Matthew Henry

Apocalipse 1

Argumento

Apocalipse

Concluído por William Tong.

UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO
APOCALIPSE DE SÃO JOÃO, O TEÓLOGO.

Não deve prejudicar a credibilidade e a autoridade deste livro o fato de ter sido rejeitado por homens de mente corrompida, como Cerdão e Marcião, e posto em dúvida por homens de melhor caráter; esse também foi o destino de outras partes das Escrituras Sagradas e do próprio Autor divino da Escritura.

A imagem e a inscrição deste livro são verdadeiramente sagradas e divinas, e seu conteúdo concorda com o de outros livros proféticos, particularmente Ezequiel e Daniel. A igreja de Deus em geral o recebeu e nele encontrou bons conselhos e grande consolo.

Desde o princípio, a igreja de Deus foi abençoada com a profecia. Aquela gloriosa predição de que a cabeça da serpente seria esmagada foi o amparo e o sustento da era patriarcal; e as muitas profecias sobre o Messias vindouro foram o evangelho do Antigo Testamento.

O próprio Cristo profetizou a destruição de Jerusalém. E, por volta da época em que ela se cumpriu, confiou ao apóstolo João este livro de revelação, para que o entregasse à igreja como predição dos acontecimentos mais importantes que lhe sobreviriam até o fim dos tempos, a fim de sustentar a fé de seu povo e orientar sua esperança.

O livro é chamado Apocalipse porque nele Deus revela coisas que jamais poderiam ser descobertas pelo raciocínio da compreensão humana: as profundezas de Deus, que ninguém conhece, senão o Espírito de Deus e aqueles a quem ele as revela.

Este capítulo é um prefácio geral a todo o livro e contém: I. Uma inscrição que declara sua origem e seu propósito (v. 1, 2).

II. A bênção apostólica pronunciada sobre todos os que derem a devida atenção ao conteúdo deste livro (vv. 3-8).

III. Uma gloriosa visão, ou manifestação, do Senhor Jesus Cristo ao apóstolo João, quando lhe entregou esta revelação (v. 9 até o fim).

Versículos 1 a 2

A Substância do Livro. (95 d.C.)

Temos aqui:

I. O que podemos chamar de linhagem deste livro. 1. É a revelação de Jesus Cristo. A Bíblia inteira é assim, pois toda revelação vem por meio de Cristo e tudo converge nele. Em especial, nestes últimos dias Deus nos falou por seu Filho e a respeito de seu Filho.

Cristo, como Rei de sua igreja, teve por bem dar-lhe a conhecer até aqui por quais regras e métodos procederá em seu governo. Como Profeta da igreja, deu-nos a conhecer as coisas que acontecerão no futuro.

  1. É uma revelação que Deus deu a Cristo. Embora o próprio Cristo seja Deus e, como tal, tenha luz e vida em si mesmo, ao exercer o ofício de Mediador entre Deus e os homens, recebe suas instruções do Pai.

A natureza humana de Cristo, embora dotada da maior sagacidade, discernimento e penetração, não poderia, pelo raciocínio, descobrir esses grandes acontecimentos. Como não seriam produzidos por causas naturais, mas dependeriam inteiramente da vontade de Deus, só poderiam ser objeto da presciência divina e chegar a uma mente criada por revelação.

Nosso Senhor Jesus é o grande depositário da revelação divina. É a ele que devemos o conhecimento do que devemos esperar de Deus e do que Deus espera de nós.

  1. Cristo enviou e deu a conhecer esta revelação por meio de seu anjo. Observemos aqui a admirável ordem da revelação divina: Deus a deu a Cristo, e Cristo empregou um anjo para comunicá-la às igrejas.

Os anjos são mensageiros de Deus; são espíritos ministradores em favor dos herdeiros da salvação. São servos de Cristo: principados e potestades estão sujeitos a ele, e todos os anjos de Deus são obrigados a adorá-lo.

