Matthew Henry

Ageu 2

Argumento

Neste capítulo temos três sermões pregados pelo profeta Ageu para encorajar os que estavam empenhados na construção do templo.

No primeiro, ele assegura aos construtores que a glória da casa que então edificavam superaria, em aspectos espirituais, embora não nos exteriores, a do templo de Salomão. Com isso, tem em vista a vinda de Cristo, vv. 1-9.

No segundo, assegura-lhes que, embora o pecado de terem adiado a construção do templo tivesse retardado o progresso favorável de todos os seus outros assuntos, agora que se haviam dedicado a ela com sinceridade, Deus os abençoaria e lhes daria êxito, vv. 10-19.

No terceiro, assegura a Zorobabel que, como recompensa por seu zelo piedoso e sua diligência nessa obra, ele seria favorecido pelo Céu e estaria entre os antepassados do Messias, o Príncipe, cujo reino seria estabelecido sobre as ruínas de todos os poderes que se lhe opusessem, vv. 20-23.

Versículos 1 a 9

A Glória da Última Casa. (a.C. 520.)

Aqui temos: I. A data desta mensagem, v. 1. Ela foi enviada no vigésimo primeiro dia do sétimo mês, quando os construtores já trabalhavam havia cerca de um mês (desde o vigésimo quarto dia do sexto mês) e tinham feito algum progresso.

Repare: aqueles que servem a Deus de coração receberão dele novos incentivos para prosseguir, conforme as necessidades de sua situação. Ponham as rodas em movimento, e Deus as lubrificará.

II. Os destinatários desta mensagem, v. 2. Os incentivos aqui são enviados às mesmas pessoas a quem foram dirigidas as repreensões do capítulo anterior; pois aqueles a quem as advertências da palavra ferem serão curados e enfaixados por suas consolações.

“Fala a Zorobabel, a Josué e ao restante do povo”, os mesmos que “obedeceram à voz do Senhor” (Ageu 1:12) e cujo espírito Deus despertou para isso (Ageu 1:14). A eles são enviadas estas palavras de consolo.

III. A mensagem em si, na qual observamos:

  1. Os desânimos que afligiam os que estavam empregados nessa obra. Aquilo que os abateu e diminuiu sua alegria quando se lançou o fundamento do templo continuava a ser um obstáculo: não podiam construir agora um templo como o de Salomão, tão amplo, imponente e suntuoso quanto aquele.

Isso fez muitos chorarem quando as dimensões foram inicialmente estabelecidas (Esdras 3:12); e ainda fazia a obra avançar lentamente, pois a glória desta casa, em comparação com a da anterior, era como nada, v. 3.

Fazia então cerca de setenta anos que o templo de Salomão fora destruído (pois isso ocorreu no décimo nono ano do cativeiro, e agora estavam por volta do décimo nono ano após o cativeiro).

Assim, talvez ainda houvesse pessoas vivas que se lembrassem de tê-lo visto; elas não cessavam de censurar a si mesmas e a seus irmãos pela grande diferença entre esta casa e aquela.

Um se lembrava do ouro que o revestia; outro, das pedras preciosas que o adornavam. Um podia descrever a magnificência do pórtico; outro, a das colunas. E onde estavam agora essas coisas? Isso enfraquecia as mãos dos construtores.

Pois, embora nosso Deus bondoso se agrade de nós quando fazemos com sinceridade o melhor que podemos em seu serviço, nosso coração orgulhoso mal nos permite ficar satisfeitos conosco, a menos que façamos tão bem quanto outros cuja capacidade excede muito a nossa.

Às vezes, é defeito dos idosos desanimar o serviço da geração presente por enaltecerem demais as realizações e conquistas da geração passada. Estas deveriam estimular os outros a imitá-las, e não expô-los ao desprezo.

Não diga que os dias passados foram melhores que estes (Eclesiastes 7:10); antes, agradeça a Deus por haver algum bem nestes dias, por piores que sejam.

  1. O incentivo que lhes é dado para prosseguirem na obra, apesar disso, v. 4: “Mas agora, embora esta casa pareça destinada a ser muito inferior à anterior, sê forte, ó Zorobabel! E sê forte, ó Josué!”

