2 Samuel 1
Argumento
2 Samuel
UMA
EXPOSIÇÃO,
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS,
DO SEGUNDO LIVRO DE
SAMUEL.
Este livro relata a história do reinado do rei Davi. No livro anterior, tivemos um relato de sua designação para o governo e de suas lutas contra Saul, que afinal terminaram com a morte de seu perseguidor.
Este livro começa com sua ascensão ao trono e se ocupa inteiramente dos assuntos de seu governo durante os quarenta anos em que reinou; por isso, a Septuaginta lhe dá o título de Terceiro Livro dos Reis.
O livro relata os triunfos e as aflições de Davi. I. Seus triunfos sobre a casa de Saul (2 Samuel 1-4), sobre os jebuseus e os filisteus (2 Samuel 5), no traslado da arca (2 Samuel 6; 7) e sobre as nações vizinhas que se opunham a ele (2 Samuel 8-10). Até esse ponto, a história corresponde ao que poderíamos esperar do caráter de Davi e da escolha que Deus fez dele.
Mas sua nuvem também tem um lado sombrio. II. Temos suas aflições e as causas delas: seu pecado no caso de Urias (2 Samuel 11; 12), as aflições decorrentes do pecado de Amnom (2 Samuel 13), a rebelião de Absalão (2 Samuel 14-19) e a de Seba (2 Samuel 20), além da peste em Israel por ele ter recenseado o povo (2 Samuel 24) e da fome por causa dos gibeonitas (2 Samuel 21).
Temos seu cântico (2 Samuel 22) e suas palavras e seus valentes (2 Samuel 23). Muitas coisas em sua história são muito instrutivas. Quanto ao herói que é o tema dela, embora em muitos casos se mostre muito grandioso, muito bom e muito favorecido pelo céu, deve-se admitir que sua honra brilha mais em seus Salmos do que em seus anais.
No encerramento do livro anterior — ao qual este se liga como continuação da mesma história —, vimos o fim de Saul: desceu morto à sepultura, embora tivesse sido o terror dos poderosos na terra dos viventes. Agora voltamos os olhos para o sol nascente e perguntamos onde está Davi e o que faz.
Neste capítulo temos: I. Um amalequita lhe traz a Ziclague notícias da morte de Saul e Jônatas e se dispõe a narrá-la em detalhes (vv. 1-10). II. A recepção dolorosa que Davi dá a essas notícias (v. 11, 12).
III. A justiça feita ao mensageiro, que se gabou de ter ajudado Saul a tirar a própria vida (vv. 13-16). IV. A elegia que Davi compôs nessa ocasião (vv. 17-27). Em tudo isso, Davi se mostra admiravelmente livre tanto de vingança quanto de ambição e mantém uma conduta muito apropriada.
Versículos 1 a 10
A Preocupação de Davi com o Destino de Saul. (a.C. 1055.)
Aqui está: I. Davi voltou a estabelecer-se em Ziclague, sua cidade, depois de resgatar a família e os amigos das mãos dos amalequitas (v. 1): “Habitou em Ziclague.” De lá enviava presentes aos amigos (1 Samuel 30:26) e estava pronto para receber os que se juntassem a seus interesses.
Não eram homens aflitos e endividados, como os primeiros que o seguiram, mas pessoas de posição em seu país, homens valentes, guerreiros e capitães de milhares (como vemos em 1 Crônicas 12:1, 8, 20). Eles vinham a Davi dia após dia, pois Deus movia o coração deles, até que Davi reuniu um grande exército, como o exército de Deus (1 Crônicas 12:22).
As causas secretas das revoluções são inexplicáveis e devem ser atribuídas à Providência que dirige todos os corações como correntes de água.
II. Chegou-lhe ali a notícia da morte de Saul. É estranho que Davi não tivesse deixado espiões perto do acampamento para lhe trazerem cedo notícias do resultado da batalha.
