Matthew Henry

Hebreus 13

Argumento

Depois de tratar amplamente de Cristo, da fé, da graça gratuita e dos privilégios do evangelho, e de avisar os hebreus contra a apostasia, o apóstolo, ao encerrar tudo, recomenda-lhes diversos deveres excelentes como frutos próprios da fé (vv. 1-17).

Em seguida, pede que orem por ele e oferece a Deus suas orações em favor deles, dá-lhes alguma esperança de vê-lo e a Timóteo e termina com a saudação e bênção gerais, v. 18 até o fim.

Versículos 1 a 17

Diversos Deveres. (62 d.C.)

O desígnio de Cristo ao entregar-se por nós é adquirir para si um povo peculiar, zeloso de boas obras. Agora o apóstolo convoca os hebreus crentes à prática de muitos deveres excelentes, nos quais convém aos cristãos se destacar.

I. Ao amor fraternal (v. 1). Com isso ele não se refere apenas à afeição geral por todas as pessoas, nossos irmãos por natureza, todos feitos do mesmo sangue, nem à afeição mais restrita devida aos filhos dos mesmos pais diretos, mas à afeição especial e espiritual que deve existir entre os filhos de Deus.

  1. Supõe-se aqui que os hebreus tinham esse amor uns pelos outros. Embora, naquele tempo, a nação estivesse miseravelmente dividida e perturbada entre si, tanto em questões de religião quanto da condição civil, contudo havia verdadeiro amor fraternal entre os dela que criam em Cristo.

Isso se manifestou de maneira muito notável imediatamente após o derramamento do Espírito Santo, quando tinham tudo em comum e vendiam seus bens para formar um fundo geral de sustento para seus irmãos. O espírito do cristianismo é espírito de amor. A fé opera pelo amor.

A religião verdadeira é o laço mais forte de amizade; se não o for, tem esse nome em vão.

  1. Esse amor fraternal corria o risco de se perder, num tempo de perseguição, quando seria mais necessário. Corria esse risco por causa das disputas que havia entre eles sobre o respeito que ainda deviam às cerimônias da lei mosaica.

Disputas sobre religião vezes demais enfraquecem a afeição cristã; mas é preciso guardar-se disso e usar todos os meios apropriados para preservar o amor fraternal. Os cristãos devem sempre amar e viver como irmãos.

Quanto mais crescerem em afeição devota a Deus, seu Pai celestial, mais crescerão em amor uns pelos outros por causa dele.

II. À hospitalidade: não se esqueçam de acolher estrangeiros por causa dele, v. 2. Devemos acrescentar a caridade à bondade fraternal. Observe aqui:

  1. O dever exigido: acolher estrangeiros, tanto os que são estranhos à comunidade de Israel quanto os que não conhecemos pessoalmente, sobretudo os que sabem que são estrangeiros aqui e buscam outra pátria. Esse é o caso do povo de Deus, e assim era naquele tempo: os judeus crentes estavam em condição desesperadora e aflitiva.

Mas ele parece falar dos estrangeiros como tais. Embora não saibamos quem são nem de onde vêm, contudo, visto que não têm moradia certa, devemos conceder-lhes lugar em nosso coração e em nossa casa, conforme nossa oportunidade e capacidade.

  1. O motivo: “Por meio disso alguns acolheram anjos sem o saber”. Assim fizeram Abraão (Gênesis 18) e Ló (Gênesis 19), e um dos acolhidos por Abraão era o Filho de Deus.

E, embora não possamos supor que isso algum dia nos acontecerá, contudo, o que fizermos aos estrangeiros em obediência a Cristo ele considerará e recompensará como feito a si mesmo. Em Mateus 25:35: “Eu era estrangeiro, e vós me acolhestes.”

Deus muitas vezes concedeu honras e favores a seus servos hospitaleiros muito além do que imaginavam, sem que o soubessem.

III. À solidariedade cristã: lembrem-se dos que estão presos, v. 3. Observe aqui:

  1. O dever: lembrar-se dos que estão presos e em adversidade:

(1.) Muitas vezes Deus dispõe as coisas de modo que, enquanto alguns cristãos e igrejas estão em adversidade, outros desfrutam paz e liberdade. Nem todos são chamados ao mesmo tempo a resistir até o sangue.

