Filipenses 4
Argumento
Exortações a diversos deveres cristãos, como firmeza, unanimidade, alegria, etc., vv. 1-9. Os agradecimentos do apóstolo pela bondade dos filipenses para com ele, com expressões do seu próprio contentamento e do desejo pelo bem deles, vv. 10-19. Ele conclui a epístola com louvor, saudações e bênção, vv. 20-23.
Versículos 1 a 9
Diversas Exortações. (62 d.C.)
O apóstolo começa o capítulo com exortações a diversos deveres cristãos.
I. À firmeza na nossa profissão cristã, v. 1. Isso é inferido do fim do capítulo anterior: “Portanto, permanecei firmes”, etc. Visto que a nossa conduta está no céu, e esperamos que o Salvador venha de lá e nos leve para lá, permaneçamos, portanto, firmes.
Repare: a esperança crente e a expectativa da vida eterna devem levar-nos a ser estáveis, equilibrados e constantes no nosso percurso cristão. Observe aqui:
- As formas de tratamento são muito afetuosas: “Meus irmãos, muito amados e desejados, minha alegria e coroa”; e novamente: “Meus muito amados”. Assim ele expressa o prazer que tinha neles e a bondade que lhes dedicava, para transmitir-lhes as suas exortações com vantagem tanto maior.
Considerava-os seus irmãos, embora fosse um grande apóstolo. Todos nós somos irmãos. Há diferença de dons, graças e realizações. Contudo, sendo renovados pelo mesmo Espírito, segundo a mesma imagem, somos irmãos, como filhos dos mesmos pais, embora de diferentes idades, estaturas e compleições. Sendo irmãos:
(1.) Ele os amava, e os amava ternamente: “Muito amados”; e novamente: “Meus muito amados”. Afeições calorosas convêm aos ministros e cristãos uns para com os outros. O amor fraternal deve sempre acompanhar a relação fraternal.
(2.) Ele os amava e ansiava por eles; ansiava vê-los e receber notícias deles, ansiava pelo bem-estar deles e o desejava ardentemente. “Anseio por vós todos nas entranhas de Jesus Cristo”, Filipenses 1:8.
(3.) Ele os amava e se alegrava neles. Eram a sua alegria; não tinha alegria maior que ouvir falar da saúde e prosperidade espiritual deles. Muito me alegrei de encontrar, entre teus filhos, os que andam na verdade, 2 João 1:4; 3 João 1:4.
(4.) Ele os amava e se gloriava neles. Eram a sua coroa, assim como a sua alegria. Nenhum homem orgulhoso e ambicioso jamais se agradou mais das insígnias de honra do que Paulo das evidências da sinceridade da fé e obediência deles. Tudo isso prepara o caminho para que lhe deem maior consideração.
- A própria exortação: “Assim, permanecei firmes no Senhor”. Estando em Cristo, deveriam permanecer firmes nele, ser estáveis e constantes no seu andar com ele, e apegados e perseverantes até o fim.
Ou, permanecer firme no Senhor é permanecer firme na sua força e por sua graça, sem confiar em nós mesmos, e renunciando a qualquer suficiência própria. Devemos ser fortes no Senhor e no poder da sua força, Efésios 6:10.
“Assim, permanecei firmes, como fizestes até agora; permanecei firmes até o fim, como sois meus amados, minha alegria e coroa. Permanecei, assim, firmes como aqueles por cujo bem-estar e perseverança estou tão intimamente interessado e preocupado.”
II. Ele os exorta à unanimidade e à ajuda mútua (v. 2, 3): “Rogo a Evódia e a Síntique que tenham o mesmo pensamento no Senhor”. Isso é dirigido a determinadas pessoas. Às vezes é necessário aplicar os preceitos gerais do evangelho a pessoas e casos particulares.
