2 Timóteo 1
Argumento
Segunda a Timóteo
Completado por Benjamin Andrews Atkinson.
UMA
EXPOSIÇÃO
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS
DA SEGUNDA EPÍSTOLA DE SÃO PAULO A
TIMÓTEO.
Paulo escreveu esta segunda epístola a Timóteo de Roma, quando estava preso ali e em perigo de vida; isso fica evidente por estas palavras: “Já estou pronto para ser oferecido, e o tempo da minha partida está próximo”, 2 Timóteo 4:6.
Parece que sua saída deste mundo, a seu próprio ver, não estava distante, sobretudo em vista da fúria e da maldade de seus perseguidores; e que ele havia sido levado perante o imperador Nero, o que chama de sua primeira defesa, quando ninguém ficou ao seu lado, mas todos o abandonaram, 2 Timóteo 4:16.
E os intérpretes concordam que esta foi a última epístola que ele escreveu. Não se sabe ao certo onde Timóteo estava então. O alcance desta epístola difere um pouco do da anterior, não se relacionando tanto com seu ofício de evangelista quanto com sua conduta e comportamento pessoais.
Depois da introdução (v. 1, 2), temos: I. O amor sincero de Paulo por Timóteo, vv. 3-5. II. Diversas exortações dirigidas a ele, vv. 6-14. III. Ele fala de Figelo e Hermógenes, entre outros, e encerra com Onesíforo, do v. 15 até o fim.
Versículos 1 a 5
Introdução; a Fé e a Santidade de Timóteo. (66 d.C.)
Aqui está: I. A inscrição da epístola: Paulo se chama apóstolo pela vontade de Deus, unicamente pelo beneplácito de Deus e por sua graça, da qual se declara indigno. Segundo a promessa da vida que está em Cristo Jesus, ou segundo o evangelho.
O evangelho é a promessa da vida em Cristo Jesus; a vida é o fim, e Cristo, o caminho, João 14:6. A vida está incluída na promessa, e ambas são certas em Cristo Jesus, a testemunha fiel; pois todas as promessas de Deus em Cristo Jesus são sim e todas amém, 2 Coríntios 1:20.
Ele chama Timóteo de seu amado filho. Paulo sentia por ele o mais caloroso afeto, tanto por ter sido instrumento de sua conversão quanto porque, como filho com o pai, ele havia servido com Paulo no evangelho.
Observe: 1. Paulo era apóstolo de Jesus Cristo pela vontade de Deus; assim como não recebeu nem aprendeu o evangelho de homem, mas o recebeu pela revelação de Jesus Cristo (Gálatas 1:12), assim sua comissão para ser apóstolo não veio da vontade do homem, mas de Deus.
Na epístola anterior, diz que foi pelo mandamento de Deus, nosso Salvador, e aqui, pela vontade de Deus. Deus o chamou para ser apóstolo.
Temos a promessa da vida; bendito seja Deus por ela: “Na esperança da vida eterna, a qual Deus, que não pode mentir, prometeu antes do início do mundo”, Tito 1:2. É uma promessa que revela sua gratuidade e certeza.
Esta, como todas as outras promessas, está em Jesus Cristo e vem por meio dele; todas têm origem na misericórdia de Deus em Cristo e são certas, de modo que podemos depender delas com segurança.
A graça, a misericórdia e a paz, de que até Timóteo, o filho muito amado de Paulo, precisava, vêm de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor; portanto, tanto um quanto o outro são os doadores dessas bênçãos e a ambos devemos recorrer para recebê-las.
Os melhores precisam dessas bênçãos, e elas são o melhor que podemos pedir para nossos amigos muito amados: que tenham graça para ajudá-los no tempo da necessidade e misericórdia para perdoar o que estiver errado, e assim tenham paz com Deus Pai e com Cristo Jesus, nosso Senhor.
II. A ação de graças de Paulo a Deus pela fé e santidade de Timóteo: ele agradece a Deus por se lembrar de Timóteo em suas orações. Observe: seja qual for o bem que fizermos e o bom serviço que prestarmos aos nossos amigos, Deus deve receber a glória por isso, e devemos dar-lhe graças.
É ele quem põe em nosso coração lembrar desta ou daquela pessoa em nossas orações. Paulo se dedicava muito à oração; orava de noite e de dia; em todas as suas orações, lembrava-se de seus amigos, orava particularmente pelos bons ministros, orava por Timóteo e se lembrava dele em suas orações noite e dia.