(2.) Os que estão livres devem solidarizar-se com os que estão presos e em adversidade, como se estivessem ligados a eles pela mesma corrente: devem sentir os sofrimentos de seus irmãos.

  1. O motivo do dever: por estarem vocês mesmos no corpo; não apenas no corpo natural e, assim, sujeitos a sofrimentos semelhantes. E vocês devem solidarizar-se com eles agora para que outros se solidarizem com vocês quando chegar seu tempo de provação.

Mas estão no mesmo corpo místico, sob a mesma cabeça; e, se um membro sofre, todos os demais sofrem com ele, 1 Coríntios 12:26. Seria contrário à natureza os cristãos não carregarem os fardos uns dos outros.

IV. À pureza e à castidade, v. 4. Temos aqui:

  1. Uma recomendação da ordenança divina do casamento: é honroso entre todos, e assim deve ser considerado por todos, sem ser negado àqueles a quem Deus não o negou. É honroso, pois Deus o instituiu para o homem no paraíso, sabendo que não era bom que estivesse só.

Deus uniu em casamento e abençoou o primeiro casal, os primeiros pais da humanidade, para orientar todos a olhar para Deus nessa grande questão e a casar-se no Senhor. Cristo honrou o casamento com sua presença e seu primeiro milagre.

É honroso como meio de impedir a impureza e um leito maculado. É honroso e feliz quando as pessoas se unem puras e castas e mantêm o leito conjugal sem mácula, não só de afeições ilícitas, mas também das desmedidas.

  1. Uma censura terrível, mas justa, da impureza e da lascívia: “Deus julgará os prostitutos e os adúlteros”:

(1.) Deus sabe quem é culpado desses pecados; nenhuma escuridão pode ocultá-los dele.

(2.) Ele chamará esses pecados pelos nomes apropriados, não de amor e galanteria, mas de prostituição e adultério: prostituição entre os solteiros e adultério entre os casados.

(3.) Ele os levará a julgamento. Julgará ou por suas próprias consciências aqui, pondo seus pecados em ordem diante deles para sua profunda humilhação, e a consciência, quando despertada, será muito severa com esses pecadores.

Ou ele os levará a seu tribunal na morte e no último dia: declarará sua culpa, condenará e expulsará para sempre os que morrerem sob a culpa desse pecado.

V. Ao contentamento cristão, v. 5, 6. Observe aqui:

  1. O pecado contrário a essa graça e a esse dever: a cobiça, ânsia excessivamente intensa pelas riquezas deste mundo, invejando os que têm mais do que nós.

Não devemos permitir que esse pecado ocupe nenhum lugar em nossa conduta. Embora seja apetite secreto escondido no coração, se não for dominado, entrará em nossa conduta e se manifestará em nosso modo de falar e agir. Devemos ter zelo não só para contê-lo, mas de arrancá-lo de nossa alma pela raiz.

  1. O dever e a graça contrários à cobiça: estar satisfeitos e contentes com o que temos, com as coisas presentes. As passadas não podem ser recuperadas, e as futuras estão apenas nas mãos de Deus.

Devemos contentar-nos com o que Deus nos dá dia após dia, mesmo que seja menos do que desfrutamos antes e não alcance nossas expectativas para o futuro. Devemos contentar-nos com nossa condição presente.

Precisamos ajustar nossa mente à condição presente; esse é o caminho seguro para o contentamento. Os que não conseguem fazê-lo não se contentariam nem se Deus elevasse sua condição até a altura de sua mente, pois a mente se elevaria junto com a condição.

Hamã era o grande favorito da corte e, ainda assim, não estava contente; Acabe estava no trono e, ainda assim, não estava contente; Adão estava no paraíso e, ainda assim, não estava contente. Sim, e ainda: os anjos estavam no céu e, ainda assim, não estavam contentes.

Mas Paulo, embora humilhado e desprovido, havia aprendido a contentar-se em toda condição, em qualquer condição.