Que esses líderes não cedam a tal pensamento nem desanimem por causa dele, mas façam o melhor que puderem quando não puderem fazer tão bem quanto gostariam.

Que todo o povo da terra também seja forte e trabalhe. Se os líderes ao menos se dedicarem de coração, espera-se que os seguidores tenham ainda mais ânimo. Repare: os que trabalham para Deus devem empenhar-se com vigor e, então, animar-se com a esperança de que tudo acabará bem.

  1. Os fundamentos desses incentivos. O próprio Deus lhes diz: “Não temais”, v. 5, e apresenta boas razões para isso:

(1.) Eles têm Deus consigo, seu Espírito e sua presença especial: “Sede fortes, porque eu sou convosco, diz o Senhor dos Exércitos”, v. 4. Ele já dissera isso antes (Ageu 1:13): “Eu sou convosco”. Mas precisamos ouvir repetidamente essas garantias para termos forte consolação.

A presença de Deus conosco, como Senhor dos Exércitos, é suficiente para calar todos os nossos temores e nos ajudar a superar todos os desânimos que possamos encontrar no caminho do dever. Os judeus tinham exércitos contra si, mas tinham consigo o Senhor dos Exércitos, que tomava seu partido e defendia sua causa.

Ele está com eles porque [1.] permanece fiel à sua promessa. Sua aliança é inviolável; ele sempre será o Deus deles, e se manifestará e agirá em favor deles conforme a palavra pela qual se comprometeu com eles quando saíram do Egito. Embora os castigue por suas transgressões com a vara, não deixará que sua fidelidade falhe.

[2.] Ele habita entre eles por seu Espírito, o Espírito de profecia. Quando primeiro os constituiu como povo, deu-lhes seu bom Espírito para instruí-los (Neemias 9:20). E o Espírito ainda permanecia entre eles, embora muitas vezes fosse entristecido e provocado a retirar-se.

Foi o Espírito de Deus quem despertou o espírito deles para saírem da Babilônia (Esdras 1:5) e agora para construírem o templo, Ageu 1:14. Repare: temos motivo para nos animar enquanto o Espírito de Deus permanecer entre nós para agir em nós, pois, enquanto isso, Deus estará conosco para agir em nosso favor.

(2.) Em breve terão entre eles o Messias, aquele que haveria de vir. Todos os profetas deram testemunho dele, e este profeta o faz aqui de modo especial, v. 6 e v. 7. Aqui há uma indicação do tempo de sua vinda: não tardaria muito até que ele viesse.

“Mais uma vez, dentro de pouco tempo, e ele virá. A igreja do Antigo Testamento tem somente mais uma etapa a percorrer (se assim podemos dizer). Cinco etapas já passaram: de Adão a Noé; daí a Abraão; daí a Moisés; daí ao templo de Salomão; e daí ao cativeiro.

Agora falta apenas mais uma etapa, a jornada de seu sexto dia, e então virá o descanso sabático do reino do Messias. Que o Filho do Homem, quando vier, encontre fé na terra, e que os filhos da promessa continuem a esperá-lo, pois agora falta apenas pouco tempo até que ele venha.

Perseverai, fé e paciência, por mais um pouco; porque aquele que há de vir virá e não tardará.” E, como ele disse então a respeito de sua primeira manifestação, assim diz agora sobre a segunda: “Certamente venho sem demora”.

A respeito de sua vinda, prediz-se aqui [1.] que ela será introduzida por um abalo geral, v. 6: “Abalarei os céus, e a terra, e o mar, e a terra seca”. Isso se aplica ao estabelecimento do reino de Cristo no mundo; para lhe preparar o caminho, ele julgará entre os gentios, Salmos 110:6.

Deus fará mais uma vez por sua igreja o que fez quando os tirou do Egito. No monte Sinai, abalou os céus e a terra com trovões, relâmpagos e terremotos. Abalou o mar e a terra seca quando abriu caminhos através do mar e fez brotar correntes da rocha.

Isso acontecerá novamente quando, nos sofrimentos de Cristo, o sol escurecer, a terra tremer e as rochas se fenderem; quando, por ocasião do nascimento de Cristo, Herodes e toda Jerusalém se perturbarem (Mateus 2:3), e ele for posto para queda e elevação de muitos.