Isso mostra que não desejava o dia calamitoso de Saul nem estava impaciente para subir ao trono; esperava que as notícias lhe chegassem, embora muitos teriam enviado alguém mais da metade do caminho ao encontro delas.
Quem crê não se apressa: recebe as boas notícias quando chegam e não se inquieta enquanto estão a caminho. 1. O mensageiro apresenta-se a Davi como mensageiro especial, com a postura de quem lamenta o príncipe falecido e é súdito do sucessor.
Chegou com as roupas rasgadas e prostrou-se diante de Davi (v. 2), satisfeito com a ideia de ter a honra de ser o primeiro a prestar homenagem a seu soberano. Mas acabou sendo o primeiro a receber dele a sentença de morte, como juiz.
Disse a Davi que vinha do acampamento de Israel e deu a entender a situação ruim em que se encontrava ao dizer que escapara dali, tendo conseguido sair com vida por pouco (v. 3).
- Deu-lhe um relato geral do resultado da batalha. Davi desejava muito saber como as coisas tinham terminado, pois tinha mais motivos que qualquer outro para se preocupar com o bem público.
O mensageiro contou-lhe claramente que o exército de Israel fora derrotado, que muitos tinham morrido e que Saul e Jônatas estavam entre eles (v. 4). Mencionou apenas Saul e Jônatas porque sabia que Davi teria mais interesse em saber o destino deles: Saul era o homem que mais temia, e Jônatas, o que mais amava.
- Deu-lhe um relato mais específico da morte de Saul. É provável que Davi já tivesse ouvido de outras pessoas o resultado da guerra, pois parece que muitos foram procurá-lo por causa disso.
Mas queria ter certeza da notícia sobre Saul e Jônatas, seja porque relutava em crer nela, seja porque não queria reivindicar para si o trono sem estar plenamente certo. Por isso perguntou: “Como sabes que Saul e Jônatas morreram?”
Em resposta, o jovem lhe contou uma história bem pronta, eliminando toda dúvida de que Saul estava morto: ele próprio não só testemunhara a morte, como também fora seu instrumento; Davi, portanto, podia confiar em seu relato.
Nada contou sobre a morte de Jônatas, pois sabia como isso seria doloroso para Davi. Explicou apenas a morte de Saul, pensando — como Davi entendeu muito bem (2 Samuel 4:10) — que seria bem recebido por isso e recompensado como portador de boas notícias.
(1.) Seu relato era muito detalhado. Disse que, por acaso, fora ao lugar onde Saul estava (v. 6), como viajante, não como soldado, e, portanto, sem tomar partido. Encontrou Saul tentando atravessar-se com a própria lança, pois nenhum de seus acompanhantes quis fazê-lo por ele.
Ao que parece, Saul não conseguia fazê-lo com precisão: faltavam-lhe força na mão e coragem no coração. O infeliz não tinha ânimo suficiente para viver nem para morrer. Por isso chamou o estrangeiro (v. 7) e perguntou de que país era.
Contanto que não fosse filisteu, receberia de bom grado, por sua mão, o coup de grâce — como dizem os franceses daqueles que são quebrados na roda —, o golpe de misericórdia que o livraria da dor.
Ao saber que era amalequita, nem súdito nem inimigo seu, pediu-lhe esse favor (v. 9): “Põe-te sobre mim e mata-me.” Agora estava cansado de sua dignidade e disposto a ser pisado; cansado da vida e disposto a morrer.
Quem, então, teria apego desmedido à vida ou à honra? Até os que não têm esperança na morte podem desejar morrer, e a morte fugir deles (Apocalipse 9:6).
“Angústia me tomou”, lemos, como queixa da dor e do terror que se apoderaram de seu espírito. Se a consciência lhe trouxe à memória a lança que atirara contra Davi, seu orgulho, malícia e traição, sobretudo o assassinato dos sacerdotes, não admira que a angústia o tomasse. Dizem que as toupeiras abrem os olhos quando estão morrendo.
