposa estava agora depravada e se tornara uma adúltera; a justiça não mais habitava em Jerusalém (terras Astræa reliquit: Astreia deixou a terra).

Até assassinos ficavam impunes e viviam ali sem ser perturbados. Ou melhor: os próprios príncipes eram tão cruéis e opressivos que não se haviam tornado melhores que assassinos; um homem inocente poderia melhor se guardar contra uma tropa de bandidos ou assassinos do que contra um tribunal de tais juízes.

Repare: é um grande agravamento da perversidade de qualquer família ou povo que seus antepassados tenham sido famosos pela virtude e probidade; e comumente aqueles que assim degeneram mostram-se os mais perversos de todos os homens.

Corruptio optimi est pessima: Aquilo que originalmente era o melhor se torna, quando corrompido, o pior, Lucas 11:26; Eclesiastes 3:16. Veja Jeremias 22:15-17. A degeneração de Jerusalém é ilustrada:

(1.) Por comparações (v. 22): “Tua prata se tornou escória”. Esta degeneração dos magistrados, cujo caráter é o inverso do de seus predecessores, é tão grande descrédito e injúria ao reino quanto o seria a desvalorização de sua moeda e a transformação de sua prata em escória.

Príncipes justos e cidades justas são como prata para o tesouro, mas os injustos são como escória para o monturo. Como o ouro se tornou opaco! Lamentações 4:1. “Teu vinho está misturado com água”, e assim se tornou sem sabor e azedo.

Alguns entendem ambas as coisas literalmente: o vinho que vendiam era adulterado, era metade água; o dinheiro que pagavam era falsificado, e assim aplicavam embustes a todos com quem tratavam.

Mas deve ser tomado antes figuradamente: a justiça era pervertida por seus príncipes, e a religião e a palavra de Deus eram adulteradas por seus sacerdotes, e feitas servir a qualquer conveniência que lhes agradasse.

A escória pode brilhar como prata, e o vinho misturado com água pode reter a cor do vinho, mas nenhum dos dois vale coisa alguma. Assim, mantinham uma aparência e alegação de virtude e justiça, mas não tinham verdadeira percepção de nenhuma delas.

(2.) Por alguns exemplos (v. 23): Seus príncipes, que deveriam manter outros em sua fidelidade a Deus e sujeição à sua lei, são eles próprios rebeldes e desafiam Deus e sua lei.

Aqueles que deveriam conter os ladrões (opressores orgulhosos e ricos, aqueles piores dos salteadores, e aqueles que de caso pensado aplicam embustes a seus credores, que não são melhores) são eles próprios companheiros de ladrões, são coniventes com eles, fazem como eles, e com maior segurança e sucesso, porque são príncipes e têm poder em suas mãos.

Partilham com os ladrões que protegem de seu ganho ilícito (Salmos 50:18) e lançam sua sorte entre eles, Provérbios 1:13, 14.

[1.] O lucro de seus cargos é todo o seu alvo: tirar deles o máximo que puderem, certo ou errado. Amam presentes e seguem recompensas; põem seus corações em seu salário, nas taxas e vantagens de seus ofícios, são ávidos por elas e nunca pensam que conseguem o suficiente.

Ou melhor: farão qualquer coisa, por mais contrária à lei e à justiça, por um presente em segredo. Presentes e gratificações cegarão seus olhos a qualquer momento e os farão perverter o juízo. Eles os amam e são ávidos em sua busca.

[2.] Não têm zelo algum pelo dever de seus cargos. Deveriam proteger aqueles que são lesados e tomar conhecimento dos recursos que lhes são apresentados; para que mais foram elevados?

Mas não julgam o órfão, não têm zelo algum em guardar os órfãos, nem a causa da viúva chega a eles, porque a pobre viúva não tem suborno a dar, com que abrir caminho para ela e dar andamento à sua causa.

Aqueles terão muito pelo que responder que, quando deveriam ser os protetores dos oprimidos, são seus maiores opressores.