Fazia isso sem cessar; a oração era sua ocupação constante, e ele nunca se esquecia de seus amigos em suas orações, como nós tantas vezes fazemos. Paulo servia a Deus desde os seus antepassados com consciência pura.
Era-lhe um consolo ter nascido na casa de Deus e pertencer à descendência daqueles que serviam a Deus; também era um consolo ter servido a Deus com consciência pura, segundo o melhor de sua luz; havia conservado uma consciência sem ofensa e fazia disso seu exercício diário, Atos 24:16.
Ele desejava muito ver Timóteo, pelo afeto que tinha por ele, para poder ter alguma comunhão com ele, lembrando-se de suas lágrimas na última despedida. Timóteo lamentou separar-se de Paulo e chorou ao despedir-se; por isso, Paulo desejava vê-lo de novo, pois tinha percebido nisso o verdadeiro afeto que Timóteo lhe dedicava.
Ele agradece a Deus porque Timóteo conservou a religião de seus antepassados, v. 5. Observe: a herança da religião chegou a Timóteo pelo lado materno; ele tinha uma boa mãe e uma boa avó: elas criam, embora seu pai não cresse, Atos 16:1.
É motivo de consolo quando os filhos imitam a fé e a santidade de seus pais piedosos e seguem seus passos, 3 João 1:4. “Habitou em tua avó e em tua mãe, e estou persuadido de que também em ti.” Paulo tinha uma opinião muito generosa de seus amigos e estava bem disposto a esperar o melhor a respeito deles.
De fato, tinha muitos motivos para pensar bem de Timóteo, pois não tinha ninguém de igual ânimo, Filipenses 2:20. Observe: 1. Segundo São Paulo, devemos servir a Deus com consciência pura, como faziam os antepassados piedosos dele e os nossos; isso é aproximar-se com coração verdadeiro, em plena certeza da fé, tendo nosso coração aspergido de uma má consciência, Hebreus 10:22.
Em nossas orações, devemos nos lembrar sem cessar dos nossos amigos, especialmente dos ministros fiéis de Cristo. Paulo se lembrava de seu filho muito amado Timóteo nas orações, noite e dia.
A fé que habita nos verdadeiros crentes é não fingida; não tem hipocrisia, é uma fé que resiste à prova e habita neles como princípio vivo. A fé que Timóteo herdara de sua mãe Eunice e de sua avó Loide era motivo da ação de graças de Paulo, e deve ser também da nossa sempre que virmos algo semelhante.
Devemos nos alegrar onde quer que vejamos a graça de Deus; assim fez Barnabé, Atos 11:23, 24. “Alegrei-me muito por encontrar alguns de teus filhos andando na verdade”, 2 João 1:4.
Versículos 6 a 14
Advertências e Exortações; Fidelidade Ministerial. (66 d.C.)
Aqui há uma exortação e um estímulo para que Timóteo cumpra seu dever (v. 6): “Eu te lembro.” Os melhores homens precisam de quem os faça lembrar; devemos ser lembrados daquilo que sabemos. Em 2 Pedro 3:1, escrevo isto para despertar pela lembrança a mente pura de vocês.
I. Ele o exorta a avivar o dom de Deus que havia nele. Avive-o como se aviva o fogo sob as brasas. Refere-se a todos os dons e graças que Deus lhe havia dado para qualificá-lo para a obra de evangelista, os dons do Espírito Santo, os dons extraordinários conferidos pela imposição das mãos do apóstolo.
Ele deve avivá-los; deve exercê-los e assim aumentá-los: use os dons e terá dons. “Àquele que tem será dado”, Mateus 25:29. Deve aproveitar todas as oportunidades para usar esses dons e assim avivá-los, pois esse é o melhor modo de aumentá-los.
Fosse o dom de Deus em Timóteo comum ou extraordinário (embora eu me incline à segunda hipótese), ele deve avivá-lo; caso contrário, o dom decairia. Além disso, você vê que esse dom estava nele pela imposição das mãos do apóstolo, o que considero distinto de sua ordenação, pois esta foi realizada pelas mãos do presbitério, 1 Timóteo 4:14.
É provável que Timóteo tenha recebido o Espírito Santo, em seus dons e graças extraordinários, pela imposição das mãos do apóstolo (pois considero que ninguém além dos apóstolos tinha o poder de conferir o Espírito Santo) e que, depois, assim ricamente capacitado para a obra do ministério, tenha sido ordenado pelo presbitério.
