Matthew Henry

2 Crônicas 24

Argumento

Temos aqui a história do reinado de Joás, cujo desenvolvimento, e especialmente o fim, não corresponderam ao começo nem brilharam com tanto esplendor. Já lemos como ele foi maravilhosamente preservado para o trono e nele colocado; agora nos é contado como começou no espírito, mas terminou na carne.

I. No início de seu reinado, enquanto Joiada viveu, ele procedeu bem; em particular, cuidou de reparar o templo, vv. 1-14. II. No fim de seu reinado, depois da morte de Joiada, apostatou de Deus, e sua apostasia foi sua ruína:

  1. Restabeleceu o culto a Baal (vv. 15-18), embora tivesse sido advertido contra isso, v. 19. 2. Mandou matar o profeta Zacarias porque este o censurou pelo que havia feito, vv. 20-22. 3. Os juízos de Deus vieram sobre ele por isso. Os sírios o invadiram, v. 23, 24.

Foi atingido por doenças graves; seus próprios servos conspiraram contra ele e o mataram; e, como marca de infâmia, não foi sepultado no lugar de sepultura dos reis, vv. 25-27.

Versículos 1 a 14

O Templo Reparado. (a.C. 855.)

Já tivemos este relato dos bons começos de Joás, tal como aparece aqui, em 2 Reis 12:1, etc., embora ali tenhamos visto pouco da parte final deste capítulo, referente à sua apostasia.

Devemos aproveitar todas as oportunidades para falar do que é bom nas pessoas e repeti-lo muitas vezes; do que é mau, devemos falar com parcimônia, não mais que o necessário. Aqui observaremos apenas:

  1. É uma felicidade para os jovens, ao começarem a vida no mundo, estar sob a direção de pessoas sábias, boas e fiéis a eles, como Joás esteve sob a influência de Joiada, durante cuja vida fez o que era reto.

Que os jovens considerem uma bênção, e não um peso nem uma restrição, ter ao seu lado pessoas que os advirtam contra o mal, os aconselhem e estimulem a fazer o bem. E considerem sinal de sabedoria e discernimento, não de fraqueza e sujeição, dar ouvidos a essas pessoas. Quem não aceita conselhos não pode ser ajudado.

É especialmente prudente que os jovens aceitem conselho quanto ao casamento, como fez Joás, que deixou a escolha de suas mulheres a cargo de seu tutor, porque Jezabel e Atalia haviam sido tamanhas desgraças, v. 3.

Essa virada na vida muitas vezes resulta na prosperidade ou na ruína dos jovens e, por isso, exige grande cuidado.

  1. Os homens podem ir longe nas práticas externas da religião e mantê-las por muito tempo apenas pela força da educação que receberam e pela influência dos amigos, embora não tenham afeto sincero pelas coisas divinas nem gosto interior por elas.

Incentivos externos podem levar a praticar o bem pessoas que não são movidas por um princípio vivo de graça no coração.

  1. Nas manifestações externas de devoção, é possível que aqueles que têm apenas a forma de piedade ultrapassem os que têm o poder dela.

Joás se preocupa mais e tem mais zelo pelo reparo do templo do que o próprio Joiada, a quem censura pela negligência nesse assunto, v. 6. É mais fácil construir templos do que ser templo de Deus.

  1. Reparar igrejas é uma boa obra, que todos devem promover em seu lugar, pelo decoro e pela comodidade das reuniões religiosas. Os eruditos nos dizem que, antigamente, na igreja cristã, parte dos dízimos era aplicada a esse fim.

  2. Muitas boas obras que hoje ficam por fazer seriam realizadas se houvesse ao menos algumas pessoas ativas para tomar a iniciativa e impulsioná-las. Quando Joás viu que o dinheiro não entrava como esperava por um meio, experimentou outro, e este cumpriu o objetivo.

Muitos têm honestidade suficiente para seguir quem os dirige no bem, mas não têm zelo suficiente para tomar a dianteira. Colocar dinheiro numa arca por um orifício na tampa era um método que não se usara antes; talvez a própria novidade o tenha tornado um meio eficaz de arrecadação.

Muito dinheiro foi depositado, e com muita alegria: todos se alegraram, v. 10. Uma ideia que agrade ao gosto das pessoas pode às vezes levá-las a cumprir seu dever. Nisso, a sabedoria é proveitosa para orientar.

  1. A fidelidade é o maior elogio e será o maior consolo daqueles a quem se confia o tesouro público ou que são empregados em assuntos públicos. O rei e Joiada entregaram fielmente o dinheiro aos trabalhadores, que fizeram fielmente a obra, v. 12, 13.

Versículos 15 a 27

Joás Morto por Seus Servos. (a.C. 845.)

