2 Pedro 3
Argumento
Ao se aproximar da conclusão de sua segunda epístola, o apóstolo começa este último capítulo repetindo o relato de seu desígnio e alcance ao escrever-lhes pela segunda vez, vv. 1-2.
II. Prossegue mencionando uma coisa que o levou a escrever esta segunda epístola: a vinda dos escarnecedores, a quem descreve, vv. 3-7.
III. Instrui-os e os fortalece quanto à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo para o juízo, vv. 8-10.
IV. Expõe o uso e o proveito que os cristãos devem tirar da segunda vinda de Cristo, bem como da dissolução e renovação das coisas que acompanharão essa solene vinda de nosso Senhor, vv. 11-18.
Apeguem-se às Palavras dos Profetas e aos Mandamentos dos Apóstolos. (67 d.C.)
Versículos 1 a 2
Para que o apóstolo alcançasse melhor seu objetivo ao escrever esta epístola, que é torná-los firmes e constantes na lembrança confiante e prática da doutrina do evangelho, ele:
Expressa por eles afeto especial e ternura ao chamá-los de amados, mostrando assim que acrescentava à piedade o amor fraternal, como os exortara a fazer (2 Pedro 1:7). Os ministros devem ser exemplos de amor e afeto, assim como de vida e conduta.
Demonstra amor sincero por eles e profunda preocupação por eles ao lhes escrever a mesma coisa, embora com outras palavras. Como isso é seguro para eles, não será penoso para ele escrever sobre o mesmo assunto e perseguir o mesmo desígnio pelos meios mais propensos a dar certo.
Para recomendar melhor o assunto, diz que aquilo de que gostaria que se lembrassem era:
(1.) As palavras ditas pelos santos profetas, divinamente inspirados, tanto iluminados quanto santificados pelo Espírito Santo. E, como a mente dessas pessoas fora purificada pela obra santificadora do mesmo Espírito, elas estavam mais dispostas a receber e guardar o que Deus lhes comunicara por meio dos santos profetas.
(2.) Os mandamentos dos apóstolos do Senhor e Salvador. Portanto, os discípulos e servos de Cristo devem considerar aquilo que os enviados por ele lhes declararam ser a vontade de seu Senhor. O que Deus falou pelos profetas do Antigo Testamento e Cristo ordenou pelos apóstolos do Novo não pode deixar de exigir e merecer ser lembrado com frequência.
E quem medita nessas coisas sentirá suas virtudes vivificadoras. É por meio delas que a mente pura dos cristãos deve ser despertada, para que sejam ativos e vigorosos na obra da santidade, zelosos e incansáveis no caminho para o céu.
Versículos 3 a 6
As Objeções dos Incrédulos; Destruição do Mundo. (67 d.C.)
Para nos despertar e levar a considerar seriamente e a aderir firmemente ao que Deus nos revelou pelos profetas e apóstolos, somos informados de que haverá escarnecedores, homens que zombarão do pecado e da salvação dele. Os homens escarnecerão do modo como Deus salva os pecadores por Jesus Cristo, e isso acontecerá nos últimos dias, sob o evangelho.
Isso de fato pode parecer muito estranho que a administração da aliança da graça no Novo Testamento, que é espiritual e, por isso, mais condizente com a natureza de Deus do que a do Antigo Testamento, seja ridicularizada e insultada. Mas a espiritualidade e a simplicidade do culto do Novo Testamento são diretamente contrárias à mente carnal do homem.
Isso explica o que o apóstolo parece insinuar aqui: nos últimos dias haverá mais escarnecedores, e mais ousados, do que nunca.
Embora em todas as épocas os que nasceram e viveram segundo a carne perseguiram, vituperaram e desacreditaram os que nasceram e viveram segundo o Espírito, ainda assim, nos últimos dias haverá grande aperfeiçoamento na arte e na insolência de zombar da piedade sincera e dos que aderem firmemente à vigilância e à renúncia que o evangelho prescreve.
Isso é mencionado como algo bem conhecido de todos os cristãos. Portanto, devem ter por certa essa situação, para que não fiquem surpresos e abalados, como se lhes tivesse acontecido algo extraordinário. Para impedir que o verdadeiro cristão seja vencido quando esses escarnecedores o atacarem, somos informados:
I. Que tipo de pessoas eles são: Andam segundo as próprias concupiscências, seguem os planos e os desejos do próprio coração e os afetos carnais, em vez dos ditames e das orientações da razão correta e de um juízo esclarecido e bem informado.
Fazem isso em sua conduta: vivem e falam como querem. Não é apenas sua mente interior que é má e contrária a Deus, como a mente de todo pecador não renovado (Romanos 8:7), alienada de Deus, sem conhecê-lo e avessa a ele. Eles chegaram a tal grau de maldade que proclamam abertamente o que está no coração de outros que ainda são carnais.
Dizem: “Nossas línguas nos pertencem, assim como nossa força e nosso tempo; quem é senhor sobre nós? Quem nos contradirá ou controlará, ou algum dia nos chamará a prestar contas do que dizemos ou fazemos?”
Assim como desprezam ser restringidos por qualquer lei de Deus em sua conduta, também não suportam que a revelação de Deus lhes dite e prescreva aquilo em que devem crer. Andam pelo próprio caminho e falam a própria língua; também pensam os próprios pensamentos e formam princípios inteiramente seus. Aqui também levam em conta somente suas próprias concupiscências.