Observe: 1. O grande impedimento para a utilidade no aumento de nossos dons é o medo servil. Por isso, Paulo adverte Timóteo contra ele: “Deus não nos deu o espírito de temor”, v. 7. Foi por medo vil que o servo mau enterrou seu talento e não negociou com ele, Mateus 25:25.
Ora, por isso Deus nos armou contra o espírito de temor ao nos ordenar muitas vezes que não temamos. “Não tema a face do homem; não tema os perigos que você possa encontrar no caminho de seu dever.” Deus nos libertou do espírito de temor e nos deu o espírito de poder, de amor e de mente sã.
O espírito de poder, ou de coragem e resolução para enfrentar dificuldades e perigos; o espírito de amor a Deus, que nos fará atravessar a oposição que possamos encontrar, assim como Jacó não fez caso do serviço árduo que teria de suportar por Raquel: o espírito de amor a Deus nos elevará acima do temor do homem e de todo o prejuízo que um homem possa nos causar.
E o espírito de mente sã, ou de tranquilidade mental, um desfrute pacífico de nós mesmos; pois muitas vezes somos desanimados em nosso caminho e trabalho pelas invenções de nossa própria fantasia e imaginação, as quais uma mente sóbria, firme e reflexiva evitaria e às quais responderia facilmente.
- O espírito que Deus dá a seus ministros não é medroso, mas corajoso; é um espírito de poder, pois eles falam em nome daquele que tem todo o poder, tanto no céu quanto na terra; é um espírito de amor, pois o amor a Deus e às almas dos homens deve inflamar os ministros em todo o seu serviço; e é um espírito de mente sã, pois eles falam palavras de verdade e sensatez.
II. Ele o exorta a contar com aflições e a preparar-se para elas: “Portanto, não te envergonhes do testemunho de nosso Senhor, nem de mim, seu prisioneiro.” Não se envergonhe do evangelho, do testemunho que você deu dele. Observe:
- O evangelho de Cristo é algo de que nenhum de nós tem razão para se envergonhar. Não devemos nos envergonhar daqueles que sofrem pelo evangelho de Cristo. Timóteo não deve se envergonhar do bom e velho Paulo, embora ele estivesse então preso.
Assim como ele próprio não deve temer sofrer, também não deve temer reconhecer aqueles que sofrem pela causa de Cristo. (1.) O evangelho é o testemunho de nosso Senhor; nele e por meio dele, o Senhor dá testemunho de si a nós e, ao professarmos nossa adesão a ele, damos testemunho do Senhor e em favor dele.
(2.) Paulo era prisioneiro do Senhor, seu prisioneiro, Efésios 4:1. Por causa dele, estava preso por uma corrente. (3.) Não temos razão para nos envergonhar nem do testemunho de nosso Senhor nem de seus prisioneiros; se agora nos envergonharmos de um ou de outro, Cristo se envergonhará de nós no futuro.
“Mas participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus”, isto é, espere aflições por causa do evangelho, prepare-se para elas, conte com elas e esteja disposto a partilhar a sorte dos santos que sofrem neste mundo. “Participa das aflições do evangelho”; ou, como se pode ler: sofra com o evangelho.
“Não apenas tenha compaixão dos que sofrem por ele, mas esteja pronto a sofrer com eles e a sofrer como eles.” Se em algum momento o evangelho estiver em dificuldade, aquele que espera receber por ele vida e salvação se contentará em sofrer com ele.
Observe: [1.] Então teremos probabilidade de também suportar as aflições, quando buscarmos em Deus a força e o poder que nos capacitem a suportá-las: “Participa das aflições do evangelho, segundo o poder de Deus.” [2.] Todos os cristãos, mas especialmente os ministros, devem esperar aflições e perseguições por causa do evangelho.
[3.] Estas serão proporcionais ao poder de Deus (1 Coríntios 10:13) que repousa sobre nós.
