Ageu 1
Argumento
Ageu
UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA AGEU.
O cativeiro na Babilônia deu uma direção muito notável aos assuntos da igreja judaica, tanto na história quanto na profecia. Ele é tomado como uma época marcante na genealogia do nosso Salvador (Mateus 1:17).
Nove dos doze profetas menores, cujos oráculos vimos consultando até aqui, viveram e pregaram antes daquele cativeiro. A maioria deles o tinha em vista em suas profecias, predizendo-o como justo castigo pela perversidade de Jerusalém.
Os três últimos, porém, nos quais o Espírito de profecia encerrou sua atuação até ressurgir no precursor de Cristo, viveram e pregaram depois do retorno do cativeiro, não imediatamente, mas algum tempo depois.
Ageu e Zacarias apareceram quase na mesma época, dezoito anos depois do retorno, quando a construção do templo era tanto impedida por seus inimigos quanto negligenciada por seus amigos.
Então os profetas Ageu e Zacarias, filho de Ido, profetizaram aos judeus que estavam em Jerusalém, em nome do Deus de Israel, dirigindo-se a eles, como lemos em Esdras 5:1.
Fizeram-no para censurá-los por sua negligência e animá-los a retomar aquela boa obra, paralisada havia algum tempo, e a levá-la adiante com vigor, apesar da oposição que enfrentavam.
Ageu começou dois meses antes de Zacarias, que foi levantado para apoiá-lo, a fim de que a palavra fosse confirmada pela boca de duas testemunhas. Zacarias, porém, permaneceu mais tempo na obra.
Todas as profecias registradas de Ageu foram proferidas no espaço de quatro meses, no segundo ano de Dario, entre o começo do sexto mês e o fim do nono. Temos, contudo, profecias de Zacarias datadas de mais de dois anos depois (Zacarias 7:1).
Alguns têm a honra de dar início à obra de Deus; outros, a de permanecer nela até o fim. Os judeus atribuem a esses dois profetas a honra de serem membros da grande sinagoga, como a chamam, formada depois do retorno do cativeiro.
Consideramos mais certo que profetizaram acerca de Cristo; essa foi a honra deles, e uma honra muito maior. Ageu falou dele como a glória da segunda casa, e Zacarias, como o homem, o Renovo.
Neles, a luz daquela estrela da manhã brilhou com mais intensidade do que nas profecias anteriores, pois viveram mais perto do nascer do Sol da justiça e já começavam a ver a aproximação do seu dia.
A Septuaginta atribui a Ageu e Zacarias a autoria do Salmo 138 e dos Salmos 146, 147 e 148.
Neste capítulo, depois do preâmbulo da profecia, temos: I. Uma censura ao povo judeu por sua demora e preguiça em construir o templo. Isso havia provocado Deus a contender com eles por meio do juízo da fome e da escassez. Há também uma exortação a que retomem essa boa obra e se dediquem a ela com seriedade (vv. 1-11).
II. O bom resultado desse sermão, manifesto no retorno do povo e em sua dedicação diligente à obra. Nela, o profeta, em nome de Deus, os animou e encorajou, assegurando-lhes que Deus estava com eles (vv. 12-15).
Os Judeus Censurados; A Contenda de Deus com os Judeus; O Bom Conselho do Profeta. (a.C. 520.)
Versículos 1 a 11
Os judeus na Babilônia se queixavam de que não viam os seus sinais e de que já não havia profeta (Salmos 74:9), o que era um justo juízo sobre eles por terem zombado dos profetas e os maltratado.
Não lemos que tivessem profetas em seu retorno, como tiveram ao sair do Egito (Oseias 12:13). Deus os moveu diretamente por seu Espírito a agir naquela libertação (Esdras 1:5). Embora Deus use profetas, não precisa deles; pode realizar sua obra sem eles.
A lâmpada da profecia do Antigo Testamento, porém, ainda produziria alguns clarões brilhantes e gloriosos antes de se apagar. Ageu é o primeiro a aparecer com o caráter de mensageiro especial do céu, quando a palavra do Senhor havia muito era rara, como no começo da profecia (1 Samuel 3:1), e não havia visão manifesta.