II. Toma-se uma resolução para reparar esses agravos (v. 24): “Por isso diz o Senhor, o Senhor dos exércitos, o Poderoso de Israel”, que tem poder para cumprir o que diz, que tem exércitos sob seu comando para executar seus propósitos, e cujo poder está empenhado em favor de seu Israel: “Ah! Aliviarei-me de meus adversários”. Observe:

  1. Pessoas perversas, especialmente governantes perversos que são cruéis e opressivos, são inimigos de Deus, seus adversários, e assim serão considerados e assim tratados. Se os da descendência santa se corrompem, são os inimigos da casa do próprio Deus.

  2. São um peso para o Deus do céu, o que está implícito em ele se aliviar deles. O Poderoso de Israel, que pode suportar qualquer coisa, ou melhor, que sustenta todas as coisas, se queixa de estar cansado das iniquidades dos homens, Isaías 43:24; Amós 2:13.

  3. Deus encontrará um tempo e um meio de se aliviar desse peso, vingando-se daqueles que assim pesam sobre sua paciência. Ele aqui fala como alguém que triunfa na previsão disso: “Ah! Aliviarei-me”.

Aliviará a terra do peso sob o qual geme (Romanos 8:21, 22), aliviará seu próprio nome dos descréditos com que está carregado. Será aliviado de seus adversários, vingando-se de seus inimigos; ele os vomitará de sua boca, e assim será aliviado deles, Apocalipse 3:16.

Fala com prazer de o dia da vingança estar em seu coração, Isaías 63:4. Se os que professam ser povo de Deus não se conformarem à sua imagem como Santo de Israel (v. 4), sentirão o peso de sua mão como Poderoso de Israel: seu poder, que costumava estar empenhado em favor deles, será armado contra eles. De duas maneiras Deus se aliviará desse agravo:

(1.) Reformando sua igreja e restaurando bons juízes no lugar daqueles corruptos. Embora a igreja tenha em si muita escória, contudo não será lançada fora, mas refinada (v. 25): “Expurgarei inteiramente a tua escória”.

“Emendarei o que está errado. O vício e a profanação serão suprimidos e cobertos de vergonha, os opressores destituídos e privados de seu poder de causar danos”. Por piores que estejam as coisas, Deus pode endireitá-las e realizar uma reforma completa; quando começa, terminará, tirará todo o estanho. Observe:

[1.] A reforma de um povo é obra do próprio Deus, e, se alguma vez for feita, é ele quem a realiza: “Voltarei minha mão sobre ti; farei para reviver a religião aquilo que fiz de início para plantá-la.”

Ele pode fazê-lo facilmente, com o volver de sua mão; mas o faz eficazmente, pois que oposição pode resistir ao braço do Senhor revelado?

[2.] Ele o faz abençoando-os com bons magistrados e bons ministros de Estado (v. 26): “Restaurarei teus juízes como no princípio”, para executar as leis contra os malfeitores, “e teus conselheiros”, para conduzir os assuntos públicos, “como no começo”, ou as mesmas pessoas que haviam sido destituídas, ou outras do mesmo caráter.

[3.] Ele o faz restaurando o juízo e a justiça entre eles (v. 27), plantando nas mentes dos homens princípios de justiça e governando suas vidas por esses princípios.

Os homens podem fazer muito por restrições externas; mas Deus o faz eficazmente pelas influências de seu Espírito, como Espírito de juízo, Isaías 4:4; 28:6. Veja Salmos 85:10, 11.

[4.] A reforma de um povo será a redenção deles e de seus convertidos, pois o pecado é o pior cativeiro, a pior escravidão, e a grande e eterna redenção é aquela pela qual os de Israel são redimidos de todas as suas iniquidades (Salmos 130:8).

E o bendito Redentor é aquele que afasta a impiedade de Jacó (Romanos 11:26) e salva seu povo de seus pecados, Mateus 1:21. Todos os redimidos do Senhor serão convertidos, e sua conversão é sua redenção: “Seus convertidos, ou aqueles que dela retornam” (assim diz a margem), “serão redimidos com justiça”.

Deus opera libertação para nós preparando-nos para ela com juízo e justiça.

[5.] O reviver das virtudes de um povo é a restauração de sua honra: “Depois serás chamada a cidade de justiça, a cidade fiel”. Isto é, Primeiro: “Você será assim”; a reforma da magistratura é um bom passo para a reforma da cidade e também do país.