Evódia e Síntique, ao que parece, estavam em desacordo, uma com a outra ou com a igreja; por questão civil (talvez estivessem envolvidas num processo judicial), ou por questão religiosa. Talvez tivessem opiniões e sentimentos diferentes.
“Rogo”, diz ele, “que lhes peçam em meu nome para terem o mesmo pensamento no Senhor, manterem a paz e viverem em amor; terem o mesmo pensamento uma com a outra, sem se contrariar e contradizer; e terem o mesmo pensamento que o restante da igreja, sem agir em oposição a ela.”
Então ele exorta à ajuda mútua (v. 3), dirigindo essa exortação a pessoas particulares: “Peço também a ti, verdadeiro companheiro de jugo”. Quem era essa pessoa a quem chama verdadeiro companheiro de jugo é incerto. Alguns pensam que fosse Epafrodito, que se supõe ter sido um dos pastores da igreja dos filipenses.
Outros pensam que fosse uma mulher notavelmente boa, talvez a esposa de Paulo, porque ele exorta a sua companheira de jugo a ajudar as mulheres que trabalharam com ele. Quem quer que fosse companheiro de jugo do apóstolo também deveria sê-lo dos seus amigos.
Ao que parece, havia mulheres que trabalharam com Paulo no evangelho, não no ministério público (pois o apóstolo o proíbe expressamente, 1 Timóteo 2:12: “Não permito que a mulher ensine”), mas acolhendo os ministros, visitando os doentes, instruindo os ignorantes e convencendo os que estavam em erro.
Assim, as mulheres podem ajudar os ministros na obra do evangelho. Ora, diz o apóstolo, ajude-as você. Os que ajudam os outros também devem ser ajudados quando há ocasião. “Ajude-as”, isto é, una-se a elas, fortaleça-lhes as mãos, anime-as nas dificuldades.
“Com Clemente também, e com os demais meus companheiros de trabalho.” Paulo tinha bondade para com todos os seus companheiros de trabalho. E, como havia recebido o benefício da ajuda deles, concluía quanto consolo lhes traria a ajuda de outros.
Dos seus companheiros de trabalho ele diz: “Cujos nomes estão no livro da vida”. Ou foram escolhidos por Deus desde toda a eternidade, ou registrados e inscritos na comunidade e sociedade às quais pertence o privilégio da vida eterna, aludindo ao costume entre judeus e gentios de registrar os habitantes ou cidadãos livres da cidade.
Assim, lemos dos seus nomes escritos no céu (Lucas 10:20), de não apagar o seu nome do livro da vida (Apocalipse 3:5), e dos que estão escritos no livro da vida do Cordeiro, Apocalipse 21:27.
Observe: existe um livro da vida; há nomes nesse livro, e não apenas características e condições. Não podemos perscrutar esse livro nem saber de quem são os nomes ali escritos. Mas podemos, num julgamento de caridade, concluir que aqueles que trabalham no evangelho e são fiéis aos interesses de Cristo e das almas têm o nome no livro da vida.
III. Ele exorta à santa alegria e ao deleite em Deus: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: Alegrai-vos”, v. 4. Toda a nossa alegria deve terminar em Deus; e os nossos pensamentos a respeito de Deus devem ser agradáveis.
“Deleita-te no Senhor” (Salmos 37:4); na multidão dos nossos pensamentos dentro de nós (pensamentos penosos e aflitivos), os seus consolos deleitam a nossa alma (Salmos 94:19), e a nossa meditação nele é doce, Salmos 104:34.
Observe: é nosso dever e privilégio alegrar-nos em Deus, e alegrar-nos nele sempre, em todo tempo e em toda condição, mesmo quando sofremos por ele ou somos afligidos por ele. Não devemos pensar pior dele ou dos seus caminhos por causa das agruras que encontramos no seu serviço.
Há em Deus o bastante para nos fornecer motivo de alegria na pior circunstância da terra. Ele já havia dito (Filipenses 3:1): “Finalmente, meus irmãos, alegrai-vos no Senhor”. Aqui o diz outra vez: “Alegrai-vos sempre no Senhor; outra vez digo: Alegrai-vos”.