A consciência da culpa não perdoada fará da morte, de fato, o rei dos terrores. Quem sufocou suas convicções talvez seja vencido por elas nos momentos finais.
A margem entende o texto como queixa sobre a roupa: a couraça, que usava para se defender, ou a túnica bordada, que usava para se adornar, o atrapalhava e não o deixava introduzir a lança o bastante no corpo; ou, agora que o corpo inchava de angústia, apertava-o a ponto de impedi-lo de expirar.
Que ninguém tenha orgulho de suas roupas, pois elas podem tornar-se peso e armadilha. “Então”, disse o jovem, “pus-me sobre ele e o matei” (v. 10). Talvez, ao dizer isso, tenha visto Davi olhar para ele com algum desagrado e, por isso, justificou-se em seguida:
“Eu tinha certeza de que ele não podia viver. Ainda lhe restava vida, mas certamente cairia nas mãos dos filisteus ou desferiria outro golpe contra si.”
(2.) É duvidoso que essa história seja verdadeira. Se for, devemos reconhecer a justiça de Deus: Saul, que poupou os amalequitas em desprezo ao mandamento divino, recebeu de um amalequita o golpe mortal.
Mas a maioria dos intérpretes pensa que era falsa e que, embora talvez estivesse presente, o jovem não ajudou a matar Saul; contou isso a Davi esperando ser recompensado por lhe ter prestado um serviço.
Quem se alegraria com a queda de um inimigo tende a medir os outros por si mesmo e pensa que também se alegrarão. Mas não se deve julgar o homem segundo o coração de Deus pelos padrões das pessoas comuns.
Não tenho certeza se a história do jovem era verdadeira. Ela pode concordar com o relato do capítulo anterior e acrescentar-lhe algo, assim como o relato de Pedro sobre a morte de Judas (Atos 1:18) complementa o de Mateus 27:5.
O que ali se chama espada pode aqui ser chamado lança; ou, ao cair sobre a espada, Saul pode ter-se apoiado na lança.
(3.) De todo modo, ele apresentou prova suficiente da morte de Saul: a coroa que estava em sua cabeça e o bracelete em seu braço. Ao que parece, Saul era tão insensatamente apegado a esses adornos que os usava no campo de batalha, tornando-se alvo fácil para os arqueiros por se distinguir dos que o cercavam.
Mas, assim como se diz que o orgulho não sente frio, também não teme o perigo causado por aquilo que o satisfaz. Esses objetos caíram nas mãos do amalequita.
Saul poupara o melhor dos despojos deles; agora o melhor do que era seu foi parar nas mãos de alguém daquela nação condenada. O jovem os levou a Davi, seu legítimo dono agora que Saul estava morto, certo de que, com esse excesso de solicitude, seria recomendado aos melhores cargos na corte ou no acampamento de Davi.
Segundo a tradição judaica, esse amalequita era filho de Doeg — pois os amalequitas descendiam de Edom — e Doeg, que supõem ter sido o escudeiro de Saul, deu ao filho a coroa e o bracelete, insígnias da realeza, antes de o próprio Doeg se matar, mandando-o levá-los a Davi para conquistar-lhe o favor.
Mas essa é uma conjectura sem fundamento. É provável que o filho de Doeg fosse tão conhecido de Saul que este não precisasse perguntar-lhe, como perguntou a esse amalequita (v. 8): “Quem és tu?”
Davi esperara muito pela coroa, e agora ela lhe foi trazida por um amalequita. Veja como Deus pode servir-se de homens que só planejam promover a si mesmos — e até de homens mal-intencionados — para cumprir seus bons propósitos em favor de seu povo.
Versículos 11 a 16
Aqui está: I. A reação de Davi a essas notícias. Longe de explodir de alegria, como esperava o amalequita, Davi prorrompeu em lágrimas, rasgou as roupas (v. 11), lamentou e jejuou (v. 12), não só por Israel e por seu amigo Jônatas, mas também por Saul, seu inimigo.