  1. Os motivos que os cristãos têm para estar contentes com sua condição:

(1.) Deus disse: “Nunca te deixarei nem te desampararei”, v. 5, 6. Isso foi dito a Josué (Josué 1:5), mas se aplica a todos os servos fiéis de Deus. As promessas do Antigo Testamento podem ser aplicadas aos santos do Novo Testamento.

Essa promessa contém a soma e a substância de todas as promessas. Nunca, não, nunca deixarei você, nem jamais o desampararei. Aqui há nada menos que cinco negativas acumuladas para confirmar a promessa.

O verdadeiro crente terá consigo a presença graciosa de Deus em vida, na morte e para sempre.

(2.) A partir dessa promessa abrangente, podem ter certeza do auxílio de Deus, de modo que podemos dizer com ousadia: “O Senhor é meu ajudador; não temerei o que o homem me fará”, v. 6.

As pessoas nada podem fazer contra Deus, e Deus pode fazer com que tudo o que fizerem contra seu povo se volte para o bem deles.

VI. Ao dever que os cristãos têm para com seus ministros, tanto os que morreram quanto os que ainda vivem.

  1. Para com os que morreram: lembrem-se dos que os governaram, v. 7. Observe aqui:

(1.) A descrição que deles se dá. Eram os que os governavam e lhes haviam anunciado a palavra de Deus, seus guias e governantes, que lhes haviam anunciado a palavra de Deus.

Essa era a dignidade a que foram elevados: ser governantes e líderes do povo, não segundo sua própria vontade, mas segundo a vontade e a palavra de Deus. Corresponderam a esse caráter com o dever apropriado: não governavam à distância nem por meio de outros, mas por presença e instrução pessoais, conforme a palavra de Deus.

(2.) Os deveres que lhes são devidos, mesmo depois de sua morte:

[1.] Lembrem-se deles: de sua pregação, suas orações, seus conselhos particulares e seu exemplo.

[2.] Sigam sua fé; permaneçam firmes na profissão da fé que lhes pregaram e esforcem-se por adquirir a graça da fé pela qual viveram e morreram tão bem. Considerem o fim de sua conduta: com quanta rapidez, consolo e alegria terminaram sua carreira!

O apóstolo se estende muito sobre esse dever de seguir a mesma fé verdadeira em que haviam sido instruídos e os exorta fervorosamente a cumpri-lo. Não o faz apenas pela lembrança dos fiéis guias falecidos, mas por vários outros motivos.

Primeiro, pela imutabilidade e eternidade do Senhor Jesus Cristo. Embora alguns de seus ministros tivessem morrido e outros estivessem morrendo, a grande cabeça e sumo sacerdote da igreja, o bispo de suas almas, vive para sempre e é sempre o mesmo.

Eles deveriam ser firmes e inabaláveis, imitando a Cristo, e lembrar-se de que ele vive para sempre para observar e recompensar sua adesão fiel às verdades dele, assim como para observar e punir sua saída pecaminosa de junto dele.

Cristo é o mesmo nos dias do Antigo Testamento e nos dias do evangelho, e assim será para seu povo para sempre.

Segundo, pela natureza e tendência das doutrinas errôneas com as quais corriam o risco de se envolver:

a. Eram diversas e variadas (v. 9), diferentes das que haviam recebido dos mestres fiéis anteriores e incoerentes consigo mesmas.

b. Eram doutrinas estranhas, desconhecidas da igreja do evangelho e alheias ao evangelho.

c. Tinham natureza perturbadora e dispersiva, como o vento que sacode o navio e o põe em risco de ser arrancado da âncora, levado e despedaçado nas rochas. Eram totalmente contrárias à graça de Deus, que firma e estabelece o coração, coisa excelente.

