Matthew Henry

Habacuque 1

Argumento

Habacuque

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA HABACUQUE.

É uma fantasia muito tola de alguns rabinos judeus dizer que este profeta era o filho da mulher sunamita, primeiro concedido milagrosamente e depois ressuscitado por Eliseu (2 Reis 4). Eles também dizem que o profeta Jonas era filho da viúva de Sarepta e que Elias o ressuscitou.

É mais provável a conjectura de seus cronologistas modernos de que ele viveu e profetizou no reinado do rei Manassés, quando a maldade abundava e a destruição se aproximava. Era a destruição pelos caldeus, mencionados por este profeta como instrumentos dos juízos de Deus.

O próprio Manassés foi levado para a Babilônia, como prenúncio do que viria depois. Na história apócrifa de Bel e o Dragão, menciona-se o profeta Habacuque na terra de Judá, levado dali por um anjo à Babilônia para alimentar Daniel na cova.

Os que dão crédito a essa história se esforçam para conciliá-la com o fato de que nosso profeta viveu antes do cativeiro e o predisse. Huetius pensa que aquele era outro profeta com o mesmo nome: este, da tribo de Simeão; aquele, da de Levi.

Outros pensam que ele viveu até o fim daquele cativeiro, embora o tenha profetizado antes de começar. Alguns imaginaram que o ato de Habacuque alimentar Daniel na cova deve ser entendido misticamente: Daniel vivia então pela fé, como Habacuque dissera que o justo viveria; ele era alimentado por essa palavra, Habacuque 2:4.

A profecia deste livro mistura as palavras que o profeta dirige a Deus em nome do povo com as que dirige ao povo em nome de Deus, pois é ofício do profeta levar mensagens nos dois sentidos. Temos aqui uma representação viva do relacionamento e da comunhão entre um Deus cheio de graça e uma alma agraciada.

O conjunto se refere particularmente à invasão da terra de Judá pelos caldeus, que trouxe pilhagem ao povo de Deus. Foi o justo castigo pela pilhagem de que eles próprios haviam sido culpados entre si.

Mas o livro tem utilidade geral, sobretudo para nos ajudar a atravessar aquela grande provação que em todas as épocas afligiu os homens bons: o poder e a prosperidade dos ímpios e os sofrimentos que isso causa aos justos.

Neste capítulo, I. O profeta se queixa a Deus da violência praticada pelo abuso da espada da justiça entre seu próprio povo e das agruras impostas por isso a muitas pessoas boas, vv. 1-4.

II. Por meio dele, Deus prediz o castigo desse abuso de poder pela espada da guerra e a devastação que o exército dos caldeus causaria entre eles, vv. 5-11.

III. O profeta se queixa disso também e se aflige porque os caldeus prevalecem tanto (vv. 12-17). Mal sabe o que é mais lamentável: o pecado ou seu castigo, pois em ambos muitos inocentes e pessoas boas sofrem muito.

É bom termos diante de nós um dia de juízo e um estado futuro, em que, por toda a eternidade, tudo irá bem para todos os justos, e somente para eles, e mal para todos os ímpios, e somente para eles. Assim, as aparentes desordens atuais da Providência serão corrigidas, e não restará motivo algum de queixa.

Versículos 1 a 4

Os Pecados do Povo. (a.C. 600.)

O título deste livro (que temos no v. 1) nos diz apenas que o autor era um profeta, homem divinamente inspirado e comissionado. Isso basta: se é assim, não precisamos perguntar por sua tribo, família ou lugar de nascimento.

Diz também que o próprio livro é o peso que ele viu. Ele tinha tanta certeza da verdade do que anunciava como se já tivesse visto seu cumprimento com os olhos do corpo.

Nestes versículos, o profeta lamenta com tristeza a iniquidade daqueles tempos, como alguém profundamente comovido pela lamentável decadência da religião e da justiça. É uma queixa muito melancólica a que ele apresenta aqui a Deus:

  1. Ninguém podia chamar de seu aquilo que possuía. Mas, em desafio às leis mais sagradas da propriedade e da equidade, quem tinha o poder ao seu lado tomava o que desejava, embora não tivesse o direito ao seu lado.

A terra estava cheia de violência, como o mundo antigo esteve (Gênesis 6:11). O profeta clama por causa da violência (v. 2), da iniquidade e do agravo, da pilhagem e da violência.

