2 Pedro 1
Argumento
Segunda Epístola de Pedro
Concluída por Joseph Hill.
UMA EXPOSIÇÃO
COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS
DA SEGUNDA EPÍSTOLA GERAL DE PEDRO.
O escritor desta epístola parece claramente ser o mesmo que escreveu a anterior. Qualquer que seja a diferença que alguns estudiosos julguem perceber entre o estilo desta epístola e o da primeira, isso não pode ser argumento suficiente para afirmar que ela foi escrita por Simão, que sucedeu ao apóstolo Tiago na igreja de Jerusalém.
Pois aquele que escreveu esta epístola se chama Simão Pedro e apóstolo (v. 1), diz que era um dos três apóstolos presentes à transfiguração de Cristo (v. 18) e declara expressamente que lhes escrevera uma epístola anterior (2 Pedro 3:1).
O desígnio desta segunda epístola é o mesmo da primeira, como é evidente no primeiro versículo do terceiro capítulo. Daí observe que, nas coisas de Deus, precisamos de preceito sobre preceito e linha sobre linha, e tudo isso mal basta para mantê-las em nossa memória; contudo, são justamente as coisas que deveríamos registrar com a maior fidelidade e recordar com frequência.
Neste capítulo temos: I. Uma introdução ou prefácio, que prepara e conduz ao principal desígnio do apóstolo, vv. 1-4. II. Uma exortação a avançar e aproveitar todas as graças cristãs, vv. 5-7.
III. Para reforçar essa exortação e levá-los a atendê-la com seriedade e de coração, ele acrescenta: 1. Uma representação da enorme vantagem que assim lhes resultará, vv. 8-11; 2. A promessa da melhor ajuda que o apóstolo podia oferecer para facilitar e promover essa boa obra, vv. 12-15.
- Uma declaração da verdade certa e da origem divina do evangelho de Cristo, em cuja graça foram exortados a crescer e perseverar.
Versículos 1 a 4
A Felicidade da Igreja. (67 d.C.)
Movido pelo Espírito Santo a escrever mais uma vez àqueles que, dentre os judeus, haviam sido conduzidos à fé em Cristo, o apóstolo Pedro começa esta segunda epístola com uma introdução na qual descreve as mesmas pessoas e deseja as mesmas bênçãos que no prefácio da sua carta anterior. Mas há alguns acréscimos ou alterações em que devemos reparar nas três partes da introdução.
I. Temos aqui a descrição do autor da epístola, chamado tanto Simão como Pedro, e intitulado tanto servo como apóstolo.
Pedro, presente nas duas epístolas, parece ser o nome mais frequentemente usado e aquele de que ele talvez mais gostasse, pois foi dado pelo nosso Senhor quando Pedro confessou que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo; esse próprio nome significa e confirma que tal verdade é o artigo fundamental, a rocha sobre a qual todos devem edificar.
Mas o nome Simão, embora omitido na epístola anterior, é mencionado nesta para que a omissão total do nome que lhe deram quando foi circuncidado não levasse os crentes judeus, todos zelosos da lei, a desconfiar do apóstolo, como se ele rejeitasse e desprezasse a circuncisão.
Aqui ele se chama servo de Jesus Cristo, além de apóstolo; pode gloriar-se disso, como Davi faz (Salmos 116:16). Servir a Cristo é o caminho para a mais alta honra (João 12:26). O próprio Cristo é Rei dos reis e Senhor dos senhores, e faz de todos os seus servos reis e sacerdotes para Deus (Apocalipse 1:6).
Que grande honra é ser servo desse Mestre! Não podemos, sem pecar, envergonhar-nos disso. É muito apropriado que aqueles que convidam outros a entrar no serviço de Cristo ou nele permanecer triunfem por serem servos de Cristo.
II. Temos um relato das pessoas a quem a epístola foi escrita. Na sua carta anterior, são descritas como “eleitas segundo a presciência de Deus Pai”; aqui, como tendo obtido fé preciosa em nosso Senhor Jesus Cristo.
A fé mencionada é muito diferente da falsa fé do herege, da fé fingida do hipócrita e da fé sem fruto daquele que professa formalmente a fé, por mais ortodoxo que seja. É a “fé dos eleitos de Deus” (Tito 1:1), produzida pelo Espírito de Deus na vocação eficaz. Observe:
- A verdadeira fé salvadora é uma graça preciosa, não só por ser muito incomum e muito rara até mesmo na igreja visível, onde há um número muito pequeno de crentes verdadeiros entre uma grande multidão dos que professam a fé visivelmente (Mateus 22:14), mas também por ser muito excelente e de enorme utilidade e vantagem para quem a possui.
O justo vive pela fé, numa vida verdadeiramente divina e espiritual; a fé obtém todo o sustento e consolo necessários para essa vida excelente; a fé vai a Cristo e compra “o vinho e o leite” (Isaías 55:1), alimento próprio da nova criatura.
A fé compra e traz para casa “o ouro provado”, o tesouro celestial que enriquece; a fé toma e veste “o traje branco”, as vestes reais que cobrem e adornam (Apocalipse 3:18).
Observe: 2. A fé é igualmente preciosa no cristão comum e no apóstolo; produz em ambos os mesmos efeitos preciosos. A fé une o crente fraco a Cristo tão realmente quanto une o forte, e purifica o coração de um tão verdadeiramente com que purifica o do outro; todo crente sincero é justificado por sua fé diante de Deus, de todos os pecados (Atos 13:39).