- Ao mencionar Deus e o evangelho, ele repara em quão grandes coisas que Deus fez por nós por meio do evangelho, v. 9, 10. Para animá-lo a sofrer, apresenta duas considerações:
(1.) A natureza do evangelho pelo qual ele foi chamado a sofrer e os gloriosos e graciosos desígnios e propósitos desse evangelho. É comum Paulo, quando menciona Cristo e o evangelho de Cristo, desviar-se do assunto e estender-se sobre eles; tão cheio estava daquilo que é toda a nossa salvação e deve ser todo o nosso desejo. Observe:
[1.] O evangelho visa à nossa salvação: Ele nos salvou, e não devemos considerar excessivo sofrer por aquilo mediante o qual esperamos ser salvos. Ele começou a nos salvar e completará a salvação no tempo devido; pois Deus chama as coisas que não são (que ainda não estão completas) como se fossem (Romanos 4:17); por isso ele diz: que nos salvou.
[2.] Ele se destina à nossa santificação: “E nos chamou com uma santa vocação”, chamou-nos à santidade. O cristianismo é uma vocação, uma santa vocação; é a vocação com a qual somos chamados, a vocação à qual somos chamados para nela trabalhar.
Observe: todos os que serão salvos no futuro são santificados agora. Sempre que o chamado do evangelho é eficaz, revela-se um chamado santo, que torna santos aqueles que são eficazmente chamados.
[3.] Sua origem é a graça gratuita e o propósito eterno de Deus em Cristo Jesus. Se o tivéssemos merecido, teria sido difícil sofrer por ele; mas nossa salvação por meio dele provém da graça gratuita, e não de nossas obras; portanto, não devemos considerar excessivo sofrer por ele.
Diz-se que essa graça nos foi dada antes do início do mundo, isto é, no propósito e nos desígnios de Deus desde toda a eternidade; em Cristo Jesus, pois todos os dons que vêm de Deus ao homem pecador vêm em Cristo Jesus e por meio dele.
[4.] O evangelho é a manifestação desse propósito e dessa graça: “Pelo aparecimento de nosso Salvador Jesus Cristo”, que estivera no seio do Pai desde a eternidade e conhecia perfeitamente todos os seus graciosos propósitos. Por seu aparecimento, esse gracioso propósito nos foi manifestado. Jesus Cristo sofreu por ele, e nós consideraremos excessivo sofrer por ele?
[5.] Pelo evangelho de Cristo, a morte foi abolida: ele aboliu a morte, não apenas a enfraqueceu, mas a tirou do caminho; quebrou o poder da morte sobre nós. Ao tirar o pecado, aboliu a morte (pois “o aguilhão da morte é o pecado”, 1 Coríntios 15:56), mudando seu caráter e quebrando seu poder.
A morte, antes inimiga, tornou-se agora amiga; é a porta pela qual saímos de um mundo trabalhoso, aflitivo e pecaminoso para um mundo de perfeita paz e pureza. E seu poder foi quebrado, pois a morte não triunfa sobre os que creem no evangelho; mas eles triunfam sobre ela. “Ó morte! Onde está teu aguilhão? Ó sepultura! Onde está tua vitória?”, 1 Coríntios 15:55.
[6.] Ele trouxe à luz a vida e a imortalidade pelo evangelho; mostrou-nos outro mundo com mais clareza do que fora anteriormente revelado sob qualquer dispensação anterior, bem como a felicidade desse mundo e a recompensa certa de nossa obediência pela fé: todos nós, de rosto descoberto, contemplamos como num espelho a glória de Deus.
Ele o trouxe à luz: não apenas o colocou diante de nós, mas o ofereceu a nós pelo evangelho. Valorizemos o evangelho mais do que nunca, pois é por ele que a vida e a imortalidade são trazidas à luz; nisso ele tem preeminência sobre todas as revelações anteriores.
Assim, é o evangelho da vida e da imortalidade, pois as revela a nós, dirige-nos pelo caminho direto que leva até elas assim como nos propõe os motivos mais importantes para estimular nossos esforços na busca da glória, da honra e da imortalidade.
(2.) Considere o exemplo do bendito Paulo, v. 11, 12. Ele foi designado para pregar o evangelho e, particularmente, para ensinar aos gentios. Considerava essa causa digna de sofrer por ela; e por que Timóteo não deveria pensar o mesmo?
Ninguém precisa temer nem se envergonhar de sofrer pela causa do evangelho: “Não me envergonho”, diz Paulo, “porque sei em quem tenho crido e estou persuadido de que ele é poderoso para guardar o que lhe confiei até aquele dia.” Observe:
[1.] Os homens bons muitas vezes sofrem muitas coisas pela melhor causa do mundo: “Por esta causa sofro estas coisas”; isto é, “por minha pregação e adesão ao evangelho”. [2.] Eles não precisam se envergonhar; a causa lhes dará amparo, mas os que se opõem a ela serão cobertos de vergonha.