Nas famílias e entre parentes, nas vizinhanças e entre amigos, no comércio e nos tribunais, tudo se fazia com mão pesada. Ninguém tinha escrúpulo em prejudicar o próximo, contanto que pudesse tirar bom proveito disso para si.

Não parece que o próprio profeta tenha sofrido grande injustiça. Em tempos de perdas, os que nada tinham a perder eram os que se saíam melhor. Mas vê-lo acontecer aos outros o afligia, e ele não podia deixar de misturar suas lágrimas às dos oprimidos.

Repare: prejudicar pessoas inofensivas é iniquidade em si e também motivo de grande aflição para todos os que se importam com a Jerusalém de Deus e suspiram e clamam por abominações desse tipo.

Ele se queixa (v. 4) de que o ímpio cerca o justo. Um homem honesto, uma causa honesta, terá inimigos que a sitiam de todos os lados. Muitos homens ímpios, aliados contra ela, a destroem.

Ou melhor: um só homem ímpio, pois a palavra está no singular, investe contra um justo com tantas e tão diversas artes de causar dano que o cerca por completo.

  1. O reino estava dividido em partidos e facções que continuamente se mordiam e devoravam uns aos outros. Isso é motivo de lamento para todos os filhos da paz.

Há os que levantam contenda e disputa (v. 3), fomentam divisões, alargam rupturas, incitam uns contra os outros e semeiam discórdia entre irmãos, fazendo a obra daquele que é o acusador dos irmãos.

Contendas e disputas que haviam adormecido e começavam a ser esquecidas, eles as despertam, tornam a levantá-las deliberadamente e atiçam as faíscas escondidas sob as brasas.

Se os pacificadores são bem-aventurados, malditos são os que destroem a paz. Eles formam partidos e assim causam um dano que se espalha mais longe e dura mais tempo do que podem imaginar.

É triste ver homens maus aquecendo as mãos nas chamas que devoram tudo o que há de bom numa nação e ainda atiçando o fogo.

  1. A torrente de violência e contenda corria com tanta força que desafiava as restrições e normas das leis e a administração da justiça, v. 4.

Porque Deus não aparecia contra eles, ninguém mais o faria. Por isso a lei se afrouxa, fica calada; não respira, seu pulso não bate. É isso, dizem, que a palavra significa. Ela deixa de atuar, e o juízo não se exerce como deveria.

Não se toma conhecimento dos crimes nem se faz justiça contra os criminosos. Ou melhor: o juízo sai pervertido. Se alguém recorre aos tribunais de equidade, o justo é condenado e o ímpio, justificado, de modo que o remédio se torna a pior doença.

O poder legislativo não cuida de suprir as deficiências da lei para prevenir esses males crescentes e ameaçadores. O poder executivo não cuida de cumprir as boas intenções das leis promulgadas. A corrente da justiça é secada pela violência e não corre livremente.

  1. Tudo isso era aberto, público e confessado com descaramento; era feito sem disfarce. O profeta se queixa de que essa iniquidade lhe era mostrada. Ele a via para qualquer lado que voltasse os olhos e não conseguia desviar o olhar: “A pilhagem e a violência estão diante de mim”.

Repare: a abundância de maldade numa nação é um espetáculo muito doloroso para as pessoas boas. Se não a vissem, não poderiam acreditar que fosse tão ruim quanto é.

Salomão se queixa muitas vezes da aflição desse tipo que viu debaixo do sol. Por isso o profeta de bom grado se tornaria eremita, para não ter de vê-la, Jeremias 9:2.

Mas, para isso, teríamos de sair do mundo. É isso que devemos desejar, a fim de nos mudar para aquele mundo onde a santidade e o amor reinam eternamente e onde nenhuma pilhagem ou violência estará diante de nós.

  1. Ele se queixou de tudo isso a Deus, mas não conseguiu a reparação desses agravos. “Senhor”, diz ele, “por que me mostras a iniquidade? Por que me coube viver numa época e num lugar em que ela é vista? Por que continuo a peregrinar em Meseque e Quedar?”

“Clamo a ti por causa desta violência. Clamo em alta voz, clamo há muito tempo, mas tu não ouves nem salvas. Não te vingas dos opressores nem fazes justiça aos oprimidos, como se teu braço estivesse encurtado ou teu ouvido, pesado.”