  1. Os anjos deram a conhecer a revelação ao apóstolo João. Assim como os anjos são mensageiros de Cristo, os ministros são mensageiros das igrejas. O que recebem do céu, devem comunicar às igrejas.

João foi o apóstolo escolhido para esse serviço. Alguns pensam que era o único que ainda vivia, pois os demais haviam selado seu testemunho com o próprio sangue. Este seria o último livro da revelação divina; por isso, foi comunicado à igreja pelo último dos apóstolos.

João era o discípulo amado. Sob o Novo Testamento, era como o profeta Daniel sob o Antigo: um homem muito amado. Era servo de Cristo, apóstolo, evangelista e profeta; serviu a Cristo nos três ofícios extraordinários da igreja.

Tiago era apóstolo, mas não profeta nem evangelista. Mateus era apóstolo e evangelista, mas não profeta. Lucas era evangelista, mas não profeta nem apóstolo. João, porém, reunia os três ofícios; por isso, Cristo o chama, em sentido eminente, de seu servo João.

  1. João devia entregar esta revelação à igreja, a todos os servos de Cristo. A revelação não se destinava apenas aos ministros, servos extraordinários de Cristo, mas também a todos os seus servos, os membros da igreja. Todos têm direito aos oráculos de Deus e estão envolvidos com eles.

II. Temos aqui o assunto desta revelação: “as coisas que brevemente devem acontecer”. Os evangelistas nos dão um relato das coisas passadas; a profecia nos dá um relato das que hão de vir.

Esses acontecimentos futuros não são apresentados na luz mais clara em que Deus poderia tê-los exposto, mas naquela que julgou mais apropriada e que melhor cumpriria seus propósitos sábios e santos.

Se tivessem sido preditos com tanta clareza em todas as circunstâncias quanto Deus poderia revelá-los, a predição talvez impedisse seu cumprimento. Foram preditos de modo mais obscuro para gerar em nós reverência pelas Escrituras, prender nossa atenção e despertar nossa busca.

Nesta revelação temos uma ideia geral dos métodos da providência e do governo divinos na igreja e em relação a ela; dela também podemos aprender muitas boas lições.

Diz-se que esses acontecimentos deveriam ocorrer não apenas certamente, mas em breve; isto é, começariam a ocorrer muito em breve, e tudo se cumpriria em pouco tempo, pois já haviam chegado as últimas eras do mundo.

III. Temos o atestado da profecia (v. 2). Ela foi dada a conhecer a João, que “deu testemunho da palavra de Deus, do testemunho de Jesus Cristo e de tudo o que viu”.

É notável que os livros históricos do Antigo Testamento nem sempre tragam o nome do historiador no início, como acontece em Juízes, Reis e Crônicas; nos livros proféticos, porém, o nome sempre aparece no início, como em Isaías, Jeremias etc.

Assim também no Novo Testamento: João não pôs seu nome no início de sua primeira epístola, mas o faz nesta profecia, pronto a atestar e responder por sua veracidade. E nos dá não só seu nome, mas também seu ofício.

Ele era alguém que dava testemunho da palavra de Deus em geral, do testemunho de Jesus em particular e de tudo o que viu. Foi testemunha ocular e nada do que viu escondeu.

Nada do que está registrado nesta revelação foi invenção ou imaginação sua; tudo é testemunho de Deus e de Jesus. Assim como nada acrescentou, também não omitiu parte alguma dos conselhos de Deus.

Versículos 3 a 8

A Bênção Apostólica. (95 d.C.)

Temos aqui uma bênção apostólica sobre os que devem dar a devida atenção a esta revelação divina. Essa bênção é pronunciada de modo mais geral e, depois, de modo mais específico.

I. De modo mais geral, a todos os que leem ou ouvem as palavras da profecia. Parece que essa bênção é pronunciada para nos incentivar a estudar este livro e a não nos cansarmos de examiná-lo por causa da obscuridade de muitas coisas que contém. O leitor cuidadoso e atento será recompensado pelo trabalho.