Fez isso não apenas como homem honrado, observando a decência que nos proíbe de insultar os caídos e exige que acompanhemos com respeito nossos parentes ao túmulo, qualquer que seja a perda que tivemos com sua vida ou o ganho com sua morte, mas também como homem bom e de consciência, que perdoara as ofensas de Saul e não guardava rancor dele.
Davi sabia, antes que seu filho o escrevesse, que, se nos alegrarmos quando nosso inimigo cair, o Senhor o verá e isso lhe desagradará (Provérbios 24:17, 18); e que quem se alegra com as calamidades não ficará impune (Provérbios 17:5).
Isso mostra que as passagens dos salmos de Davi que expressam seu desejo pela ruína dos inimigos e seu triunfo sobre ela não nasciam de espírito vingativo nem de paixão desordenada, mas de zelo santo pela glória de Deus e pelo bem público.
O que fez aqui, ao saber da morte de Saul, mostra que seu temperamento natural era muito terno e que tinha afeição até por aqueles que o odiavam. Sem dúvida, seu luto por Saul era sincero; não era fingido nem mera expressão no rosto.
Sua emoção foi tão forte que contagiou os que estavam com ele. Todos, ao menos por consideração a ele, rasgaram as roupas e jejuaram até a tarde, em sinal de tristeza. Provavelmente fizeram um jejum religioso: humilharam-se sob a mão de Deus e oraram pela restauração das brechas abertas em Israel por essa derrota.
II. A recompensa que deu ao mensageiro. Em vez de promovê-lo, mandou matá-lo: julgou-o por suas próprias palavras, como assassino de seu príncipe, e ordenou que fosse executado sem demora.
Que surpresa para o mensageiro, que pensava receber favor por seu esforço! Em vão alegou que Saul lhe dera essa ordem, que fizera um favor a Saul e que ele morreria de qualquer maneira. Todas essas alegações foram rejeitadas: “A tua boca testificou contra ti, dizendo: Matei o ungido do Senhor” (v. 16); portanto, morrerás. Ora:
- Davi não agiu injustamente. (1.) O homem era amalequita. Para que não houvesse engano no relato, Davi o fez admitir isso uma segunda vez (v. 13). Aquela nação, com todos os que lhe pertenciam, estava condenada à destruição; ao matá-lo, Davi fez o que seu antecessor devia ter feito e foi rejeitado por não fazer.
(2.) O homem confessou o crime, de modo que a prova, segundo as leis de todos os povos, bastava para condená-lo; presume-se que cada um fale em seu próprio favor.
Se agiu como contou, merecia morrer por traição (v. 14), pois fizera aquilo que, ao que parece, ouvira o próprio escudeiro de Saul recusar-se a fazer. Se não agiu, ao gabar-se de tê-lo feito, mostrou claramente que o teria feito se houvesse ocasião e que não veria nisso problema.
Ao vangloriar-se disso diante de Davi, mostrou o que pensava dele: que se alegraria, pois era inteiramente como o próprio mensageiro. Isso foi afronta intolerável a Davi, que mais de uma vez se recusara a estender a mão contra o ungido do Senhor.
E mentir a Davi, se de fato era mentira, foi crime gravíssimo; mais cedo ou mais tarde, como acontece com esse pecado, a mentira voltou-se contra sua própria cabeça.
- Davi agiu com honra e retidão. Assim demonstrou a sinceridade de seu luto, desencorajou outros a tentar conquistar seu favor agindo do mesmo modo e provavelmente conquistou a consideração da casa de Saul.
Também se recomendou ao povo como alguém zeloso pela justiça pública, sem levar em conta o próprio interesse. Aprendemos com isso que ajudar alguém a matar a si mesmo, direta ou indiretamente, quando se age conscientemente, incorre na culpa de sangue; e que a vida dos príncipes deve ser especialmente preciosa para nós.
Versículos 17 a 27
O Lamento de Davi por Jônatas. (a.C. 1055.)