Em quem quer que exista, a fé se apega ao mesmo Salvador precioso e aplica as mesmas promessas preciosas. 3. Essa fé preciosa é obtida de Deus. A fé é dom de Deus, produzida pelo Espírito que ressuscitou Jesus Cristo dentre os mortos. 4. A preciosidade da fé, assim como o fato de a obtermos, vem pela justiça de Cristo.
A justiça satisfatória e meritória e a obediência de Cristo dão à fé todo o seu valor e preciosidade; e a justiça de uma pessoa assim só pode ter valor infinito para aqueles que a recebem pela fé. Pois: (1.) Esse Jesus Cristo é Deus, sim, e ainda, nosso Deus, como diz o original.
Ele é verdadeiramente Deus, um Ser infinito, que realizou essa justiça; portanto, ela precisa ter valor infinito. (2.) Ele é o Salvador dos que creem e, como tal, prestou essa obediência meritória; por isso ela lhes traz benefício e vantagem tão grandes, pois, como fiador e Salvador, realizou essa justiça em lugar deles.
III. Temos a bênção apostólica, na qual ele lhes deseja a multiplicação e o aumento do favor divino, o avanço e crescimento da obra da graça neles e a abundância da paz com Deus e em suas próprias consciências, algo impossível sem a graça. É a mesma bênção da epístola anterior, mas aqui ele acrescenta:
Uma explicação do modo e dos meios pelos quais a graça e a paz se multiplicam: por meio do conhecimento de Deus e de Jesus Cristo. Esse reconhecimento ou crença no único Deus vivo e verdadeiro e em Jesus Cristo, a quem ele enviou, é o grande aproveitamento da vida espiritual; de outro modo, isso não poderia conduzir à vida eterna (João 17:3).
O fundamento da fé do apóstolo ao pedir e da esperança do cristão ao esperar o aumento da graça. O que já recebemos deve nos animar a pedir mais; aquele que começou a obra da graça a aperfeiçoará.
Observe: (1.) A fonte de todas as bênçãos espirituais é o poder divino de Jesus Cristo, que não poderia desempenhar todo o ofício de Mediador se não fosse Deus e também homem. (2.) Tudo o que diz respeito à verdadeira vida espiritual, a vida e o poder da piedade, e tudo o que exerce influência sobre ela, vem de Jesus Cristo.
Nele habita toda a plenitude, e é dele que recebemos, “e graça por graça” (João 1:16), até mesmo tudo o que é necessário para conservar, aproveitar e aperfeiçoar a graça e a paz, chamadas neste versículo por alguns intérpretes de piedade e vida.
(3.) O conhecimento de Deus e a fé nele são o canal pelo qual nos são transmitidos todo sustento e consolo espiritual; mas então devemos admitir e reconhecer que Deus é o autor da nossa vocação eficaz, pois é assim que ele é descrito aqui: “Aquele que nos chamou à glória e à virtude”.
Observe aqui: o desígnio de Deus ao chamar ou converter as pessoas é levá-las à glória e à virtude, isto é, à paz e à graça, como alguns entendem. Muitos, porém, preferem a tradução marginal, “por glória e virtude”; assim, a vocação eficaz é apresentada como obra da glória e da virtude, ou do poder glorioso de Deus, descrito em Efésios 1:19.
Converter pecadores é a glória do poder de Deus; esse é o poder e a glória vistos e experimentados no seu santuário (Salmos 63:2). Todos os que foram chamados das trevas para a maravilhosa luz devem exaltar esse poder ou virtude (1 Pedro 2:9).
(4.) No quarto versículo, o apóstolo continua a animar a fé e a esperança deles de buscar o aumento da graça e da paz: a mesma glória e virtude empregadas e manifestadas ao conceder as promessas do evangelho também atuam em nossa vocação eficaz. Observe: [1.] As boas coisas concedidas pelas promessas são imensamente grandes.
O perdão do pecado é uma das bênçãos aqui visadas. Todos os que conhecem algo do poder da ira de Deus confessarão prontamente quão grande ela é; esse é um dos favores prometidos em cuja concessão o poder do Senhor é grande (Números 14:17).
Perdoar pecados numerosos e graves, cada um merecedor da cólera e da maldição de Deus para sempre, é algo maravilhoso, como diz o texto (Salmos 119:18). [2.] As bênçãos prometidas no evangelho são muito preciosas.
Assim como a grande promessa do Antigo Testamento era a Semente da mulher, o Messias (Hebreus 11:39), a grande promessa do Novo Testamento é o Espírito Santo (Lucas 24:49). Quão precioso deve ser o Espírito que vivifica, ilumina e santifica! [3.] Os que recebem as promessas do evangelho participam da natureza divina.
São renovados no espírito da mente, segundo a imagem de Deus, em conhecimento, justiça e santidade; seus corações se voltam para Deus e para o seu serviço; têm um caráter e uma disposição de alma divinos.
Embora a lei seja ministério de morte e a letra mate, ainda assim o evangelho é ministério de vida, e o Espírito vivifica os que por natureza estão mortos em delitos e pecados. [4.] Aqueles em quem o Espírito opera a natureza divina são libertos da escravidão da corrupção.
Os que, pelo Espírito da graça, são renovados no espírito da mente passam à liberdade dos filhos de Deus, pois a corrupção reina no mundo. Os que não são do Pai, mas do mundo, estão sob o poder do pecado; “o mundo jaz na maldade” (1 João 5:19).
