Matthew Henry

Hebreus 1

Argumento

Hebreus

Concluída por William Tong.

UMA

EXPOSIÇÃO

COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS

DA EPÍSTOLA AOS

HEBREUS.

Quanto a esta epístola, devemos investigar:

I. Sua autoridade divina. Alguns a questionaram porque seus olhos enfermos não podiam suportar-lhe a luz ou porque ela refutava seus erros. Entre esses estavam os arianos, que negam a divindade e a existência própria de Cristo, e os socinianos, que negam sua satisfação.

Apesar de todas as tentativas desses homens de desacreditar a epístola, sua origem divina resplandece com raios tão fortes e sem nuvens que até quem corre pode ler que ela é uma parte eminente do cânon das Escrituras.

O caráter divino do assunto, a elevação do estilo, a excelência do desígnio, a harmonia com as outras partes das Escrituras e a aceitação geral que teve na igreja de Deus em todas as épocas: estas são as provas de sua autoridade divina.

II. Quanto ao amanuense ou redator divino desta epístola, não temos a mesma certeza. Ela não traz o nome de ninguém no início, como as demais epístolas, e houve entre os eruditos alguma controvérsia sobre a quem atribuí-la.

Alguns a atribuíram a Clemente de Roma; outros, a Lucas; e muitos, a Barnabé, por julgarem que seu estilo e modo de expressão combinam muito bem com o temperamento zeloso, revestido de autoridade e afetuoso que Barnabé mostra no relato que temos dele em Atos dos Apóstolos. Um antigo pai da igreja chega a citar uma expressão desta epístola como palavras de Barnabé.

Mas ela é geralmente atribuída ao apóstolo Paulo, e algumas cópias e traduções posteriores puseram o nome de Paulo no título. Nos tempos da igreja primitiva, era geralmente atribuída a ele, e seu estilo e objetivo combinam muito bem com o espírito desse homem de mente clara e coração ardente, cujo principal propósito e esforço eram exaltar a Cristo.

Alguns pensam que o apóstolo Pedro se refere a esta epístola e prova que Paulo foi seu redator ao falar aos hebreus, a quem escrevia, de uma carta que Paulo lhes havia escrito, 2 Pedro 3:15. Não conhecemos nenhuma outra epístola que Paulo tenha escrito a eles além desta.

Embora se tenha objetado que Paulo assinou todas as suas outras epístolas e, portanto, não teria omitido o nome nesta, outros responderam com razão que ele, como apóstolo dos gentios, os quais eram odiados pelos judeus, pode ter julgado conveniente ocultar seu nome, para que os preconceitos deles contra ele não os impedissem de ler e ponderar a epístola como deveriam.

III. Quanto ao objetivo e ao desígnio desta epístola, é evidente que ela buscava informar claramente a mente dos hebreus e confirmar fortemente seu juízo quanto à excelência transcendente do evangelho sobre a lei. Desse modo, procurava afastá-los das cerimônias da lei, às quais estavam tão apegados.

Tinham tanto apreço por essas cerimônias que chegavam a ser obcecados por elas; mesmo os cristãos entre eles conservavam muito do velho fermento e precisavam ser purificados dele. O desígnio da epístola era persuadir e exortar os hebreus crentes a aderir constantemente à fé cristã e a perseverar nela, apesar de todos os sofrimentos que pudessem encontrar ao fazê-lo.

Para isso, o apóstolo fala muito da excelência do autor do evangelho, o glorioso Jesus, cuja honra promove e a quem, com justiça, coloca acima de todos os outros. Mostra que Cristo é tudo em todos, em elevados tons de santa retórica.

É preciso reconhecer que há nesta epístola muitas coisas difíceis de entender, mas a doçura que nela encontraremos nos compensará abundantemente por todo o esforço feito para compreendê-la. De fato, se compararmos todas as epístolas do Novo Testamento, não encontraremos nenhuma mais repleta de matéria divina e celestial do que esta aos hebreus.