Esse profeta foi enviado no reinado de Dario Histaspes, o terceiro dos reis persas, no segundo ano do reinado dele. A palavra do Senhor veio a Ageu e, por meio dele, aos homens principais entre os judeus, aqui nomeados (v. 1).
O principal governante, 1. No Estado, era Zorobabel, filho de Sealtiel, da casa de Davi, comandante supremo dos judeus em seu retorno do cativeiro. 2. Na igreja, era Josué, filho de Jozadaque, então sumo sacerdote.
Eram homens importantes e bons, mas ainda precisavam ser despertados para o dever quando se tornavam negligentes. Também deviam ser informados das faltas do povo, para que usassem seu poder e influência para corrigi-las.
Os profetas, mensageiros extraordinários, não procuravam afastar as instituições ordinárias do governo e do ministério. Buscavam tornar ambas mais eficazes para os fins a que haviam sido designadas, pois ambas devem ser sustentadas. Agora observe:
I. Qual era o pecado dos judeus nessa época (v. 2). Assim que voltaram do cativeiro, ergueram um altar para os sacrifícios e, menos de um ano depois, lançaram os fundamentos do templo (Esdras 3:10).
Na ocasião, pareciam muito dispostos à obra, e era bem provável que a concluíssem rapidamente. Mas, algum tempo depois, receberam da corte persa uma proibição e a ordem de não prosseguir.
Eles não apenas cederam à força quando estavam realmente sujeitos a ela, o que poderia ser desculpado; mas, depois, quando a violência da oposição diminuiu, continuaram muito indiferentes à obra. Não tinham ânimo nem coragem de recomeçá-la e pareciam satisfeitos por ter um pretexto para deixá-la parada.
Embora os que trabalham para Deus possam ser afastados da obra por uma tempestade, precisam voltar a ela assim que a tempestade passar. Esses judeus não o fizeram. Continuaram ociosos até receberem uma nova lembrança de seu dever.
O que diziam uns aos outros era: “Ainda não chegou o tempo, o tempo de edificar a casa do Senhor”. Isto é:
- “Nosso tempo de fazê-lo ainda não chegou, pois não nos recuperamos do cativeiro. Nossas perdas não foram reparadas, e ainda não conseguimos acumular recursos. É uma tarefa grande demais para quem está recomeçando a vida, como nós. Primeiro levantemos nossas casas, antes de falar em construir igrejas. Enquanto isso, que um simples altar nos sirva, como serviu a nosso pai Abraão”.
Não diziam que jamais construiriam um templo, mas: “Ainda não; há tempo para tudo”. Repare: Muitas boas obras são deixadas de lado por serem adiadas, como Félix adiou para ocasião mais conveniente agir conforme aquilo de que fora convencido.
As pessoas não dizem que nunca se arrependerão, se reformarão e serão religiosas, mas: “Ainda não”. Assim, a grande tarefa para a qual fomos enviados ao mundo deixa de ser feita, sob o pretexto de que há tempo para começar.
- “O tempo de Deus para fazê-lo ainda não chegou. A restrição que a autoridade nos impôs por meios legais”, dizem eles, “não foi revogada. Portanto, não devemos prosseguir, embora a autoridade hoje faça vista grossa”.
Repare: Temos a tendência de interpretar mal os desestímulos providenciais ao nosso dever, como se nos dispensassem dele, quando se destinam apenas a provar e exercitar nossa coragem e fé. É ruim negligenciar o dever; pior é invocar a Providência para justificar essa negligência.
II. Quais foram os juízos com que Deus os castigou por essa negligência (v. 6, 9-11). Negligenciaram a construção da casa de Deus e a adiaram para ter tempo e dinheiro para seus assuntos seculares.
Pediam dispensa de uma obra tão custosa alegando que precisavam sustentar a família. Os filhos precisavam de alimento e também de uma herança. Enquanto não acumulassem recursos, não poderiam pensar em reconstruir o templo.
Para que o castigo correspondesse ao pecado, Deus, por sua providência, os manteve sem recursos. A pobreza que esperavam evitar ao não construir o templo foi precisamente o que Deus lhes trouxe por não o construírem.