Quando Deus parece tolerar a maldade dos ímpios e até favorecê-la, permitindo que prosperem em sua maldade, a fé dos homens bons é abalada. Torna-se para eles uma grande tentação dizer: “Purificamos em vão o nosso coração” (Salmos 73:13).

Isso também endurece em sua impiedade os que dizem: “Deus abandonou a terra”. Não devemos achar estranho que se permita à maldade prevalecer amplamente e prosperar por muito tempo.

Deus tem motivos, e temos certeza de que são bons motivos, tanto para adiar a pena dos maus quanto para repreender os bons. Por isso, embora supliquemos a ele e humildemente o interpelemos acerca de seus juízos, ainda assim devemos dizer: “Ele é sábio, justo e bom em tudo”.

E devemos crer que chegará o dia, embora seja longamente adiado, em que será ouvido o clamor do pecado contra os que praticam a injustiça e o clamor da oração em favor dos que a sofrem.

Versículos 5 a 11

O Juízo Predito. (a.C. 600.)

Temos aqui a resposta à queixa do profeta. Ela lhe assegura que, embora Deus tenha suportado o povo por muito tempo, não o suportaria para sempre, pois o dia da vingança estava em seu coração. O profeta precisava dizê-lo ao povo, para que, pelo arrependimento e pela reforma, afastasse o juízo com que era ameaçado.

I. O preâmbulo da sentença é muito solene (v. 5): “Olhai entre os gentios e atentai”. Já que a longanimidade de Deus não os leva ao arrependimento, ele adotará outro procedimento. Não há indignação tão aguda e profunda quanto a que nasce da paciência maltratada. O Senhor lhes imporá:

  1. Um castigo público, que será visto e observado entre os gentios e que fará as nações vizinhas prestar atenção e ficar atônitas; veja Deuteronômio 29:24, 25. Isso agravará a devastação de Israel, pois fará deles um espetáculo para o mundo.

  2. Um castigo espantoso, tão estranho e surpreendente, tão fora do curso comum da Providência, que não terá paralelo entre os gentios. Será mais doloroso e pesado do que aquilo que Deus costuma infligir às nações que não o conhecem.

Ou melhor: nem mesmo aqueles que tiverem recebido de Deus a predição antes que aconteça, ou o relato de testemunhas oculares quando acontecer, acreditarão: “Não o crereis, ainda que vos seja contado”.

Parecerá incrível que tantos juízos se combinem num só, e que todas as circunstâncias concorram de modo tão extraordinário para torná-lo mais rigoroso e agravá-lo. Uma nação tão grande e poderosa será tão humilhada e quebrantada!

Também parecerá incrível que Deus trate com tanta severidade um povo que foi admitido no vínculo da aliança e por quem ele fez tanto. O castigo do povo que professa pertencer a Deus não pode deixar de espantar todos ao seu redor.

  1. Um castigo rápido: “Farei uma obra em vossos dias, e logo. Esta geração não passará antes que se cumpra o juízo anunciado. Os pecados dos dias anteriores serão cobrados em vossos dias, pois agora a medida da iniquidade está cheia”, Mateus 23:36.

  2. Um castigo no qual muito se verá a mão de Deus. Será obra feita por ele mesmo, de modo que todos os que a virem dirão: “Isto é obra do Senhor”. Descobrirão que é coisa temível cair em suas mãos. Ai daqueles de quem ele exige contas!

  3. Um castigo que prefigurará a destruição trazida sobre os que desprezam Cristo e seu evangelho. É a eles que estas palavras são aplicadas em Atos 13:41: “Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e perecei”.

A ruína de Jerusalém pelos caldeus por causa da idolatria foi figura de sua ruína pelos romanos por terem rejeitado Cristo e seu evangelho. É algo muito espantoso e quase inacreditável. Não há um castigo extraordinário para os que praticam a iniquidade?

II. A própria sentença é muito terrível e específica (v. 6): “Eis que suscito os caldeus”. Havia entre eles os que levantavam muita contenda e disputa; esse era seu pecado. Agora Deus levantará contra eles os caldeus, que contenderão e disputarão com eles; esse será seu castigo.

Repare: quando os que professam pertencer a Deus têm desavenças entre si, rosnam uns para os outros e se devoram, é justo que Deus traga contra eles o inimigo comum. Este estabelecerá a paz por meio de uma devastação geral.