Quando seu reino foi estabelecido, as nações foram abaladas: os oráculos se calaram, os ídolos foram destruídos, e os poderes dos reinos foram sacudidos e removidos, Hebreus 12:27. Isso indica a remoção das coisas abaláveis.

Repare: o abalo das nações muitas vezes prepara a consolidação da igreja e o estabelecimento das coisas que não podem ser abaladas.

[2.] Que ela resultará em satisfação geral. Ele virá como o desejo de todas as nações: desejável para todas, pois nele todas as famílias da terra serão abençoadas com as melhores bênçãos; esperado e desejado havia muito pelas pessoas piedosas de todas as nações que tinham algum conhecimento das predições do Antigo Testamento a seu respeito.

Balaão, na terra de Moabe, falara de uma estrela que sairia de Jacó; e Jó, na terra de Uz, falara de seu Redentor vivo. A reunião em Jerusalém de homens piedosos vindos de toda parte (Atos 2:5) expressava a expectativa de que o reino do Messias seria estabelecido por aquele tempo.

Todas as nações que são conduzidas a Cristo e feitas discípulas em seu nome o chamaram, e o chamarão, de toda a sua salvação e de todo o seu desejo. Esse glorioso título de Cristo parece referir-se à profecia de Jacó (Gênesis 49:10), segundo a qual “a ele se congregaria o povo”.

(3.) A casa que agora constroem será cheia de glória em tal medida que sua glória excederá a do templo de Salomão. Os inimigos dos judeus os perseguiam com censuras e desprezavam a casa que construíam. Eles, porém, podiam suportar isso muito bem, uma vez que Deus assumira a tarefa de enchê-la de glória.

Encher de glória é prerrogativa de Deus; a glória que vem dele satisfaz e não é glória vã. O tabernáculo de Moisés e o templo de Salomão foram cheios de glória quando Deus tomou posse deles numa nuvem. Esta casa, porém, será cheia de uma glória de outra natureza.

[1.] Não se aflijam porque esta casa não terá tanto ouro e prata quanto tinha o templo de Salomão, v. 8. Deus não precisa de prata e ouro para adornar seu templo, pois, diz ele: “Minha é a prata, e meu é o ouro”. Toda a prata e todo o ouro do mundo lhe pertencem.

Pertence-lhe tudo quanto está escondido nas entranhas da terra (pois do Senhor é a terra e tudo o que nela existe), tudo quanto se guarda nos cofres públicos, bancos e tesouros dos filhos dos homens, e tudo quanto circula para sustentar o comércio. Tudo é do Senhor.

Cada moeda traz sua imagem, assim como a de César. Portanto, quando ouro e prata são dedicados à sua honra e empregados em seu serviço, nada lhe é acrescentado, pois já eram seus.

Quando Davi e seus príncipes ofereceram grandes somas para o serviço da casa de Deus, reconheceram: “Tudo é teu, e daquilo que é teu, Senhor, te temos dado”, 1 Crônicas 29:14, 16.

Por isso Deus não precisa de sacrifícios, pois todos os animais da floresta lhe pertencem, Salmos 50:10. Repare: se temos prata e ouro, devemos servir e honrar a Deus com eles, pois tudo é dele; temos apenas seu uso, enquanto a propriedade permanece com ele.

Se, porém, não temos prata e ouro com que honrá-lo, devemos honrá-lo com o que temos, e ele nos aceitará, pois não precisa dessas coisas: toda a prata e todo o ouro do mundo já lhe pertencem. A terra está cheia de suas riquezas, assim como o mar vasto e imenso.

[2.] Consolem-se com isto: embora este templo tenha menos ouro, terá mais glória que o de Salomão, v. 9: “A glória desta última casa será maior que a da primeira”. Isso nunca foi verdade quanto à glória exterior.

Esta última casa foi de fato muito embelezada e enriquecida por Herodes em seus últimos tempos, e vemos os discípulos admirando as pedras e os edifícios do templo, tão belos eram (Marcos 13:1). Ainda assim, nada disso se comparava ao templo de Salomão.