Sentiam o peso do juízo, e cada um se queixava do clima desfavorável, das grandes perdas nas plantações e nos rebanhos e do declínio do comércio. Mas não percebiam a causa do juízo nem o motivo da contenda de Deus com eles.
Não viam, ou não queriam ver e reconhecer, que estavam sob esses sinais evidentes do desagrado de Deus por terem adiado a construção do templo. Por isso Deus lhes anuncia aqui que é essa a razão pela qual contende com eles.
Repare: Precisamos da ajuda dos profetas e ministros de Deus para nos explicar não só os juízos de sua boca, mas também os de suas mãos. Assim poderemos entender o que ele quer dizer com sua vara, assim como com sua palavra, e descobrir não só em que o ofendemos, mas em que ele mostra estar ofendido conosco. Observemos:
- Como Deus contendeu com eles. Não os enviou novamente ao cativeiro nem trouxe contra eles um inimigo estrangeiro, como mereciam. Tomou, porém, em suas mãos a tarefa de corrigi-los, pois suas misericórdias são grandes.
(1.) Aquele que dá semente ao semeador negou sua bênção à semente lançada, que então nunca prosperou. Da colheita não obtiveram nada, ou quase nada.
Semearam muito (v. 6) e mantiveram em cultivo grande extensão de terra, da qual podiam esperar rendimento maior do que o habitual, pois ela havia ficado muito tempo em descanso e desfrutado de seus sábados.
Como haviam semeado muito, esperavam colher muito, o suficiente para consumir e também para guardar. Mas foram decepcionados: recolheram pouco, muito pouco (v. 6). Mesmo depois de aproveitar tudo ao máximo, o resultado foi pequeno (v. 9). A terra não produziu como esperavam.
Em Isaías 5:10, “a semente de um ômer produzirá um efa”: a semeadura de um alqueire renderá apenas uma pequena medida. Repare: Muitas vezes nossas expectativas em relação às criaturas são mais frustradas quando estão mais elevadas.
Quando esperamos muito e recebemos pouco, aprendemos a depositar nossa esperança somente em Deus, em quem ela será mais que satisfeita.
Aqui se explica como foram decepcionados (v. 10): “O céu sobre vocês foi impedido de dar orvalho”. Aquele que tem nas mãos a chave das nuvens as fechou e reteve a chuva quando a terra a pedia, tanto a primeira quanto a última chuva.
Naturalmente, a terra também foi impedida de dar seus frutos, pois, se o céu é como bronze, a terra é como ferro.
Talvez o cereal tenha brotado muito bem e prometido colheita farta. Mas, por falta de orvalho na época em que as espigas se formavam, não se encheu; foi ressecado pelo calor do sol e murchou.
Os que haviam voltado do cativeiro, privados de tudo por tanto tempo na Babilônia, pensavam que jamais passariam necessidade quando recuperassem a posse de sua terra e a tivessem à disposição. Mas de que lhes adiantaria se não tivessem também as nuvens à disposição?
Deus nos fará perceber nossa dependência necessária e constante dele em todos os elos da cadeia de causas secundárias, do primeiro ao último. Assim, em nenhum momento poderemos dizer: “Agora já não precisamos de Deus nem de sua providência” (veja Oseias 2:21).
Deus não apenas reteve as chuvas refrescantes, mas também determinou calores abrasadores (v. 11): “Convoquei a seca sobre a terra”. Ordenou que o clima ficasse extremamente quente, e então os frutos da terra foram queimados.
Veja como cada criatura se torna para nós aquilo que Deus faz dela: motivo de conforto ou de aflição, algo que nos serve ou nos prejudica.
Entre as criaturas inferiores, nada é tão necessário e benéfico ao mundo quanto o calor do sol. É ele que dá vida às plantas e renova a face da terra na primavera. Contudo, se se torna excessivo, desfaz tudo de novo.
Nosso Criador é nosso melhor amigo. Se, porém, fizermos dele nosso inimigo, também faremos nossos inimigos os melhores amigos que temos entre as criaturas.
Deus convocou essa seca, e ela veio ao seu chamado. Assim como os ventos e as ondas, os raios do sol lhe obedecem. A seca foi universal, e seus efeitos danosos foram gerais. Atingiu os montes, que, por serem elevados, foram os primeiros afetados.