As facções em conflito em Jerusalém nutriam hostilidade profunda umas contra as outras quando os romanos vieram e lhes tiraram seu lugar e sua nação.

Os caldeus serão os instrumentos da destruição anunciada. Embora ajam injustamente, executarão a justiça do Senhor e castigarão a injustiça de Israel. Temos aqui:

  1. A descrição do povo que será levantado contra Israel para servir-lhe de açoite:

(1.) É uma nação amarga e impetuosa, cruel e feroz. Tudo o que faz, faz com violência e fúria. Seus planos são precipitados, suas paixões são intensas, e ela avança com determinação em suas empreitadas. Não mostra misericórdia e não poupa esforços. Miserável é a condição dos entregues às mãos desses cruéis.

(2.) São fortes e, por isso, temíveis: ninguém consegue resistir a eles nem fugir deles (v. 7). São terríveis e assustadores, famosos pelas tropas valorosas que levam ao campo de batalha (v. 8).

Seus cavalos são mais rápidos que leopardos no ataque e na perseguição, e mais ferozes que os lobos da tarde. Observa-se que os lobos ficam mais vorazes ao anoitecer, depois de passar o dia famintos à espera da escuridão, sob cuja proteção todos os animais da floresta saem, Salmos 104:20.

Seus esquadrões de cavalaria serão muito numerosos: “Seus cavaleiros se espalharão por grandes distâncias, pois virão de longe, de todas as partes de seu país. Também se dispersarão por toda a terra que invadirem, para saqueá-la e enriquecer com seus despojos.”

“E, na pressa de saquear, correrão para a presa (como os de Isaías 8:1, à margem). Voarão como a águia que desce apressada para comer e arrebata a presa em que fixou os olhos.”

(3.) A própria vontade lhes serve de lei. Na violência de suas investidas, não se deixarão governar por lei alguma de humanidade, equidade ou honra: “O seu juízo e a sua dignidade procedem deles mesmos”, v. 7.

São governados pelo apetite e pela paixão, não pela razão ou pela consciência. Seu princípio é Quicquid libet, licet — Minha vontade é minha lei. E Sic volo, sic jubeo; stat pro ratione voluntas — Isto desejo, isto ordeno; será feito porque assim escolho. Que favor se pode esperar de tal inimigo?

Repare: aqueles que foram injustos e impiedosos, entre os quais a lei se afrouxa e o juízo não se exerce, receberão justamente da mesma moeda e cairão nas mãos de quem os tratará de modo injusto e impiedoso.

  1. A profecia da terrível execução que essa nação terrível realizará: “Marcharão pela largura da terra” (assim também se pode ler). Em pouco tempo, as forças caldeias submeteram todas as nações daquela região, de modo que pareciam ter conquistado o mundo. Invadiram a Ásia e parte da África.

Ou pode significar a largura da terra de Israel, que eles devastaram inteiramente. Aqui se prediz:

(1.) Que tomarão como seu tudo aquilo em que puderem pôr as mãos. Virão para possuir moradas que não lhes pertencem e às quais não têm direito algum, exceto o que sua espada lhes concede.

(2.) Que conduzirão a guerra com todo o vigor possível: “Todos eles vêm para exercer violência” (v. 9). Não vêm decidir pela espada algum direito disputado, mas enriquecer-se com os despojos, tenham razão ou não.

“Seus rostos sorverão como o vento oriental.” A aparência deles será tão feroz e assustadora que bastará um olhar para se tornarem senhores de tudo o que desejarem. Assim engolirão tudo, como o vento oriental que queima e destrói os brotos e as flores.

“Seus rostos estarão voltados para o oriente” (assim leem alguns). Continuarão de olho em sua própria terra, a leste da Judeia, e enviarão para lá todos os despojos que tomarem.

(3.) Que farão um número imenso de prisioneiros e os enviarão para a Babilônia: “Ajuntarão os cativos como areia”, tamanha será a multidão. Jamais julgarão ter o suficiente enquanto houver outros a capturar.

(4.) Que não darão importância alguma à resistência que lhes for oferecida, v. 10. Os judeus aflitos confiam em seus homens influentes para resistir e, com sabedoria e coragem, conter as armas vitoriosas dos caldeus? Ah! Os caldeus não farão caso deles.