A alegria em Deus é um dever de grande importância na vida cristã; e os cristãos precisam ser chamados a ele repetidamente. Se os homens bons não têm um banquete contínuo, a culpa é deles próprios.
IV. Somos aqui exortados à benevolência, à brandura e à boa disposição para com os nossos irmãos: “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens”, v. 5. Nas coisas indiferentes, não caiam em extremos; evitem o fanatismo e a animosidade; julguem uns aos outros com generosidade.
A palavra to epieikes significa boa disposição para com outras pessoas; e essa moderação é explicada em Romanos 14. Alguns a entendem como suportar pacientemente as aflições, ou desfrutar sobriamente dos bens deste mundo; e assim ela concorda bem com o versículo seguinte.
O motivo é que o Senhor está perto. A consideração da aproximação do nosso Mestre e da nossa prestação final de contas deve impedir-nos de golpear os nossos companheiros de serviço, sustentar-nos nos sofrimentos presentes e moderar as nossas afeições pelos bens exteriores.
“Ele se vingará dos inimigos de vocês e recompensará a paciência de vocês.”
V. Aqui há uma advertência contra o cuidado inquietante e aflitivo (v. 6): “Não vos inquieteis por coisa alguma”, meden merimnate: a mesma expressão de Mateus 6:25, “Não andeis cuidadosos quanto à vossa vida”; isto é, evitem o cuidado ansioso e os pensamentos que perturbam nas carências e dificuldades da vida.
Observe: é dever e interesse dos cristãos viver sem inquietação. Há um cuidado diligente que é nosso dever e consiste em prudente previsão e devida atenção; mas há um cuidado da insegurança e da desconfiança que é nosso pecado e insensatez, e que só inquieta e perturba a mente.
“Não vos inquieteis por coisa alguma”, a ponto de, por esse cuidado, desconfiarem de Deus e se tornarem incapazes para o seu serviço.
VI. Como antídoto soberano contra o cuidado inquietante, ele nos recomenda a oração constante: “Em tudo, pela oração e súplica, com ação de graças, sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus”. Observe:
Não devemos apenas manter horários fixos de oração; devemos orar em cada necessidade particular: “Em tudo, pela oração”. Quando alguma coisa pesa sobre o nosso espírito, devemos aliviar a mente pela oração. Quando os nossos assuntos estão confusos ou em dificuldade, devemos buscar direção e sustento.
Devemos juntar ação de graças às nossas orações e súplicas. Não devemos apenas buscar suprimentos de bens, mas reconhecer as misericórdias recebidas. Reconhecimentos agradecidos pelo que temos revelam uma disposição correta da mente e são motivos eficazes para bênçãos futuras.
A oração é a apresentação dos nossos desejos a Deus, ou dá-los a conhecer a ele: “Sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus”. Não que Deus precise que lhe digamos das nossas carências ou dos nossos desejos, pois os conhece melhor do que podemos lhe dizer.
Mas ele quer conhecê-los de nós e quer que mostremos a nossa consideração e preocupação, que expressemos o valor que atribuímos à misericórdia e a consciência da nossa dependência dele.
- O efeito disso será a paz de Deus guardando o nosso coração, v. 7. A paz de Deus, isto é, a percepção consoladora da nossa reconciliação com Deus e da nossa participação no seu favor, a esperança da bem-aventurança celestial e o desfrutar de Deus no futuro, que excede todo entendimento, é um bem maior do que se pode avaliar suficientemente ou expressar devidamente.
Isso não entrou no coração do homem, 1 Coríntios 2:9. Essa paz guardará o nosso coração e a nossa mente por meio de Cristo Jesus; nos guardará de pecar sob as tribulações e de sucumbir a elas; nos manterá calmos e serenos, sem perturbação das paixões e com satisfação interior.