Ninguém além de libertinos consumados como os que foram descritos pode ocupar um assento, pelo menos não podem sentar-se no assento dos escarnecedores. “Por isto os conhecereis, para que melhor vos precavejais contra eles.”
II. Também somos advertidos até onde eles irão. Tentarão abalar e desestabilizar nossa fé até mesmo na segunda vinda de Cristo. Escarnecendo, dirão: “Onde está a promessa da sua vinda?” v. 4.
Sem esta doutrina, todos os demais artigos da fé cristã significariam muito pouco. É ela que completa e dá o toque final a todos os outros. O Messias prometido já veio, fez-se carne e habitou entre nós; ele é exatamente como foi descrito antes e fez por nós tudo o que já mencionamos.
Os inimigos do cristianismo sempre tentaram derrubar esses princípios. Mas eles se apoiam em fatos já ocorridos, dos quais este apóstolo e os outros nos deram as provas mais seguras e convincentes. É provável que, por fim, eles se cansem de se opor a esses fatos.
Ainda assim, enquanto um dos principais artigos de nossa fé disser respeito ao que ainda está por vir e se apoiar somente numa promessa, eles continuarão a nos atacar nesse ponto até o fim dos tempos. Enquanto nosso Senhor não vier, eles próprios não crerão que ele virá.
Ou melhor: rirão da própria menção à sua segunda vinda e farão tudo o que puderem para intimidar os que creem nela com seriedade e a aguardam.
Vejamos, então, como se apresenta esta questão, tanto da parte do crente como da desses sedutores. O crente não apenas deseja que ele venha: tendo a promessa de que virá, promessa que ele próprio fez e repetiu muitas vezes, recebida e relatada por testemunhas fiéis e deixada em registro seguro, o crente também está plena e firmemente convencido de que ele virá.
Por outro lado, esses sedutores, por desejarem que ele nunca venha, fazem tudo o que podem para embustar a si mesmos e aos outros, levando-os a crer que ele nunca virá. Se não podem negar que há uma promessa, ainda assim zombarão dessa própria promessa, o que demonstra graus muito maiores de incredulidade e desprezo: “Onde está a promessa da sua vinda?”, dizem.
III. Também somos advertidos sobre o método de argumentação deles. Enquanto riem, alegam também argumentar. Para esse fim, acrescentam que, “desde que os pais adormeceram, todas as coisas continuam como eram desde o princípio da criação”, v. 4.
Este argumento é engenhoso, mas não sólido. Pode impressionar os fracos de entendimento e, sobretudo, os corações perversos. Como a sentença contra eles não é executada depressa, convencem-se de que nunca será; por isso, o coração deles se entrega completamente ao mal (Eclesiastes 8:11). Agem assim e querem persuadir os outros a fazer o mesmo.
Então dizem: “Os pais adormeceram; todos aqueles a quem a promessa foi feita morreram. Ela não se cumpriu em seu tempo, e não há probabilidade de que jamais se cumpra em tempo algum. Por que deveríamos nos preocupar com isso?”
“Se houvesse alguma verdade ou certeza na promessa de que falais, certamente já teríamos visto alguma coisa antes deste tempo, alguns sinais de sua vinda, alguns passos preparatórios para ela. Mas até hoje vemos que todas as coisas continuam como eram, sem mudança alguma, desde o princípio da criação.”
“Visto que o mundo não passou por mudanças no decorrer de tantos milhares de anos, por que deveríamos nos assustar como se fosse acabar?” É assim que argumentam esses escarnecedores.
Como não veem mudanças, não temem a Deus (Salmos 55:19). Não o temem nem temem seus juízos. Concluiriam que aquilo que ele nunca fez não pode fazer ou nunca fará.
IV. Aqui se expõe a falsidade do argumento deles. Embora afirmassem com confiança que não houvera mudança alguma desde o princípio da criação, o apóstolo nos faz lembrar de uma mudança já ocorrida, que, de certo modo, equivale àquela que somos chamados a esperar: o afogamento do mundo nos dias de Noé.
Esses escarnecedores passaram isso por alto; não repararam nisso. Embora pudessem e devessem saber, “isto ignoram voluntariamente” (v. 5). Escolhem passar o fato em silêncio, como se nunca o tivessem ouvido nem conhecido. Se o conheciam, não queriam conservá-lo na memória; não acolheram essa verdade com amor nem se importavam em reconhecê-la.
Repare: é árduo convencer os homens a crer no que não querem que seja verdade. Em muitos casos, são ignorantes porque querem sê-lo; não sabem porque não se importam em saber.
Mas que os pecadores não pensem que tal ignorância será aceita como desculpa por qualquer pecado a que os leve. Os que crucificaram Cristo não sabiam quem ele era, pois, “se o tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória” (1 Coríntios 2:8).
Mas, embora ignorassem, nem por isso eram inocentes: a própria ignorância era pecado, uma ignorância voluntária e deliberada, e um pecado não pode servir de desculpa por outro.
O mesmo se dá aqui. Se conhecessem a terrível vingança com que Deus varreu de uma só vez um mundo inteiro de ímpios miseráveis, certamente não zombariam das ameaças de outro juízo igualmente terrível. Mas ignoravam de propósito: não sabiam o que Deus fizera porque não queriam saber.
Consideremos agora a descrição que o apóstolo apresenta tanto da destruição do velho mundo pelas águas como daquela que aguarda este mundo atual na conflagração final. Ele menciona o que Deus já fez para nos convencer e persuadir ainda mais de que a outra tanto pode acontecer quanto acontecerá.