Depois de rasgar as roupas, lamentar, chorar e jejuar por causa da morte de Saul, e de fazer justiça contra aquele que se tornara culpado por ela, alguém poderia pensar que Davi já pagara por completo a dívida de honra que devia à memória de Saul. Mas não foi só isso: temos aqui um poema que escreveu naquela ocasião, pois era mestre tanto da pena quanto da espada.
Com essa elegia, quis expressar sua própria dor por tão grande calamidade e despertar sentimento semelhante nos outros, que também deviam levá-la a sério. Transformar lamentações em poemas as tornava: 1. Mais comoventes e tocantes. Por esse meio, a emoção do poeta ou cantor se comunica admiravelmente aos leitores e ouvintes.
- Mais duradouras. Assim, elas não só se espalhavam longe, mas perduravam por muito tempo, de geração em geração. Até os que não leriam história podiam aprender por meio de poemas.
Aqui temos: I. As instruções que Davi deu a respeito dessa elegia (v. 18): mandou “ensinar aos filhos de Judá” — sua própria tribo, independentemente do que fizessem as outras — “o uso do arco”, talvez:
- O arco usado na guerra. Não é que os filhos de Judá não soubessem usar o arco — ele era tão comum na guerra, muito antes disso, que espada e arco designavam todas as armas de guerra (Gênesis 48:22) —, mas talvez ultimamente tivessem usado mais fundas, como Davi ao matar Golias, por serem mais baratas.
Davi queria que agora percebessem a desvantagem disso — foram os arqueiros dos filisteus que pressionaram Saul com tanta força (1 Samuel 31:3) — e voltassem a usar o arco com mais frequência, exercitando-se nessa arma para poder vingar a morte do príncipe nos filisteus e vencê-los com a própria arma deles.
Seria uma pena que os filhos de Judá, com mente e coração tão bons, não estivessem bem armados. Com isso, Davi mostrou sua autoridade sobre os exércitos de Israel e o cuidado que tinha por eles, e começou a corrigir os erros do reinado anterior.
Mas lemos que as tropas que agora tinham vindo a Davi em Ziclague estavam armadas com arcos (1 Crônicas 12:2). Por isso, 2. Alguns entendem que o arco era um instrumento musical chamado assim, ao som do qual deviam cantar as melodias tristes; outros entendem que era a própria elegia.
Davi mandou ensinar aos filhos de Judá Kesheth, isto é, “o arco”: essa canção, assim intitulada por causa do arco de Jônatas, cujos feitos são celebrados nela.
Moisés mandou Israel aprender seu cântico (Deuteronômio 31:19), e Davi fez o mesmo. É provável que tenha mandado os levitas ensiná-lo. O poema está escrito no Livro de Jasar, onde foi preservado e de onde foi transcrito para esta história.
Aquele livro provavelmente era uma coletânea de poemas sobre acontecimentos do Estado. O que se diz estar escrito nele (Josué 10:13) também é poesia, um fragmento de poema histórico.
Até os cânticos seriam esquecidos e se perderiam se não fossem registrados por escrito, que é o melhor meio de preservar o conhecimento.
II. A própria elegia. Não é um hino divino, dado por inspiração de Deus para ser usado no culto, nem há nela menção a Deus. É uma composição humana e, por isso, foi inserida não no Livro dos Salmos — de origem divina e, portanto, preservado —, mas no Livro de Jasar, que era apenas uma coletânea de poemas comuns e há muito se perdeu.
Essa elegia mostra que Davi era:
- Um homem de espírito excelente em quatro aspectos: (1.) Foi muito generoso com Saul, seu inimigo declarado. Saul era seu sogro, seu soberano e o ungido do Senhor. Embora lhe tivesse feito muito mal, Davi não se vingou de sua memória depois de morto.