Temos aqui um triste relato da degeneração e da apostasia de Joás. Deus havia feito grandes coisas por ele; Joás havia feito algo por Deus; mas agora se mostrou ingrato para com seu Deus e infiel aos compromissos que assumira diante dele. Como o ouro perdeu o brilho, e como mudou o ouro mais fino! Encontramos aqui:

I. As ocasiões de sua apostasia. Quando fazia o que era reto, não o fazia de coração perfeito.

Nunca foi sincero nem agiu por princípio, mas para agradar a Joiada, que o ajudara a obter a coroa, e porque fora protegido no templo e ascendera sobre as ruínas da idolatria. Por isso, quando o vento mudou, ele mudou com o vento.

  1. Seu bom conselheiro o deixou: a morte o afastou dele. Foi uma misericórdia para Joás e seu reino que Joiada tivesse vivido tanto tempo, 130 anos (v. 15). Isso mostra que ele nasceu no tempo de Salomão e viveu durante seis reinados inteiros antes deste.

Ver as honras prestadas a Joiada na morte era um incentivo para Joás continuar no bom caminho em que o sacerdote o criara. “Sepultaram-no entre os reis”, com este elogio honroso, talvez parte da inscrição em sua lápide: “fez o bem em Israel”.

Judá é chamado Israel porque, tendo as outras tribos se revoltado contra Deus, só os de Judá eram israelitas de fato. Repare: fazer o bem em nossa geração é a maior honra, e os que fazem o bem receberão louvor por isso.

Ele “fizera o bem para com Deus”; não que a bondade de qualquer homem possa alcançá-lo, mas fizera o bem “para com sua casa”, ao reavivar o serviço do templo, 2 Crônicas 23:8. Repare: prestam o maior bem à sua pátria aqueles que se dedicam, no lugar que ocupam, a promover a religião.

Pois bem, Joiada terminou sua carreira com honra; mas a pouca religião que Joás tinha foi inteiramente sepultada no túmulo dele. Depois de sua morte, tanto o rei quanto o reino degeneraram lamentavelmente.

Veja quanto uma só cabeça pode sustentar e que grande juízo é para qualquer príncipe ou povo a morte de homens piedosos, zelosos e úteis. Veja como é necessário que, conforme diz nosso Salvador, tenhamos sal em nós mesmos e ajamos na religião por um princípio interior que nos conduza através de todas as mudanças.

Então a perda de um pai, de um ministro ou de um amigo não acarretará a perda de nossa religião.

  1. Maus conselheiros se aproximaram dele, insinuaram-se em seu afeto, persuadiram-no com manhas, lisonjearam-no e lhe prestaram reverência.

Em vez de oferecer condolências, deram-lhe parabéns pela morte do velho tutor, como se ela o libertasse da disciplina a que estivera sujeito por tanto tempo, indigna de um homem, de um rei.

Disseram-lhe que não deveria continuar dominado por sacerdotes: agora estava livre das lições severas e das restrições e podia fazer o que quisesse. E quem diria? Os príncipes de Judá foram os homens que tanto se empenharam em corrompê-lo, v. 17.

Seu pai e seu avô haviam sido corrompidos pela casa de Acabe, da qual não se podia esperar nada melhor. Mas era muito triste que os príncipes de Judá seduzissem seu rei. Contudo, aqueles que se inclinam a seguir os conselhos dos ímpios nunca ficarão sem conselheiros ímpios.

Eles prestaram reverência ao rei, lisonjearam-no até fazê-lo crer em seu poder absoluto e prometeram apoiá-lo para que sua vontade e seu agrado reais tivessem força de lei, sem consideração alguma por qualquer preceito ou instituição divina em contrário.

Ele lhes deu ouvidos: a conversa deles lhe agradou e pareceu mais atraente do que costumavam ser as instruções de Joiada. Muitas vezes, príncipes e pessoas de condição inferior foram lisonjeados até a ruína por aqueles que lhes prometeram liberdade e dignidade, mas na verdade os levaram à maior servidão e desonra.

II. A apostasia propriamente dita: abandonaram a casa de Deus e serviram aos bosques sagrados e aos ídolos, v. 18. É provável que os príncipes tivessem um pedido ao rei, que, segundo disseram, não ousavam apresentar enquanto Joiada vivia; agora, porém, esperavam não causar desagrado.

Queriam restabelecer os bosques sagrados e os ídolos derrubados no começo do reinado, pois detestavam ficar sempre limitados ao monótono e antiquado culto do templo. Joás não apenas lhes deu permissão para fazê-lo: juntou-se a eles.

O rei e os príncipes, que pouco antes reparavam o templo, agora o abandonaram; aqueles que haviam derrubado bosques sagrados e ídolos agora lhes prestavam culto. Tão inconstante é o homem, e tão pouco se pode confiar nele!