Observemos: 1. É um privilégio bem-aventurado desfrutar dos oráculos de Deus. Essa foi uma das principais vantagens que os judeus tiveram sobre os gentios. 2. É bem-aventurado estudar as Escrituras; os que as examinam empregam bem o tempo.

  1. Não é privilégio apenas ler as Escrituras por conta própria, mas também ouvi-las lidas por outros que sejam capazes de explicar o sentido do que leem e nos conduzir à compreensão delas.

  2. Não basta, para nossa felicidade, ler e ouvir as Escrituras; precisamos guardar o que está escrito. Devemos guardá-lo na memória, na mente, nos afetos e na prática, e seremos bem-aventurados ao agir assim.

  3. Quanto mais nos aproximamos do cumprimento das Escrituras, maior atenção lhes daremos. O tempo está próximo; por isso, devemos estar ainda mais atentos, à medida que vemos o dia se aproximar.

II. A bênção apostólica é pronunciada de modo mais específico e particular sobre as sete igrejas da Ásia (v. 4). Essas sete igrejas são nomeadas no v. 11, e, nos capítulos seguintes, cada uma recebe sua mensagem particular.

A bênção apostólica é dirigida mais expressamente a elas porque eram as mais próximas de João, que então estava na ilha de Patmos, e talvez estivessem sob seu cuidado e supervisão especiais — sem excluir nenhum dos demais apóstolos, caso algum ainda estivesse vivo.

Observemos:

  1. Qual é a bênção que ele pronuncia sobre todos os fiéis dessas igrejas: graça e paz, santidade e consolo. Graça é a boa vontade de Deus para conosco e sua boa obra em nós; paz é a doce evidência e certeza dessa graça.

Não pode haver paz verdadeira onde não há graça verdadeira; e, onde a graça vem primeiro, a paz virá em seguida.

  1. De quem vem essa bênção? Em nome de quem o apóstolo abençoa as igrejas? Em nome de Deus, da Trindade inteira, pois isso é um ato de adoração, e somente Deus é seu objeto apropriado. Seus ministros devem abençoar o povo em nome de ninguém além dele.

E aqui: (1.) O Pai é mencionado primeiro: Deus Pai. Isso pode ser entendido em sentido essencial, como Deus enquanto Deus, ou pessoalmente, como a primeira pessoa da Trindade eternamente bendita, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele é descrito como o Jeová “que é, e que era, e que há de vir”: eterno, imutável; o mesmo para a igreja do Antigo Testamento que era, para a igreja do Novo Testamento que existe agora e para a igreja triunfante que há de vir.

(2.) O Espírito Santo, chamado os sete Espíritos: não são sete em número nem em natureza, mas o Espírito de Deus, infinito e perfeito, em quem há diversidade de dons e operações. Ele está diante do trono, pois, assim como Deus criou todas as coisas por seu Espírito, também as governa por ele.

(3.) O Senhor Jesus Cristo. João o menciona depois do Espírito porque pretendia discorrer mais extensamente sobre a pessoa de Cristo, Deus manifestado em carne, a quem já vira habitando na terra e agora tornava a ver em forma gloriosa.

Observemos o relato particular que temos aqui de Cristo (v. 5). [1.] Ele é a testemunha fiel. Desde a eternidade, foi testemunha de todos os conselhos de Deus (João 1:18); no tempo, foi testemunha fiel da vontade revelada de Deus, que agora nos falou por seu Filho.

Podemos confiar com segurança em seu testemunho, pois ele é fiel: não pode ser enganado nem nos enganar. [2.] Ele é o primogênito dentre os mortos, ou o primeiro progenitor e cabeça da ressurreição; o único que ressuscitou a si mesmo por seu próprio poder e que, pelo mesmo poder, levantará seu povo das sepulturas para a honra eterna.

Pois, por sua ressurreição dentre os mortos, ele os gerou de novo para uma viva esperança. [3.] Ele é o príncipe dos reis da terra. Dele vem a autoridade deles; por ele seu poder é limitado e sua ira, contida; ele prevalece sobre seus conselhos, e a ele devem prestar contas.