O domínio que o pecado exerce sobre as pessoas do mundo vem pela cobiça: seus desejos se voltam para o pecado, e por isso ele as governa. O domínio do pecado sobre nós corresponde ao prazer que encontramos nele.
Versículos 5 a 11
Diligência Espiritual; Avanço na Santidade. (67 d.C.)
Nestas palavras o apóstolo chega à principal coisa visada nesta epístola: estimulá-los e comprometê-los a avançar na graça e na santidade, pois já haviam obtido fé preciosa e se tornado participantes da natureza divina. Esse é um começo muito bom, mas não devemos nos dar por satisfeitos, como se já fôssemos perfeitos.
O apóstolo havia orado para que a graça e a paz se multiplicassem neles; agora os exorta a prosseguir para alcançar mais graça. Quando tivermos oportunidade, devemos exortar aqueles por quem oramos e incentivá-los a usar todos os meios adequados para obter o que desejamos que Deus lhes conceda.
Os que quiserem progredir na religião devem ser muito diligentes e laboriosos em seus esforços. Sem toda diligência, não se avança na obra da santidade; os negligentes nas coisas da religião não alcançarão nada. Precisamos contender se quisermos entrar pela porta estreita (Lucas 13:24).
I. Não podemos deixar de observar como o caminho do crente é traçado passo a passo. 1. Ele deve adquirir virtude.
Alguns entendem que se trata de justiça; e então, unidos a ela o conhecimento, a temperança e a paciência que se seguem, pode-se supor que o apóstolo os esteja incentivando a buscar as quatro virtudes cardeais, ou os quatro elementos que compõem cada virtude ou ação virtuosa.
Mas, visto que é declaração fiel e deve ser afirmada constantemente que os que têm fé cuidem de manter boas obras (Tito 3:8), aqui podemos entender virtude como força e coragem, sem as quais o crente não pode defender as boas obras, abundando nelas e destacando-se na sua prática.
O justo deve ser “ousado como um leão” (Provérbios 28:1). O cristão covarde, que teme professar as doutrinas ou cumprir os deveres do evangelho, deve esperar que Cristo se envergonhe dele naquele dia.
“Não desfaleçam os vossos corações no dia mau, mas mostrai-vos valentes ao enfrentar toda oposição e resistir a cada inimigo: o mundo, a carne, o diabo, sim, e ainda à morte.” Precisamos de virtude enquanto vivemos, e ela terá excelente utilidade quando chegar a hora de morrer. 2. O crente deve acrescentar conhecimento à sua virtude, prudência à sua coragem.
Há um conhecimento do nome de Deus que deve preceder nossa fé (Salmos 9:10), e não podemos aprovar a vontade boa, agradável e perfeita de Deus antes de conhecê-la. Mas há circunstâncias próprias do dever que precisamos conhecer e observar; devemos usar os meios designados e observar o tempo aceito.
A prudência cristã considera as pessoas com quem lidamos, o lugar em que estamos e a companhia que temos. Todo crente deve empenhar-se para obter o conhecimento e a sabedoria úteis para orientar tanto o método e a ordem apropriados de cumprir todos os deveres cristãos como o modo de realizá-los. 3. Devemos acrescentar temperança ao conhecimento.
Precisamos ser sóbrios e moderados no amor e no uso das coisas boas desta vida. Se compreendermos corretamente e conhecermos os confortos exteriores, veremos que seu valor e sua utilidade são muito inferiores aos das misericórdias espirituais.
Os exercícios e privilégios corporais têm pouco proveito e devem ser estimados e usados de acordo com isso; o evangelho ensina sobriedade, assim como honestidade (Tito 2:12).
Devemos ser moderados ao desejar e usar os bens da vida natural, como alimento, bebida, roupas, sono, recreação e reputação. Desejá-los em excesso é incompatível com o desejo ardente por Deus e por Cristo; quem toma mais do que lhe cabe não pode dar a Deus nem ao homem o que lhes é devido. 4. Acrescente paciência à temperança.
Ela precisa ter sua obra perfeita, ou não poderemos ser “perfeitos e íntegros, sem faltar coisa alguma” (Tiago 1:4). Pois nascemos para a perturbação e precisamos passar por muitas tribulações para entrar no reino dos céus. É essa tribulação (Romanos 5:3) que “produz a paciência”: exige o exercício dessa graça e promove seu crescimento.
Por meio dela suportamos todas as calamidades e adversidades com silêncio e submissão, sem murmurar contra Deus nem queixar-nos dele; antes, justificamos aquele que põe toda aflição sobre nós, reconhecendo que nossos sofrimentos são menores do que nossos pecados merecem e crendo que não são mais do que nós mesmos precisamos.
- À paciência devemos acrescentar piedade, que é justamente o resultado da paciência, pois esta “produz experiência” (Romanos 5:4).
Quando os cristãos suportam as aflições com paciência, adquirem conhecimento por experiência da bondade amorosa de seu Pai celestial, que ele não retirará de seus filhos nem quando visita a iniquidade deles com a vara e a transgressão com açoites (Salmos 89:32-33).
Assim são conduzidos ao temor filial e ao amor reverente em que consiste a verdadeira piedade. 6. A isso devemos acrescentar o afeto fraternal, ternura por todos os nossos irmãos cristãos, filhos do mesmo Pai, servos do mesmo Mestre, membros da mesma família, viajantes para o mesmo país e herdeiros da mesma herança.
Portanto, devemos amá-los com coração puro e fervorosamente, com amor de satisfação, como pessoas especialmente próximas e queridas de nós, nas quais temos particular deleite (Salmos 16:3).