Segundo: “Você terá o louvor de ser assim”; e maior louvor não pode haver para nenhuma cidade do que ser chamada cidade de justiça e recuperar a antiga honra que se perdeu quando a cidade fiel se tornou prostituta, v. 21.

(2.) Eliminando aqueles que odeiam ser reformados, para que não permaneçam nem como armadilhas nem como escândalos para a cidade fiel:

[1.] É uma completa ruína que aqui se ameaça. Eles serão destruídos e consumidos, e não só castigados e corrigidos. A extirpação deles será necessária à redenção de Sião.

[2.] É uma ruína universal, que envolverá os transgressores e os pecadores juntamente, isto é, os abertamente profanos, que abandonaram completamente toda religião, e os hipócritas, que vivem vidas perversas sob o manto de uma profissão religiosa.

Ambos serão destruídos juntamente, pois ambos são igualmente uma abominação para Deus, tanto aqueles que contradizem a religião quanto aqueles que contradizem a si mesmos em suas alegações a ela.

E aqueles que abandonam o Senhor, a quem anteriormente se haviam unido, serão consumidos, como a água no cano condutor é logo consumida quando é cortada da fonte.

[3.] É uma ruína inevitável; não há como escapar dela. Primeiro: seus ídolos não poderão ajudá-los, os carvalhos que desejaram e os jardins que escolheram.

Isto é, as imagens, os deuses de monturo, que haviam adorado em seus bosques e sob as árvores verdes, dos quais gostavam e aos quais se haviam unido como em casamento, pelos quais abandonaram o verdadeiro Deus, e que adoravam privadamente em seu próprio jardim, mesmo quando a idolatria era publicamente desaprovada.

“Essa era a prática dos transgressores e dos pecadores; mas terão vergonha dela, não com uma aparência de arrependimento, mas de desespero, v. 29. Terão motivo para se envergonhar de seus ídolos; pois, depois de toda a corte que lhes fizeram, não encontrarão benefício neles; mas os próprios ídolos irão para o cativeiro”, Isaías 46:1, 2.

Repare: aqueles que fazem das criaturas sua confiança estão apenas preparando confusão para si mesmos. Vocês gostavam dos carvalhos e dos jardins, mas vocês próprios serão:

  1. Como um carvalho sem folhas, murcho e crestado, e despojado de todos os seus ornamentos. Com justiça não vestem folhas aqueles que não dão fruto, como a figueira que Cristo amaldiçoou.

  2. Como um jardim sem água, sobre o qual não chove nem é regado com o pé (Deuteronômio 11:10), que não tinha fonte (Cantares de Salomão 4:15), e consequentemente está ressequido, e todos os seus frutos se deterioraram.

Assim serão aqueles que confiam em ídolos ou num braço de carne, Jeremias 17:5, 6. Mas aqueles que confiam em Deus nunca o encontram como um deserto, ou como águas que falham, Jeremias 2:31.

Segundo: eles não poderão ajudar a si mesmos (v. 31): Até o homem forte será como estopa, não só logo quebrada e despedaçada, mas facilmente pegando fogo; e sua obra (assim lê a margem), aquilo pelo que espera se fortalecer e se assegurar, será como uma faísca para sua própria estopa, o incendiará, e ele e sua obra queimarão juntamente.

“Seus conselhos serão sua ruína; seu próprio pecado acende o fogo da cólera de Deus, que queimará até o inferno mais baixo, e ninguém o apagará”. Quando o pecador se fez como estopa e palha, e Deus se faz para ele como fogo consumidor, que pode impedir a completa ruína do pecador?

Agora tudo isso é aplicável:

  1. À bendita obra de reforma que foi realizada no tempo de Ezequias, depois das abomináveis corrupções do reinado de Acaz. Então homens bons vieram a ser elevados, e os rostos dos perversos ficaram cheios de vergonha.

  2. Ao seu retorno de seu cativeiro na Babilônia, que os havia curado completamente da idolatria.

  3. Ao reino do evangelho e ao derramamento do Espírito, pelo qual a igreja do Novo Testamento seria feita uma nova Jerusalém, uma cidade de justiça.

  4. À segunda vinda de Cristo, quando ele purificará completamente sua eira, seu campo, recolherá o trigo em seu celeiro, em seu depósito, e queimará a palha, o joio, com fogo inextinguível.


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