Matthew Henry

Esdras 1

Argumento

Esdras
UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO LIVRO DE
ESDRAS.

A igreja judaica assume neste livro uma aparência bem diferente daquela que tinha antes. Sua condição é muito melhor e mais agradável do que fora ultimamente na Babilônia, mas ainda muito inferior à que tivera no passado. Os ossos secos voltam a viver aqui, mas na condição de servo.

O jugo do cativeiro foi tirado, mas as marcas dele continuam nos pescoços feridos. Não ouvimos mais falar de reis; a coroa caiu de suas cabeças. Foram abençoados com profetas que os orientaram no restabelecimento; depois de algum tempo, porém, a profecia cessou entre eles até aparecer o grande profeta e seu precursor.

A história deste livro é o cumprimento da profecia de Jeremias sobre a volta dos judeus da Babilônia ao fim de setenta anos. É também uma figura do cumprimento das profecias do Apocalipse sobre a libertação da igreja do evangelho, tirada da Babilônia do Novo Testamento.

Esdras preservou os registros dessa grande transformação e os transmitiu à igreja neste livro. Seu nome significa ajudador, e foi isso que ele representou para aquele povo. Encontraremos um relato particular a seu respeito em Esdras 7, quando ele próprio entra em cena.

O livro nos relata: I. A volta dos judeus de seu cativeiro, Esdras 1 e 2. II. A construção do templo, a oposição que enfrentou e, apesar dela, sua conclusão, Esdras 3-6. III. A ida de Esdras a Jerusalém, Esdras 7 e 8.

IV. O bom serviço que prestou ali ao obrigar os que haviam casado com mulheres estrangeiras a deixá-las, Esdras 9 e 10. Esse recomeço da nação judaica foi pequeno, mas seu estado posterior cresceu muito.

Neste capítulo temos: I. A proclamação que Ciro, rei da Pérsia, expediu para libertar todos os judeus que encontrou cativos na Babilônia e para construir o templo deles em Jerusalém, vv. 1-4. II. A volta de muitos deles em consequência disso, v. 5, 6.

III. As ordens dadas para a restituição dos utensílios do templo, vv. 7-11. Esse é o alvorecer do dia da libertação deles.

Versículos 1 a 4

A Proclamação de Ciro. (a.C. 536.)

Será apropriado considerarmos aqui: 1. Qual era a condição dos judeus cativos na Babilônia. Em muitos aspectos, era deplorável: estavam sob o poder dos que os odiavam e não tinham nada que pudessem chamar de seu.

Não tinham templo nem altar; se cantavam salmos, seus inimigos os ridicularizavam. Ainda assim, tinham profetas entre eles.

Ezequiel e Daniel foram mantidos separados dos pagãos. Alguns dos judeus receberam cargos na corte; outros se estabeleceram confortavelmente no interior. Todos se sustentavam na esperança de voltar à sua própria terra no tempo devido.

Na expectativa dessa volta, preservaram entre si a distinção das famílias, o conhecimento de sua religião e a aversão à idolatria.

  1. Qual era a condição do governo sob o qual viviam. Nabucodonosor levou muitos deles ao cativeiro no primeiro ano de seu reinado, o quarto de Jeoaquim. Reinou quarenta e cinco anos; seu filho Evil-Merodaque, vinte e três; e seu neto Belsazar, três. Esses anos completam os setenta, segundo o Dr. Lightfoot.

Acusa-se Nabucodonosor de não ter aberto a casa de seus prisioneiros, Isaías 14:17. Daniel lhe disse que, se tivesse mostrado misericórdia aos pobres judeus, isso teria prolongado sua tranquilidade, Daniel 4:27.

Mas a medida dos pecados da Babilônia por fim se encheu, e Dario, o medo, e Ciro, o persa, trouxeram-lhe destruição, como lemos em Daniel 5. Dario, já idoso, deixou o governo para Ciro, que foi empregado como instrumento da libertação dos judeus.

Ciro deu ordens para isso assim que se tornou senhor do reino da Babilônia. Talvez quisesse contrariar Nabucodonosor, cuja família havia exterminado, e sentisse prazer em desfazer o que ele fizera; ou talvez agisse por política, para apresentar seu domínio recém-adquirido como misericordioso e brando.

Ou, como pensam alguns, talvez o fizesse por piedoso respeito à profecia de Isaías, publicada e bem conhecida mais de 150 anos antes.

Nela, Ciro era expressamente nomeado como o homem que faria isso por Deus e por quem Deus faria grandes coisas (Isaías 44:28; 45:1, etc.). Talvez a profecia lhe tenha sido mostrada por alguém próximo a ele.