- Ao amor de deleite que sentimos pelos filhos de Deus devemos acrescentar a caridade, isto é, o amor de boa vontade por toda a humanidade. Deus fez de um só sangue todas as nações. Todos os seres humanos participam da mesma natureza humana, todos podem receber as mesmas misericórdias e estão sujeitos às mesmas aflições.
Portanto, embora por sua relação espiritual os cristãos sejam distinguidos e honrados acima dos que estão sem Cristo, ainda assim devem compadecer-se dos outros em suas calamidades, aliviar suas necessidades e promover o bem-estar do corpo e da alma deles, conforme tiverem oportunidade.
Assim todos os que creem em Cristo devem mostrar que são os filhos de Deus, que é bom para com todos, mas especialmente para com Israel.
II. Precisamos possuir todas as graças mencionadas; caso contrário, não estaremos plenamente preparados para toda boa obra: os deveres da primeira e da segunda tábua, a obediência ativa e passiva, e os serviços em que devemos imitar a Deus, bem como aqueles em que apenas lhe obedecemos.
Para nos levar a buscá-las com empenho incansável, o apóstolo apresenta as vantagens que recebem todos os que se esforçam com êxito para que essas coisas estejam e abundem neles, vv. 8-11. Ele as apresenta:
- De modo geral, v. 8. Ter essas coisas nos impede de ser estéreis (ou preguiçosos) ou infrutíferos. Segundo o estilo do Espírito Santo, devemos entender muito mais do que foi expresso.
Quando se diz que Acaz, o mais vil e provocador dos reis de Judá, “não fez o que era reto aos olhos do Senhor” (2 Reis 16:2), devemos entender tanto quanto se fosse dito: fez o que era mais ofensivo e abominável, como mostra o relato seguinte de sua vida.
Do mesmo modo, quando se diz aqui que a presença e a abundância em nós de todas as graças cristãs nos impedem de ser inativos ou infrutíferos, devemos entender que nos tornam muito zelosos e vivazes, vigorosos e ativos em toda a prática do cristianismo, e muito frutíferos nas obras de justiça.
Esses darão muita glória a Deus, produzindo muito fruto entre as pessoas, sendo frutíferos no conhecimento ou no reconhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo. Reconhecerão que ele é o seu Senhor e mostrarão ser seus servos abundando na obra que ele lhes deu para fazer.
Essa é a consequência necessária de acrescentar uma graça à outra: quando todas as graças cristãs estão no coração, elas se aproveitam e fortalecem, animam e alimentam umas às outras. Assim todas prosperam e crescem, como o apóstolo indica no começo do v. 8; onde a graça abunda, também abundam as boas obras.
O apóstolo mostra, no v. 9, como é desejável estar nessa condição. Descreve como é miserável estar sem essas graças vivificantes e frutíferas.
Quem não tem as graças já mencionadas, ou quem, embora alegue ou pareça tê-las, não as exercita nem aproveita, é cego quanto às coisas espirituais e celestiais, como explicam as palavras seguintes: “não pode ver ao longe”.
Enxerga este presente mundo mau e se apega a ele, mas não discerne de modo algum o mundo futuro a ponto de ser tocado por seus privilégios espirituais e bênçãos celestiais.
Quem vê as excelências do cristianismo precisa esforçar-se por adquirir todas as graças absolutamente necessárias para alcançar glória, honra e imortalidade.
Mas, se essas graças não são adquiridas nem buscadas, as pessoas não conseguem olhar para a frente, para as coisas que, embora em aparência ou em seu entendimento pareçam muito distantes, na realidade estão muito próximas, pois elas as afastam.
Que condição miserável a dos cegos para as coisas tão grandiosas e terríveis do outro mundo, que não enxergam a realidade, a certeza, a grandeza e a proximidade das gloriosas recompensas que Deus concederá aos justos nem do terrível castigo que infligirá aos ímpios!
Mas essa não é toda a miséria dos que não acrescentam à fé a virtude, o conhecimento e as demais graças. Eles não conseguem olhar para trás nem para a frente: a memória é escorregadia e incapaz de guardar o passado, assim como a visão é curta e incapaz de discernir o futuro.
Esquecem que foram batizados, que tiveram os meios e que foram postos sob as obrigações de santidade de coração e vida. Pelo batismo, entramos numa guerra santa contra o pecado e nos obrigamos solenemente a lutar contra a carne, o mundo e o diabo.
Recordem com frequência e meditem com seriedade sobre o seu compromisso solene de pertencer ao Senhor e sobre suas vantagens especiais e seu ânimo para abandonar toda impureza da carne e do espírito.
- O apóstolo apresenta duas vantagens específicas que acompanham ou resultam da diligência no trabalho cristão: estabilidade na graça e entrada triunfal na glória. Ele as introduz retomando a exortação anterior e expressando-a de outro modo.
O que no v. 5 é dito como empenhar-se para acrescentar virtude à fé etc., no v. 10 é dito como empenhar-se para tornar firme nossa vocação e eleição. Observe aqui:
(1.) É dever dos crentes tornar firme sua eleição, esclarecendo para si mesmos que são escolhidos de Deus. (2.) O caminho para tornar firme sua eleição eterna é comprovar sua vocação eficaz.
Ninguém pode consultar o livro dos conselhos e decretos eternos de Deus; mas, visto que aqueles que Deus predestinou também chamou, se constatarmos que fomos chamados eficazmente, podemos concluir que somos escolhidos para a salvação.