Neste capítulo, temos uma dupla comparação:

I. Entre a dispensação evangélica e a legal; afirma-se e prova-se a excelência do evangelho acima da lei, vv. 1-3.

II. Entre a glória de Cristo e a das criaturas mais elevadas, os anjos; a preeminência é justamente dada ao Senhor Jesus Cristo e claramente demonstrada como pertencente a ele, v. 4 até o fim.

Versículos 1 a 3

Comparação entre a Lei e o Evangelho; Dignidade e Glória de Cristo. (62 d.C.)

Aqui o apóstolo começa com uma declaração geral da excelência da dispensação do evangelho sobre a da lei. Demonstra isso pela diferença entre os modos pelos quais Deus comunicou a si mesmo, sua mente e sua vontade aos homens em uma e em outra. Ambas as dispensações vieram de Deus e eram muito boas, mas há grande diferença no modo como procederam dele. Observe:

I. O modo como Deus comunicou a si mesmo e sua vontade aos homens sob o Antigo Testamento. Temos aqui um relato:

  1. Das pessoas pelas quais Deus revelou sua mente sob o Antigo Testamento. Eram os profetas: pessoas escolhidas por Deus e por ele habilitadas para a função de revelar aos homens a vontade divina. Ninguém toma para si essa honra, a menos que seja chamado; e todos os que Deus chama, ele habilita.

  2. Das pessoas a quem Deus falou pelos profetas: aos pais, a todos os santos do Antigo Testamento que viviam sob aquela dispensação. Deus os favoreceu e honrou com luz muito mais clara do que a da natureza, sob a qual foi deixado o restante do mundo.

  3. Da ordem em que Deus falou aos homens naqueles tempos anteriores ao evangelho, os tempos passados: falou ao seu antigo povo em diversas ocasiões e de várias maneiras.

(1.) Em diversas ocasiões, ou em várias partes, conforme o sentido da palavra. Isso pode se referir às diferentes épocas da dispensação do Antigo Testamento — a patriarcal, a mosaica e a profética — ou às sucessivas revelações graduais de sua mente acerca do Redentor:

A Adão, que o Messias viria da descendência da mulher; a Abraão, que sairia de seus lombos; a Jacó, que seria da tribo de Judá; a Davi, que seria de sua casa; a Miquéias, que nasceria em Belém; a Isaías, que nasceria de uma virgem.

(2.) De várias maneiras, segundo os diferentes meios pelos quais Deus julgou conveniente comunicar sua mente aos profetas: às vezes, pela vinda repentina do seu Espírito; às vezes, por sonhos; às vezes, por visões; às vezes, por uma voz audível; e, às vezes, por caracteres legíveis escritos por sua própria mão, como quando escreveu os dez mandamentos em tábuas de pedra.

Deus mesmo descreveu alguns desses modos diferentes em Números 12:6-8: “Se houver entre vós profeta, eu, o Senhor, a ele me farei conhecer em visão e com ele falarei em sonho.” Não foi assim com seu servo Moisés: com ele Deus falaria boca a boca, de modo claro, e não por enigmas.

II. O método de Deus para comunicar sua mente e sua vontade sob a dispensação do Novo Testamento, nestes últimos dias, como são chamados; isto é, perto do fim do mundo ou do fim da ordem judaica. Os tempos do evangelho são os últimos tempos, e sua revelação é a última que devemos esperar de Deus.

Primeiro houve a revelação natural; depois, a patriarcal, por sonhos, visões e vozes; em seguida, a mosaica, na lei promulgada e escrita; então, a profética, que explicava a lei e trazia revelações mais claras de Cristo.

Agora, porém, não devemos esperar nova revelação, mas somente mais do Espírito de Cristo para nos ajudar a compreender melhor o que já foi revelado. A excelência da revelação do evangelho sobre as anteriores consiste em duas coisas:

  1. É a revelação final, conclusiva, dada nos últimos dias da revelação divina. Nada lhe deve ser acrescentado; o cânon das Escrituras deve ser estabelecido e selado.