Os montes eram suas pastagens e costumavam ficar cobertos de rebanhos, mas agora não havia pasto para eles. A seca atingiu os cereais, o vinho novo e o azeite. Tudo falhou por causa do calor extremo, até mesmo tudo o que a terra produzia: tudo murchou.
Além disso, teve efeito prejudicial sobre os homens. O calor enfraqueceu alguns, deixando-os cansados e desfalecidos, e esgotou-lhes as forças. Outros ficaram inflamados e febris. Ao que parece, também trouxe doenças ao gado.
Em suma, destruiu todo o trabalho de suas mãos, de cujos frutos esperavam se alimentar e sustentar suas famílias.
Repare: O alimento para o ventre é perecível. Se trabalharmos apenas por ele, correremos o risco de perder nosso esforço. Mas podemos ter certeza de que nosso trabalho no Senhor não será vão se trabalharmos pelo alimento que permanece para a vida eterna.
Pois a mão diligente no serviço da religião certamente enriquecerá; nos assuntos desta vida, porém, até os mais cuidadosos e laboriosos muitas vezes perdem o fruto do trabalho de suas mãos. A corrida não é dos velozes nem a batalha dos fortes.
(2.) Aquele que dá pão a quem come negou sua bênção ao pão que eles comiam, e ele não os nutriu.
A causa de os cereais no campo murcharem e deixarem de produzir era visível: a falta de chuva. Além disso, uma praga e uma maldição ocultas acompanhavam aquilo que eles levavam para casa.
[1.] Quando a colheita chegava ao celeiro, não podiam contar com ela: “Eu soprei sobre ela”, diz o Senhor dos Exércitos (v. 9). Isso a fez murchar, como às vezes os brotos são queimados na primavera por uma geada cortante, cujos efeitos vemos, embora não saibamos como ela age.
“Eu a soprei para longe”; assim diz a leitura marginal. Quando os homens amontoam riquezas, Deus pode dispersá-las com o sopro de sua boca tão facilmente quanto sopramos uma pena.
Repare: Nunca podemos estar certos de possuir coisa alguma neste mundo. Ela está exposta ao perigo não apenas no campo, mas também depois de guardada, pois ali a traça e a ferrugem a corrompem (Mateus 6:19).
Se quisermos conservar e desfrutar nossos bens temporais, devemos fazer de Deus nosso amigo. Se ele os abençoar para nós, serão bênçãos de fato. Se soprar sobre eles, não poderemos esperar deles bem algum: criam asas e voam para longe.
[2.] Quando o alimento chegava à mesa, não lhes proporcionava o que esperavam: “Vocês comem, mas não se fartam”, seja porque o alimento é aguado e não satisfaz, seja porque o estômago é voraz e não fica satisfeito.
“Vocês comem, mas não digerem bem e, por isso, não são nutridos pelo alimento, que não cumpre seu propósito; ou não se fartam porque não estão contentes nem julgam suficiente o que têm.”
“Vocês bebem, mas não se refrescam nem saciam a sede; não ficam satisfeitos com a bebida. Recebem uma quantidade limitada, insuficiente para matar a sede. O vinho novo é tirado de sua boca (Joel 1:5).”
“Até a água vocês bebem em quantidade medida e com espanto. Não podem desfrutá-la, porque não a têm em abundância e vivem temendo que falte.”
[3.] O que vestiam não lhes fazia bem: “Vocês se vestem, mas ninguém se aquece. As roupas logo se gastam, envelhecem e ficam finas, porque Deus sopra sobre elas”, ao contrário do que ocorreu com as roupas de Israel no deserto, quando Deus os abençoou.
É Deus quem faz nossas roupas nos aquecerem quando aquieta a terra (Jó 37:17).
[4.] Também não podiam contar com o que tinham guardado em suas bolsas, ainda não gasto, mas reservado: “Aquele que recebe salário por trabalho árduo, pago em dinheiro vivo e moeda corrente, põe o dinheiro numa bolsa furada. Ele cai pelos furos e se perde sem que se perceba.”
“Tudo é tão escasso e caro que gastam o dinheiro tão depressa quanto o recebem.” Os que ajuntam seu tesouro na terra o colocam numa bolsa furada; vão perdendo-o pelo caminho, e os que vêm atrás o recolhem.