Essas doutrinas estranhas mantêm o coração sempre oscilante e inquieto.

d. Eram baixas e mesquinhas quanto ao assunto. Tratavam de coisas externas, pequenas e perecíveis, como alimentos e bebidas, etc.

e. Eram inúteis. Os que mais se deixavam cativar por elas e nelas se ocupavam não obtinham nenhum bem verdadeiro para sua própria alma. Não se tornavam mais santos, humildes, gratos nem voltados para o céu.

f. Excluiriam os que as abraçassem dos privilégios do altar cristão (v. 10): “Temos um altar”. É uma razão de grande peso; por isso, o apóstolo insiste mais longamente nela. Observe:

(a.) A igreja cristã tem seu altar. Objetava-se contra os primeiros cristãos que suas assembleias não tinham altar; mas não era verdade. Temos um altar, não material, mas pessoal: Cristo. Ele é tanto nosso altar quanto nosso sacrifício; santifica a dádiva.

Os altares sob a lei eram tipos de Cristo: o altar de bronze, do sacrifício; o altar de ouro, de sua intercessão.

(b.) Esse altar fornece um banquete aos verdadeiros crentes, banquete do sacrifício, de alimentos substanciosos, força e crescimento espirituais, deleite e prazer santos. A mesa do Senhor não é nosso altar, mas recebe provisões dele.

“Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado em nosso favor” (1 Coríntios 5:7), e em seguida vem: “Portanto, celebremos a festa”. A ceia do Senhor é a festa da páscoa do evangelho.

(c.) Os que se apegam ao tabernáculo ou à dispensação levítica, ou voltam a ela, excluem a si mesmos dos privilégios desse altar e dos benefícios adquiridos por Cristo.

Se servem ao tabernáculo, resolvem submeter-se a ritos e cerimônias ultrapassados e renunciar ao direito ao altar cristão. O apóstolo primeiro demonstra essa parte da razão e depois a aproveita.

[a.] Demonstra que essa adesão servil à condição judaica é impedimento aos privilégios do altar do evangelho. Seu raciocínio é este: sob a lei judaica, nenhuma parte da oferta pelo pecado devia ser comida; tudo devia ser queimado fora do acampamento enquanto moravam em tendas e fora das portas quando moravam em cidades.

Ora, se ainda quiserem sujeitar-se a essa lei, não poderão comer do altar do evangelho, pois o que ali se come provém de Cristo, a grande oferta pelo pecado. Não se trata da própria oferta pelo pecado, como afirmam os papistas; nesse caso, ela não devia ser comida, mas queimada.

O banquete do evangelho, porém, é fruto e aquisição do sacrifício, aos quais não têm direito os que não reconhecem o próprio sacrifício.

Para que ficasse manifesto que Cristo era realmente o antítipo da oferta pelo pecado e, como tal, pudesse santificar ou limpar seu povo com seu próprio sangue, ele se conformou ao tipo ao sofrer fora da porta. Foi uma manifestação impressionante de sua humilhação, como se não fosse digno nem do convívio sagrado nem do civil!

Isso mostra como o pecado, causa meritória dos sofrimentos de Cristo, leva à perda de todos os direitos sagrados e civis e como o pecador seria uma peste e um incômodo comum a todo o convívio se Deus fosse rigoroso em assinalar a iniquidade.

Depois de mostrar que a adesão à lei levítica, mesmo segundo as regras dela, afastaria as pessoas do altar cristão, ele prossegue:

[b.] Para aproveitar essa razão (vv. 13-15) em conselhos apropriados. Primeiro: “Saiamos, pois, a ele fora do acampamento”; saiamos da lei cerimonial, do pecado, do mundo, de nós mesmos e de nosso próprio corpo, quando ele nos chamar.

Segundo: estejamos dispostos a suportar seu descrédito e a ser considerados a escória de todas as coisas, indignos de viver e indignos de morrer uma morte comum. Esse foi seu descrédito, e devemos submeter-nos a ele.

E temos mais motivo para isso porque, quer saiamos deste mundo para Cristo, quer não, dentro de pouco tempo teremos necessariamente de sair pela morte; pois aqui não temos cidade permanente. O pecado, os pecadores e a morte não permitirão que fiquemos aqui por muito tempo.

Por isso, devemos sair agora pela fé e buscar em Cristo o descanso e a estabilidade que este mundo não pode nos oferecer, v. 14.