Assim, a mente dos homens já não fica suspensa à espera de novas descobertas, mas se alegra com uma revelação completa da vontade de Deus, tanto em seus preceitos quanto em sua providência, até onde é necessário conhecê-la para direção e consolo.

Pois o evangelho inclui a revelação dos grandes acontecimentos que sobrevirão à igreja de Deus até o fim do mundo.

  1. É uma revelação que Deus fez por meio de seu Filho, o mais excelente mensageiro já enviado ao mundo, muito superior a todos os antigos patriarcas e profetas pelos quais Deus comunicou sua vontade ao povo nos tempos anteriores. Aqui temos um excelente relato da glória de nosso Senhor Jesus Cristo.

(1.) A glória de seu ofício, em três aspectos:

[1.] Deus o designou herdeiro de todas as coisas. Como Deus, ele era igual ao Pai; mas, como Deus-homem e Mediador, foi designado pelo Pai herdeiro de todas as coisas: Senhor soberano de tudo, com poder absoluto de dispor, dirigir e governar todas as pessoas e todas as coisas, Salmos 2:6, 7.

Todo o poder no céu e na terra foi dado a ele; todo o julgamento lhe foi confiado, Mateus 28:18; João 5:22.

[2.] Por meio dele, Deus fez os mundos, tanto os visíveis quanto os invisíveis, os céus e a terra. Não foi como causa instrumental, mas como sua Palavra e Sabedoria essenciais. Por ele fez a antiga criação, por ele faz a nova criatura e por ele rege e governa ambas.

[3.] Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder: impede que o mundo se desfaça. Por ele todas as coisas subsistem. O peso de toda a criação repousa sobre Cristo: ele sustenta o conjunto e cada uma de suas partes.

Quando, após a apostasia, o mundo se despedaçava sob a ira e a maldição de Deus, o Filho de Deus assumiu a obra da redenção, reuniu novamente suas partes e o firmou por seu poder e bondade onipotentes. Nenhum dos antigos profetas ocupou tal ofício; nenhum seria suficiente para ele.

(2.) Daí o apóstolo passa à glória da pessoa de Cristo, capaz de exercer tal ofício: ele era o resplendor da glória de seu Pai e a imagem expressa de sua pessoa, v. 3. Esta é uma descrição elevada do glorioso Redentor, um relato de sua excelência pessoal.

[1.] Em sua pessoa, ele é o Filho de Deus, o Filho unigênito de Deus e, como tal, deve ter a mesma natureza. Essa distinção entre pessoas sempre pressupõe uma única e mesma natureza. Todo filho do homem é homem; se a natureza não fosse a mesma, a geração seria monstruosa.

[2.] A pessoa do Filho é a glória do Pai, que resplandece com fulgor verdadeiramente divino. Assim como os raios são emanações brilhantes do sol, pai e fonte da luz, Jesus Cristo, em sua pessoa, é Deus manifestado na carne; é luz de luz, a verdadeira Shechinah.

[3.] A pessoa do Filho é a verdadeira imagem e representação da pessoa do Pai. Sendo da mesma natureza, deve trazer a mesma imagem e semelhança. Ao contemplarmos o poder, a sabedoria e a bondade do Senhor Jesus Cristo, contemplamos o poder, a sabedoria e a bondade do Pai, pois o Filho tem em si a natureza e as perfeições de Deus.

Quem viu o Filho viu o Pai, isto é, viu o mesmo Ser. Quem conheceu o Filho conheceu o Pai, João 14:7-9. Pois o Filho está no Pai, e o Pai no Filho; a distinção entre pessoas é inteiramente compatível com a união essencial. Essa é a glória da pessoa de Cristo: nele habita, não apenas em figura, mas realmente, toda a plenitude da Divindade.

(3.) Da glória da pessoa de Cristo, ele passa a mencionar a glória de sua graça; sua própria condescendência foi verdadeiramente gloriosa. Os sofrimentos de Cristo tiveram esta grande honra: ser uma satisfação plena pelos pecados de seu povo.