Mas, se ajuntarmos nosso tesouro no céu, providenciaremos para nós bolsas que não envelhecem (Lucas 12:33).
- Observe por que Deus contendia assim com eles e interrompia o fluxo dos favores prometidos em seu retorno (Joel 2:24): eles o provocaram a fazê-lo. “É por causa da minha casa, que está em ruínas.” Essa é a causa da contenda de Deus com eles.
Os alicerces do templo estavam lançados, mas a construção não avançava. “Cada um corre para sua própria casa, a fim de terminá-la e torná-la confortável e bonita, e ninguém cuida da casa do Senhor.”
“Por isso Deus contraria vocês em todos os seus assuntos: quer demonstrar seu desagrado com essa negligência e levá-los a reconhecer seu pecado e sua insensatez.”
Repare: Os que buscam primeiro o reino de Deus e sua justiça não apenas os encontrarão, mas provavelmente receberão outras coisas por acréscimo. Da mesma forma, os que negligenciam e adiam essas coisas não apenas as perderão, mas, com justiça, perderão também outras coisas.
Se Deus frustrar nossos assuntos temporais e encontrarmos dificuldades e decepções, veremos que esta é a causa: deixamos por fazer a obra que temos para Deus e para nossa própria alma e buscamos nossos interesses mais do que os de Jesus Cristo (Filipenses 2:21).
III. A censura que o profeta lhes dirige por negligenciarem a obra do templo (v. 4): “É tempo de vocês, sim, vocês, morarem em suas casas revestidas de painéis, embelezadas e adornadas, com suas famílias nelas estabelecidas?”
Não se contentavam com paredes e telhados, que atenderiam à necessidade; queriam também beleza e requinte. “Já é tempo”, diz um, “de revestir minha casa de madeira”. “Já é tempo”, diz outro, “de pintar a minha”.
Enquanto isso, a casa de Deus continua em ruínas, e nada se faz nela. “Como?”, pergunta o profeta. “É tempo de satisfazer os caprichos de vocês, mas não de agradar a seu Deus?”
Quão oposta era a atitude deles à de Davi, que não conseguia descansar em sua casa de cedro enquanto a arca de Deus estava sob cortinas (2 Samuel 7:2), e à de Salomão, que construiu o templo de Deus antes de erguer para si um palácio!
Repare: Desconhecem profundamente seu próprio interesse os que preferem o conforto e os adornos da vida passageira às necessidades absolutas da vida espiritual. Cuidam com zelo de enriquecer suas casas enquanto o templo de Deus em seu coração permanece em ruínas, sem que nada se faça por ele ou dentro dele.
IV. O bom conselho que o profeta dá aos que assim desprezaram Deus, e com quem Deus estava, portanto, justamente descontente:
- Ele quer que reflitam: “Agora, pois, considerem os seus caminhos” (v. 5 e novamente v. 7). “Percebam que a mão de Deus se levantou contra vocês e investiguem o motivo. Pensem no que fizeram para provocar Deus a perturbar assim seu conforto. Pensem também no que farão para demonstrar arrependimento, a fim de que Deus volte a tratá-los com misericórdia.”
Repare: É grande dever de cada um de nós considerar os próprios caminhos, aplicar o coração a eles, como diz a expressão, pensar em nossos caminhos (Salmos 119:59), examiná-los e prová-los (Lamentações 3:40) e ponderar a vereda dos nossos pés (Provérbios 4:26).
Devemos aplicar a mente com toda a seriedade ao dever importante e necessário de examinar a nós mesmos e conversar com nosso próprio coração acerca de nossa condição espiritual, dos pecados passados e do dever futuro.
Pois o pecado é aquilo de que teremos de prestar contas, e o dever é aquilo que precisamos cumprir. Devemos, portanto, investigar mais essas coisas do que os acontecimentos, que devemos deixar a cargo de Deus.
Muitos examinam com olhar atento os caminhos alheios e são muito descuidados com os próprios. Nosso dever, porém, é cada um examinar sua própria obra (Gálatas 6:4).