Alguns dizem que, na língua persa, seu nome significa sol, pois trouxe luz e cura à igreja de Deus e foi uma figura eminente de Cristo, o Sol da justiça. Outros dizem que seu nome significa pai, e Cristo é o Pai eterno. Aqui nos é dito:

I. De onde surgiu essa proclamação. O Senhor despertou o espírito de Ciro. Repare: os corações dos reis estão na mão do Senhor; como os riachos de água, ele os dirige para onde quer.

Diz-se de Ciro que não conhecia a Deus nem sabia servi-lo; Deus, porém, conhecia Ciro e sabia servir-se dele, Isaías 45:4. Deus governa o mundo por sua influência sobre o espírito dos homens. Sempre que se faz algum bem, é Deus quem desperta o espírito para fazê-lo.

Ele põe pensamentos na mente, dá ao entendimento capacidade para formar um juízo correto e dirige a vontade para onde lhe agrada. Portanto, sempre que se prestam bons serviços à igreja de Deus, a glória por eles deve ser dada a ele.

II. A relação dessa proclamação com a profecia de Jeremias. Por meio dele, Deus não só havia prometido que os judeus voltariam, mas também havia fixado o momento. Chegara então o tempo determinado para favorecer Sião.

Foram determinados setenta anos (Jeremias 25:12; 29:10). E aquele que cumpriu no dia exato a promessa da libertação de Israel do Egito (Êxodo 12:41) sem dúvida foi igualmente pontual nesta. Há muito se dissera que o que Ciro agora fazia confirmaria a palavra dos servos de Deus, Isaías 44:26.

Jeremias foi odiado e desprezado em vida. Ainda assim, muito tempo depois, a Providência o honrou: um monarca poderoso foi levado a agir em cumprimento da palavra do Senhor anunciada por sua boca.

III. A data dessa proclamação. Foi no primeiro ano de Ciro, não no primeiro de seu reinado sobre a Pérsia, reino que herdara por nascimento, mas no primeiro de seu reinado sobre a Babilônia, reino que conquistara.

Muito honrados são aqueles cujo espírito é despertado para começar com Deus e servi-lo desde os primeiros anos.

IV. Sua publicação, tanto de viva voz (Ciro fez uma voz percorrer todo o seu reino, como a trombeta do jubileu, um alegre ano sabático depois de muitos anos tristes, proclamando liberdade aos cativos) quanto por escrito.

Ele a pôs no papel para que tivesse maior credibilidade e pudesse ser enviada às províncias distantes onde as dez tribos estavam dispersas na Assíria e na Média, 2 Reis 17:6.

V. O teor dessa proclamação de liberdade:

  1. O preâmbulo mostra as causas e considerações que o influenciaram, v. 2. Ao que parece, sua mente foi iluminada pelo conhecimento de Jeová, pois é assim que o chama: o Deus de Israel, o único Deus vivo e verdadeiro, o Deus do céu, Senhor soberano e aquele que dispõe de todos os reinos da terra.

Dele diz (v. 3): “Ele é o Deus”, Deus somente, Deus acima de todos. Embora não tivesse conhecido a Deus pela educação, Deus fez com que agora o conhecesse o suficiente para prestar esse serviço com os olhos voltados para ele. Ciro declara que age:

(1.) Por gratidão a Deus pelos favores que lhe concedeu: “O Deus do céu me deu todos os reinos da terra.” Isso soa um tanto presunçoso, pois havia muitos reinos da terra com os quais Ciro nada tinha a ver.

Mas ele quer dizer que Deus lhe dera tudo o que fora dado a Nabucodonosor, cujo domínio, segundo Daniel, chegava aos confins da terra, Daniel 4:22; 5:19.

Repare: Deus é a fonte do poder; os reinos da terra estão à sua disposição. Qualquer parcela deles que alguém possua vem de Deus. Aqueles a quem ele confiou grande poder e muitas posses devem considerar-se, por isso, obrigados a fazer muito por ele.

(2.) Por obediência a Deus. “Ele me encarregou de construir-lhe uma casa em Jerusalém”, provavelmente por um sonho ou uma visão noturna, confirmada pela comparação com a profecia de Isaías, onde se predissera que ele faria isso.

A desobediência de Israel às ordens de Deus, tantas vezes apontada, é agravada pela obediência desse rei pagão.

  1. Ele concede livre permissão a todos os judeus em seus domínios para subir a Jerusalém e ali construir o templo do Senhor, v. 3. Seu respeito por Deus levou-o a deixar de lado: (1.) Os interesses seculares de seu governo. Teria sido politicamente vantajoso conservar em seus domínios tantos homens capazes de servir.