Essa é uma boa notícia para a igreja e uma forte prova da divindade de Cristo, que é Rei dos reis e Senhor dos senhores. [4.] Ele é o grande amigo de sua igreja e de seu povo, alguém que fez grandes coisas por eles, movido por afeição pura e desinteressada.

Ele os amou e, em consequência desse amor eterno, primeiro os “lavou de seus pecados em seu próprio sangue”. O pecado deixa uma mancha na alma, uma mancha de culpa e contaminação.

Nada pode remover essa mancha, senão o sangue de Cristo. Para que ela fosse lavada, Cristo se dispôs a derramar o próprio sangue e a comprar para eles perdão e pureza.

Em segundo lugar, ele os “fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai”. Depois de justificá-los e santificá-los, faz deles reis para seu Pai, isto é, aos olhos do Pai, com sua aprovação e para sua glória.

Como reis, governam o próprio espírito, vencem Satanás, têm poder e prevalecem com Deus em oração, e hão de julgar o mundo. Cristo os fez sacerdotes, deu-lhes acesso a Deus, capacitou-os a entrar no Santo dos Santos e a oferecer sacrifícios espirituais e aceitáveis. Deu-lhes uma unção apropriada a esse caráter.

Por essas elevadas honras e favores, devem atribuir a Cristo domínio e glória para sempre. [5.] Ele será o Juiz do mundo: “Eis que vem, e todo olho o verá” (v. 7). Este livro, o Apocalipse, começa e termina com a predição da segunda vinda do Senhor Jesus Cristo.

Devemos meditar com frequência na segunda vinda de Cristo e mantê-la diante dos olhos da fé e da esperança. João fala como se visse aquele dia: “Eis que vem, tão certo como se o vísseis com vossos olhos. Vem com nuvens, que são seu carro e pavilhão.”

“Ele virá publicamente: todo olho o verá, os olhos de seu povo, os de seus inimigos, todo olho, os vossos e os meus.” Virá para aterrorizar os que o traspassaram e não se arrependeram, bem como todos os que tornaram a feri-lo e crucificá-lo por sua apostasia; e virá para assombrar o mundo pagão.

Ele vem para vingar-se tanto dos que não conhecem a Deus quanto dos que não obedecem ao evangelho de Cristo. [6.] O próprio Cristo ratifica e confirma esse relato a seu respeito (v. 8). Aqui nosso Senhor Jesus reivindica com razão a mesma honra e o mesmo poder atribuídos ao Pai (v. 4).

Ele é o princípio e o fim; todas as coisas vêm dele e existem para ele. Ele é o Todo-Poderoso, o mesmo ser eterno e imutável. Certamente, quem se atrever a apagar um só traço desse nome de Cristo merece ter seu nome apagado do livro da vida.

Aos que o honram, ele honrará; mas os que o desprezam serão tidos em pouca estima.

Versículos 9 a 20

A Visão de Cristo por João. (95 d.C.)

Chegamos agora à gloriosa visão que o apóstolo teve do Senhor Jesus Cristo, quando ele veio entregar-lhe esta revelação. Observemos:

I. O relato da pessoa favorecida com essa visão. João descreve a si mesmo: 1. Por seu estado e condição naquele momento. Era irmão e companheiro dessas igrejas na tribulação, no reino e na perseverança de Cristo.

Naquele tempo, como os demais cristãos verdadeiros, era perseguido, exilado e talvez preso por permanecer fiel a Cristo. Era irmão deles, embora apóstolo; parece valorizar mais sua relação com a igreja do que sua autoridade nela. Judas Iscariotes pode ser apóstolo, mas não irmão na família de Deus.

Era companheiro deles. Os filhos de Deus devem buscar a comunhão e a companhia uns dos outros. Era companheiro na tribulação: os servos perseguidos de Deus não sofriam sozinhos; outros também passam pelas mesmas provações.