“Ele zombará” (é assim, no singular, que está no original, referindo-se a Nabucodonosor, que, inflado por seus êxitos, zombará) dos reis e comandantes das forças que pensam resistir-lhe. “Os príncipes serão objeto de escárnio para eles”, tão desiguais parecerão os adversários.

Confiam em suas guarnições e cidades fortificadas? “Ele se rirá de cada fortaleza”, pois para ele será fraca. “Amontoará terra e a tomará.” Um pouco de terra amontoada em aterros lhe dará toda a vantagem que quiser contra ela. Ele as tratará como brincadeira e se divertirá em conquistá-las.

(5.) Por tudo isso, ele se encherá de um orgulho insuportável, que será sua destruição (v. 11): “Então o seu espírito mudará” para pior. O espírito tanto do povo quanto do rei se tornará mais arrogante e insolente.

Quem não se contenta com os próprios direitos também não ficará satisfeito quando se apoderar dos direitos alheios. À medida que sua posição se eleva, seu espírito também se exalta.

Esse rei vitorioso ultrapassará todos os limites da razão, da equidade e da modéstia e romperá todas as suas amarras. Com isso, pecará, fará de Deus seu inimigo e preparará a própria ruína, atribuindo esse poder a seu deus, quando o recebera do Deus de Israel.

Bel e Nebo eram os deuses dos caldeus, e a eles atribuíam a glória de seus êxitos. Endureceram-se na idolatria e argumentaram blasfemamente que, por terem conquistado Israel, seus deuses eram mais fortes que o Deus de Israel.

Repare: tomar para nós mesmos, ou atribuir a deuses feitos por nós, a glória que pertence somente ao Deus vivo e verdadeiro é uma grande ofensa, e uma ofensa comum entre os orgulhosos.

Essas palavras finais da sentença dão um vislumbre de consolo ao povo aflito de Deus. Pode-se esperar que mudem de espírito, melhorem e amadureçam para a libertação; e foi o que aconteceu.

Contudo, seus inimigos mudarão de espírito, piorarão e amadurecerão para a destruição, que inevitavelmente virá no devido tempo de Deus. Pois um espírito altivo, erguido contra Deus, precede a queda.

Versículos 12 a 17

A Súplica do Profeta; A Queixa do Profeta. (a.C. 600.)

Depois de receber do Senhor a mensagem que devia transmitir ao povo, o profeta se volta para Deus e novamente lhe fala, buscando aliviar a própria mente sob o peso que viu. Ele continua cheio de queixas.

Se olha ao redor, vê apenas a violência praticada por Israel. Se olha para o futuro, vê apenas a violência praticada contra Israel. É difícil dizer qual das duas cenas é mais triste. Ele derrama diante do Senhor seus pensamentos sobre ambas.

É nosso dever sentir tanto as iniquidades quanto as calamidades da igreja de Deus e dos tempos e lugares em que vivemos. Mas devemos tomar cuidado para não nos tornarmos irritadiços em nossa indignação e levá-la longe demais, alimentando pensamentos duros a respeito de Deus ou perdendo o consolo da comunhão com ele.

O mundo é mau, sempre foi e continuará sendo. Não está em nosso poder consertá-lo. Mas sabemos que Deus governa o mundo e tirará de tudo glória para si. Por isso devemos decidir lidar com a situação da melhor maneira, melhorar a nós mesmos e desejar o mundo melhor.

A perspectiva de os caldeus prevalecerem leva o profeta a dobrar os joelhos, e ele toma a liberdade de argumentar com Deus a respeito disso. Em sua súplica podemos observar:

I. As verdades que ele apresenta, às quais está decidido a se apegar e com as quais procura consolar a si mesmo e a seus amigos diante do poder crescente e ameaçador dos caldeus. Elas nos oferecem considerações agradáveis para nos sustentar em situação semelhante.

  1. Seja como for, Deus é o Senhor nosso Deus e nosso Santo. Os caldeus vitoriosos atribuem seu poder aos ídolos, mas fomos ensinados a lhes dizer que o Deus de Israel é o Deus verdadeiro, o Deus vivo, Jeremias 10:10, 11.

(1.) Ele é Jeová, a fonte de todo ser, poder e perfeição. Nossa rocha não é como a deles.