(3.) É preciso muita diligência e trabalho para confirmar nossa vocação e eleição. Devemos examinar-nos profundamente, fazer uma exploração muito minuciosa e investigar com rigor se fomos plenamente convertidos, se nossa mente foi iluminada, nossa vontade renovada e toda a nossa alma transformada em sua inclinação e disposição.
Alcançar uma certeza firme exige a máxima diligência e não é possível alcançá-la e mantê-la sem assistência divina, como podemos aprender de Salmos 139:23 e Romanos 8:16.
“Mas, por maior que seja o trabalho, não o considere excessivo, pois a vantagem que você obtém é grande; pois:” [1.] “Por isso você será guardado de cair, em todos os tempos e ocasiões, até mesmo naquelas horas de tentação que sobrevirão à terra.”
Quando outros caírem em pecado grave e escandaloso, os que forem diligentes assim poderão andar com circunspecção e permanecer no caminho de seu dever; quando muitos caírem em erros, serão preservados na sã fé e permanecerão perfeitos e completos em toda a vontade de Deus. [2.] Os que são diligentes na obra da religião terão entrada triunfal na glória.
Entre os poucos que chegam ao céu, alguns “mal são salvos” (1 Pedro 4:18), com muita dificuldade, até mesmo “como pelo fogo” (1 Coríntios 3:15); os que crescem na graça e abundam na obra do Senhor terão entrada abundante na alegria de seu Senhor, naquele reino eterno em que Cristo reina e com ele reinarão para todo o sempre.
Versículos 12 a 15
Esforços Espirituais. (67 d.C.)
I. A importância e a vantagem de avançar e perseverar na graça e na santidade levaram o apóstolo a ser muito diligente no trabalho de ministro de Cristo, para assim estimulá-los e ajudá-los a ser diligentes no dever cristão. Se os ministros forem negligentes em seu trabalho, dificilmente se pode esperar que o povo seja diligente no dele.
Por isso Pedro não será negligente, isto é, em nenhum momento ou lugar, em nenhuma parte de sua obra nem em relação a nenhuma parte de sua responsabilidade; será diligente de modo exemplar e em tudo, cumprindo a tarefa de fazer lembrar.
Esse é o ofício dos melhores ministros, até mesmo dos próprios apóstolos: são os que fazem lembrar ao Senhor (Isaías 62:6). Em especial, estão obrigados a mencionar as promessas e recordar a Deus os compromissos que assumiu de fazer o bem ao seu povo.
Também fazem lembrar o povo, mencionando os preceitos de Deus e recordando-lhe as doutrinas e os deveres do cristianismo, para que se lembre dos mandamentos de Deus e os cumpra.
É isso que o apóstolo faz, embora alguns talvez pensem desnecessário, visto que já conheciam aquelas coisas sobre as quais ele escreve e estavam firmados na própria verdade que ele insiste em ensinar. Observe: 1. Precisamos ser lembrados daquilo que já sabemos, para não esquecer, aproveitar nosso conhecimento e pôr tudo em prática.
- Devemos estar firmados na fé na verdade, para não sermos abalados por todo vento de doutrina, especialmente quanto à verdade presente, aquela que é particularmente necessária em nossos dias, que diz respeito à nossa paz e que sofre oposição mais especial em nosso tempo.
As grandes doutrinas do evangelho, que Jesus é o Cristo, que Jesus Cristo veio ao mundo para salvar pecadores, que serão salvos os que creem no Senhor Jesus Cristo e que todos os que creem em Deus devem cuidar de praticar boas obras, são verdades que os apóstolos defendiam em seu tempo.
São declarações fiéis e dignas de plena aceitação em todas as épocas da igreja cristã.
Assim como os ministros devem afirmá-las constantemente (Tito 3:8), o povo deve ser bem instruído e firmado nelas; ainda assim, depois de todo o conhecimento adquirido, precisa ser lembrado de coisas que nunca se podem conhecer com clareza excessiva nem crer com firmeza excessiva.
Os cristãos mais avançados não podem estar acima das ordenanças enquanto vivem neste mundo, nem deixam de precisar dos meios que Deus designou e concede.
E, se as pessoas precisam de ensino e exortação enquanto estão no corpo, é muito apropriado e justo que os ministros, enquanto permanecerem neste tabernáculo, as instruam e exortem, trazendo à memória as verdades que já ouviram. Esse é um meio adequado para estimulá-las a ser diligentes e vivas numa vida de obediência ao evangelho.
II. Empenhado nessa obra, o apóstolo nos diz (v. 14) o que o torna tão dedicado a ela: ele sabe não só que certamente terá de deixar este tabernáculo, mas também que isso acontecerá em breve. Observe: 1. O corpo é apenas o tabernáculo da alma.
É uma estrutura humilde e móvel, cujas estacas podem ser removidas com facilidade e cujas cordas se rompem imediatamente. 2. Este tabernáculo terá de ser deixado. Não permaneceremos muito tempo nesta casa terrena.
Assim como à noite tiramos as roupas e as deixamos de lado, na morte precisamos deixar nossos corpos, que devem ficar depositados no túmulo até a manhã da ressurreição. 3. A proximidade da morte torna o apóstolo diligente nas ocupações da vida.
Nosso Senhor Jesus lhe mostrara que o tempo de sua partida estava próximo; por isso ele se empenha com zelo e diligência ainda maiores, pois o tempo é curto. Em breve precisava ser afastado daqueles a quem escrevia.