- Comecemos pelo relato do apóstolo sobre a destruição que já veio uma vez sobre o mundo (v. 5, 6): “Pela palavra de Deus, os céus existiam desde a antiguidade, e a terra subsistia fora da água e na água; pelas quais o mundo de então, inundado de água, pereceu.”
No princípio, o mundo tinha outra disposição. Na criação, as águas foram divididas com a maior sabedoria e para nosso maior benefício. Algumas tinham reservatórios próprios acima do firmamento, chamado aqui de céus (como também em Gênesis 1:8); outras, abaixo do firmamento, foram reunidas num só lugar.
Havia então mar e terra seca, uma morada adequada para os filhos dos homens. Mas, na ocasião do dilúvio universal, a situação mudou de modo extraordinário. Deus, irado, juntou de novo num só montão as águas que antes dividira e destinara a reservatórios convenientes.
Ele rompe a fonte do grande abismo e abre as janelas, isto é, as nuvens do céu (Gênesis 7:11), até que toda a terra fosse inundada. Não se encontrava sequer um ponto nos montes mais altos que não estivesse quinze côvados debaixo d’água (Gênesis 7:20).
Assim, de uma só vez, ele deu a conhecer seu poder terrível e sua ira feroz e pôs fim a um mundo inteiro: “O mundo de então, inundado de água, pereceu”, v. 6. Não foi isso uma mudança, e uma mudança terrível?
Observe-se também que tudo isso foi feito pela palavra de Deus. Foi por sua palavra poderosa que o mundo foi criado, com uma estrutura e uma ordem tão convenientes e belas (Hebreus 11:3, Katertisthai). Ele disse: “Haja um firmamento”, etc. (Gênesis 1:6, 7). E “Ajuntem-se num só lugar as águas debaixo do céu”, etc. (Gênesis 1:9, 10). Assim “ele falou, e foi feito” (Salmos 33:9).
Assim, diz nosso apóstolo, pela palavra do Senhor os céus existiam desde a antiguidade, isto é, desde a primeira criação, e a terra, que no princípio era um globo de terra e água, subsistia fora da água e na água.
A palavra de Deus não determinou apenas a primeira estrutura e ordem do mundo. A confusão e a ruína posteriores do mundo, assim como a destruição completa de seus habitantes, também vieram pela mesma palavra. Somente o Deus que estendeu os céus e lançou os fundamentos da terra podia destruir e derrubar de uma só vez uma estrutura tão vasta.
Isso se fez pela palavra do seu poder e também segundo a palavra da sua promessa. Deus dissera que destruiria o homem, isto é, toda a carne, fazendo vir sobre a terra um dilúvio de águas (Gênesis 6:7, 13, 17).
Essa foi a mudança que Deus já trouxera sobre o mundo e que os escarnecedores ignoraram. Agora devemos considerar:
- O que o apóstolo diz sobre a mudança destrutiva que ainda virá sobre ele: “Os céus e a terra que agora existem, pela mesma palavra estão guardados e reservados para o fogo, para o dia do juízo e da perdição dos homens ímpios”, v. 7.
Aqui temos um relato terrível da dissolução final do mundo, que nos diz respeito ainda mais de perto. Lemos, ouvimos e pensamos com preocupação na ruína que o dilúvio trouxe ao mundo e a seus habitantes, embora os que foram varridos por ele fossem pessoas que nunca conhecemos.
Mas o juízo de que se fala aqui ainda está por vir e certamente virá, embora não saibamos quando nem sobre que época ou geração específica de homens recairá. Portanto, não podemos ter certeza de que não aconteça em nossos dias.
Isso faz grande diferença, mesmo que se admitisse que os dois juízos fossem iguais em todos os outros aspectos, o que não se pode admitir: alguns, ainda que muito poucos, escaparam daquele dilúvio, mas ninguém poderá escapar desta conflagração.
Além disso, não estávamos ao alcance do primeiro juízo, mas não temos certeza de que não seremos incluídos na outra calamidade.
Ver o mundo a que pertencemos ser destruído de uma só vez — não apenas uma pessoa, uma família específica ou uma nação, mesmo aquela que mais nos interessa e preocupa, mas o mundo inteiro afundando de uma vez, digo —, sem arca alguma e sem qualquer meio de alguém escapar da ruína comum, faz diferença entre a devastação que já ocorreu e aquela que ainda esperamos.
Uma já passou e nunca mais voltará contra nós, pois Deus declarou expressamente que nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra (Gênesis 9:11-17). A outra ainda está por vir e é tão certa quanto a verdade e o poder de Deus podem garanti-la.
A primeira veio gradualmente sobre o mundo: o dilúvio foi crescendo sobre seus habitantes por quarenta dias antes de dar fim a todos eles (Gênesis 7:12, 17). Esta virá sobre eles de repente e de uma só vez (2 Pedro 2:1).
Além disso, alguns escaparam daquela destruição, como já dissemos. Mas a ruína que ainda aguarda este mundo será absolutamente universal, quando vier: as chamas devoradoras alcançarão todos os lugares. Não haverá santuário para onde os habitantes possam fugir, nem um só lugar em todo o mundo onde alguém possa estar seguro.
Assim, quaisquer diferenças que se apontem entre aquela destruição do mundo e esta de que se fala aqui, elas mostram que o juízo vindouro será o mais terrível. Contudo, o fato de o mundo já ter sido destruído por um dilúvio universal torna mais crível que possa ser novamente arruinado por uma conflagração universal.