Por si mesmo ele purificou os nossos pecados, isto é, pelo mérito próprio e inerente de sua morte e do derramamento de seu sangue, pelo valor intrínseco e infinito desses sofrimentos. Como foram sofrimentos dele mesmo, fez expiação pelo pecado.

A glória de sua própria pessoa e natureza conferiu aos seus sofrimentos mérito tal que ofereceu reparação suficiente à honra de Deus, que sofrera injúria e afronta infinitas por causa dos pecados dos homens.

(4.) Da glória de seus sofrimentos somos, por fim, conduzidos a considerar a glória de sua exaltação: depois que, por si mesmo, purificou os nossos pecados, sentou-se à direita da Majestade nas alturas, à direita de seu Pai.

Como Mediador e Redentor, ele está investido da mais elevada honra, autoridade e atividade para o bem de seu povo. O Pai agora faz todas as coisas por meio dele e recebe dele todos os serviços prestados por seu povo.

Depois de assumir nossa natureza e nela sofrer na terra, levou-a consigo ao céu, onde ela tem a grande honra de estar junto de Deus. Essa foi a recompensa de sua humilhação.

Foi por uma pessoa nada inferior a essa que Deus falou aos homens nestes últimos dias. E, visto que a dignidade do mensageiro confere autoridade e excelência à mensagem, as dispensações do evangelho devem superar, e muito, a dispensação da lei.

Versículos 4 a 13

A Dignidade de Cristo. (62 d.C.)

Depois de provar a preeminência do evangelho sobre a lei pela preeminência do Senhor Jesus Cristo sobre os profetas, o apóstolo passa a mostrar que ele é muito superior não só aos profetas, mas também aos próprios anjos.

Com isso, responde de antemão a uma objeção que os zelosos defensores da lei judaica estariam prontos a fazer: a lei não foi apenas transmitida por homens, mas ordenada por anjos, Gálatas 3:19. Eles estiveram presentes quando ela foi dada; os exércitos celestiais saíram para acompanhar o Senhor Jeová naquela ocasião imponente.

Ora, os anjos são seres muito gloriosos, bem mais gloriosos e excelentes que os homens. As Escrituras sempre os apresentam como as mais excelentes de todas as criaturas, e não conhecemos ser algum, além do próprio Deus, superior a eles. Portanto, a lei ordenada por anjos deveria ser tida em grande estima.

Para retirar a força dessa razão, o autor da epístola passa a comparar Jesus Cristo com os santos anjos, tanto em natureza quanto em ofício, e a provar que Cristo é imensamente superior aos próprios anjos: tornou-se tanto mais excelente que eles quanto herdou nome mais excelente do que o deles. Observe aqui:

I. A natureza superior de Cristo é provada por seu nome superior. As Escrituras não dão títulos elevados e gloriosos sem fundamento e razão reais na natureza; tampouco teriam dito coisas tão grandiosas de nosso Senhor Jesus Cristo se ele não fosse tão grande e excelente quanto essas palavras indicam.

Quando se diz que Cristo se tornou tanto mais excelente que os anjos, não devemos imaginar que fosse mera criatura, como eles.

A palavra genomenos, quando ligada a um adjetivo, em nenhum lugar deve ser traduzida por “criado”; aqui pode muito bem ser lida como “sendo mais excelente”, como traz a versão siríaca. Lemos ginesthe ho Theos alethes: seja Deus verdadeiro, não feito verdadeiro, mas reconhecido como tal.

II. A superioridade do nome e da natureza de Cristo sobre os anjos é declarada nas Escrituras Sagradas e delas deve ser deduzida. Sem as Escrituras, saberíamos pouco ou nada tanto de Cristo quanto dos anjos; por isso, elas devem determinar nossa concepção de um e de outros. São citadas aqui várias passagens bíblicas que dizem de Cristo coisas jamais ditas dos anjos.