Como desejava que se lembrassem da doutrina que lhes expusera depois que ele próprio fosse tirado do meio deles, registra por escrito sua exortação. O apóstolo não tinha grande consideração pela tradição oral, que não era um meio tão adequado para alcançar o objetivo que buscava.
Ele queria que sempre se lembrassem dessas coisas e não apenas as guardassem na memória, mas também falassem delas, como indica o sentido das palavras originais. Os que temem ao Senhor mencionam o seu nome e falam de sua bondade amorosa.
Esse é o caminho para divulgar o conhecimento do Senhor, e era isso que o apóstolo tinha no coração; os que possuem a palavra escrita de Deus têm condições de fazê-lo.
Versículos 16 a 17
Provas do Evangelho. (67 d.C.)
Aqui temos a razão da exortação anterior e de tanta diligência e seriedade com que foi feita. Essas coisas não são histórias vãs nem algo sem valor; são de verdade indubitável e de enorme importância. O evangelho não é fábula engenhosamente inventada.
Essas não são palavras de alguém possuído por um demônio nem maquinação de qualquer número de homens que, com astúcia, procuram enganar. O caminho da salvação por Jesus Cristo é, acima de tudo, o conselho de Deus, a mais excelente maquinação do Jeová de sabedoria infinita.
Foi ele quem concebeu esse modo de salvar pecadores por Jesus Cristo, cujo poder e cuja vinda são apresentados no evangelho; a pregação do apóstolo era dar a conhecer essas coisas.
- A pregação do evangelho dá a conhecer o poder de Cristo: ele é capaz de salvar até o extremo todos os que se achegam a Deus por meio dele. Ele é o Deus poderoso e, por isso, pode salvar tanto da culpa como da impureza do pecado. 2. A pregação do evangelho também dá a conhecer a vinda de Cristo.
Aquele que foi prometido logo depois da queda do homem, para nascer de mulher na plenitude dos tempos, já veio em carne; quem nega isso é anticristo (1 João 4:3), movido e influenciado pelo espírito do anticristo.
Mas os verdadeiros apóstolos e ministros de Cristo, dirigidos e guiados pelo Espírito de Cristo, mostram que Cristo veio segundo a promessa em cuja fé morreram todos os crentes do Antigo Testamento (Hebreus 11:39). Cristo veio em carne.
Como aqueles a quem se comprometeu a salvar participam de carne e sangue, ele também tomou parte do mesmo, para sofrer no lugar deles e em sua natureza e assim fazer expiação.
O evangelho descreve com muita clareza e precisão essa vinda de Cristo; mas também fala de uma segunda vinda, que os ministros do evangelho devem anunciar: ele virá na glória de seu Pai, com todos os seus santos anjos, pois foi designado Juiz de vivos e mortos.
Virá julgar o mundo com justiça segundo o evangelho eterno e chamar todos nós a prestar contas de tudo o que fizemos no corpo, seja bem, seja mal. 3. Embora um daqueles miseráveis que se intitulam sucessores de São Pedro tenha chamado blasfemamente de fábula este evangelho de Cristo, nosso apóstolo prova que ele é absolutamente certo e real.
Pois durante a permanência de nosso bendito Salvador na terra, quando tomou a forma de servo e foi encontrado em figura humana, ele manifestou algumas vezes que era Deus, particularmente ao nosso apóstolo e aos dois filhos de Zebedeu, testemunhas oculares de sua majestade divina quando foi transfigurado diante deles.
Seu rosto brilhou como o sol, e suas vestes ficaram brancas como a luz, extremamente brancas como a neve, de modo que nenhum lavandeiro da terra poderia alvejá-las.
Pedro, Tiago e João viram isso e poderiam e deveriam testemunhá-lo; certamente seu testemunho é verdadeiro, pois declaram o que viram com os olhos e sim, e ainda ouviram com os ouvidos. Além da glória visível que revestiu Cristo na terra, houve uma voz audível vinda do céu.
Observe aqui: (1.) Que declaração graciosa foi feita: “Este é o meu Filho amado, em quem bem me agrado”, a melhor voz que já veio do céu à terra. Deus se agrada de Cristo e de nós nele. Este é o Messias prometido, por meio de quem todos os que nele creem serão aceitos e salvos.
(2.) Essa declaração é feita por Deus Pai, que assim reconhece publicamente seu Filho, mesmo em seu estado de humilhação, quando estava na forma de servo; sim, e ainda o proclama seu Filho amado quando ele está nessa condição baixa.
Sim, e ainda, longe de as circunstâncias humildes e baixas de Cristo diminuírem o amor do Pai por ele, diz-se que entregar a vida foi uma razão especial desse amor (João 10:17). (3.) O desígnio dessa voz foi conceder a nosso Salvador uma honra especial enquanto estava aqui embaixo: “Ele recebeu honra e glória de Deus Pai”.
Este é aquele a quem Deus se agrada de honrar. Assim como Deus exige que honremos e glorifiquemos seu Filho, confessando-o como nosso Salvador, ele dá glória e honra ao nosso Salvador ao declarar que ele é seu Filho. (4.) Essa voz vem do céu, aqui chamado de excelente glória, o que continuamente reflete maior glória ao nosso bendito Salvador.
A declaração vem de Deus, a fonte da honra, e do céu, morada da glória, onde Deus está presente da maneira mais gloriosa.
(5.) Pedro, Tiago e João ouviram a voz de modo que puderam compreendê-la. Não ouviram apenas um som, como o povo ouviu (João 12:28-29), mas entenderam o sentido. Deus abre os ouvidos e o entendimento de seu povo para receber o que lhe importa conhecer.