Portanto, que os escarnecedores que riem da vinda de nosso Senhor para o juízo ao menos considerem que ela pode acontecer. Nada se diz sobre isso na palavra de Deus que esteja além do poder de Deus. Ainda que continuem a rir, não nos intimidarão. Temos plena certeza de que acontecerá porque ele o disse, e podemos confiar em sua promessa.
Eles erram por não conhecerem, ou pelo menos não crerem nas Escrituras nem no poder de Deus. Nós, porém, conhecemos ambos e dependemos deles, ou deveríamos depender.
Ora, o que ele disse e certamente cumprirá é que os céus e a terra que agora existem — com os quais temos relação, que ainda subsistem em toda a beleza e ordem que vemos e nos são tão agradáveis e úteis, como constatamos — estão guardados em depósito.
Não são guardados como tesouros para nós, como desejariam as mentes terrenas, mas para serem o que Deus quer que sejam, em seu tesouro, seguramente depositados e conservados para seus propósitos. Em seguida, diz que estão reservados para o fogo.
Observe: os juízos posteriores de Deus são mais terríveis do que os anteriores. O velho mundo foi destruído pela água, mas este está reservado para o fogo, que queimará os ímpios no último dia.
Embora pareça demorado, este mundo perverso é sustentado pela palavra de Deus e está reservado somente para a vingança daquele a quem pertence a vingança. No dia do juízo, ele tratará o mundo ímpio conforme merece, pois o dia do juízo é o dia da perdição dos homens ímpios.
Os que agora zombam do juízo futuro descobrirão que esse será um dia de vingança e destruição completa. “Acautelai-vos, portanto, de estar entre esses escarnecedores; nunca duvideis de que o dia do Senhor virá. Empenhai-vos, pois, em ser achados em Cristo, para que seja para vós tempo de refrigério e dia de redenção aquilo que será dia de indignação e cólera para o mundo ímpio.”
Versículo 8
A Concepção da Eternidade. (67 d.C.)
Com estas palavras, o apóstolo vem instruir e fortalecer os cristãos na verdade da vinda do Senhor. Nelas podemos discernir claramente a ternura e o afeto com que lhes fala, chamando-os de amados.
Ele tinha preocupação compassiva e amor de boa vontade pelos miseráveis ímpios que se recusavam a crer na revelação divina, mas tinha consideração especial pelos verdadeiros crentes.
A ignorância e a fraqueza que ainda percebia neles o deixavam apreensivo e o levavam a adverti-los. Aqui podemos observar:
I. A verdade que o apóstolo afirma: para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos são como um dia. Embora, na avaliação dos homens, haja grande diferença entre um dia e um ano, e diferença muito maior entre um dia e mil anos, ainda assim, na avaliação de Deus, que habita a eternidade, onde não há sucessão, não há diferença.
Pois todas as coisas passadas, presentes e futuras estão sempre diante dele, e a demora de mil anos não pode representar para ele tanto quanto para nós o adiamento de algo por um dia ou uma hora.
II. A importância desta verdade. Esta é a única coisa que o apóstolo não quer que ignoremos. A santa reverência e o temor respeitoso de Deus são necessários para adorá-lo e glorificá-lo.
Crer na distância inconcebível entre ele e nós é muito apropriado para gerar e conservar aquele temor religioso do Senhor que é o princípio da sabedoria. Esta é uma verdade que diz respeito à nossa paz; por isso ele se empenha para que ela não fique oculta aos nossos olhos.
No original, lê-se: “Não vos fique oculta esta única coisa”. Se os homens não conhecerem nem crerem no Deus eterno, estarão muito propensos a pensar que ele é como eles.
Contudo, quão difícil é conceber a eternidade! Portanto, não é muito fácil alcançar o conhecimento de Deus que é absolutamente necessário.
Versículos 9 a 10
A Destruição do Mundo. (67 d.C.)
Aqui nos dizem que o Senhor não tarda: não adia além do tempo determinado. Assim como Deus cumpriu no dia exato o prazo que marcara para tirar Israel do Egito (Êxodo 12:41), também cumprirá o prazo marcado para vir julgar o mundo.
Que diferença há entre a avaliação de Deus e a dos homens! Os homens bons tendem a pensar que Deus demora além do tempo marcado, isto é, o tempo que eles próprios estabeleceram para sua libertação e a da igreja. Mas eles marcam uma data, e Deus marca outra; e ele não deixará de cumprir o dia que determinou.
Os ímpios ousam acusar Deus de demora culposa, como se tivesse perdido a hora e abandonado a ideia de vir. Mas o apóstolo nos assegura:
I. Aquilo que os homens consideram demora é, na verdade, longanimidade, e para conosco. Deus está dando mais tempo ao seu próprio povo, que escolheu antes da fundação do mundo e do qual muitos ainda não se converteram.
Aqueles que estão num estado de graça e favor diante de Deus devem avançar em conhecimento e santidade e no exercício da fé e da paciência, abundar em boas obras e fazer e sofrer o que lhes é pedido, para glorificar a Deus e crescer em aptidão para o céu.
Pois Deus não quer que nenhum deles pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento. Observe aqui:
O arrependimento é absolutamente necessário para a salvação. Se não nos arrependermos, pereceremos (Lucas 13:3, 5).
Deus não tem prazer na morte dos pecadores. Como o castigo dos pecadores atormenta suas criaturas, um Deus misericordioso não se alegra com isso.
Embora o desígnio principal de Deus em sua longanimidade seja a bem-aventurança daqueles que escolheu para a salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na verdade, sua bondade e tolerância, por sua própria natureza, convidam e chamam ao arrependimento todos aqueles a quem são concedidas.