[3.] Os que confiam em Cristo sabem em quem confiaram. O apóstolo fala com santo triunfo e exultação, como se dissesse: “Estou em terreno firme. Sei que depositei o grande bem confiado nas mãos do melhor depositário.” “E estou persuadido”, etc.
O que devemos confiar a Cristo? A salvação de nossas almas e a preservação delas para o reino celestial; e o que assim lhe confiarmos ele guardará. Virá um dia em que nossas almas serão requeridas: “Homem! Mulher! Uma alma lhe foi confiada; o que você fez com ela? A quem foi oferecida, a Deus ou a Satanás? Como foi empregada, no serviço do pecado ou no serviço de Cristo?”
Virá um dia, e será um dia muito solene e temível, em que deveremos prestar contas de nossa administração (Lucas 16:2), prestar contas de nossas almas. Ora, se por uma fé ativa e obediente a confiarmos a Jesus Cristo, podemos estar certos de que ele é capaz de guardá-la e ela será apresentada para nosso consolo naquele dia.
III. Ele o exorta a conservar o modelo das palavras sãs, v. 13.
Tenha um modelo de palavras sãs (assim se pode ler), um modelo breve, um catecismo, uma síntese dos primeiros princípios da religião segundo as Escrituras, um esquema de palavras sãs, um breve resumo da fé cristã em ordem adequada, extraído por você mesmo das santas Escrituras para seu próprio uso; ou melhor, entendo por modelo de palavras sãs as próprias santas Escrituras.
Tendo-o, conserve-o, lembre-se dele, retenha-o, permaneça fiel a ele. Permaneça fiel a ele contra todas as heresias e falsas doutrinas que corrompem a fé cristã. Conserve o que você ouviu de mim. Paulo era divinamente inspirado.
É bom permanecer fiel aos modelos de palavras sãs que temos nas Escrituras; pois sabemos com certeza que estas foram divinamente inspiradas. Essa é a “linguagem sã, que não pode ser condenada”, Tito 2:8. Mas como deve ser conservada? Com fé e amor; isto é, devemos dar-lhe nosso assentimento como palavra fiel e acolhê-la como digna de toda aceitação.
Conserve-a em bom coração; esta é a arca da aliança, na qual as tábuas tanto da lei quanto do evangelho são guardadas com a maior segurança e proveito, Salmos 119:11. Fé e amor devem andar juntos; não basta crer nas palavras sãs e dar-lhes assentimento, mas devemos amá-las, crer em sua verdade e amar sua bondade.
E devemos propagar o modelo de palavras sãs com amor; “falando a verdade em amor”, Efésios 4:15. Fé e amor que estão em Cristo Jesus; devem ser fé e amor cristãos, fé e amor firmados em Jesus Cristo, em quem e por meio de quem Deus nos fala e nós falamos a ele.
Timóteo, como ministro, deve conservar o modelo das palavras sãs para o benefício dos outros. Palavras que curam, assim se pode ler; há virtude curadora na palavra de Deus: ele enviou sua palavra e os curou.
Tem o mesmo sentido o que se lê no v. 14: “Aquela coisa boa que te foi confiada, guarda-a pelo Espírito Santo que habita em nós.” Aquela coisa boa era o modelo das palavras sãs, a doutrina cristã, confiada a Timóteo em seu batismo e sua educação como cristão e em sua ordenação como ministro. Observe:
(1.) A doutrina cristã é um bem confiado a nós. É confiada aos cristãos em geral, mas especialmente aos ministros. É algo bom, de valor indescritível em si mesmo e que nos trará benefício indescritível; é de fato algo bom, uma joia inestimável, pois nos revela “as riquezas insondáveis de Cristo”, Efésios 3:8.
Ela nos é confiada para ser preservada pura e inteira e transmitida aos que virão depois de nós; devemos guardá-la e em nada contribuir para corromper sua pureza, enfraquecer seu poder ou diminuir sua perfeição: guarde-a pelo Espírito Santo que habita em nós.
Observe: mesmo aqueles que são muito bem instruídos não conseguem guardar o que aprenderam, assim como não conseguiram aprendê-lo de início, sem o auxílio do Espírito Santo. Não devemos pensar que podemos guardá-la com nossas próprias forças, mas devemos guardá-la pelo Espírito Santo.