(2.) “Ele é meu Deus.” O profeta fala em nome do povo. Todo israelita pode dizer: “Ele é meu. Embora estejamos tão duramente quebrantados e tudo isso tenha vindo sobre nós, não nos esquecemos do nome de nosso Deus nem abandonamos nosso relacionamento com ele.”

“Não o negamos, nem ele nos negou, Salmos 44:17. Somos um povo que o ofendeu; ele é um Deus ofendido. Ainda assim, ele é nosso, e apesar de tudo isso não alimentaremos pensamentos duros sobre ele nem sobre seu serviço.”

(3.) “Ele é meu Santo.” Isso indica que o profeta amava Deus como Deus santo, por causa de sua santidade. “Ele é meu porque é Santo; portanto, será aquele que me santifica e meu Salvador, porque é meu Santo. Os homens não são santos, mas meu Deus é santo.”

  1. Nosso Deus é desde a eternidade. É isso que ele alega diante de Deus: “Não és tu desde a eternidade, ó Senhor meu Deus?” É consolo grande e contínuo para o povo de Deus, em meio às dificuldades desta vida, saber que seu Deus é desde a eternidade. Isso indica:

(1.) A eternidade de sua natureza. Se ele é desde a eternidade, será até a eternidade. Quando as coisas visíveis e passageiras nos desanimam, devemos recorrer a esse primeiro princípio: temos esperança e auxílio suficientes num Deus invisível e eterno.

“Não és tu desde a eternidade? Não descobrirás então teu braço eterno, em cumprimento de teus desígnios eternos, para fazeres para ti um nome eterno?”

(2.) A antiguidade de sua aliança: “Não és tu desde os tempos antigos um Deus em aliança com teu povo?” É assim que alguns entendem a frase. “Não fizeste por eles grandes coisas nos dias antigos, que ouvimos com nossos ouvidos e das quais nossos pais nos falaram?”

“Não és ainda o mesmo Deus que sempre foste? Tu és Deus e não mudas.”

  1. Enquanto o mundo existir, Deus terá nele uma igreja. “Tu és desde a eternidade”; portanto, “não morreremos”. O Israel de Deus não será exterminado nem seu nome apagado, embora às vezes pareça estar muito perto disso.

Como os apóstolos (2 Coríntios 6:9), são castigados, mas não mortos; severamente castigados, mas não entregues à morte, Salmos 118:18.

Veja como o profeta deduz a permanência da igreja da eternidade de Deus. Cristo disse: “Porque eu vivo”, e, portanto, enquanto eu viver, “vós também vivereis”, João 14:19.

Ele é a rocha sobre a qual a igreja está construída com tanta firmeza que as portas do inferno não prevalecerão, nem poderão prevalecer, contra ela. “Não morreremos.”

  1. Seja o que for que os inimigos da igreja façam contra ela, tudo acontece segundo o conselho de Deus e é planejado e dirigido para fins sábios e santos: “Tu os ordenaste; tu os estabeleceste”.

Foi Deus quem deu aos caldeus seu poder e fez deles um povo temível. Em seu conselho, determinou o que fariam; eles não tinham poder algum contra seu Israel além daquele que lhes fora dado do alto. Deu-lhes a comissão de tomar o despojo e apanhar a presa, Isaías 10:6.

Nisso Deus se mostra poderoso: o poder dos homens poderosos deriva dele, depende dele e está sob seu controle. Ele diz a esse poder: “Até aqui virá, e não mais adiante”.

Aqueles a quem Deus designa não farão mais do que ele determinou. Isso é grande consolo para o povo sofredor de Deus. Os homens são sua mão, a vara em sua mão, Salmos 17:14. Ele os designou para o juízo e para a correção.

O povo de Deus precisa de correção e a merece. Deve esperá-la e a receberá. Quando homens ímpios são soltos contra o povo, não é para destruí-lo, mas para corrigi-lo e reformá-lo.

Não foram destinados a ser uma espada que o elimine, mas uma vara que expulse a insensatez encontrada em seu coração, embora eles não tenham essa intenção, nem seu coração pense assim, Isaías 10:7.

Repare: diante das tribulações e aflições da igreja, é grande consolo saber que, qualquer que seja o dano que os homens planejem causar a ela, Deus planeja tirar dele o bem. Temos certeza de que seu conselho permanecerá.