  1. Foi dito a Cristo: “Tu és meu Filho, hoje te gerei”, Salmos 2:7. Isso pode se referir à sua geração eterna, à sua ressurreição ou à sua solene investidura em seu reino glorioso quando subiu ao céu e se assentou à direita do Pai. Isso nunca foi dito dos anjos; portanto, por herança, ele possui natureza e nome mais excelentes que os deles.

  2. Foi dito acerca de Cristo, mas nunca acerca dos anjos, que Deus lhe seria Pai e ele seria Filho de Deus; a passagem vem de 2 Samuel 7:14. Não apenas “Sou seu Pai, e ele é meu Filho, por natureza e emanação eterna”, mas “Serei seu Pai, e ele será meu Filho, por concepção maravilhosa; e essa sua filiação será fonte e fundamento de toda relação de graça entre mim e o homem caído”.

  3. Diz-se de Cristo que, ao trazer Deus seu Primogênito ao mundo, todos os anjos de Deus devem adorá-lo.

Isto é, quando ele é trazido a este mundo inferior, em seu nascimento, os anjos devem servi-lo e honrá-lo; ou quando é levado ao mundo superior, em sua ascensão, para assumir seu reino mediador; ou ainda quando Deus o trouxer de novo ao mundo para julgá-lo, então as criaturas mais elevadas deverão adorá-lo.

Deus não permitirá que permaneça no céu anjo algum que não se sujeite a Cristo e não o adore. No fim, fará os anjos caídos e os homens perversos confessarem seu poder e sua autoridade divinos e se prostrarem diante dele. Os que não quiseram que ele reinasse terão então de ser trazidos e mortos diante dele.

A prova disso vem de Salmos 97:7: “Adorai-o, todos vós, deuses”, isto é: “Todos os que sois superiores aos homens, reconhecei-vos inferiores a Cristo em natureza e poder”.

  1. Deus disse a Cristo: “Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre”, etc., vv. 8-12. Mas dos anjos disse apenas que os fez espíritos, e seus ministros, chama de fogo, v. 7. Ao compararmos o que ele diz dos anjos com o que diz a Cristo, veremos claramente a enorme inferioridade dos anjos diante dele.

(1.) O que Deus diz aqui dos anjos? “Ele faz de seus anjos espíritos, e de seus ministros chama de fogo.” Isso está em Salmos 104:4, onde parece referir-se mais diretamente aos ventos e aos relâmpagos, mas aqui se aplica aos anjos, de cuja ação a divina Providência se serve nos ventos, trovões e relâmpagos. Observe:

[1.] O ofício dos anjos: são ministros ou servos de Deus, que cumprem sua vontade. É glória para Deus ter tais servos; glória ainda maior é não precisar deles.

[2.] Como os anjos são habilitados para esse serviço: ele os faz espíritos e chama de fogo; isto é, dota-os de luz e zelo, de atividade e capacidade, de prontidão e resolução para cumprir sua vontade. Não são nada além do que Deus os fez ser e servem ao Filho tanto quanto ao Pai. Mas observe:

(2.) Quanto maiores são as coisas que o Pai diz de Cristo. Citam-se aqui duas passagens das Escrituras:

[1.] Uma delas é Salmos 45:6, 7, onde Deus declara acerca de Cristo:

Primeiro, sua divindade verdadeira e real, e o faz com muito prazer e afeto, sem relutar em atribuir-lhe essa glória: “Teu trono, ó Deus.” Aqui uma pessoa chama outra de Deus: “Ó Deus.” Se Deus Pai declara que ele o é, deve sê-lo de fato e verdadeiramente, pois Deus chama pessoas e coisas pelo que são.

Quem quiser negar que Cristo é essencialmente Deus, faça-o por sua conta e risco; quanto a nós, reconheçamos e honremos a Cristo como Deus. Se não fosse Deus, jamais estaria apto a realizar a obra do Mediador nem a usar sua coroa.

Segundo, Deus declara sua dignidade e seu domínio, pois ele possui trono, reino e cetro desse reino. Tem todo o direito, governo, autoridade e poder, tanto como Deus da natureza, da graça e da glória quanto como Mediador; assim, é plenamente adequado a todas as intenções e propósitos de seu reino mediador.