“Tu conservarás em paz perfeita aquele cuja mente está firme em ti”, Isaías 26:3.
VII. Somos exortados a adquirir e conservar um bom nome, reputação pelas coisas boas diante de Deus e dos homens bons: “Tudo o que é verdadeiro e honesto” (v. 8), consideração pela verdade nas nossas palavras e compromissos e pelo decoro e conveniência na nossa conduta, de acordo com as nossas circunstâncias e condição de vida.
“Tudo o que é justo e puro”: de acordo com as regras da justiça e da retidão em todas as nossas relações com os homens, e sem a impureza ou mistura do pecado. “Tudo o que é amável e de boa fama”, isto é, digno de amor; que fará com que sejamos amados, e com que os outros falem bem de nós e pensem bem de nós.
“Se há alguma virtude, se há algum louvor”: qualquer coisa realmente virtuosa, de qualquer espécie, e digna de elogio. Observe:
- O apóstolo queria que os cristãos aprendessem qualquer coisa boa dos seus vizinhos pagãos: “Se há alguma virtude, pensai nestas coisas”. Imitem-nos naquilo que é verdadeiramente excelente entre eles e não deixem que eles superem vocês em qualquer exemplo de bondade.
Não devemos ter vergonha de aprender qualquer coisa boa com homens maus ou com aqueles que não têm as nossas vantagens.
- A virtude tem o seu louvor e o terá. Devemos andar por todos os caminhos da virtude e permanecer neles. Então, quer o nosso louvor venha dos homens ou não, virá de Deus, Romanos 2:29.
Nestas coisas, ele se apresenta como exemplo para eles (v. 9): “As coisas que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, fazei-as”. Observe: a doutrina e a vida de Paulo formavam um todo. O que viam nele era a mesma coisa que ouviam dele.
Ele podia apresentar a si mesmo, assim como a sua doutrina, para que o imitassem. Dá grande força ao que dizemos aos outros quando podemos recorrer ao que viram em nós. E este é o caminho para ter o Deus da paz conosco: manter-nos fiéis ao nosso dever para com ele. O Senhor está conosco enquanto estamos com ele.
Versículos 10 a 18
Bondade Reconhecida; Contentamento Cristão. (62 d.C.)
Nestes versículos temos o reconhecimento grato e agradecido que o apóstolo faz da bondade dos filipenses ao lhe enviarem um presente para o seu sustento, agora que era prisioneiro em Roma. E aqui:
I. Ele aproveita a ocasião para reconhecer as bondades anteriores deles para com ele e mencioná-las, v. 15, 16.
Paulo tinha um espírito grato; pois, embora o que os seus amigos fizeram por ele nada fosse em comparação com o que ele merecia deles e com as obrigações que lhes havia imposto, fala da bondade deles como se tivesse sido um ato de generosa caridade, quando, na verdade, estava muito aquém de uma dívida justa.
Se cada um deles tivesse contribuído com metade dos seus bens para ele, não lhe teriam dado demais, já que lhe deviam até as próprias almas. E, contudo, quando lhe enviam um pequeno presente, com quanta bondade o recebe, com quanta gratidão o menciona, até nesta epístola que ficaria registrada e seria lida nas igrejas através de todas as épocas!
Assim, onde quer que esta epístola seja lida, o que fizeram por Paulo será contado em memória deles. Certamente, nunca um presente foi tão bem retribuído.
Ele lhes lembra que, no princípio do evangelho, nenhuma igreja teve comunicação com ele quanto a dar e receber, senão eles somente, v. 15. Não apenas o sustentaram confortavelmente enquanto estava com eles, mas, quando partiu da Macedônia, enviaram-lhe sinais da sua bondade; e isso quando nenhuma outra igreja o fez.