Parecia imprudente deixá-los partir e criar raízes novamente em sua própria terra; mas a piedade é a melhor política.

(2.) A honra da religião de seu país. Por que não ordenou que construíssem um templo para os deuses da Babilônia ou da Pérsia? Ele acreditava que o Deus de Israel era o Deus do céu e, por isso, obrigou o Israel de Deus a adorá-lo somente. Que andem em nome do Senhor, seu Deus.

  1. Acrescenta um edital para arrecadar contribuições destinadas a cobrir as despesas dos pobres que não podiam pagá-las por conta própria, v. 4. Quem permanecesse por não ter meios de custear a viagem a Jerusalém deveria receber a ajuda dos homens de sua localidade.

Alguns entendem isso como uma ordem aos oficiais do rei para custeá-los com a receita real, como em Esdras 6:8. Mas também pode ser uma autorização para os cativos pedirem e receberem esmolas e contribuições caridosas de todos os súditos leais do rei.

Podemos supor que os judeus tivessem se conduzido tão bem entre os vizinhos que estes se mostrariam tão dispostos a ajudá-los por amor quanto os egípcios o haviam feito por estarem cansados deles. Pelo menos muitos seriam bondosos com eles ao ver que o governo aprovaria esse gesto.

Ciro não apenas deu bons votos aos que partiam (que o Deus deles estivesse com eles, v. 3), mas também cuidou de provê-los do que precisavam.

Ele presumiu que os judeus de posses ofereceriam ofertas voluntárias para promover a reconstrução da casa de Deus. Além disso, quis que recebessem suprimentos de seu reino. Quem deseja o bem do templo deve também fazer o bem por ele.

Versículos 5 a 11

Aqui nos é dito:

I. Como a proclamação de Ciro foi acolhida pelos outros. 1. Tendo ele dado aos judeus permissão para subir a Jerusalém, muitos subiram, v. 5. Os líderes nessa iniciativa foram os chefes das famílias de Judá e Benjamim, homens eminentes e experientes.

Era justo esperar que, assim como estavam acima dos irmãos em dignidade, fossem à frente deles no dever. Os sacerdotes e levitas estavam, como lhes convinha, entre os primeiros que voltaram o rosto para Sião. Se há uma boa obra a fazer, que os ministros tomem a dianteira.

Os que os acompanharam foram aqueles a quem Deus inclinou a subir. O mesmo Deus que despertara o espírito de Ciro para proclamar essa liberdade despertou o espírito deles para aproveitá-la. Pois isso não aconteceu por força nem por poder, mas pelo Espírito do Senhor dos Exércitos, Zacarias 4:6.

Talvez alguns sentissem forte tentação de permanecer na Babilônia. Tinham ali uma situação cômoda, haviam formado relações agradáveis com os vizinhos e estavam prontos para dizer: “É bom estar aqui.”

Os obstáculos à volta eram muitos e grandes: a viagem era longa, suas mulheres e crianças não estavam em condições de viajar, sua própria terra lhes era estranha e o caminho até ela, desconhecido. Subir a Jerusalém! E o que fariam lá? Tudo estava em ruínas, em meio a inimigos dos quais seriam presa fácil.

Essas considerações levaram muitos a ficar na Babilônia, ao menos a não partir com o primeiro grupo. Mas houve quem superasse as dificuldades, se aventurasse a quebrar o gelo e não temesse o leão no caminho, o leão nas ruas. Esses eram aqueles cujo espírito Deus despertara.

Por seu Espírito e sua graça, Deus os encheu de uma ambição generosa pela liberdade, de uma afeição graciosa por sua própria terra e do desejo de exercer sua religião livre e publicamente.

Se os tivesse deixado entregues a si mesmos e aos conselhos da carne e do sangue, teriam ficado na Babilônia. Deus, porém, pôs-lhes no coração voltar o rosto para Sião e, como estrangeiros, perguntar o caminho para lá (Jeremias 50:5).

Pois, pertencendo a uma nova geração, saíram daquela terra dos caldeus como seu pai Abraão, sem saber para onde iam, Hebreus 11:8. Repare: todo bem que fazemos se deve unicamente à graça de Deus, que desperta nosso espírito para fazê-lo e opera em nós tanto o querer quanto o realizar.

Nosso espírito inclina-se naturalmente para esta terra e suas coisas. Se ele se eleva em bons afetos ou boas ações, é Deus quem o levanta.