III. Os fatores que agravaram essa apostasia e lhe acrescentaram culpa. Deus lhes enviou profetas (v. 19) para censurá-los por sua perversidade, dizer-lhes qual seria o desfecho dela e, assim, “trazê-los de volta ao Senhor”.

É trabalho dos ministros levar as pessoas, não a si próprios, mas a Deus: trazer de volta a ele aqueles que dele se afastaram para se prostituir. Mesmo nos tempos de maior degeneração, Deus não deixou de dar testemunho de si.

Embora tivessem agido sem franqueza para com Deus, ele lhes enviou profetas para convencê-los e instruí-los e para lhes assegurar que encontrariam favor junto dele se ainda voltassem. Pois ele prefere que os pecadores se voltem e vivam a que prossigam e morram; e os que perecerem ficarão sem desculpa.

Os profetas fizeram sua parte: “testemunharam contra eles”; mas poucos, ou nenhum, receberam seu testemunho.

  1. Desprezaram todos os profetas; “não deram ouvidos”. Estavam tão estranhamente apegados aos ídolos que nenhuma censura, aviso ou ameaça, nem qualquer dos diversos meios que os profetas empregaram para convencê-los, conseguia trazê-los de volta.

Poucos os escutavam; menos ainda lhes davam atenção; e menos numerosos ainda eram os que criam neles ou se deixavam governar por eles.

  1. Mataram um dos mais eminentes, Zacarias, filho de Joiada, e talvez outros. A respeito dele, observe:

(1.) A mensagem que ele lhes transmitiu em nome de Deus, v. 20. O povo estava reunido no pátio do templo, pois não o havia abandonado inteiramente, provavelmente por ocasião de alguma festa solene.

Então Zacarias, cheio do espírito de profecia e conhecido, ao que parece, como profeta, levantou-se num dos estrados que havia no pátio dos sacerdotes. Com toda clareza, mas sem linguagem provocativa, falou ao povo de seu pecado e das consequências que dele viriam.

Não acusou pessoas específicas nem predisse juízos específicos, como os profetas faziam às vezes. Antes, lembrou-lhes, do modo menos ofensivo possível, o que estava escrito na lei. Bastava que consultassem suas Bíblias para encontrar ali:

[1.] O preceito que transgrediam: vocês transgridem os mandamentos do Senhor e sabem que o fazem ao servir aos bosques sagrados e aos ídolos. Por que ofenderão a Deus desse modo e farão mal a si mesmos?

[2.] A pena em que incorreram: vocês sabem que, se a palavra de Deus é verdadeira, não podem prosperar nesse caminho mau; nunca esperem fazer o mal e passar bem. Ou melhor: vocês já percebem que, por terem abandonado o Senhor, ele os abandonou, como lhes disse que faria, Deuteronômio 29:25; 31:16, 17.

Este é o trabalho dos ministros: pela palavra de Deus, como lâmpada e luz, expor o pecado dos homens e explicar as providências de Deus.

(2.) O tratamento bárbaro que lhe deram por sua bondade e fidelidade ao transmitir-lhes essa mensagem, v. 21. Pela conspiração dos príncipes, ou de alguns dos seus partidários, e por ordem do rei, que se julgou ofendido por esse aviso leal, apedrejaram-no imediatamente até a morte.

Não o fizeram sob aparência de legalidade, acusando-o de blasfemo, traidor ou falso profeta, mas num tumulto popular, no pátio da casa do Senhor: talvez um dos atos de perversidade mais horríveis de que lemos em toda a história dos reis.

A pessoa era sagrada, um sacerdote; o lugar, sagrado, o pátio do templo, o pátio interno entre o pórtico e o altar; a mensagem, ainda mais sagrada. Temos motivo para pensar que eles sabiam que ela vinha do espírito de profecia.

A censura era justa, o aviso, leal; ambos eram apoiados pela Escritura, e a mensagem foi transmitida com muita brandura e afeto. Ainda assim, desafiaram o próprio Deus com tamanha insolência e ousadia que nada menos que o sangue do profeta podia satisfazer sua indignação contra a profecia.

Assombrem-se, ó céus, com isso, e trema, ó terra! Que uma perversidade dessas tenha sido cometida por homens, por israelitas, em desprezo e violação de tudo o que é justo, honroso e sagrado! Que um rei, um rei em aliança com Deus, tenha ordenado a morte de alguém que tinha o dever de proteger e amparar!

Os judeus dizem que houve nisso sete transgressões: mataram um sacerdote, um profeta e um juiz, derramaram sangue inocente e profanaram o pátio do templo, o sábado e o dia da expiação. Pois, segundo a tradição deles, isso aconteceu naquele dia.

(3.) A circunstância que agravou esse pecado: Zacarias, martirizado por sua fidelidade a Deus e à sua pátria, era filho de Joiada, que fizera tanto bem em Israel e, em particular, fora como um pai para Joás, v. 22.