(2.) O Espírito Santo habita em todos os bons ministros e cristãos; eles são seus templos, e ele os capacita a manter o evangelho puro e incorrupto. Ainda assim, eles devem empregar seus melhores esforços para guardar essa coisa boa, pois o auxílio e a habitação do Espírito Santo não excluem os esforços humanos; antes, ambos se harmonizam muito bem.
Versículos 15 a 18
Firmeza Ministerial. (66 d.C.)
Tendo (v. 13, 14) exortado Timóteo a conservar firmemente:
I. Ele menciona a apostasia de muitos da doutrina de Cristo, v. 15. Parece que, nas melhores e mais puras épocas da igreja, havia pessoas que tinham abraçado a fé cristã e, ainda assim, depois se afastaram dela; ou melhor, havia muitas pessoas assim.
Ele não diz que elas se desviaram da doutrina de Cristo (embora pareça que o fizeram), mas que se afastaram dele, viraram-lhe as costas e o repudiaram no tempo de sua angústia. E deveríamos nos espantar disso, quando muitos viraram as costas a alguém muito superior a Paulo? Refiro-me ao Senhor Jesus Cristo, João 6:66.
II. Ele menciona a constância de alguém que permaneceu ao seu lado, a saber, Onesíforo: “Pois muitas vezes me revigorou e não se envergonhou de minha corrente”, v. 16. Observe: 1. A bondade que Onesíforo demonstrou a Paulo: ele o revigorou, muitas vezes o revigorou com suas cartas, conselhos e consolações, e não se envergonhou de suas correntes.
Não se envergonhou dele, apesar da desonra sob a qual Paulo se encontrava. Foi bondoso com ele não uma ou duas vezes, mas muitas; não apenas quando Paulo estava em Éfeso, entre seus próprios amigos, mas também quando Onesíforo esteve em Roma: tomou cuidado de procurar Paulo com muita diligência e o encontrou, v. 17.
Observe: o homem bom buscará oportunidades de fazer o bem e não evitará nenhuma que se apresente. Em Éfeso, Onesíforo o havia servido e tratado com muita bondade: Timóteo sabia disso. 2. Como Paulo retribui sua bondade, vv. 16-18. Quem recebe um profeta terá recompensa de profeta.
Ele o retribui com suas orações: que o Senhor conceda misericórdia a Onesíforo. É provável que Onesíforo estivesse então ausente de casa e em companhia de Paulo; por isso, Paulo ora para que sua casa seja guardada durante sua ausência.
Os papistas, porém, insistem em que Onesíforo já estava morto e, a partir da oração de Paulo para que ele encontrasse misericórdia, concluem ser legítimo orar pelos mortos; mas quem lhes disse que Onesíforo estava morto? E pode ser seguro fundamentar uma doutrina e uma prática de tamanha importância em mera suposição e tão grande incerteza?
III. Ele ora pelo próprio Onesíforo, assim como por sua casa: que encontre misericórdia naquele dia, no dia da morte e do juízo, quando Cristo considerará todos os bons serviços prestados a seus membros pobres como prestados a ele mesmo. Observe: 1. O dia da morte e do juízo é um dia temível e pode, com ênfase, ser chamado aquele dia.
Não precisamos desejar mais nada para sermos felizes do que encontrar misericórdia da parte do Senhor naquele dia, quando os que não mostraram misericórdia receberão juízo sem misericórdia. 3. Os melhores cristãos precisarão de misericórdia naquele dia; “esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo”, Judas 1:21.
Se você quiser misericórdia naquele dia, deve buscá-la agora do Senhor. 5. É do Senhor e da parte do Senhor que devemos receber misericórdia; pois, a menos que o Senhor tenha misericórdia de nós, serão vãs a pena e a compaixão dos homens ou dos anjos.
Devemos buscar e pedir misericórdia ao Senhor, que a dá e concede; pois o Senhor Jesus Cristo satisfez a justiça para que a misericórdia pudesse ser manifestada. Devemos nos aproximar do trono da graça para obter misericórdia e encontrar graça que nos ajude no tempo da necessidade.
O melhor que podemos buscar, seja para nós mesmos, seja para nossos amigos, é que o Senhor lhes conceda encontrar misericórdia da parte do Senhor naquele dia, quando deverão passar do tempo para a eternidade, trocar este mundo pelo outro e comparecer perante o tribunal de Cristo.
Que o Senhor conceda, então, a todos nós encontrar misericórdia da parte do Senhor naquele dia.