Era companheiro na perseverança, não apenas participante das circunstâncias de sofrimento, mas também das graças necessárias para suportá-lo. Se temos a perseverança dos santos, não devemos nos queixar de enfrentar as provações deles.

Era irmão e companheiro na perseverança do reino de Cristo: sofria pela causa de Cristo, por afirmar seu poder real sobre a igreja e o mundo e por permanecer fiel a esse poder contra todos os que tentassem usurpá-lo.

Com esse relato de sua condição presente, João reconhece o dever de compadecer-se deles e procurar oferecer-lhes conselho e consolo. Também solicita que prestem mais atenção ao que lhes diria da parte de Cristo, seu Senhor comum.

  1. João se descreve pelo lugar onde estava quando recebeu essa visão: a ilha de Patmos. Não diz quem o exilou ali. Convém que os cristãos falem de seus sofrimentos com moderação e discrição.

Dizem que Patmos é uma ilha do mar Egeu, uma das chamadas Cíclades, com cerca de trinta e cinco milhas de circunferência. Sob esse confinamento, porém, o consolo do apóstolo era não sofrer como malfeitor, mas por causa do testemunho de Jesus, por dar testemunho de Cristo como Emanuel, o Salvador.

Era uma causa pela qual valia a pena sofrer; e o Espírito da glória e de Deus repousava sobre esse apóstolo perseguido.

  1. O dia e o tempo em que recebeu a visão: era o dia do Senhor, dia que Cristo separou e reservou para si, assim como a eucaristia é chamada ceia do Senhor.

Certamente, esse só pode ser o sábado cristão, o primeiro dia da semana, observado em memória da ressurreição de Cristo. Nós, que o chamamos de nosso Senhor, devemos honrá-lo em seu próprio dia, o dia que o Senhor fez e em que devemos nos alegrar.

  1. A disposição de sua alma naquele momento: estava no Espírito. Não estava apenas em êxtase quando recebeu a visão; já se encontrava assim antes de recebê-la, com disposição séria, celestial e espiritual, sob as benditas e graciosas influências do Espírito de Deus.

Em geral, Deus prepara a alma de seu povo para manifestações extraordinárias de si mesmo por meio das influências vivificantes e santificadoras de seu bom Espírito. Os que desejam ter comunhão com Deus no dia do Senhor devem procurar afastar seus pensamentos e afetos das coisas carnais e ocupar-se inteiramente das coisas espirituais.

II. O apóstolo relata o que ouviu quando estava no Espírito. Soou um alerta como o som de uma trombeta; em seguida, ouviu uma voz, a voz de Cristo, que aplicava a si mesmo o título já mencionado, o Primeiro e o Último, e ordenava ao apóstolo que escrevesse as coisas que lhe seriam reveladas e as enviasse imediatamente às sete igrejas da Ásia, cujos nomes são mencionados.

Assim nosso Senhor Jesus, o Capitão da nossa salvação, avisou o apóstolo de sua gloriosa manifestação, como que ao som de uma trombeta.

III. Temos também o relato do que João viu. Ele se voltou para ver a voz, de quem era e de onde vinha. Então uma cena maravilhosa se abriu diante dele em visão.

  1. Viu uma representação da igreja sob o emblema de sete castiçais de ouro, como se explica no último versículo do capítulo. As igrejas são comparadas a castiçais porque apresentam bem a luz do evangelho.

As igrejas não são velas: somente Cristo é nossa luz, e seu evangelho, nossa lâmpada. Mas as igrejas recebem sua luz de Cristo e do evangelho e a apresentam aos outros.

São castiçais de ouro porque devem ser preciosas e puras, comparáveis ao ouro fino. Isso deve valer não só para os ministros, mas também para os membros das igrejas. Sua luz deve brilhar diante dos homens de modo a levá-los a dar glória a Deus.