- Ele quer que se reformem (v. 8): “Subam ao monte, ao Líbano, tragam madeira e os demais materiais de que precisam e construam a casa sem demora. Não adiem mais; dediquem-se a ela com seriedade.”
Repare: A reflexão sobre nossos caminhos precisa resultar na correção de tudo o que encontrarmos de errado neles. Se algum dever foi negligenciado por muito tempo, isso não é motivo para continuar assim, mas para enfim retomá-lo. Antes tarde do que nunca.
Para incentivá-los a se dedicar seriamente a essa obra, ele lhes assegura:
(1.) Que seriam aceitos por Deus nela: “Construam a casa, e eu me agradarei dela”. Isso lhes dava incentivo suficiente para se empenhar com disposição e determinação e levar a obra até o fim, custasse o que custasse.
Repare: Devemos ter prazer em fazer aquilo de que Deus se agradará quando estiver feito e considerar esse motivo suficiente para começar e prosseguir com seriedade. Pois que satisfação maior podemos ter no íntimo do que contribuir para algo de que Deus se agradará?
Ser aceitos pelo Senhor deve ser o ponto mais alto de nossa ambição (2 Coríntios 5:9). Embora tivessem negligenciado insensatamente a casa de Deus, se afinal voltassem a cuidar dela, Deus não guardaria contra eles a negligência anterior, mas se agradaria da obra de suas mãos.
Os que adiaram por muito tempo seu retorno a Deus não devem desesperar de seu favor se finalmente voltarem a ele de todo o coração.
(2.) Que Deus seria honrado por eles nessa obra: “Serei glorificado”, diz o Senhor. Quando o templo estivesse construído, ele seria ali servido e adorado e santificado naqueles que dele se aproximassem.
Vale a pena empregar todo o cuidado, esforço e gasto possível naquilo que pode glorificar a Deus.
Versículos 12 a 15
A Obediência do Povo. (a.C. 520.)
“Como brinco de ouro”, diz Salomão, “e como ornamento de ouro fino”, assim é agradável e bem recebido, aos olhos de Deus e dos homens, “o sábio que repreende um ouvido obediente” (Provérbios 25:12).
O profeta aqui era um repreensor sábio, sem deixar de ser fiel, que falava em nome de Deus, e encontrou ouvidos obedientes. O sermão anterior teve entre o povo o resultado desejado, e a obediência deles recebeu de Deus o devido encorajamento. Observe:
I. Como o povo voltou a Deus pelo caminho do dever. Todos os que ouviram aquele sermão acolheram a palavra com amor e foram movidos por ela.
Zorobabel, o principal governante, não se considerou acima da censura e da ordem da palavra de Deus. Havia sido um homem de notável utilidade em seus dias e prestado serviços aos interesses da igreja. Ainda assim, não alegou seus méritos anteriores para responder à censura por sua negligência presente; submeteu-se a ela.
O dever de Josué, como sumo sacerdote, era ensinar. Ele próprio, porém, estava disposto a aprender e recebeu de boa vontade a advertência e a instrução.
O restante do povo também foi muito receptivo, embora toda a comunidade não passasse de um restante, pouquíssimos entre os muitos milhares de Israel. Todos obedeceram à voz do Senhor, seu Deus, e curvaram o pescoço ao jugo dos seus mandamentos. Fica aqui registrado, para sua honra, que assim fizeram (v. 12).
Seu pai disse: Filhos, vão trabalhar hoje na minha vinha, no meu templo. Eles não apenas responderam: Vamos, senhor, mas foram imediatamente.
- Reconheceram o profeta como mensageiro do Senhor e a palavra que ele transmitia como mensagem do Senhor para eles. Por isso não a receberam como palavra humana, mas como palavra do Deus Todo-Poderoso. Obedeceram às suas palavras, pois o Senhor, seu Deus, o havia enviado (v. 12).
Repare: Ao ouvirmos os ministros de Deus, devemos ter em vista aquele que os enviou e recebê-los por causa dele, enquanto agirem de acordo com sua missão.
- Temeram diante do Senhor. A profecia era novidade para eles. Havia muito tempo não recebiam um mensageiro especial do céu; agora que tinham um, e apenas um, dedicaram-lhe atenção extraordinária. Seus pais, embora tivessem muitos profetas, zombaram deles e os maltrataram.