Se os homens permanecerem impenitentes enquanto Deus lhes dá prazo para se arrepender, ele os tratará com maior severidade, embora a principal razão para não ter apressado sua vinda fosse ainda não ter completado o número dos seus eleitos.
“Não abuseis, portanto, da paciência e da longanimidade de Deus, abandonando-vos a uma conduta de impiedade. Não presumais prosseguir ousadamente no caminho dos pecadores, nem vos assentar seguros num estado sem conversão e sem arrependimento, como aquele que disse (Mateus 24:48), ‘Meu senhor retarda a sua vinda’, para que ele não venha e vos surpreenda.” Pois:
II. “O dia do Senhor virá como um ladrão de noite”, v. 10. Aqui podemos observar:
- A certeza do dia do Senhor. Embora já tenham passado mais de mil e seiscentos anos desde que esta epístola foi escrita e o dia ainda não tenha chegado, ele certamente virá.
Deus marcou um dia em que julgará o mundo com justiça e cumprirá esse compromisso. “Aos homens está designado morrer uma vez, e depois disto o juízo” (Hebreus 9:27).
“Assentai, portanto, em vossos corações que o dia do Senhor certamente virá e que certamente sereis chamados a dar conta de todas as coisas feitas no corpo, quer boas, quer más.”
“E que o vosso andar rigoroso diante de Deus e o vosso frequente julgamento de vós mesmos evidenciem vossa firme crença num juízo futuro, quando muitos vivem como se nunca fossem prestar conta alguma.”
- A chegada repentina desse dia. Virá como um ladrão de noite, quando as pessoas estiverem dormindo e seguras, sem imaginar nem esperar de modo algum o dia do Senhor, assim como ninguém espera um ladrão quando dorme profundamente, na noite escura e silenciosa.
À meia-noite ouviu-se um grito: “Eis que o noivo vem” (Mateus 25:6). Naquele momento, não só as virgens insensatas, mas também as prudentes cochilavam e dormiam.
O Senhor virá num dia em que não o esperamos e numa hora de que os homens não se darão conta. O momento que os homens julgarem mais impróprio e improvável, quando estiverem mais seguros, será a hora da vinda do Senhor.
Portanto, tomemos cuidado para não afastar esse dia em nossos pensamentos e imaginações; suponhamos, antes, que na realidade ele está tanto mais próximo quanto mais distante parece ao mundo ímpio.
- A solenidade dessa vinda:
(1.) “Os céus passarão com grande estrondo.” Os céus visíveis, incapazes de permanecer quando o Senhor vier em sua glória, passarão. Sofrerão uma enorme transformação, muito repentina e acompanhada do estrondo que necessariamente causaria a quebra e a queda de uma estrutura tão grandiosa.
(2.) “Os elementos se derreterão com calor ardente.” Na vinda do Senhor, não haverá apenas uma tempestade violenta à sua volta, fazendo os próprios céus passarem como numa tormenta terrível: um fogo irá adiante dele e derreterá os elementos de que as criaturas são compostas.
(3.) A terra também e todas as obras que nela há serão queimadas.
A terra, seus habitantes e todas as obras que nela há serão queimados. A terra, seus habitantes e todas as obras, tanto da natureza como da arte, serão destruídos.
Os palácios e jardins imponentes e todas as coisas desejáveis em que os homens mundanos buscam e depositam sua felicidade serão queimados. Todos os tipos de criaturas que Deus fez e todas as obras dos homens terão de se submeter; tudo passará pelo fogo.
Esse fogo consumirá tudo o que o pecado trouxe ao mundo, embora possa purificar as obras das mãos de Deus, tornando o espelho da criação muito mais brilhante, para que os santos discernam muito melhor nele a glória do Senhor.
E agora, quem não percebe a diferença entre a primeira e a segunda vinda de Cristo? No entanto, aquela é chamada de “grande e terrível dia do Senhor” (Malaquias 4:5).
Quanto mais terrível deve ser esta vinda para o juízo! Sejamos sábios e nos preparemos para que ela não seja para nós um dia de vingança e destruição.
Ah! O que será de nós se afeiçoarmos o coração a esta terra e fizermos dela nossa porção, visto que todas essas coisas serão queimadas? Olhem, portanto, para além deste mundo visível, que será inteiramente derretido, e garantam para si uma felicidade que o transcenda.
Versículos 11 a 17
Exortações Solenes. (67 d.C.)
Depois de instruí-los na doutrina da segunda vinda de Cristo, o apóstolo:
I. Aproveita a ocasião para exortá-los à pureza e à piedade em toda a sua conduta. Todas as verdades reveladas nas Escrituras devem ser aproveitadas para nosso progresso na piedade prática. Esse é o efeito que o conhecimento precisa produzir; do contrário, não nos tornamos melhores por causa dele. Se vocês sabem essas coisas, felizes serão se as praticarem.
Visto que todas essas coisas serão dissolvidas, quão santos devemos ser, nós que temos essa certeza, afastando-nos do pecado e morrendo para ele! O pecado corrompeu e maculou de tal modo toda a criação visível que ela precisa absolutamente ser dissolvida.
Tudo o que foi feito para uso do homem está sujeito à vaidade por causa do pecado do homem. Se o pecado do homem pôs os céus visíveis, os elementos e a terra sob uma maldição da qual só podem ser libertos pela dissolução, que mal abominável é o pecado e quanto devemos odiá-lo!