Além disso, os próprios judeus reconhecem que várias manifestações da glória divina presentes no primeiro templo faltavam neste: a arca, o Urim e o Tumim, o fogo vindo do céu e a Shechinah.

Não podemos, portanto, entender como a glória desta última casa excederia em algo a da primeira, a não ser por aquilo que de fato superaria todas as glórias da primeira casa: a presença do Messias nela.

Era a presença do Filho de Deus, sua apresentação ali como a glória de seu povo Israel, sua ida ao templo aos doze anos e, mais tarde, sua pregação e seus milagres ali, além da expulsão dos compradores e vendedores.

Era necessário, portanto, que o Messias viesse enquanto o segundo templo ainda existia. Como esse templo foi destruído há muito tempo, devemos concluir que nosso Senhor Jesus é o Cristo, aquele que haveria de vir, e que não devemos esperar nenhum outro.

Também foi glória desta última casa, em primeiro lugar, que, antes da vinda de Cristo, ela sempre permaneceu livre de ídolos e idolatrias e nunca foi profanada com essas coisas abomináveis, como muitas vezes ocorreu com o primeiro templo (2 Reis 23:11, 12). Nisso sua glória excedeu toda a glória daquele.

Repare: a pureza da igreja e a estrita fidelidade às instituições divinas são glória muito maior para ela do que a pompa e o esplendor externos.

Em segundo lugar, depois de Cristo, o evangelho foi pregado nela pelos apóstolos, com “todas as palavras desta vida”, Atos 5:20. No templo, Jesus Cristo era pregado diariamente, Atos 5:42.

Ora, o ministério da justiça e da vida por meio do evangelho era incomparavelmente mais glorioso que a lei, que era um ministério de morte e condenação, 2 Coríntios 3:9, 10. Repare: a glória mais preciosa é a que provém de nossa relação com Cristo e de nossa participação nele.

Assim como, onde Cristo está, eis que há alguém maior que Salomão, também o coração no qual ele habita e que ele torna um templo vivo, eis que é mais glorioso que o templo de Salomão, e o será por toda a eternidade.

(4.) Eles veriam um fim consolador para suas dificuldades presentes e gozariam a alegria de uma condição feliz e estável: “Neste lugar darei paz, diz o Senhor dos Exércitos”. Repare: a presença de Deus com seu povo nas ordenanças divinas lhe assegura todo o bem. Se Deus está conosco, a paz está conosco.

Contudo, os judeus tiveram tantas aflições durante a existência do último templo que devemos concluir que essa promessa se cumpre na paz espiritual que Jesus Cristo adquiriu por seu sangue e legou por sua última vontade e testamento a todos os crentes (João 14:27).

É a paz que o próprio Cristo pregou como profeta da paz e concede como príncipe da paz. Deus dará paz neste lugar: dará seu Filho para ser a nossa paz, Efésios 2:14.

O Mal Mais Transmissível que o Bem; Incentivo à Construção do Templo. (a.C. 520.)

Versículos 10 a 19

Este sermão foi pregado dois meses depois do que se encontra na parte anterior do capítulo. Os sacerdotes e levitas pregavam continuamente, enquanto os profetas pregavam em ocasiões específicas; ambos os ministérios eram bons e necessários. Precisamos aprender nosso dever a tempo e fora de tempo.

O povo prosseguia então com vigor na construção do templo e esperava que, em breve, ele estivesse pronto para seu uso e para a realização dos serviços ali prestados. Deus, então, lhes envia por meio de seu profeta uma mensagem que lhes seria útil.

I. Como meio de convencimento e advertência. Eles estavam envolvidos numa obra muito boa, mas precisavam cuidar não apenas para que ela fosse boa em si, como também para que fosse realizada da maneira correta; de outro modo, Deus não a aceitaria.

Deus vê que muitos entre eles estragam essa boa obra ao executá-la com coração e mãos não santificados, e provavelmente não tirarão proveito algum dela. Aqui eles são convencidos disso, e todos são advertidos a purificar as mãos que empregam nessa obra.

Pois somente para os puros todas as coisas são puras, e somente dos puros procede aquilo que é puro. Essa questão é ilustrada aqui pelas regras estabelecidas da lei cerimonial, que distinguia o puro do impuro, distinção de que tratavam muitas de suas disposições.