Nenhuma outra lhe enviou dos seus bens carnais, em consideração ao que havia colhido dos seus bens espirituais. Nas obras de caridade, estamos prontos a perguntar o que fazem as outras pessoas. Mas a igreja dos filipenses nunca levou isso em conta. Redundava tanto mais em sua honra que fossem a única igreja tão justa e generosa.
Até em Tessalônica (depois de ele ter partido da Macedônia), “uma e outra vez me enviastes para a minha necessidade”, v. 16. Observe:
Era pouca coisa o que enviavam. Enviavam apenas para a necessidade dele, exatamente as coisas de que precisava. Talvez fosse de acordo com a capacidade deles, e ele não desejava coisas supérfluas nem iguarias.
É excelente ver os que receberam de Deus abundância dos dons da sua graça abundarem em retribuições agradecidas ao seu povo e aos seus ministros, segundo a capacidade daqueles e a necessidade destes: “Uma e outra vez me enviastes”.
Muitas pessoas usam como desculpa para a sua caridade o fato de já terem dado uma vez: por que o encargo deveria recair sobre elas novamente? Mas os filipenses enviaram uma e outra vez. Frequentemente o socorreram e confortaram nas suas necessidades. Ele menciona essa bondade anterior não só por gratidão, mas para animá-los.
II. Ele desculpa a negligência recente deles. Ao que parece, por algum tempo não haviam enviado alguém para perguntar por ele, nem lhe enviado presente algum. Mas, por fim, o cuidado deles por ele voltou a florescer (v. 10), como uma árvore na primavera que, durante todo o inverno, parecia completamente morta.
Ora, seguindo o exemplo do seu grande Mestre, em vez de censurá-los pela negligência, oferece uma desculpa em favor deles: “Disto também cuidáveis, mas vos faltava oportunidade”. Como poderia faltar-lhes oportunidade, se estivessem decididos a fazê-lo? Poderiam ter enviado um mensageiro de propósito.
Mas o apóstolo está disposto a supor, em favor deles, que o teriam feito se houvesse surgido uma boa oportunidade. Quão contrário é isso ao comportamento de muitos para com os seus amigos! Muitos se ressentem intensamente de negligências que realmente são desculpáveis, ao passo que Paulo desculpou aquilo de que tinha motivos suficientes para se ressentir.
III. Ele elogia a generosidade presente deles: “Contudo, fizestes bem em participar da minha aflição”, v. 14. É boa obra socorrer e ajudar um bom ministro em tribulação. Vejam aqui a natureza da verdadeira compaixão cristã: não só preocupar-nos com os nossos amigos nas suas tribulações, mas fazer o que pudermos para ajudá-los.
Eles participaram da aflição dele ao socorrê-lo nela. Aquele que diz: “Sede aquecidos, sede saciados”, e não lhes dá as coisas de que necessitam, de que aproveita? Tiago 2:16.
Ele muito se alegrou com isso (v. 10), porque era evidência da afeição deles por ele e do êxito do seu ministério entre eles. Quando o fruto da caridade deles abundava para com o apóstolo, ficava evidente que o fruto do ministério dele havia abundado entre eles.
IV. Ele toma cuidado para impedir o mau uso que alguns poderiam fazer da grande atenção que dava ao que lhe foi enviado. Isso não procedia nem de descontentamento e desconfiança (v. 11), nem de cobiça e amor ao mundo, v. 12.
- Não vinha de descontentamento nem de desconfiança da providência: “Não digo isto por causa de carência” (v. 11), nem por causa de alguma carência que sentisse, nem por causa de alguma carência que temesse.
Quanto à primeira, estava contente com o pouco que tinha, e isso o satisfazia. Quanto à segunda, dependia da providência de Deus para sustentá-lo dia após dia, e isso o satisfazia. Assim, não falava por causa de carência em sentido algum.
“Pois aprendi, em qualquer estado em que esteja, a estar contente com ele.” Temos aqui um relato do aprendizado de Paulo, não o que adquiriu aos pés de Gamaliel, mas o que adquiriu aos pés de Cristo.