E, uma vez que essa dissolução permitirá que sejam restaurados à sua beleza e excelência originais, quão puros e santos devemos ser, a fim de estarmos aptos para o novo céu e a nova terra, onde habita a justiça!
O apóstolo exorta a uma santidade muito rigorosa e universal. Não devemos nos contentar com medida ou grau inferiores, mas nos empenhar em ser mais notáveis do que geralmente se alcança: santos na casa de Deus e na nossa, santos ao adorar a Deus e ao conviver com as pessoas.
Toda a nossa conduta deve ser santa, quer estejamos entre pessoas de posição alta ou baixa, ricos ou pobres, bons ou maus, amigos ou inimigos. Em toda relação com o mundo, devemos nos manter sem mancha dele. Devemos aperfeiçoar a santidade no temor de Deus e também no amor de Deus.
Devemos exercitar-nos em toda espécie de piedade e em cada uma de suas partes, confiando em Deus e tendo prazer somente em Deus, pois ele permanece o mesmo quando toda a criação visível se dissolver.
Devemos dedicar-nos ao serviço de Deus e ter por desígnio glorificá-lo e desfrutar dele, pois ele dura para sempre; já aquilo em que os homens mundanos se deleitam e que perseguem será dissolvido.
As coisas que agora vemos logo passarão e deixarão de existir como são. Olhemos, portanto, para o que permanecerá e continuará: embora ainda não esteja presente, é certo e não está longe.
Esperar o dia de Deus é uma das orientações que o apóstolo nos dá para que sejamos notavelmente santos e piedosos em toda a nossa conduta. “Esperai o dia de Deus como algo que firmemente credes que virá e pelo qual ardentemente anseiais.”
Todo cristão deve ter esperança e expectativa ardente pela vinda do dia de Deus. Nesse dia, Cristo aparecerá na glória do Pai e comprovará sua divindade e deidade até mesmo diante dos que o consideraram mero homem.
O povo de Deus esperou e aguardou com ardor a primeira vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, quando ele apareceu na forma de servo. Aquela vinda era para a consolação de Israel (Lucas 2:25). Quanto mais eles devem aguardar com expectativa e ardor a segunda vinda, que será o dia da redenção completa deles e da manifestação mais gloriosa dele!
Então ele virá para ser admirado em seus santos e glorificado em todos os que creem. A visão dos céus visíveis em chamas e dos elementos derretendo certamente aterrará e assustará os ímpios.
Contudo, o crente, cuja fé é a prova das coisas que não se veem, pode alegrar-se na esperança de céus mais gloriosos, depois que estes forem derretidos e purificados pelo fogo terrível que consumirá toda a escória desta criação visível.
Aqui devemos reparar em:
- O que os verdadeiros cristãos aguardam: novos céus e nova terra, nos quais se discernirá com clareza muito maior a sabedoria, o poder e a bondade de nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo do que conseguimos perceber no que vemos agora.
Nesses novos céus e nessa nova terra, libertos da vaidade a que os anteriores estavam sujeitos e do pecado com que foram contaminados, habitará somente a justiça. Esse será o lar de pessoas justas que praticam a justiça e estão livres do poder e da contaminação do pecado.
Todos os ímpios serão lançados no inferno. Somente os que estiverem revestidos da justiça de Cristo e santificados pelo Espírito Santo serão admitidos a habitar neste lugar santo.
- A base e o fundamento desta expectativa e esperança: a promessa de Deus. Aguardar algo que Deus não prometeu é presunção. Mas, se nossas expectativas estiverem de acordo com a promessa em relação às coisas que aguardamos, bem como ao tempo e ao modo em que se realizarão, não ficaremos decepcionados, pois é fiel aquele que prometeu.
“Vede, portanto, que formeis e reguleis vossas expectativas acerca de todas as grandes coisas que virão segundo a palavra de Deus.”
“E, quanto ao novo céu e à nova terra, esperai-os conforme Deus consentiu e orientou pelas passagens que temos nesta porção das Escrituras agora diante de vós e em Isaías 65:17; 66:22, às quais se pode pensar que o apóstolo alude.”
II. No v. 11, ele os exorta à santidade considerando que os céus e a terra serão dissolvidos. No v. 14, retoma a exortação considerando que serão novamente renovados.
“Visto que esperais o dia de Deus, quando nosso Senhor Jesus Cristo aparecerá em sua majestade gloriosa, e estes céus e esta terra serão dissolvidos e derretidos e, purificados e refinados, serão erguidos e reconstruídos, preparai-vos para encontrá-lo.”
“É de grande importância para vós que vejais em que estado estareis quando o Juiz de todo o mundo vier proferir sentença sobre os homens e determinar como lhes será por toda a eternidade.”
“Este é o tribunal de onde não cabe recurso; qualquer sentença aqui proferida por esse grande Juiz é irrevogável. Portanto, preparai-vos para comparecer diante do tribunal de Cristo e cuidai disto:”
- “Que sejais achados por ele em paz, num estado de paz e reconciliação com Deus por meio de Cristo, em quem somente Deus está reconciliando consigo o mundo.”
“Todos os que estão fora de Cristo estão num estado de inimizade, rejeitam e se opõem ao Senhor e ao seu ungido e, por isso, serão castigados com destruição eterna, longe da presença do Senhor e da glória do seu poder.”
“Aqueles cujos pecados são perdoados e cuja paz com Deus é feita são as únicas pessoas seguras e felizes; portanto, segui a paz, e isso com todos.”