O chamado e a oferta do evangelho se parecem com a proclamação de Ciro. A libertação é pregada aos cativos, Lucas 4:18. Aqueles que estão presos sob o domínio injusto do pecado e presos à espera do justo julgamento de Deus podem ser libertos por Jesus Cristo.

Quem quiser, pelo arrependimento e pela fé, voltar a Deus, ao dever para com Deus e à felicidade nele, tem o caminho aberto por Jesus Cristo. Ele permite que essa pessoa suba da escravidão do pecado à gloriosa liberdade dos filhos de Deus. A oferta é geral, feita a todos.

Cristo a faz em virtude da concessão do Pai, que lhe deu todo o poder tanto no céu quanto na terra (domínio muito maior que o dado a Ciro, v. 2) e o encarregou de construir uma casa para Deus, de estabelecer-lhe uma igreja no mundo, um reino entre os homens.

Muitos que ouvem esse som alegre preferem continuar sentados na Babilônia. Amam seus pecados e não se arriscam a enfrentar as dificuldades de uma vida santa. Alguns, porém, rompem os obstáculos e resolvem construir a casa de Deus, fazer de sua religião um céu, custe o que custar.

Esses são aqueles cujo espírito Deus elevou acima do mundo e da carne e a quem tornou dispostos no dia de seu poder, Salmos 110:3. Assim, a Canaã celestial será povoada, embora muitos pereçam na Babilônia; e a oferta do evangelho não será feita em vão.

  1. Ciro ordenou que os vizinhos dos judeus os ajudassem, e eles o fizeram, v. 6. Todos os que viviam ao redor deles lhes deram prataria e bens para custear a viagem e ajudá-los a construir e equipar tanto suas próprias casas quanto o templo de Deus.

Assim como o tabernáculo foi feito dos despojos do Egito, e o primeiro templo construído pelo trabalho de estrangeiros, o segundo foi construído com as contribuições dos caldeus. Tudo isso indicava a futura admissão dos gentios na igreja.

Deus pode, quando lhe agrada, inclinar o coração de estrangeiros a ser bondosos com seu povo e fazer com que fortaleçam as mãos desse povo aqueles que antes as enfraqueceram. A terra ajudou a mulher.

Além do que os próprios judeus que ficaram ofereciam de boa vontade, movidos pelo amor a Deus e à sua casa, muito foi oferecido, por assim dizer, contra a vontade pelos babilônios. Eles foram levados a fazê-lo por um poder divino sobre sua mente, do qual nem eles próprios podiam dar explicação.

Como o próprio Ciro deu seguimento à sua proclamação. Para provar a sinceridade de sua afeição pela casa de Deus, não apenas libertou o povo de Deus, mas restituiu os utensílios do templo, v. 7, 8. Observe aqui:

  1. Com quanto cuidado a Providência guardou os utensílios do templo: não foram perdidos, derretidos nem tão misturados com outros que já não pudessem ser identificados. Todos estavam agora disponíveis.

Deus cuida assim dos vasos vivos de misericórdia, vasos de honra, dos quais se diz (2 Timóteo 2:19, 20) que o Senhor conhece os que são seus e que nenhum deles perecerá.

  1. Embora tivessem sido postos no templo de um ídolo e provavelmente usados no serviço dos ídolos, foram devolvidos para ser usados por Deus. Deus recuperará o que é seu, e os despojos do homem forte e armado serão destinados ao uso do conquistador.

  2. Judá tinha um príncipe mesmo no cativeiro. Sesbazar, supostamente a mesma pessoa que Zorobabel, é chamado aqui de príncipe de Judá. Os caldeus o chamavam de Sesbazar, nome que significa alegria na tribulação; mas, entre seu próprio povo, era conhecido como Zorobabel, um estrangeiro na Babilônia.

Era assim que se considerava, e via Jerusalém como seu lar, embora, segundo Josefo, fosse capitão da guarda pessoal do rei da Babilônia. Cuidava dos assuntos dos judeus e tinha alguma autoridade sobre eles, provavelmente desde a morte de Joaquim, ou Jeconias, que o fez seu herdeiro, pois Sesbazar pertencia à casa de Davi.

  1. Os utensílios sagrados foram contados e entregues a ele (v. 8), e Sesbazar cuidou para que fossem transportados em segurança a Jerusalém, v. 11. Ter tão valiosos utensílios prontos para equipar o templo depois de construído animaria os judeus a edificá-lo.

Embora as ordenanças de Deus, como os utensílios do santuário, possam ser corrompidas e profanadas pela Babilônia do Novo Testamento, no tempo devido serão restituídas ao seu uso e propósito originais. Pois nem um jota nem um til de uma instituição divina cairá por terra.


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