Isso mostra que a lei cerimonial deve ter uma aplicação espiritual e que foi destinada não só como ritual divino para os judeus, mas também como instrução na justiça para todos nós, sobre quem chegaram os fins dos tempos.

Ela nos revela tanto o pecado quanto Cristo, tanto a nossa enfermidade quanto o nosso remédio. Observemos agora:

  1. Qual era a regra da lei. Ordena-se ao profeta que pergunte aos sacerdotes a esse respeito, v. 11, pois seus lábios deveriam guardar esse conhecimento, e o povo deveria buscar a lei de sua boca, Malaquias 2:7. O próprio Ageu, embora profeta, deve consultar os sacerdotes sobre a lei.

Sua tarefa, como mensageiro extraordinário, era explicar as providências de Deus e dar instruções sobre deveres específicos, como fizera em Ageu 1:8, 9. Mas ele não tiraria das mãos dos sacerdotes a tarefa daqueles que eram ministros ordinários.

Cabia a eles explicar as ordenanças de Deus, ensinar ao povo seu significado e dar as regras gerais para sua observância. Num caso dessa natureza, o próprio Ageu precisava consultá-los.

Repare: Deus deu a seus ministros diferentes dons e os chama para diferentes serviços. Por isso, eles precisam uns dos outros, devem recorrer uns aos outros e ajudar-se mutuamente. O profeta, embora divinamente inspirado, não pode dizer ao sacerdote: “Não preciso de ti”; nem o sacerdote pode dizer isso ao profeta.

Talvez Ageu tenha recebido ordem de consultar os sacerdotes para que, pela própria boca deles, pudesse julgar tanto a eles quanto ao povo entregue aos seus cuidados e convencê-los de uma impureza pior que a cerimonial. Veja Levítico 10:10, 11. As regras da lei nos casos propostos são estas:

(1.) Aquele que leva carne santa em suas vestes não pode transmitir santidade pelo contato de suas vestes, v. 12: “Se alguém levar carne santa na dobra de sua roupa”, embora assim a roupa se torne, em certa medida, algo consagrado, não poderá ser usada para fins comuns antes de ser lavada no lugar santo (Levítico 6:27).

Ainda assim, ela de modo algum transmitirá santidade a comida ou bebida, tornando-as melhores para os que delas se servem.

(2.) Aquele que está cerimonialmente impuro por haver tocado um morto transmite essa impureza por seu contato. A lei é explícita (Números 19:22): “Tudo quanto o impuro tocar será impuro”.

Ainda assim, Ageu quer ouvir isso da própria boca dos sacerdotes; pois, mesmo a respeito do que encontramos com muita clareza na Bíblia, é bom receber o conselho de nossos ministros.

O resumo dessas duas regras é que a impureza se transmite mais facilmente que a santificação. Isto é, como diz Grócio, há muitos caminhos para o vício, mas apenas um para a virtude, e esse é difícil. Bonum oritur ex integris; malum ex quolibet defectu — O bem exige integridade; o mal começa com o menor defeito.

Que ninguém pense que conviver com pessoas boas o recomendará a Deus se ele próprio não for bom. Antes, que tema contaminar-se ao tocar algo impuro e, por isso, mantenha distância de tal coisa.

  1. Como a regra é aplicada aqui, v. 14: “Assim é este povo, e assim é esta nação, diante de mim”. Deus não os chama de seu povo nem de sua nação (eles não são dignos de ser reconhecidos por ele), mas de “este povo” e “esta nação”. Assim têm estado diante de Deus.

Pensavam que oferecer sacrifícios no altar os santificaria, justificaria sua negligência na construção do templo e removeria a maldição que, por essa negligência, haviam trazido sobre as coisas de que desfrutavam no dia a dia.

“Não”, diz Deus, “vossa carne santa e vosso altar estão tão longe de santificar para vós vossa comida e bebida, vosso vinho e azeite, que vosso desprezo pelo templo de Deus trará impureza não apenas sobre as coisas de que desfrutais no dia a dia, mas até sobre vossos sacrifícios.