(1.) Paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo. (2.) Paz na própria consciência, pelo Espírito da graça testemunhando ao nosso espírito que somos filhos de Deus. (3.) Paz com as pessoas, cultivando em nós uma disposição serena e pacífica, semelhante à de nosso bendito Senhor.
- Que vocês sejam achados por Cristo sem mancha e irrepreensíveis. Busquem a santidade assim como a paz, e até mesmo sem mancha e perfeita. Não devemos apenas evitar todas as manchas que não são próprias dos filhos de Deus, o que nos impede de sermos considerados sem mancha pelas pessoas; devemos avançar rumo à pureza sem mancha, à perfeição absoluta.
Os cristãos devem aperfeiçoar a santidade para serem irrepreensíveis não só diante das pessoas, mas também aos olhos de Deus. Tudo isso exige e merece o maior empenho; quem fizer esta obra com negligência nunca terá êxito.
“Nunca espereis ser achados em paz naquele dia de Deus se sois preguiçosos e ociosos neste vosso dia, no qual devemos concluir a obra que nos foi dada para fazer. Somente o cristão diligente será o cristão feliz no dia do Senhor. Nosso Senhor virá de repente a nós ou logo nos chamará a ele; desejaríeis que vos encontrasse ociosos?”
Lembrem-se de que há uma maldição pronunciada contra quem faz negligentemente a obra do Senhor (nota marginal: Jeremias 48:10). O céu será recompensa suficiente por todo o nosso empenho e labor. Portanto, trabalhemos e nos esforcemos na obra do Senhor. Ele certamente nos recompensará se formos diligentes na obra que nos atribuiu.
Para que vocês sejam diligentes, considerem a longanimidade de nosso Senhor como salvação. “Vosso Senhor retarda a sua vinda? Não penseis que isto é para dar mais tempo de fazer provisão para vossas concupiscências, para satisfazê-las. É tanto prazo para vos arrependerdes e operardes a vossa salvação.”
“Isso não procede de falta de preocupação ou compaixão por seus servos sofredores, nem tem o desígnio de dar apoio e ânimo ao mundo dos ímpios, mas de que os homens tenham tempo para preparar-se para a eternidade.”
“Aprendei, pois, a fazer uso correto da paciência de nosso Senhor, que ainda retarda sua vinda. Segui a paz e a santidade, ou sua vinda vos será terrível.”
Como é difícil impedir que os homens abusem da paciência de Deus e levá-los a aproveitá-la corretamente, nosso apóstolo cita São Paulo, que também os orienta a fazer bom uso da tolerância divina, para que a verdade seja confirmada pela boca ou pela pena de dois apóstolos.
Podemos observar aqui com que estima e afeto ele fala daquele que antes se opusera publicamente a Pedro e o censurara com severidade. Se um justo fere alguém verdadeiramente religioso, isso será recebido como bondade; e que o censure, será como óleo excelente, que suaviza e torna mais amável o homem bom repreendido quando erra.
Que menção honrosa este apóstolo da circuncisão faz daquele mesmo homem que o censurou abertamente diante de todos, por não andar retamente segundo a verdade do evangelho!
(1.) Ele o chama de irmão. Com isso quer dizer não apenas que é um cristão como ele (sentido em que a palavra “irmãos” é usada em 1 Tessalonicenses 5:27), nem apenas um pregador como ele (sentido em que Paulo chama de irmão o evangelista Timóteo, Colossenses 1:1).
Quer dizer que Paulo é um apóstolo como ele: alguém que recebeu do próprio Cristo, sem mediação, a mesma comissão extraordinária para pregar o evangelho em toda parte e fazer discípulos de todas as nações.
Embora muitos mestres sedutores negassem o apostolado de Paulo, ainda assim Pedro o reconhece como apóstolo.
(2.) Ele o chama de amado. Como ambos haviam recebido a mesma comissão e estavam unidos no serviço ao mesmo Senhor, seria muito impróprio que não fossem unidos também pelo afeto, fortalecendo-se mutuamente e desejando e celebrando o sucesso um do outro.
(3.) Ele menciona Paulo como alguém a quem foi concedida uma medida incomum de sabedoria. Paulo era notável por seu conhecimento dos mistérios do evangelho e não ficava atrás de nenhum dos demais apóstolos nessa ou em qualquer outra qualidade.
Como é desejável que os que pregam o mesmo evangelho tratem uns aos outros segundo o exemplo que Pedro lhes dá aqui! Certamente devem procurar, pelos meios adequados, evitar ou remover todo preconceito que prejudique a utilidade dos ministros e despertar e aumentar na mente das pessoas a estima e o respeito por seus ministros, para promover o bom resultado do trabalho deles.
Observe também:
[1.] Diz-se que a excelente sabedoria que havia em Paulo lhe foi dada. O entendimento e o conhecimento que qualificam os homens para pregar o evangelho são dádivas de Deus.
Devemos buscar conhecimento e nos esforçar para adquirir entendimento, na esperança de que nos seja dado do alto, ao mesmo tempo que empregamos com diligência os meios adequados para alcançá-lo.
[2.] O apóstolo transmite aos homens aquilo que recebeu de Deus. Procura conduzir os outros tão longe quanto ele próprio foi conduzido no conhecimento dos mistérios do evangelho.
Não se intromete em coisas que não viu nem das quais não está plenamente convencido; ainda assim, não deixa de declarar todo o conselho de Deus (Atos 20:27).
[3.] As epístolas escritas pelo apóstolo dos gentios e dirigidas aos gentios que creram em Cristo também se destinam a instruir e edificar os que, dentre os judeus, foram levados a crer em Cristo.