Terceiro: façamos bom uso desse altar. Não apenas participemos de seus privilégios, mas cumpramos os deveres do altar, como aqueles a quem Cristo fez sacerdotes para servi-lo. Levemos nossos sacrifícios a esse altar e a esse nosso sumo sacerdote e ofereçamo-los por meio dele, v. 15, 16.

Agora, que sacrifícios devemos levar e oferecer nesse altar, que é Cristo? Nenhum sacrifício expiatório: não há necessidade deles. Cristo ofereceu o grande sacrifício de expiação; os nossos são apenas sacrifícios de reconhecimento. São estes:

  1. O sacrifício de louvor a Deus, que devemos oferecer-lhe continuamente. Inclui toda adoração e oração, assim como a ação de graças; é o fruto de nossos lábios. Devemos proclamar os louvores de Deus com lábios sinceros.

Esse sacrifício deve ser oferecido apenas a Deus, não a anjos, santos ou qualquer criatura, mas somente ao nome de Deus. Deve ser oferecido por meio de Cristo, na dependência de sua satisfação meritória e de sua intercessão.

  1. O sacrifício das obras de esmola e da caridade cristã: “De fazer o bem e de repartir não vos esqueçais; pois de tais sacrifícios Deus muito se agrada”, v. 16.

Devemos, conforme nossos recursos, contribuir para as necessidades das almas e dos corpos das pessoas. Não devemos contentar-nos em oferecer o sacrifício de nossos lábios, meras palavras, mas o sacrifício das boas obras.

Devemos depositar essas obras sobre esse altar sem depender do mérito delas, mas do mérito de nosso grande sumo sacerdote. De tais sacrifícios, adoração e esmolas assim oferecidas, Deus muito se agrada: aceitará a oferta com prazer e aceitará e abençoará os ofertantes por meio de Cristo.

  1. Tendo-nos dito o dever dos cristãos para com seus ministros falecidos, que consiste principalmente em seguir a fé deles e não se afastar dela, o apóstolo diz qual é o dever do povo para com seus ministros vivos (v. 17) e quais são os motivos desse dever:

(1.) O dever: obedecer-lhes e submeter-se a eles. O que se exige aqui não é obediência cega nem submissão absoluta, mas obediência até onde concorde com a mente e a vontade de Deus reveladas em sua palavra.

Ainda assim, é verdadeira obediência e submissão, não somente a Deus, mas também à autoridade do ofício ministerial. Essa autoridade vem de Deus tão certamente, em tudo o que pertence ao ofício, quanto a autoridade dos pais ou dos magistrados civis nos assuntos de sua competência.

Os cristãos devem aceitar ser instruídos por seus ministros, sem se julgarem sábios, bons ou importantes demais para aprender com eles. Quando verificarem que as instruções ministeriais concordam com a palavra escrita, devem obedecer-lhes.

(2.) Os motivos desse dever:

[1.] Eles governam o povo. Embora seu ofício não seja magisterial, é verdadeiramente revestido de autoridade. Não têm autoridade para dominar o povo, mas para conduzi-lo nos caminhos de Deus, informando-o, instruindo-o, explicando-lhe a palavra de Deus e aplicando-a às diversas situações do povo.

Não devem fazer leis próprias, mas interpretar as leis de Deus. Nem sua interpretação deve ser recebida de imediato sem exame; o povo deve explorar as Escrituras e acolher as instruções do ministro até onde estiverem de acordo com essa regra.

E devem acolhê-las não como palavra de homens, mas como aquilo que de fato são: palavra de Deus, que atua eficazmente nos que creem.

[2.] Eles velam pelas almas das pessoas, não para enredá-las, mas para salvá-las; para ganhá-las, não para si, mas para Cristo; para edificá-las no conhecimento, na fé e na santidade.

Devem vigiar contra tudo o que possa prejudicar as almas das pessoas e dar-lhes aviso de erros perigosos, dos ardis de Satanás e dos juízos que se aproximam. Devem ficar atentos a todas as oportunidades de ajudar as almas das pessoas a avançar pelo caminho do céu.