Assim, enquanto persististes nessa negligência, tudo vos era impuro. Mais ainda: este povo continua assim, e assim permanecerá. É assim que estarão diante de mim, e não de outro modo:

Se forem profanos, sensuais e moralmente impuros, se tiverem coração perverso e viverem perversamente, sua obra e seus sacrifícios de nada lhes servirão.

Por mais que trabalhem na construção do templo e por mais numerosos e custosos que sejam os sacrifícios que oferecerem ali depois de construído, isso não santificará para eles sua comida e bebida nem lhes permitirá desfrutá-las com consolo.

Pelo contrário, a impureza de seu coração e de sua vida tornará impura, e abominável a Deus, até mesmo a obra de suas mãos e todas as suas ofertas.”

O mesmo acontece conosco. Aqueles cujas devoções parecem recomendáveis, mas cuja conduta é perversa, descobrirão que suas devoções são incapazes de santificar as coisas de que desfrutam, enquanto sua perversidade prevalece e as contamina.

Repare: quando nos ocupamos de alguma boa obra, devemos vigiar cuidadosamente a nós mesmos, para não torná-la impura por nossas corrupções e pela maneira errada de realizá-la.

II. Como consolo e incentivo. Se o coração deles for reto diante de Deus e seu olhar for sincero no serviço a ele, colherão o benefício de sua devoção. Deus removerá o juízo da fome com que os corrigira por sua negligência e lhes restituirá grande abundância.

São chamados a considerar isso e a observar se Deus não cumpriria sua palavra em toda a extensão, apoiando e recompensando de modo notável, por sua providência, a mudança de conduta deles nesse assunto.

Para tornar isso mais evidente, que registrem o dia em que começaram a trabalhar na construção do templo, erguendo a estrutura sobre os fundamentos que haviam sido lançados algum tempo antes. No vigésimo quarto dia do sexto mês, começaram a preparar os materiais (Ageu 1:15).

Agora, no vigésimo quarto dia do nono mês, começaram a assentar pedra sobre pedra no templo do Senhor. Que prestem atenção a esse dia e observem:

  1. Quanto seus bens haviam diminuído antes desse dia. Que se lembrem do tempo em que tudo o que possuíam sofria perdas e redução perceptíveis, v. 16. Um homem ia ao celeiro esperando encontrar um monte de vinte medidas de cereal.

Era o que costumava colher de certo terreno, ou o que costumava restar nessa época do ano, ou ainda o que ele supunha estar ali quando retirara a última porção. Mas descobria que o cereal havia diminuído sem explicação e, ao medi-lo, encontrava apenas dez medidas.

O cereal se compactara e secara enquanto estava armazenado, ou fora comido por pragas, ou roubado. Da mesma forma, ele ia ao lagar esperando tirar cinquenta recipientes de vinho, pois era o que costumava obter de certa quantidade de uvas. Elas, porém, não produziam como de costume, e ele conseguia apenas vinte.

Isso concorda com o que vimos em Ageu 1:9: “Esperáveis muito, mas veio a ser pouco”. Repare: nossa insensatez está em criar expectativas a partir das coisas criadas e pensar que amanhã necessariamente será como hoje, e ainda mais abundante.

Normalmente, porém, somos frustrados; e, quanto mais esperamos, mais dolorosa é a decepção. Nos depósitos e tesouros da nova aliança, não precisamos temer decepção quando deles nos aproximamos pela fé para receber suas riquezas.

Mas isso não era tudo. Deus visivelmente se opunha a eles por meio do clima, v. 17: “Eu vos feri com crestamento”, com ventos e geadas que faziam murchar toda planta verde; com ferrugem, que sufocava o cereal quando os grãos se formavam; e com granizo, que o derrubava e quebrava quando já havia atingido certo grau de maturidade.

Assim, eles eram frustrados em todo o trabalho de suas mãos, enquanto deixavam de pôr a mão na obra de Deus e de nela trabalhar. Repare: enquanto não cuidamos dos interesses de Deus, não podemos esperar que ele cuide dos nossos.

E, quando ele assim se põe contra nós, espera que voltemos para ele e para o nosso dever. Esse povo, porém, ou não reconhecia nisso a mão de Deus, atribuindo tudo ao acaso, ou não reconhecia o próprio pecado como a causa que o provocara; por isso, não voltou para ele.