Às vezes acontece assim: quando a boa pregação é mais rara, produz maior bem, ao passo que o maná que chove em abundância é desprezado como pão leve. Como receberam tão prontamente esse profeta, Deus lhes levantou outro, Zacarias, um ou dois meses depois (Zacarias 1:1).
Temeram diante do Senhor: tinham grande respeito pela autoridade divina, grande temor da cólera divina e eram daqueles que tremem diante da palavra de Deus.
Os juízos de Deus sob os quais haviam vivido, embora muito severos, não conseguiram levá-los a temer diante do Senhor. Só quando a palavra de Deus foi enviada para explicar seus atos de providência é que temeram.
Repare: O santo temor de Deus terá grande influência em nossa obediência a ele. Sirvam ao Senhor com temor; se não o temermos, não o serviremos.
- O Senhor despertou o espírito deles (v. 14). (1.) Ele os moveu ao dever e pôs no coração deles o desejo de cumpri-lo.
Repare: A palavra de Deus alcança seu propósito quando, por sua graça, ele desperta nosso espírito para obedecer a ela. Sem essa graça, continuaríamos entorpecidos e totalmente avessos a tudo o que é bom. É no dia em que o poder divino atua que nos tornamos dispostos.
(2.) Ele os encorajou em seu dever e, por meio desses encorajamentos, alargou-lhes o coração (Salmos 119:32). Ao ouvirem a palavra, temeram. Mas, para que não sucumbissem ao peso desse temor, Deus os despertou e lhes deu alegria e coragem para enfrentar as dificuldades que poderiam encontrar.
Repare: Quando Deus tem uma obra a realizar, encontrará ou preparará homens aptos para fazê-la e os despertará para isso.
- Aplicaram-se à obra com todo o vigor possível: vieram e trabalharam na casa do Senhor dos Exércitos, seu Deus. Cada um, conforme suas condições ou habilidades, contribuiu de algum modo para promover aquela boa obra.
Fizeram-no tendo em vista Deus como Senhor dos Exércitos e como seu Deus, o Deus de Israel. A consideração do domínio soberano de Deus no mundo por sua providência e de sua relação de aliança com o povo por sua graça deve despertar nosso espírito para agir por ele e promover os interesses do seu reino entre os homens com todas as nossas forças.
- Fizeram isso prontamente. Ageu lhes pregara esse sermão no primeiro dia do sexto mês. No vigésimo quarto dia do mesmo mês, pouco mais de três semanas depois, já estavam todos ocupados na obra da casa do Senhor, seu Deus (v. 15).
Para mostrar que se envergonhavam das demoras anteriores, agora, convencidos e chamados, decidiram não adiar mais. Resolveram agir enquanto o ferro estava quente e iniciar a obra enquanto estavam sob o efeito da convicção.
Repare: Os que perderam tempo precisam recuperá-lo. Quanto mais nos demoramos naquilo que é bom, mais pressa devemos ter ao nos convencermos de nossa insensatez.
II. Como Deus veio ao encontro deles com misericórdia. O mesmo profeta que lhes trouxe a censura também lhes trouxe uma palavra muito consoladora e animadora (v. 13): “Então Ageu, mensageiro do Senhor, falou na mensagem do Senhor”, em seu nome e como vindo dele: “Estou com vocês, diz o Senhor”.
Isso é tudo o que ele tem a dizer, e basta. Assim também basta aquela palavra de Cristo aos discípulos (Mateus 28:20): “Eis que estou com vocês sempre, até o fim do mundo”.
“Estou com vocês”, isto é: “Perdoarei sua negligência até aqui, e ela não será lembrada contra vocês. Removerei os juízos que sofreram por causa dela e agirei em seu favor, assim como por meio deles agi contra vocês.”
“Estou com vocês para protegê-los dos inimigos que querem o mal de sua obra, para fazê-los prosperar e dar-lhes sucesso nela. Estou com vocês para fortalecer suas mãos e abençoar a obra delas. Sem essa bênção, os que constroem trabalham em vão.”
Repare: Os que trabalham para Deus têm Deus com eles. Se ele é por nós, quem pode ser contra nós? Se está conosco, que dificuldade pode resistir diante de nós?