  1. Embora a maldade dos ímpios prospere por algum tempo, Deus é santo e não aprova essa maldade (v. 13): “Tu és tão puro de olhos que não podes contemplar o mal”.

Ao observar quanto os caldeus eram depravados e ímpios e, ainda assim, quanto êxito alcançavam contra o Israel de Deus, o profeta se viu tentado a dizer que era inútil servir a Deus e que ele não se importava com o caráter dos homens.

Mas logo reprime esse pensamento, recorrendo ao primeiro princípio: Deus não é, nem pode ser, o autor ou protetor do pecado. Assim como ele próprio não pode praticar iniquidade, seus olhos são puros demais para contemplá-la com qualquer tolerância ou aprovação.

Não: ela é a coisa abominável que o Senhor odeia. Ele vê todo o pecado cometido no mundo, e o pecado o ofende. É odioso aos seus olhos, e aqueles que o cometem se expõem por isso à sua justiça.

Há na natureza de Deus uma aversão às disposições e práticas contrárias à sua santa lei. Embora felizmente se tenha encontrado um meio para que ele se reconcilie com os pecadores, ele nunca se reconciliará, nem poderá reconciliar-se, com o pecado.

Devemos decidir nos apegar a esse princípio, embora os caminhos de sua providência, por algum tempo e em certos casos, pareçam incompatíveis com ele.

Repare: nunca se deve interpretar a tolerância de Deus para com o pecado como aprovação dele, pois ele não é um Deus que se compraz na maldade, Salmos 5:4, 5.

A iniquidade que, como se diz aqui, Deus não contempla talvez se refira especialmente ao dano causado ao seu povo pelos perseguidores. Embora Deus veja motivo para permiti-lo, não o aprova.

Assim concorda com o que disse Balaão (Números 23:21): não contemplou iniquidade contra Jacó nem viu, com aprovação, perversidade contra Israel. Isso é muito consolador para o povo de Deus em suas aflições causadas pela fúria dos homens.

Não podem deduzir dessa fúria que Deus esteja irado com eles. Embora os instrumentos de sua aflição os odeiem, não se segue daí que Deus também os odeie. Pelo contrário: ele os ama, e os corrige por amor.

II. Os agravos de que o profeta se queixa e que lhe parecem difíceis de conciliar com essas verdades: “Já que temos certeza de que tu és um Deus santo, por que se dá aos ateus motivo para questionar se és santo ou não?”

“Por que olhas para os caldeus, que tratam traiçoeiramente teu povo, e lhes dás êxito nas investidas contra nós?” “Por que permites que teus inimigos declarados, que blasfemam teu nome, tratem com tanta crueldade e perfídia teus súditos declarados, que desejam temer teu nome?” “Que diremos disso?”

Isso foi uma tentação para Jó (Jó 21:7; 24:1), para Davi (Salmos 73:2, 3) e para Jeremias (Jeremias 12:1, 2).

  1. Deus permitia o pecado e era paciente com os pecadores. Ele olhava para eles, via todos os seus atos e desígnios perversos e não os continha nem castigava. Antes, permitia que alcançassem seus propósitos, avançassem, prosperassem e dominassem tudo diante de si.

Ou melhor: seu olhar para eles sugere não só que ele deixava de contê-los ou repreendê-los, mas que lhes dava ânimo e auxílio, como se lhes sorrisse e os favorecesse.

Ele se calava enquanto persistiam nos maus caminhos. Não dizia nada contra eles nem dava ordem para detê-los. “Tais coisas fizeste, e eu me calei.”

  1. Sua paciência era maltratada. Como a sentença contra essas más obras e contra seus autores não era executada prontamente, o coração deles ficava ainda mais decidido a praticar o mal.

(1.) Eram falsos e enganadores; não mereciam crédito nem confiança. Agiam traiçoeiramente: sob a aparência de paz e amizade, levavam adiante e executavam os desígnios mais danosos e não tinham escrúpulo algum em quebrar sua palavra.

(2.) Odiavam e perseguiam os homens porque estes eram melhores do que eles. Assim Caim odiou Abel, porque suas obras eram más e as de seu irmão, justas.

O ímpio devora o homem mais justo do que ele justamente porque esse homem o envergonha. Os ímpios têm má vontade para com a imagem de Deus; por isso devoram homens bons, que trazem essa imagem.