Terceiro, Deus declara a duração eterna do domínio e da dignidade de Cristo, fundada na divindade de sua pessoa: “Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre.” Desde a eternidade passada até a futura, por todas as eras do tempo, apesar de todas as tentativas da terra e do inferno de miná-lo e derrubá-lo, e por todas as eras intermináveis da eternidade, quando o tempo já não existir.

Isso distingue o trono de Cristo de todos os tronos terrenos, que vacilam e por fim cairão. Mas o trono de Cristo durará como os dias do céu.

Quarto, Deus declara a perfeita equidade de sua administração e do exercício de seu poder em todas as partes do seu governo: “Cetro de justiça é o cetro do teu reino”, v. 8. Ele chegou ao cetro com justiça e o usa com perfeita justiça.

A justiça de seu governo procede da justiça de sua pessoa, de seu amor essencial e eterno pela justiça e de seu ódio pela iniquidade. Não vem apenas de considerações de prudência ou interesse, mas de um princípio interior e imutável: “Tu amas a justiça e odeias a iniquidade”, v. 9.

Cristo veio cumprir toda a justiça, trazer uma justiça eterna; foi justo em todos os seus caminhos e santo em todas as suas obras. Recomendou aos homens a justiça e a restaurou entre eles como algo excelente e amável. Veio terminar a transgressão e dar fim ao pecado, como coisa odiosa e também prejudicial.

Quinto, Deus declara como Cristo foi habilitado para o ofício de Mediador e como foi nele investido e confirmado, v. 9: “Por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.”

  1. Cristo recebe o nome de Messias por ter sido ungido. A unção de Deus significa tanto que o habilitou para o ofício de Mediador com o Espírito Santo e todas as graças deste, quanto que o investiu nesse ofício, assim como profetas, sacerdotes e reis eram investidos pela unção.

“Deus, o teu Deus” expressa a confirmação de Cristo no ofício de Mediador pela aliança de redenção e paz estabelecida entre o Pai e o Filho. Deus é o Deus de Cristo enquanto homem e Mediador.

  1. Essa unção de Cristo foi com óleo de alegria. Isso significa tanto a alegria e a boa disposição com que ele assumiu e exerceu o ofício de Mediador, sabendo-se inteiramente capaz para isso, quanto a alegria posta diante dele como recompensa por seu serviço e seus sofrimentos: a coroa de glória e alegria que usaria para sempre depois de sofrer a morte.

  2. Essa unção de Cristo foi superior à unção de seus companheiros: “Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.” Quem são os companheiros de Cristo? Tem ele algum igual? Não como Deus, a não ser o Pai e o Espírito, mas não é a eles que se refere a passagem.

Como homem, porém, ele tem companheiros, e também como pessoa ungida; mas sua unção ultrapassa a de todos eles:

(1.) Ultrapassa a dos anjos, que podem ser chamados seus companheiros por serem filhos de Deus pela criação e mensageiros de Deus, empregados por ele em seu serviço.

(2.) Ultrapassa a de todos os profetas, sacerdotes e reis que foram ungidos com óleo para servir a Deus na terra.

(3.) Ultrapassa a de todos os santos, seus irmãos, filhos do mesmo Pai, pois com eles participou da carne e do sangue.

(4.) Ultrapassa a de todos os que tinham com ele parentesco humano: toda a casa de Davi, toda a tribo de Judá, todos os seus irmãos e parentes segundo a carne.

Todos os demais ungidos de Deus receberam o Espírito apenas em certa medida; Cristo o recebeu além de qualquer medida, sem limitação alguma. Portanto, ninguém cumpre sua obra como Cristo a cumpriu, ninguém tem nela tanto prazer como ele, pois foi ungido com óleo de alegria mais do que seus companheiros.

[2.] A outra passagem das Escrituras que mostra a excelência superior de Cristo sobre os anjos vem de Salmos 102:25-27 e é citada nos vv. 10-12. Nela se declara a onipotência do Senhor Jesus Cristo, manifesta tanto na criação quanto na transformação do mundo.