Durante muito tempo permaneceram incorrigíveis e não se humilharam sob essas repreensões. Assim, a mão de Deus continuou estendida, pois “o povo não voltou para aquele que o feriu”, Isaías 9:12, 13. Podiam facilmente observar que, enquanto negligenciavam a obra do templo, todos os seus assuntos retrocediam. Mas:

  1. Que agora observem, e descobrirão que, deste dia em diante, Deus os abençoará, v. 18 e v. 19: “Considerai agora se, ao começardes a mudar vossa maneira de agir para com Deus, não percebeis que Deus muda sua maneira de agir para convosco.

A partir deste dia, quando começais a trabalhar no templo, considerai isso, eu vos digo, e vereis uma mudança notável para melhor em todos os vossos assuntos. Ainda está a semente no celeiro? Sim, está, e ainda não foi lançada à terra.

As árvores frutíferas ainda não brotaram; a videira, a figueira e a oliveira ainda não produziram, de modo que nada parece prometer boa colheita ou vindima no próximo ano. A natureza não faz essa promessa; mas, agora que começais a dedicar-vos de coração ao vosso dever, o Deus da natureza a faz.

Ele disse: ‘Desde este dia vos abençoarei’. É o melhor dia de trabalho que já tivestes na vida, pois a partir dele podeis datar a volta de vossa prosperidade.” Ele não diz como serão suas condições, mas afirma em termos gerais: “Eu vos abençoarei”.

Aqueles que conhecem os frutos que procedem da bênção de Deus sabem que não podem desejar nada mais para serem felizes. “Eu vos abençoarei; então, logo recuperareis todas as vossas perdas e prosperareis tão depressa quanto antes retrocedíeis.

Pois a bênção do Senhor é que enriquece, e aqueles a quem ele abençoa são de fato abençoados.” Repare: quando começamos a cumprir conscienciosamente nosso dever para com Deus, podemos esperar sua bênção.

Essa árvore da vida é tão reconhecível por seus frutos que se pode discernir quase o dia exato de uma mudança notável da providência em favor daqueles que voltam ao caminho do dever. Assim, eles e outros podem dizer que, desde aquele dia, foram abençoados. Veja Malaquias 3:10.

Quem for sábio observará essas coisas e, por elas, compreenderá a bondade amorosa do Senhor.

Versículos 20 a 23

Promessas Animadoras; Uma Promessa a Zorobabel. (a.C. 520.)

Depois do sermão de Ageu ad populum — ao povo, segue-se outro, proferido no mesmo dia, ad magistratum — aos governantes. É uma palavra dirigida particularmente a Zorobabel, governador de Judá, que liderava com diligência essa boa obra à qual o povo agora se dedicava.

Por isso, ele receberá algumas distinções especiais, v. 21: “Fala a Zorobabel, governador de Judá”; fala a ele em particular.

Ele tem em mente questões muito superiores às que ocupam o povo comum, como costumam ter os governantes sábios, cuja esfera de atuação é mais ampla e elevada que a dos outros. O povo da terra se preocupa com os campos de cereal e as vinhas; Deus lhes assegurou que prosperarão, e esperamos que isso os tranquilize.

Zorobabel, porém, se preocupa com a comunidade e seus interesses, com as nações vizinhas e as mudanças em seus governos.

Preocupa-se com o que acontecerá aos poucos e frágeis judeus em meio a essas mudanças e convulsões, e com a maneira pela qual um príncipe tão pouco poderoso quanto ele poderá manter sua posição e servir seu país.

“Vai até ele”, diz Deus, “e dize-lhe que tudo irá bem com ele e com o remanescente de seu povo; que isso o tranquilize.”

I. Que ele espere ouvir falar de grandes perturbações entre as nações da terra, sem ser surpreendido por elas, pois é avisado de antemão, v. 21 e v. 22: “Abalarei os céus e a terra”. Deus já dissera isso, v. 6 e v. 7, e agora o repete a Zorobabel; que ele espere tempos de abalo e convulsões universais.