Como homem bom e honrado, [1.] encobriu as faltas de Saul. Embora não fosse possível impedir que aparecessem em sua história, não deviam aparecer nessa elegia. A caridade nos ensina a interpretar todos da melhor maneira possível e a nada dizer de quem não possamos dizer algo bom, sobretudo depois de mortos.
De mortuis nil nisi bonum: “Dos mortos, nada além do bem.” Devemos renunciar à satisfação de fazer observações pessoais contra quem nos prejudicou, muito mais de tirar daí seu caráter, como se todo aquele que nos fez mal tivesse necessariamente de ser mau.
Que a parte corrupta da memória seja enterrada com a parte corrupta da pessoa — terra à terra, cinzas às cinzas. Que a mancha fique escondida e se estenda um véu sobre a deformidade.
[2.] Davi celebrou o que havia de louvável em Saul. Não o elogiou pelo que ele não era nem disse nada de sua piedade ou fidelidade. Elogios fúnebres reunidos à custa da verdade não honram aqueles a quem são dirigidos; desonram muito os que os distribuem injustamente.
Mas Davi podia dizer isto em honra do próprio Saul: primeiro, que fora ungido com óleo (v. 21), o óleo sagrado que indicava sua elevação ao governo e o capacitava para ele.
Fosse Saul o que fosse em outros aspectos, trazia sobre si a coroa da unção do seu Deus, como se diz do sumo sacerdote (Levítico 21:12); por isso devia ser honrado, pois Deus, fonte de toda honra, o honrara.
Segundo, fora homem de guerra, um poderoso (vv. 19-21), muitas vezes vitorioso contra os inimigos de Israel e os afligira por onde quer que se voltasse (1 Samuel 14:47). Sua espada não voltava vazia, mas farta de sangue e despojos (v. 22).
A desonra e a queda final de Saul não deviam apagar seus êxitos e serviços anteriores. Embora seu sol tenha se posto sob nuvens, houve um tempo em que brilhou intensamente.
Terceiro, considerado junto com Jônatas, tinha temperamento muito agradável e conquistava o afeto de seus súditos (v. 23): Saul e Jônatas “eram amáveis e agradáveis”. Jônatas sempre foi assim; Saul, enquanto concordava com ele.
Considerados juntos, na perseguição ao inimigo, nunca houve homens mais ousados e valentes: eram mais velozes que as águias e mais fortes que os leões. Observe: os que eram mais ferozes e ardentes no acampamento não eram menos afáveis e agradáveis na corte.
Eram amados pelos súditos e temíveis para os inimigos; rara combinação de brandura e firmeza, que torna muito feliz o temperamento de qualquer pessoa.
Isso também pode referir-se à harmonia e ao afeto que, em geral, existiam entre Saul e Jônatas: eram amáveis e agradáveis um para o outro. Jônatas era filho obediente, Saul, pai afetuoso; por isso, foram queridos um do outro em vida e, na morte, não se separaram: permaneceram juntos na resistência aos filisteus e caíram pela mesma causa.
Quarto, Saul enriqueceu seu país com os despojos das nações conquistadas e introduziu trajes mais suntuosos. Quando tiveram um rei como as outras nações, deviam ter roupas como as outras nações. Nesse aspecto, ele foi especialmente atencioso com suas súditas (v. 24): vestiu de escarlate as filhas de Israel, que tinham prazer nesse traje.
(2.) Foi muito grato a Jônatas, seu amigo declarado. Além das lágrimas que derramou por ele e dos elogios que lhe fez junto com Saul, mencionou-o com distinção (v. 25): “Ó Jônatas! Foste morto nos teus lugares altos!” Isso, em comparação com o v. 19, indica que Davi se referia a ele como a beleza de Israel, que, segundo dissera, fora morta nos lugares altos.
Davi lamenta Jônatas como amigo particular (v. 26): “Meu irmão Jônatas!” Não tanto pelo que Jônatas teria feito por ele se tivesse vivido — sem dúvida, seria muito útil quando Davi subisse ao trono e poderia evitar as longas lutas que, sem sua ajuda, Davi enfrentou com a casa de Saul. Se esse fosse o único motivo de sua dor, seria egoísmo.