Aprendera a estar contente. E essa era a lição que precisava aprender tanto quanto a maioria dos homens, considerando as agruras e os sofrimentos por que passou. Esteve muitas vezes em amarras, prisões e necessidades. Mas, em tudo, aprendera a estar contente, isto é, a ajustar a mente à sua condição e lidar com ela da melhor maneira possível.
“Sei tanto ser humilhado quanto sei ter abundância”, v. 12. É um ato especial da graça adaptar-nos a cada condição da vida e conservar uma disposição equilibrada da mente através de todas as variações da nossa situação.
(1.) Adaptar-nos a uma condição de aflição: saber ser humilhado, saber passar fome e saber sofrer carência, sem ser vencidos pelas tentações que ela traz, seja para perder o nosso consolo em Deus, seja para desconfiar da sua providência, seja para tomar algum caminho desonesto para o nosso próprio sustento.
(2.) A uma condição próspera: saber ter abundância, saber estar saciado, sem se tornar orgulhoso, negligente ou dado ao luxo. Esta é uma lição tão difícil quanto a outra, pois as tentações da fartura e da prosperidade não são menores que as da aflição e da carência.
Mas como devemos aprendê-la? “Posso todas as coisas por meio de Cristo, que me fortalece”, v. 13. Precisamos da força de Cristo para nos capacitar a cumprir não só os deveres puramente cristãos, mas também aqueles que são fruto da virtude moral. Precisamos da sua força para nos ensinar a estar contentes em toda condição.
O apóstolo parecia vangloriar-se de si mesmo e da sua própria força: “Sei ser humilhado” (v. 12). Mas aqui transfere todo o louvor a Cristo. “Por que falo de saber ser humilhado e ter abundância? Só por meio de Cristo, que me fortalece, posso fazê-lo, não pela minha própria força.”
Assim, somos chamados a ser fortes no Senhor e no poder da sua força (Efésios 6:10), e fortes na graça que está em Cristo Jesus (2 Timóteo 2:1). E somos fortalecidos com poder pelo seu Espírito no homem interior, Efésios 3:16.
A palavra no original é um particípio do tempo presente, en to endynamounti me Christo, e indica uma ação presente e contínua, como se ele dissesse: “Por meio de Cristo, que está me fortalecendo e me fortalece continuamente. É por sua força constante e renovada que sou capacitado a agir em tudo. Dependo inteiramente dele para todo o meu poder espiritual.”
- Isso não vinha da cobiça nem de afeição pelas riquezas deste mundo: “Não porque eu desejasse um presente” (v. 17). Isto é: “Recebo com prazer a bondade de vocês, não porque aumenta aquilo de que desfruto, mas porque acrescenta à conta de vocês”.
Ele não desejava tanto por causa de si mesmo, mas por causa deles: “Desejo fruto que abunde para a conta de vocês”, isto é, que possam usar tão bem os seus bens terrenos que possam prestar contas deles com alegria.
Não é com qualquer desígnio de obter mais de vocês, mas de animá-los a tal exercício de beneficência, que receberá uma recompensa gloriosa no futuro. “Quanto a mim”, diz ele, “tenho tudo e tenho abundância”, v. 18. Que mais pode um homem desejar além do suficiente?
“Não desejo um presente por causa do próprio presente, pois tenho tudo e tenho abundância.” Enviaram-lhe uma pequena lembrança, e ele não desejava mais. Não estava ansioso por uma fartura presente nem por um suprimento futuro: “Estou saciado, tendo recebido de Epafrodito as coisas que enviastes”.
Repare: um homem bom logo terá o suficiente deste mundo, não apenas de viver nele, mas de receber dele. Um homem mundano e cobiçoso, por mais que possua, desejará continuamente mais; mas um cristão de pensamento celestial, embora tenha pouco, tem o suficiente.