[3.] Devem prestar contas de como cumpriram seu dever e do que aconteceu às almas confiadas a seu cuidado: se alguma se perdeu por negligência deles e se algumas foram trazidas e edificadas sob seu ministério.

[4.] Teriam prazer em prestar boas contas de si mesmos e de seus ouvintes. Se puderem então relatar sua fidelidade e seu êxito, será para eles um dia alegre. As almas convertidas e confirmadas sob seu ministério serão sua alegria e coroa no dia do Senhor Jesus.

[5.] Se prestarem contas com dor, será perda do povo assim como deles. É do interesse dos ouvintes que o relato que seus ministros derem a seu respeito seja com alegria, não com dor.

Se os ministros fiéis não tiverem êxito, a dor será deles, mas a perda será do povo. Os ministros fiéis livraram suas próprias almas, mas o sangue e a ruína de um povo infrutífero e sem fé recairão sobre a cabeça desse próprio povo.

Versículos 18 a 25

Conclusão. (62 d.C.)

Aqui, I. O apóstolo recomenda a si mesmo e a seus companheiros de sofrimento às orações dos hebreus crentes (v. 18): “Orai por nós”, por mim e por Timóteo (mencionado no v. 23) e por todos nós que trabalhamos no ministério do evangelho.

  1. Essa é uma parte do dever que o povo tem para com seus ministros. Os ministros precisam das orações do povo; quanto mais fervorosamente o povo orar por eles, maior benefício poderá esperar de seu ministério.

Devem orar para que Deus ensine aqueles que devem ensiná-los, os torne vigilantes, sábios, zelosos e bem-sucedidos, os ajude em todos os seus trabalhos, os sustente sob todos os seus fardos e os fortaleça em todas as suas tentações.

  1. Há bons motivos para que o povo ore por seus ministros. Ele menciona dois:

(1.) “Confiamos que temos boa consciência”, etc., v. 18. Muitos judeus tinham má opinião de Paulo porque, sendo hebreu de hebreus, havia abandonado a lei levítica e pregado a Cristo. Agora, aqui, ele afirma modestamente sua própria integridade: “Confiamos que temos boa consciência, em todas as coisas dispostos a viver honestamente.”

Confiamos! Poderia ter dito: Sabemos; mas preferiu falar em estilo humilde para ensinar a todos nós a não confiar demais em nós mesmos, mas a manter um zelo piedoso sobre nossos próprios corações.

Confiamos que temos boa consciência, uma consciência esclarecida e bem instruída, limpa e pura, sensível e fiel, uma consciência que testemunha em nosso favor, não contra nós: boa consciência em todas as coisas, nos deveres tanto da primeira quanto da segunda tábua, para com Deus e para com as pessoas, sobretudo em tudo o que diz respeito ao nosso ministério.

Agiríamos com honestidade e sinceridade em todas as coisas. Observe:

[1.] Uma boa consciência considera todos os mandamentos de Deus e todo o nosso dever.

[2.] Mesmo os que têm essa boa consciência precisam das orações dos outros.

[3.] Ministros conscienciosos são bênçãos públicas e merecem as orações do povo.

(2.) Outro motivo pelo qual deseja suas orações é que esperava, por meio delas, ser-lhes restituído mais cedo (v. 19). Isso indica que antes estivera entre eles, agora estava ausente, desejava muito e realmente pretendia voltar e que a melhor maneira de facilitar seu retorno e fazê-lo bênção tanto para ele quanto para eles era torná-lo assunto de sua oração.

Quando os ministros chegam a um povo como resposta à oração, vêm com maior satisfação para si mesmos e maior êxito para o povo. Devemos obter todas as nossas misericórdias pela oração.

II. Ele oferece suas orações a Deus por eles, disposto a fazer por eles o que desejava que fizessem por ele: “Agora, o Deus da paz”, etc., v. 20. Nessa excelente oração, observe:

  1. O título dado a Deus: o Deus da paz, que encontrou um caminho para a paz e a reconciliação entre ele mesmo e os pecadores e ama a paz na terra, sobretudo em suas igrejas.