Davi o lamentava pelo que ele já tinha sido: “Muito agradável me foste; mas essa alegria acabou, e estou aflito por ti.” Tinha razão ao dizer que o amor de Jônatas por ele era maravilhoso. Nunca houve algo igual: um homem amar aquele que sabia que tomaria a coroa de sua cabeça e ser tão fiel ao rival. Isso superava o mais alto grau de afeto e constância conjugal.
Veja aqui: [1.] Nada neste mundo é mais agradável do que um amigo verdadeiro, sábio e bom, que acolhe e retribui nosso afeto e nos é fiel em todos os nossos verdadeiros interesses.
[2.] Nada é mais doloroso do que perder um amigo assim: é como separar-se de uma parte de si mesmo. Esta é a vaidade do mundo: aquilo que nos é mais agradável é também o que mais nos pode afligir. Quanto mais amamos, mais sofremos.
(3.) Davi se preocupava profundamente com a honra de Deus. Isso está em vista quando teme que as filhas dos incircuncisos, que não estavam na aliança com Deus, triunfem sobre Israel e o Deus de Israel (v. 20). Os homens bons sentem intensamente as afrontas dos que afrontam a Deus.
(4.) Preocupava-se profundamente com o bem público. A beleza de Israel fora morta (v. 19), e a honra pública, desonrada: “Os poderosos caíram!” Isso é lamentado três vezes (v. 19, 25, 27), e assim a força do povo foi enfraquecida.
Homens de espírito público sentem profundamente as perdas públicas. Davi esperava que Deus o tornasse instrumento para reparar essas perdas, mas ainda assim as lamentava.
- Davi era homem de imaginação refinada, além de sábio e santo. Todas as expressões são excelentes e próprias para despertar as emoções. (1.) É elegante a proibição que quis impor à Fama (v. 20): “Não o anunciem em Gate.”
Doía-lhe profundamente pensar que isso seria proclamado nas cidades dos filisteus e que eles triunfariam sobre Israel, lembrando-se ainda mais das antigas vitórias de Israel sobre eles, quando cantavam: “Saul matou os seus milhares”; agora isso se voltaria contra Israel.
(2.) A maldição que lança sobre os montes de Gilboa, cenário dessa tragédia: “Não haja sobre vocês orvalho, nem campos de ofertas” (v. 21). É uma expressão poética, como a de Jó: “Pereça o dia em que nasci.”
Davi não desejava que nenhuma parte da terra de Israel se tornasse estéril; para expressar sua tristeza pelo acontecido, fala do lugar com aparente indignação.
Observe: [1.] A fertilidade da terra depende do céu. O pior que Davi podia desejar aos montes de Gilboa era que fossem estéreis e inúteis para as pessoas; infelizes são os que não têm utilidade.
Essa foi a maldição que Cristo pronunciou sobre a figueira: que nunca mais nascesse fruto dela; e ela se cumpriu, pois a figueira secou. Não foi o que aconteceu com os montes de Gilboa.
Mas, ao desejá-los estéreis, Davi desejava que não chovesse sobre eles. Se os céus forem como bronze, a terra logo se tornará ferro.
[2.] A fertilidade da terra deve, portanto, ser consagrada ao céu; isso é indicado por Davi chamar de “campos de ofertas” os campos férteis. Os frutos da terra oferecidos a Deus eram sua coroa e glória; por isso, a falta de ofertas é consequência mais triste do que a falta de cereais. Veja Joel 1:9.
Faltar-nos aquilo com que honramos a Deus é pior do que faltar aquilo com que sustentamos a nós mesmos. Essa é a censura que Davi dirige aos montes de Gilboa: manchados de sangue real, perderam o orvalho celestial.
Nessa elegia, Saul teve sepultura mais honrosa do que a que lhe deram os homens de Jabes-Gileade.