V. O apóstolo lhes assegura que Deus aceitou e recompensaria a bondade deles para com ele:
- Deus a aceitou: “É um aroma de cheiro suave, sacrifício aceitável e agradável a Deus”. Não é sacrifício de expiação, pois ninguém faz expiação pelo pecado senão Cristo. É, porém, sacrifício de reconhecimento e agradável a Deus.
Era mais aceitável a Deus, como fruto da graça deles, do que a Paulo, como suprimento da sua carência. De tais sacrifícios Deus se agrada, Hebreus 13:16.
- Deus a recompensaria: mas o meu Deus suprirá todas as carências de vocês, segundo as suas riquezas em glória, por Cristo Jesus, v. 19. Ele, por assim dizer, saca uma letra contra o tesouro do céu e deixa a Deus recompensá-los pela bondade que lhe demonstraram.
“Ele o fará não só como Deus de vocês, mas como meu Deus, que considera o que se faz a mim como feito a ele próprio. Vocês supriram as minhas necessidades segundo a pobreza de vocês, e ele suprirá as de vocês segundo as suas riquezas.”
Mas ainda assim é por Cristo Jesus. Por meio dele temos graça para fazer o que é bom, e por meio dele devemos esperar a recompensa disso. Não por dívida, mas pela graça, pois quanto mais fazemos por Deus, mais lhe devemos, porque mais recebemos dele.
Versículos 20 a 23
Conclusão. (62 d.C.)
O apóstolo conclui a epístola nestes versículos:
- Com louvores a Deus: “Ora, a Deus e nosso Pai seja dada glória para todo o sempre. Amém”, v. 20. Observe:
(1.) Devemos considerar Deus como nosso Pai: “Ora, a Deus e nosso Pai”. É grande condescendência e favor da parte de Deus reconhecer a relação de Pai com pecadores e consentir que lhe digamos: “Nosso Pai”. E esse é um título peculiar à dispensação do evangelho.
Também é grande privilégio e ânimo para nós considerá-lo nosso Pai, como alguém tão próximo de nós e que tem por nós afeição tão terna. Sob todas as nossas fraquezas e temores, devemos considerar Deus não como tirano ou inimigo, mas como Pai, disposto a compadecer-se de nós e ajudar-nos.
(2.) Devemos atribuir glória a Deus como Pai, a glória da sua própria excelência e de toda a sua misericórdia para conosco. Devemos reconhecer com gratidão que tudo recebemos dele e dar-lhe o louvor por tudo. E o nosso louvor deve ser constante e perpétuo: glória para todo o sempre.
Com saudações aos seus amigos em Filipos: “Saudai a cada santo em Cristo Jesus (v. 21); transmiti o meu amor sincero a todos os cristãos da vossa região.” Ele envia lembranças não só aos bispos e diáconos e à igreja em geral, mas a cada santo em particular. Paulo tinha afeição bondosa por todos os bons cristãos.
Ele envia saudações dos que estavam em Roma: “Os irmãos que estão comigo vos saúdam; os ministros e todos os santos daqui enviam-lhes as suas lembranças afetuosas. Principalmente os da casa de César, os convertidos cristãos que pertenciam à corte do imperador.” Observe:
(1.) Havia santos na casa de César. Embora Paulo estivesse preso em Roma por pregar o evangelho, por ordem do imperador, ainda assim havia alguns cristãos na própria família dele. O evangelho cedo alcançou alguns ricos e poderosos. Talvez o apóstolo tenha recebido melhor tratamento e algum favor por meio dos seus amigos na corte.
(2.) Principalmente esses, etc. Observe: por terem sido criados na corte, eram mais atenciosos que os demais. Vejam que ornamento para a religião é a civilidade santificada.
- A bênção apostólica, como de costume: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo seja com todos vós. Amém. O favor gratuito e a boa vontade de Cristo sejam a vossa porção e felicidade.”