Primeiro, na criação do mundo, v. 10: “E tu, Senhor, no princípio lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra de tuas mãos.” O Senhor Cristo tinha o direito original de governar o mundo porque o criou no princípio. Seu direito como Mediador veio de uma comissão do Pai; seu direito como Deus com o Pai era absoluto, fruto de seu poder criador.

Ele possuía esse poder antes do começo do mundo e o exerceu ao dar início e existência ao mundo. Portanto, ele mesmo não pode ser parte do mundo, pois nesse caso teria de dar início a si próprio. Ele era pro panton — “antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele”, Colossenses 1:17.

Não era apenas superior a todas as coisas em posição, mas anterior a todas em existência; portanto, deve ser Deus e existir por si mesmo. Lançou os fundamentos da terra: não apenas introduziu novas formas numa matéria preexistente, mas criou do nada os fundamentos da terra, os primordia rerum — os primeiros princípios das coisas.

Não fundou apenas a terra; os céus também são obra de suas mãos, tanto a morada quanto seus habitantes, os exércitos celestiais, os próprios anjos. Assim, ele é necessariamente infinitamente superior a eles.

Segundo, na transformação do mundo que criou; aqui a mutabilidade do mundo é apresentada para ressaltar a imutabilidade de Cristo. Observe:

  1. Este mundo é mutável, como toda a natureza criada. Já passou por muitas mudanças e passará por outras; todas elas ocorrem com a permissão e sob a direção de Cristo, que criou o mundo, v. 11, 12: “Eles perecerão, todos envelhecerão como uma veste; como um manto tu os enrolarás, e serão mudados.”

Este nosso mundo visível, a terra e os céus visíveis, está envelhecendo. Não só homens, animais e árvores envelhecem; o próprio mundo envelhece e se aproxima de sua dissolução. Muda como uma veste e já perdeu muito de sua beleza e força. Envelheceu cedo, na primeira apostasia, e desde então tem ficado cada vez mais velho e fraco; traz os sinais de um mundo moribundo.

Sua dissolução, porém, não será destruição total, e sim transformação. Cristo enrolará este mundo como uma veste para que já não se abuse dele nem seja usado como tem sido. Não fixemos o coração naquilo que não é o que imaginamos e não será o que é agora.

O pecado mudou muito o mundo para pior, e Cristo o mudará muito para melhor. Esperamos novos céus e uma nova terra, onde habita a justiça. Que essa consideração nos desprenda do mundo presente e nos torne vigilantes, diligentes e desejosos daquele mundo melhor.

Esperemos em Cristo para que nos transforme e nos torne aptos para esse novo mundo que se aproxima; não poderemos entrar nele enquanto não formos novas criaturas.

  1. Cristo é imutável. Assim o Pai testifica a respeito dele: “Tu permaneces, teus anos não terão fim.” Cristo é o mesmo em si, o mesmo ontem, hoje e para sempre, e o mesmo para seu povo através de todas as mudanças do tempo.

Isso pode sustentar todos os que pertencem a Cristo em todas as mudanças que enfrentam no mundo e sentem em si mesmos. Cristo é imutável e imortal: seus anos não terão fim.

Isso pode nos consolar diante de toda perda de vigor natural que percebemos em nós ou em nossos amigos, embora nossa carne e nosso coração desfaleçam e nossos dias se aproximem do fim. Cristo vive para cuidar de nós enquanto vivemos e dos nossos depois que partirmos.

Isso deve estimular todos nós a esclarecer e assegurar nossa participação nele, para que nossa vida espiritual e eterna fique escondida com Cristo em Deus.