Enquanto outros são como os companheiros de Paulo, que apenas ouviram o som das palavras (Atos 9:7), sem entender o significado; por isso se diz que não ouviram a voz daquele que falava (Atos 22:9).
Bem-aventurados os que não apenas ouvem, mas entendem; creem na verdade e sentem o poder da voz do céu, como aquele que testifica estas coisas. Temos todos os motivos do mundo para receber seu testemunho. Quem recusaria crer num relato tão detalhado da voz celestial, a respeito da qual o apóstolo nos conta: (6.) Eles a ouviram no monte santo, quando estavam com Jesus?
O lugar onde Deus concede uma manifestação especialmente graciosa de si mesmo torna-se santo, não por uma santidade própria, mas como o chão onde Deus apareceu a Moisés era santo (Êxodo 3:5) e como era santo o monte em que o templo foi edificado (Salmos 87:1).
Tais lugares são santos por relação e devem ser tratados como tais enquanto as pessoas experimentam em si mesmas, ou podem, com autorização da palavra, esperar com fé a presença especial e a influência graciosa do Deus santo e glorioso.
Versículos 19 a 21
Inspiração das Escrituras. (67 d.C.)
Nestas palavras, o apóstolo apresenta outra razão para provar a verdade e a realidade do evangelho.
Indica que esta segunda prova é mais forte e convincente que a anterior e demonstra de modo ainda mais irrefutável que a doutrina do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo não é mera fábula nem invenção astuciosa de homens, mas o sábio e maravilhoso conselho do Deus santo e gracioso.
Isso foi predito pelos profetas e autores do Antigo Testamento, que falaram e escreveram sob a influência e a direção do Espírito de Deus. Repare aqui:
I. A descrição das Escrituras do Antigo Testamento: elas são chamadas de palavra de profecia mais segura. 1. No Antigo Testamento temos uma declaração profética do poder e da vinda, da divindade e da encarnação de nosso Salvador. Ali se prediz que a semente da mulher ferirá a cabeça da serpente.
Predizem-se seu poder para destruir o diabo e suas obras e seu nascimento de mulher. O grande e temível nome de Deus no Antigo Testamento, Jeová, como alguns o leem, significa apenas “Ele será”; e esse nome de Deus (Êxodo 3:14) é traduzido por muitos como “Eu serei o que serei”.
Entendidos assim, esses nomes apontam para a futura encarnação de Deus para redimir e salvar seu povo.
O Novo Testamento, porém, é a história daquilo que o Antigo Testamento profetizou. “Todos os profetas e a lei profetizaram até João” (Mateus 11:13); os evangelistas e apóstolos escreveram a história do que antes fora exposto como profecia.
O cumprimento do Antigo Testamento no Novo e a concordância do Novo com o Antigo demonstram plenamente a verdade de ambos. Leia o Antigo Testamento como profecia de Cristo e use com diligência e gratidão o Novo como a melhor exposição do Antigo. 2. O Antigo Testamento é uma palavra de profecia mais segura.
Assim o é para os judeus que o receberam como oráculos de Deus. Profetas posteriores confirmaram o que os anteriores haviam exposto; essas profecias foram escritas por ordem expressa, preservadas por cuidado especial e muitas delas cumpridas pela maravilhosa providência de Deus.
Por isso eram mais certas, para os que sempre receberam e leram as Escrituras, que o relato do apóstolo sobre aquela voz do céu.
Moisés e os profetas convencem com mais força até que os próprios milagres (Lucas 16:31). Quão firme e segura deveria ser nossa fé, pois temos uma palavra tão firme e segura em que nos apoiar! Todas as profecias do Antigo Testamento são mais seguras e certas para nós, que possuímos o registro de seu cumprimento exato e minucioso.
II. O ânimo que o apóstolo nos dá para explorar as Escrituras. Ele nos diz que fazemos bem se lhes damos atenção, isto é, se aplicamos a mente para compreender o sentido e o coração para crer na verdade dessa palavra segura, sim, e ainda, se nos inclinamos a ela para sermos moldados e formados por ela.
A palavra é o modelo de doutrina no qual devemos ser lançados (Romanos 6:17), o formulário de conhecimento (Romanos 2:20) pelo qual devemos regular nossos pensamentos e opiniões, nossas palavras e confissões, toda a nossa vida e conduta.
Se assim nos dedicarmos à palavra de Deus, faremos certamente o que é bom em todos os aspectos, agradável a Deus e proveitoso para nós; isso de fato é apenas prestar aos oráculos de Deus a consideração que lhes é devida.
Mas, para essa atenção à palavra, o apóstolo sugere algumas coisas muito úteis a quem deseja aplicar-se às Escrituras com proveito. 1. Devemos considerar e usar as Escrituras como uma luz enviada por Deus e acesa no mundo para dissipar as trevas que estão sobre a face de toda a terra.
A palavra é lâmpada para os pés dos que a usam corretamente; mostra o caminho em que as pessoas devem andar e é o meio pelo qual conhecemos o caminho da vida. 2. Devemos reconhecer nossa própria escuridão. Este mundo é um lugar de erro e ignorância, e toda pessoa no mundo está naturalmente sem o conhecimento necessário para alcançar a vida eterna. 3.