A ofensa cometida contra Deus e o desprezo mostrado pela religião não são ressaltados tão especificamente quanto a ingratidão para com a memória de Joiada.

Joás não se lembrou da bondade do pai, mas matou o filho por cumprir o dever, fazendo o que o próprio pai teria feito se estivesse ali. Chamar um homem de ingrato é a pior acusação que se pode fazer contra ele.

(4.) A imprecação profética do mártir, à beira da morte, para que a vingança alcançasse seus assassinos: “O Senhor olhe para isso e o requeira!” Ela não veio de um espírito de vingança, mas do espírito de profecia: ele o requererá.

Esse seria o clamor contínuo do sangue que derramaram, como o sangue de Abel clamava contra Caim: “Que o Deus a quem pertence a vingança cobre sangue por sangue. Ele o fará, pois é justo.”

Esse sangue precioso logo foi cobrado nos juízos que vieram sobre o príncipe apóstata. Mais tarde, também entrou na conta na destruição de Jerusalém pelos caldeus: os maus-tratos que deram aos profetas lhes trouxeram uma ruína sem remédio (2 Crônicas 36:16).

Ou melhor, nosso Salvador faz os perseguidores dele e de seu evangelho responderem pelo sangue desse Zacarias. Com tamanha força e por tanto tempo clama o sangue dos mártires. Veja Mateus 23:35.

Semelhante a esse é o clamor das almas sob o altar (Apocalipse 6:10): quanto tempo passará antes que você vingue nosso sangue? Pois ele não ficará para sempre sem vingança.

IV. Os juízos de Deus que vieram sobre Joás por sua perversidade ainda mais grave. 1. Um pequeno exército sírio tomou Jerusalém, destruiu os príncipes, saqueou a cidade e enviou os despojos a Damasco, v. 23, 24.

O povo de Deus, enquanto permanecia fiel a ele, muitas vezes havia vencido mesmo quando o inimigo tinha a vantagem numérica. Agora, ao contrário, um punhado insignificante de sírios pôs em fuga um exército muito grande de israelitas, porque estes haviam abandonado o Senhor, Deus de seus pais.

Assim, não apenas ficaram em pé de igualdade com seus inimigos, mas os enfrentaram com a maior desvantagem possível: seu Deus não só se afastou deles, como se tornou seu inimigo e lutou contra eles.

Os sírios foram usados como instrumentos nas mãos de Deus para executar juízos contra Joás, embora pouco imaginassem isso, Isaías 10:6, 7; veja também Deuteronômio 32:30.

  1. Deus o feriu com grandes doenças, do corpo, da mente ou de ambos, quer como as de seu avô (2 Crônicas 21:18), quer como o espírito maligno vindo de Deus que perturbava Saul.

Enquanto era afligido pelos sírios, Joás pensava que, se ao menos se livrasse deles, tudo iria bem. Mas, antes que o deixassem, Deus o feriu com doenças. Se a vingança perseguir os homens, o fim de uma aflição será apenas o começo de outra.

  1. Seus próprios servos conspiraram contra ele. Talvez começasse a esperar a cura da doença: era apenas um homem de meia-idade e poderia se recuperar. Mas quem sai do meio da cova cai na armadilha. Quando pensou que escaparia da morte pela doença, encontrou-a pela espada.

Mataram-no em sua cama por causa do sangue dos filhos de Joiada. Isso parece indicar que ele matou não só Zacarias, mas também outros filhos de Joiada por causa dele.

Talvez os que mataram Joás pretendessem vingar esse sangue; mas, fosse essa ou não a intenção deles, Deus pretendia fazê-lo ao permitir que o matassem. Aqueles que bebem o sangue dos santos receberão seu próprio sangue para beber, pois são dignos disso.

Os assassinos do rei são nomeados aqui (v. 26), e é digno de nota que as mães de ambos eram estrangeiras: uma amonita e a outra moabita. É provável que os reis idólatras tenham apoiado esses casamentos, proibidos pela lei para prevenir a idolatria; veja como resultaram na destruição deles mesmos.

  1. O povo não quis sepultá-lo nos túmulos dos reis porque ele havia manchado sua honra com sua má administração. Que ele não seja inscrito entre os justos, Salmos 69:28.

Esses juízos são chamados de “fardos impostos a ele” (v. 27), pois a cólera de Deus é um fardo pesado, pesado demais para qualquer homem suportar. Ou talvez a expressão se refira às ameaças anunciadas contra ele pelos profetas, pois estas também são chamadas de fardos.

Em geral, Deus põe sobre os apóstatas, ainda nesta vida, marcas especiais de seu desagrado, como aviso a todos para que se lembrem da mulher de Ló.


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