III. A superioridade de Cristo sobre os anjos aparece também no fato de Deus nunca ter dito a eles o que disse a Cristo, v. 13, 14:

  1. O que Deus disse a Cristo? Disse-lhe: “Assenta-te à minha direita até que eu ponha teus inimigos por escabelo de teus pés”, Salmos 110:1. “Recebe glória, domínio e descanso; permanece na administração de teu reino mediador até que todos os teus inimigos sejam feitos teus amigos pela conversão ou se tornem escabelo de teus pés.” Repare:

(1.) Cristo Jesus tem inimigos — quem imaginaria? — até entre os homens: inimigos de sua soberania, de sua causa, de seu povo; pessoas que não aceitam seu reinado. Não estranhemos, pois, se também temos inimigos.

Cristo nunca fez nada que tornasse os homens seus inimigos; fez muito para que todos se tornassem amigos dele e do Pai, e ainda assim tem inimigos.

(2.) Todos os inimigos de Cristo se tornarão escabelo de seus pés: ou pela humilde entrega e total submissão à sua vontade, prostrando-se a seus pés, ou pela destruição completa. Ele pisará os que permanecerem obstinados e os esmagará sob os pés.

(3.) Deus Pai assumiu a responsabilidade por isso e cuidará para que aconteça; sim, ele mesmo o fará. Embora isso não ocorra imediatamente, acontecerá com certeza, e Cristo o aguarda. Assim também os cristãos devem esperar até que Deus realize todas as suas obras neles, em favor deles e por meio deles.

(4.) Cristo continuará a governar e reinar até que isso aconteça; não deixará inacabado nenhum de seus grandes desígnios, mas seguirá vencendo e para vencer. Convém que seu povo continue a cumprir seu dever: sendo o que ele quer que seja, fazendo o que ele quer que faça, evitando o que ele quer que evite e suportando o que ele quer que suporte.

O povo de Cristo deve prosseguir assim até que ele os torne vencedores, e mais que vencedores, sobre todos os seus inimigos espirituais.

  1. O que Deus disse aos anjos? Nunca lhes disse, como disse a Cristo, que se assentassem à sua direita. Disse, porém, que são espíritos ministradores enviados para servir aos que serão herdeiros da salvação. Repare:

(1.) O que os anjos são por natureza: espíritos sem corpos e sem inclinação para ter corpos, embora possam assumir corpos e aparecer neles quando Deus quiser. São substâncias espirituais, incorpóreas, inteligentes e ativas; excedem em sabedoria e força.

(2.) O que os anjos são quanto ao ofício: espíritos ministradores. Cristo, como Mediador, é o grande ministro de Deus na grande obra da redenção. O Espírito Santo é o grande ministro de Deus e de Cristo na aplicação dessa redenção.

Os anjos são espíritos ministradores sob a bendita Trindade, encarregados de executar a vontade e o agrado divinos; são ministros da divina Providência.

(3.) Os anjos são enviados para este fim: servir aos que serão herdeiros da salvação. Observe aqui:

[1.] A descrição dos santos: são herdeiros da salvação; por enquanto, são menores de idade, herdeiros, mas ainda não possuidores da herança. São herdeiros porque são filhos de Deus; se filhos, então herdeiros.

Certifiquemo-nos de que somos filhos pela adoção e pela regeneração, tendo-nos entregue a Deus numa aliança e vivendo diante dele segundo o evangelho. Então seremos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.

[2.] A dignidade e o privilégio dos santos: os anjos são enviados para servi-los. Assim fizeram ao acompanhar e atuar na promulgação da lei, ao lutar nas batalhas dos santos e ao destruir seus inimigos.

Continuam a servi-los: opõem-se à maldade e ao poder dos espíritos maus, protegem e guardam seus corpos, armam suas tendas ao redor das tendas deles, instruem, vivificam e consolam suas almas sob Cristo e o Espírito Santo. Também o farão ao reunir todos os santos no último dia.

Bendigamos a Deus pelo serviço dos anjos, permaneçamos no caminho de Deus e recebamos o consolo desta promessa: “Ele dará aos seus anjos ordem a teu respeito, para te guardarem em todos os teus caminhos.” Eles os levarão nas mãos, para que não batam os pés em pedra, Salmos 91:11, 12.


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