O mundo é como o mar, como uma roda, sempre em movimento, mas às vezes especialmente agitado. Bendito seja Deus, porém: se a terra é abalada, é para que dela sejam sacudidos os perversos, Jó 38:13. Nas visões apocalípticas, os terremotos não anunciam mal para a igreja.

Aqui, os céus e a terra são abalados para que os opressores orgulhosos sejam quebrados e derrubados: “Derrubarei o trono dos reinos”. A monarquia caldeia, que por muito tempo fora o trono dos reinos, já havia sido derrubada.

Os poderes que existem e os que ainda virão serão igualmente derrubados; chegará o dia de sua queda. 1. Por mais poderosos que sejam, a força de seus reinos será destruída. Confiam em carros e cavalos (Salmos 20:7), mas seus carros e os que neles andam serão derrubados.

Assim, não poderão atacar o povo de Deus, a quem perseguem, nem escapar dos juízos de Deus, que os perseguem. 2. Ainda que ninguém pareça capaz de ser o instrumento de sua destruição, Deus a realizará, pois todos cairão pela espada de seus próprios irmãos.

Esta é a sentença de todos os inimigos da igreja de Deus que não se arrependem para dar-lhe glória. Parece igualmente destinada a ser uma promessa da vitória de Cristo sobre os poderes das trevas: ele derrubará o trono de Satanás, aquele trono dos reinos, o trono do deus deste mundo.

Cristo lhe tirará toda a armadura em que confiava e repartirá os despojos. Todo domínio, principado e poder que se oponham a Cristo serão derrubados, para que o reino seja entregue a Deus, o Pai.

II. Que ele confie em que estará seguro sob a proteção divina em meio a todas essas convulsões, v. 23. Zorobabel trabalhava ativamente para construir uma casa para Deus.

Por isso, Deus lhe faz a mesma promessa que fizera a Davi numa ocasião semelhante: edificará uma casa para ele e a firmará, mesmo no dia em que céus e terra forem abalados.

Essa promessa se refere a esse homem bom e a sua família. Ele honrou a Deus, e Deus o honrará. Seus sucessores no governo de Judá também poderiam encontrar nela motivo de ânimo.

Embora, diante dos homens, sua autoridade fosse muito precária, Deus a confirmaria, e isso contribuiria para a estabilidade do povo sobre o qual os havia colocado.

Mas essa promessa se refere especialmente a Cristo, descendente direto de Zorobabel e único construtor do templo do evangelho. 1. Zorobabel é aqui reconhecido como servo de Deus, uma menção honrosa, como quando Deus diz “Moisés, meu servo” e “Davi, meu servo”. Quando Deus destrói seus inimigos, exalta seus servos.

Nosso Senhor Jesus é servo de seu Pai na obra da redenção, mas fiel como Filho, Isaías 42:1.

  1. Ele é reconhecido como escolhido de Deus: “Eu te escolhi para este ofício”; e Deus fará uso daquele a quem escolhe. Nosso Senhor Jesus foi escolhido por Deus, 1 Pedro 2:4. Ele é a cabeça do remanescente escolhido; nele eles foram escolhidos.

  2. Promete-se que, por ser escolhido, Deus fará dele como um anel de selar. Jeconias fora como o anel de selar na mão direita de Deus, mas dali foi arrancado (Jeremias 22:24); Zorobabel agora ocupa seu lugar.

Ele estará perto de Deus e será amado por ele, precioso e honrado a seus olhos. Sua família continuará até que dela venha o Messias, que é o anel de selar na mão direita de Deus. Isso indica:

(1.) O prazer que o Pai tem nele. Mais de uma vez o Pai declarou que nele se comprazia. Ele foi posto como selo sobre seu coração e sobre seu braço, é trazido para perto dele (Daniel 7:13) e escondido à sombra de sua mão, Isaías 49:2.

(2.) A autoridade que o Pai lhe confiou. Os príncipes assinam seus decretos, concessões e comissões com seus anéis de selar, Ester 3:10. Nosso Senhor Jesus é o anel de selar na mão direita de Deus, pois toda autoridade lhe foi dada e dele procede.

Por meio dele, a grande carta do evangelho é assinada e ratificada, e é nele que todas as promessas de Deus são sim e amém.


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