  2. A grande obra atribuída a ele: “Trouxe de volta dentre os mortos nosso Senhor Jesus”, etc. Jesus ressuscitou a si mesmo por seu próprio poder; ainda assim, o Pai participou disso, atestando desse modo que a justiça fora satisfeita e a lei, cumprida.

Ele ressuscitou para nossa justificação, e o poder divino pelo qual foi ressuscitado pode fazer por nós tudo de que precisamos.

  1. Os títulos dados a Cristo: nosso Senhor Jesus, nosso soberano, nosso Salvador e o grande pastor das ovelhas, prometido em Isaías 40:11 e assim declarado por ele mesmo em João 10:14, 15. Os ministros são pastores subordinados; Cristo é o grande pastor.

Isso indica seu interesse em seu povo: são o rebanho de sua pastagem, e seu zelo e sua preocupação voltam-se para eles. Ele os alimenta, conduz e vela por eles.

  1. O caminho e o meio pelos quais Deus é reconciliado e Cristo, ressuscitado dentre os mortos: “Pelo sangue da aliança eterna”. O sangue de Cristo satisfez a justiça divina e, assim, obteve sua libertação da prisão do túmulo, pois ele havia pago nossa dívida conforme uma aliança ou acordo eterno entre o Pai e o Filho. Esse sangue é a sanção e o selo de uma aliança eterna entre Deus e seu povo.

  2. A misericórdia pela qual se ora: “Vos aperfeiçoe em toda boa obra”, etc., v. 21. Observe:

(1.) A perfeição dos santos em toda boa obra é a grande coisa desejada por eles e em favor deles: para que possam ter aqui uma perfeição de integridade, mente clara, coração limpo, afeições vivas, vontades ordenadas e resolutas e força adequada para toda boa obra a que agora são chamados e, por fim, possam ter uma perfeição de graus para torná-los aptos às ocupações e à felicidade do céu.

(2.) A maneira pela qual Deus aperfeiçoa seu povo: opera sempre nele aquilo que é agradável a seus olhos, e isso por meio de Jesus Cristo, a quem seja glória para sempre. Observe:

[1.] Nenhuma coisa boa é operada em nós sem ser obra de Deus; ele opera em nós antes que estejamos aptos para qualquer boa obra.

[2.] Nenhuma coisa boa é operada em nós por Deus senão por meio de Jesus Cristo, por causa dele e por seu Espírito.

E, portanto, [3.] Glória eterna é devida àquele que é a causa de todos os bons princípios operados em nós e de todas as boas obras realizadas por nós. A isso cada um deve dizer: Amém.

III. Ele relata aos hebreus a libertação de Timóteo e sua esperança de vê-los com ele em breve, v. 23. Parece que Timóteo estivera preso, sem dúvida por causa do evangelho, mas agora foi posto em liberdade.

A prisão de ministros fiéis é uma honra para eles, e sua soltura é motivo de alegria para o povo. O apóstolo se agradava com a esperança não só de ver Timóteo, mas de ver os hebreus com ele.

Os ministros fiéis de Cristo desejam oportunidades de escrever às igrejas de Cristo, e essas oportunidades lhes são agradáveis.

IV. Depois de dar um breve relato desta sua carta e pedir que lhe dessem atenção (v. 22), ele termina com saudações e uma bênção solene, embora breve.

  1. A saudação:

(1.) De si mesmo a eles, dirigida a todos os seus ministros que os governavam e a todos os santos, a todos eles, ministros e povo.

(2.) Dos cristãos da Itália a eles. É bom que a lei do santo amor e da bondade esteja escrita nos corações dos cristãos uns para com os outros. A religião ensina às pessoas a mais verdadeira cortesia e boa educação; não é coisa azeda nem taciturna.

  1. A bênção solene, embora breve (v. 25): “A graça esteja com todos vós. Amém.” Que o favor de Deus esteja voltado para vocês e sua graça opere continuamente em vocês e esteja com vocês, produzindo os frutos da santidade como primícias da glória.

Quando o povo de Deus tem tido comunhão por palavra ou por escrito, é bom despedir-se com oração, desejando uns aos outros a continuidade da presença graciosa de Deus, para que possam encontrar-se novamente no mundo do louvor.


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