  1. João viu uma representação do Senhor Jesus Cristo no meio dos castiçais de ouro, pois ele prometeu estar sempre com suas igrejas, até o fim do mundo, enchendo-as de luz, vida e amor. Ele é a própria alma que anima e dá forma à igreja.

Observemos: (1.) A forma gloriosa em que Cristo apareceu, em vários aspectos. [1.] Estava vestido com uma veste que chegava aos pés, traje principesco e sacerdotal, que denotava justiça e honra.

[2.] Estava cingido com um cinto de ouro, como o peitoral do sumo sacerdote, no qual estavam gravados os nomes de seu povo. Estava pronto e cingido para realizar toda a obra de Redentor.

[3.] Sua cabeça e seus cabelos eram brancos como lã ou neve. Ele era o Ancião de Dias. Sua cabeça encanecida não indicava decadência; era, na verdade, uma coroa de glória.

[4.] Seus olhos eram como chama de fogo, penetrando o coração e o íntimo dos homens e espalhando terror entre seus adversários.

[5.] Seus pés eram como bronze fino incandescente, fortes e firmes, sustentando os interesses de Cristo, subjugando seus inimigos e reduzindo-os a pó.

[6.] Sua voz era como o som de muitas águas, de muitos rios que deságuam juntos. Ele pode e fará com que sua voz seja ouvida pelos que estão longe tanto quanto pelos que estão perto.

Seu evangelho é uma corrente poderosa e abundante, alimentada pelas fontes superiores da sabedoria e do conhecimento infinitos.

[7.] Tinha na mão direita sete estrelas, isto é, os ministros das sete igrejas, que estão sob sua direção, recebem dele toda a luz e influência e são guardados e preservados por ele.

[8.] De sua boca saía uma espada de dois gumes, sua palavra, que fere e cura e ataca o pecado tanto à direita quanto à esquerda.

[9.] Seu rosto era como o sol quando brilha com toda a força, brilhante e deslumbrante demais para os olhos mortais contemplarem.

(2.) A impressão que essa manifestação de Cristo causou no apóstolo João (v. 17): ele caiu aos pés de Cristo como morto. Foi vencido pela grandeza do esplendor e da glória com que Cristo apareceu, embora antes tivesse convivido tão intimamente com ele.

Como é bom para nós que Deus nos fale por meio de homens semelhantes a nós, cujos terrores não nos assustam, pois ninguém pode ver o rosto de Deus e viver!

(3.) A bondade condescendente do Senhor Jesus para com seu discípulo: pôs a mão sobre ele (v. 17). Levantou-o; não usou seu grande poder contra ele, mas o fortaleceu e lhe dirigiu palavras bondosas.

[1.] Palavras de consolo e encorajamento: “Não temas”. Ele afastou os temores servis de seu discípulo.

[2.] Palavras de instrução, dizendo-lhe em particular quem era aquele que lhe aparecera. Primeiro, deu-lhe a conhecer sua natureza divina: “o Primeiro e o Último”.

Segundo, seus sofrimentos anteriores: “Estive morto”, o mesmo que seus discípulos viram morrer na cruz pelos pecados dos homens.

Terceiro, com sua ressurreição e vida: “Eu vivo e estou vivo para todo o sempre; venci a morte, abri a sepultura e participo de uma vida sem fim.”

Quarto, seu ofício e autoridade: “Tenho as chaves do inferno e da morte”. Ele tem domínio soberano sobre o mundo invisível e dentro dele: abre, e ninguém pode fechar; fecha, e ninguém pode abrir. Como Juiz de todos, de cuja sentença não cabe apelação, abre quando quer as portas da morte e as portas do mundo eterno, de felicidade ou de miséria.

Quinto, sua vontade e seu propósito: “Escreve as coisas que tens visto, e as que são, e as que depois destas hão de acontecer”.

Sexto, explicou o significado das sete estrelas: são os ministros das igrejas; e dos sete castiçais: são as sete igrejas, às quais Cristo enviaria por meio de João mensagens específicas e apropriadas.


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