Em geral, pensa-se que aquilo a que se alude aqui está na epístola aos Romanos (Romanos 2:4), embora todas as epístolas de Paulo contenham algo relacionado a um ou outro assunto tratado neste capítulo e no anterior. Não é de estranhar que aqueles que perseguiam o mesmo desígnio geral insistissem nos mesmos assuntos em suas epístolas.
O apóstolo Pedro prossegue dizendo que há nas epístolas de Paulo algumas coisas difíceis de entender. Entre os diversos assuntos tratados nas Escrituras, alguns são difíceis por sua própria obscuridade, como as profecias.
Outros são difíceis por sua excelência e sublimidade, como as doutrinas misteriosas; e outros são difíceis de compreender por causa da fraqueza da mente humana, como as coisas do Espírito de Deus mencionadas em 1 Coríntios 2:14.
É aqui que os ignorantes e instáveis fazem um trabalho lamentável: torcem e deturpam as Escrituras para fazê-las dizer o que o Espírito Santo não pretendeu. Os que não estão bem instruídos e firmados na verdade correm grande perigo de perverter a palavra de Deus.
Os que ouviram e aprenderam do Pai estão mais protegidos contra a má compreensão e a aplicação errada de qualquer parte da palavra de Deus. Quando há um poder divino que, além de instruir, também firma as pessoas na verdade divina, elas ficam efetivamente protegidas contra os erros.
Aprendemos que bênção é essa ao observar a consequência perniciosa dos erros em que caem os ignorantes e instáveis: a própria destruição deles. Em particular, os erros sobre a santidade e a justiça de Deus arruínam completamente multidões de homens.
Portanto, oremos com fervor para que o Espírito de Deus nos instrua na verdade, a fim de conhecê-la como ela é em Jesus e ter o coração firmado pela graça. Assim permaneceremos firmes e inabaláveis mesmo nos tempos mais tempestuosos, quando outros forem levados de um lado para outro por todo vento de doutrina.
III. O apóstolo lhes dirige uma palavra de cautela, v. 17, 18. Nela:
- Ele indica que o conhecimento que temos dessas coisas deve tornar-nos muito cautelosos e vigilantes, pois há dois perigos, v. 17.
(1.) Corremos grande perigo de ser seduzidos e desviados da verdade. Os ignorantes e instáveis, e são muitos, em geral torcem as Escrituras.
Muitos que possuem as Escrituras e as leem não entendem o que leem. E demasiados dentre os que compreendem corretamente o sentido e o significado da palavra não estão firmados na crença da verdade. Todos esses estão sujeitos a cair no erro.
Poucos alcançam o conhecimento e o reconhecimento do cristianismo doutrinário. Menos ainda conseguem encontrar e conservar o caminho da piedade prática, que é o caminho estreito o único que conduz à vida.
Precisamos renunciar muito a nós mesmos, desconfiar de nós e submeter-nos à autoridade de Cristo Jesus, nosso grande profeta, antes de receber de coração todas as verdades do evangelho. Por isso corremos grande perigo de rejeitar a verdade.
(2.) Corremos grande perigo quando somos seduzidos, pois:
[1.] Na medida em que nos afastamos da verdade, também saímos do caminho da verdadeira bem-aventurança e entramos na senda que conduz à destruição. Se os homens corrompem a palavra de Deus, isso tende à ruína completa deles.
[2.] Quando os homens torcem a palavra de Deus, caem no erro dos ímpios, homens sem lei, que não seguem regra alguma nem impõem limites a si mesmos, uma espécie de livres-pensadores que o salmista detesta.
“Odeio os pensamentos vãos, mas amo a tua lei” (Salmos 119:113). O homem bom rejeita e abomina quaisquer opiniões e pensamentos humanos que não estejam de acordo com a lei de Deus nem sejam autorizados por ela. São ideias e planos dos ímpios que abandonaram a lei de Deus. Se adotarmos as opiniões deles, cedo demais imitaremos suas práticas.
[3.] Os que são levados pelo erro caem da própria firmeza. Ficam completamente desestabilizados e sem rumo, sem saber onde descansar, na maior incerteza, como uma onda do mar impelida pelo vento e agitada. Portanto, é de grande importância que estejamos alertas, pois o perigo é muito grande.
- Para evitar melhor que sejamos levados, o apóstolo nos orienta sobre o que fazer, v. 18.
(1.) Devemos crescer na graça. No começo da epístola ele nos exortou a acrescentar uma graça a outra; aqui nos aconselha a crescer em toda graça, na fé, na virtude e no conhecimento. Quanto mais forte for em nós a graça, tanto mais firmes estaremos na verdade.
(2.) Devemos crescer no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. “Prossegui em conhecer o Senhor. Esforçai-vos por conhecê-lo mais clara e plenamente, por conhecer mais de Cristo e conhecê-lo com melhor proveito, para serdes mais semelhantes a ele e amá-lo melhor.”
Esse foi o conhecimento de Cristo pelo qual o apóstolo Paulo se esforçou e que desejou alcançar (Filipenses 3:10). Um conhecimento de Cristo que nos conforma mais a ele e o torna mais precioso para nós certamente nos será muito útil para impedir que nos afastemos da fé em tempos de apostasia geral.
Os que experimentam esse efeito do conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, ao receberem dele tal graça, lhe darão graças e louvor e se unirão ao nosso apóstolo para dizer: “A ele seja glória tanto agora como para sempre. Amém.”