Embora muitos judeus fossem tão maus quanto os próprios caldeus, e até piores, havia entre eles outros muito mais justos que, ainda assim, eram devorados pelos caldeus.

(3.) Não faziam mais caso de matar homens do que de apanhar peixes. O profeta se queixa de que a Providência, ao entregar os mais fracos como presa aos mais fortes, fez deles, na prática, “como os peixes do mar”, v. 14.

Assim haviam sido uns para os outros, alimentando-se uns dos outros como os peixes maiores se alimentam dos menores (v. 3). Agora foram feitos assim para o inimigo comum.

Eram como as criaturas rastejantes, ou nadadoras (pois a palavra é usada para peixes, Gênesis 1:20), que “não têm quem as governe” para impedi-las de devorar umas às outras ou protegê-las de serem devoradas pelos inimigos.

São entregues aos caldeus como peixes aos pescadores. Esses opressores orgulhosos não têm mais escrúpulo em matá-los do que os homens têm em tirar peixes da água. Tão pouco valor atribuem à vida humana.

Não encontram dificuldade em matá-los. Fazem isso com a mesma facilidade com que se apanham peixes, que não oferecem resistência e estão sem guarda nem armas. Capturá-los é mais diversão que trabalho.

Não fazem distinção entre eles: tudo o que cai na rede é peixe. Consideram seu tudo em que conseguem pôr as mãos. Têm diversos modos de saquear e destruir, como os homens têm diversos modos de pescar.

Alguns “apanham com o anzol” (v. 15), um a um. Outros capturam em cardumes e em grande escala, com a rede, e os recolhem com a rede de arrasto que os cerca. Tamanha variedade de métodos têm para destruir aqueles à custa de quem esperam enriquecer.

(4.) Gloriavam-se no que conseguiam e se agradavam disso, embora o obtivessem desonestamente: “Sua porção é gorda, e seu alimento, abundante”. Prosperam na opressão e na fraude, possuem muito, e do melhor. Sua terra é boa, e eles a possuem em abundância. Por isso:

[1.] Sentem grande satisfação consigo mesmos e vivem muito contentes. Levam uma vida alegre (v. 15): “Por isso se alegram e exultam”, porque sua riqueza é grande e seus planos para aumentá-la dão certo, Jó 31:25. “Alma, descansa”, Lucas 12:19.

[2.] Têm uma opinião muito elevada de si mesmos e admiram profundamente sua própria engenhosidade e habilidade: “Sacrificam à sua rede e queimam incenso à sua rede de arrasto”. Aplaudem a si mesmos por conseguir tanto dinheiro, por mais desonesto que tenha sido o modo de obtê-lo.

Repare: temos a tendência de atribuir a nós mesmos a glória por nossa prosperidade material e de dizer: “Minha força e o poder de minhas mãos me adquiriram estas riquezas”, Deuteronômio 8:17.

Isso é idolatrar a nós mesmos, sacrificar à rede de arrasto porque ela nos pertence, uma forma de idolatria tão absurda quanto sacrificar a Netuno ou a Dagom.

O que os leva a adorar sua rede dessa maneira é o fato de que, por meio dela, sua porção é gorda. Os que fazem de seu dinheiro um deus farão de sua rede de arrasto um deus, se ao menos conseguirem dinheiro com ela.

III. Ao concluir, o profeta expressa humildemente sua esperança de que Deus não permitirá a esses destruidores da humanidade continuar sempre a agir e a prosperar dessa maneira. Ele interpela Deus a respeito disso (v. 17):

“Continuarão, pois, a esvaziar sua rede? Enriquecerão e encherão seus próprios vasos com aquilo que tiraram de seus vizinhos pela violência e pela opressão? Esvaziarão a rede do que apanharam para lançá-la de novo ao mar e capturar mais?”

“Tu lhes permitirás persistir nesse caminho perverso? Continuarão a matar as nações sem poupá-las? O número de habitantes e a riqueza das nações terão de ser sacrificados à sua rede? Como se fosse pouco roubar os bens dos homens, roubarão também a glória de Deus?”

“Não é Deus o rei das nações? Não defenderá os direitos delas, que foram violados? Não zela ele por sua própria honra, e não a sustentará?”

O profeta entrega a questão às mãos de Deus e a deixa com ele, como faz o salmista, Salmos 74:22: “Levanta-te, ó Deus! Defende a tua própria causa.”


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