Se as pessoas se tornam sábias para a salvação, isso acontece quando a palavra de Deus brilha em seu coração. As noções naturais acerca de Deus não bastam para o ser humano caído, que, mesmo no melhor dos casos, sabe muito menos e, ainda assim, precisa saber muito mais de Deus do que Adão sabia enquanto permanecia inocente.
- Quando a luz das Escrituras, pelo Espírito Santo de Deus, penetra a mente cega e o entendimento escuro, o dia espiritual amanhece e a estrela da manhã se levanta naquela alma. A iluminação de uma mente escura e envolta em trevas é como a alvorada, que se intensifica, avança e se espalha e se difunde por toda a alma até fazer dia perfeito (Provérbios 4:18).
É um conhecimento crescente; os que são iluminados desse modo nunca julgam saber o bastante até conhecerem como são conhecidos. Precisa ser do interesse e do dever de todos atender a essa luz; todos os que praticam a verdade vêm para ela, enquanto os que praticam o mal ficam longe.
III. O apóstolo apresenta uma condição indispensável para atender às Escrituras e tirar proveito delas: saber que toda profecia tem origem divina. Ele não apenas afirma essa verdade importante, mas também a prova. 1.
Observe: nenhuma profecia das Escrituras é de interpretação particular, isto é, opinião própria de alguém ou explicação da própria mente; ela é revelação da mente de Deus. Essa era a diferença entre os profetas do Senhor e os falsos profetas que existiram no mundo.
Os profetas do Senhor não falaram nem fizeram coisa alguma de sua própria mente, como Moisés, o principal entre eles, declara expressamente (Números 16:28), não fiz nenhuma das obras, nem expus nenhum dos estatutos e ordenanças, de minha própria mente.
Os falsos profetas, porém, falam “uma visão do seu próprio coração, e não da boca do Senhor” (Jeremias 23:16).
Os profetas e autores das Escrituras falaram e escreveram o que era a mente de Deus. Embora, sob a influência e a direção do Espírito, se possa bem supor que estivessem dispostos a revelar e registrar aquelas coisas, fizeram-no porque Deus quis que fossem faladas e escritas.
Embora a Escritura não seja expressão da opinião ou inclinação particular de alguém, mas revelação da mente e da vontade de Deus, cada pessoa deve explorá-la e chegar a compreender seu sentido e significado. 2.
Todos os que desejam atender à palavra profética segura devem conhecer e reconhecer esta importante verdade: a origem divina das Escrituras, isto é, que o conteúdo delas é a mente de Deus, não a do homem.
Que as Escrituras são a palavra de Deus não é apenas um artigo da fé do verdadeiro cristão, mas também uma questão de ciência ou conhecimento.
Assim como alguém não apenas crê, mas sabe com certeza que determinada pessoa é seu amigo especial porque nela vê todos os sinais e características próprios, peculiares e distintivos de seu amigo, o cristão sabe que aquele livro é a palavra de Deus quando vê nele e sobre ele todas as marcas e características próprias de um livro inspirado por Deus.
Saboreia nele uma doçura, sente um poder e vê uma glória verdadeiramente divinos. 3. A divindade das Escrituras precisa ser conhecida e reconhecida primeiro, antes que as pessoas possam usá-las com proveito e dar-lhes a devida atenção.
Desviar a mente de todos os outros escritos e dedicar-se de modo especial às Escrituras como única regra certa e infalível exige que estejamos plenamente persuadidos de que elas foram inspiradas por Deus e contêm o que é verdadeiramente a mente e a vontade de Deus.
IV. Como é absolutamente necessário que as pessoas estejam plenamente persuadidas da origem divina das Escrituras, o apóstolo (v. 21) conta como o Antigo Testamento foi compilado. 1. De forma negativa: não veio por vontade humana.
Nem as próprias coisas registradas, que compõem as diversas partes do Antigo Testamento, são opiniões dos homens, nem a vontade de algum profeta ou autor das Escrituras foi a regra ou o motivo pelo qual se escreveu qualquer dessas coisas que compõem o cânon das Escrituras. 2. De forma afirmativa: “Homens santos de Deus falaram conforme eram movidos pelo Espírito Santo”.
Observe: (1.) Foram homens santos de Deus que trabalharam naquele livro que recebemos como palavra de Deus. Balaão, Caifás e outros destituídos de santidade podem ter tido, em certas ocasiões, algo do espírito de profecia; ainda assim, tais pessoas não foram incumbidas de escrever qualquer parte das Escrituras para o uso da igreja de Deus.
Todos os autores das Escrituras foram homens santos de Deus. (2.) Esses homens santos foram movidos pelo Espírito Santo naquilo que expuseram como mente e vontade de Deus. O Espírito Santo é o agente supremo; os homens santos são apenas instrumentos.
[1.] O Espírito Santo os inspirou e lhes ditou o que deveriam expor da mente de Deus. [2.] Ele os moveu poderosamente e os comprometeu eficazmente a falar e escrever o que lhes pusera na boca.
[3.] Ele os assistiu e dirigiu com sabedoria e cuidado ao exporem o que haviam recebido dele, protegendo-os eficazmente do menor erro ao expressar o que revelavam.
Assim, as próprias palavras das Escrituras devem ser consideradas palavras do Espírito Santo; devemos reconhecer que vêm de Deus toda a clareza e simplicidade, todo o poder e virtude, toda a elegância e propriedade das palavras e expressões.
Portanto, misture a fé com o que encontrar nas Escrituras e estime e reverencie a sua Bíblia como livro escrito por homens santos, inspirados, influenciados e assistidos pelo Espírito Santo.