1 Reis 22
Argumento
Este capítulo conclui a história do reinado de Acabe. No fim do capítulo anterior, foi prometido que a ruína de sua casa não ocorreria em seus dias, mas seus dias logo chegaram ao fim.
Sua guerra contra os sírios em Ramote-Gileade é o assunto deste capítulo.
I. Seus preparativos para a guerra. Ele consultou: 1. Seu conselho particular, vv. 1-3. 2. Josafá, v. 4. 3. Seus profetas.
(1.) Os próprios profetas de Acabe o incentivaram a prosseguir nessa expedição (v. 5, 6), especialmente Zedequias (v. 11, 12).
(2.) Um profeta do Senhor, Micaías, cuja vinda Josafá pediu (v. 7, 8), foi chamado (v. 9, 10-13, 14).
Micaías censurou Acabe por confiar nos falsos profetas (v. 15), predisse sua queda nessa expedição (vv. 16-18) e lhe contou como fora assim iludido por seus profetas (vv. 19-23).
Zedequias o maltrata (v. 24, 25), e Acabe o prende (vv. 26-28).
II. A própria batalha, na qual: 1. Josafá fica exposto. Mas 2. Acabe é morto (vv. 29-40).
No fim do capítulo, temos um breve relato: (1.) Do bom reinado de Josafá, rei de Judá (vv. 41-50). (2.) Do reinado perverso de Acazias, rei de Israel (vv. 51-53).
Versículos 1 a 14
O Pacto de Josafá com Acabe. (a.C. 897.)
Embora Acabe continuasse sob o peso da culpa e da ira de Deus, dominado pelo império das paixões às quais se vendera, ainda assim recebeu, como recompensa por suas demonstrações de arrependimento e humilhação, três anos de paz (v. 1), embora já se aproximasse o tempo de descer à batalha e perecer, e a honrosa visita de Josafá, rei de Judá (v. 2).
Os judeus têm uma fábula segundo a qual, quando Acabe se humilhou por seu pecado e se deitou vestido de pano de saco, mandou chamar Josafá para que viesse castigá-lo; dizem também que Josafá ficou algum tempo com ele e lhe deu muitas chicotadas todos os dias. Essa tradição não tem fundamento. É provável que Josafá tenha vindo agora para consultá-lo sobre os assuntos dos dois reinos.
É estranho que um homem tão importante como Josafá demonstrasse tanto respeito por um reino que se rebelara contra a casa de Davi, e que um homem tão bom mostrasse tanta bondade a um rei que se rebelara contra a adoração a Deus. Mas, embora fosse piedoso, era brando demais, e isso o levou a armadilhas e dificuldades. Os sírios não ousavam perturbar Acabe. Mas:
I. Acabe planeja aqui uma guerra contra os sírios e consulta os que estavam ao seu redor (v. 3). O rei da Síria lhe dera motivo para isso: quando estava à sua mercê, prometeu devolver-lhe suas cidades (1 Reis 20:34), e Acabe, imprudentemente, confiou na palavra dele. Não deveria tê-lo dispensado antes de receber as cidades.
Agora, porém, a experiência lhe ensina o que deveria ter considerado antes: os beijos de um inimigo são enganosos, assim como suas promessas; não se pode confiar em pactos arrancados pela necessidade. Ben-Hadade era um daqueles príncipes que se consideram obrigados pela palavra somente enquanto isso lhes convém.
Não sabemos se outras cidades foram devolvidas, mas Ramote-Gileade não foi. Era uma cidade importante do território de Gade, do outro lado do Jordão, cidade dos levitas e uma das cidades de refúgio. Acabe culpa a si mesmo e ao seu povo por não terem se levantado para retomá-la dos sírios e punir Ben-Hadade por violar o pacto.
Resolve fazer aquele príncipe ingrato e traiçoeiro saber que, assim como lhe dera paz, também poderia lhe causar problemas. Acabe tinha uma causa justa, mas não teve êxito. Não se deve julgar a justiça pela prosperidade.
II. Acabe conquista Josafá e o convence a juntar-se a ele nessa expedição para recuperar Ramote-Gileade (v. 4). Não me espanta que Acabe desejasse a ajuda de um vizinho tão piedoso e próspero. Até os maus muitas vezes cobiçam a amizade dos bons.
É desejável ter influência junto daqueles que têm influência no céu e ter conosco os que têm Deus consigo. Mas é estranho que Josafá se envolvesse tanto nos interesses de Acabe a ponto de dizer: “Eu sou como tu, e o meu povo, como o teu povo”. Espero que não! Josafá e seu povo não eram tão perversos e corruptos quanto Acabe e seu povo.
A complacência excessiva com os malfeitores levou muitos bons, por falta de cuidado, a uma perigosa comunhão com as obras infrutíferas das trevas. Josafá quase pagou caro por essa cortesia quando, na batalha, foi confundido com Acabe.
Ainda assim, alguns observam que, ao aliar-se a Israel contra a Síria, ele compensou o erro de seu pai, que se aliara à Síria contra Israel (1 Reis 15:19, 20).
III. A pedido especial e insistente de Josafá, Acabe consulta os profetas a respeito dessa expedição. Acabe achava suficiente consultar seus conselheiros de Estado, mas Josafá propõe que consultem a palavra do Senhor (v. 5). Repare: 1. Aonde quer que vá, o homem bom deseja levar Deus consigo; reconhece-o em todos os seus caminhos, pede sua permissão e busca nele o sucesso.
- Aonde quer que vá, o homem bom deve levar consigo sua religião e não se envergonhar de professá-la, nem mesmo quando está com pessoas que não a estimam. Josafá não deixou em Jerusalém seu amor e sua reverência pela palavra do Senhor; antes, os declara e procura introduzi-los na corte de Acabe. Se Acabe o atraiu para suas guerras, ele atrairá Acabe para sua devoção.
IV. Os quatrocentos profetas de Acabe, seu regimento permanente (chamavam-nos profetas dos postes-ídolos), concordaram em incentivá-lo nessa expedição e assegurar-lhe a vitória (v. 6). Acabe lhes fez a pergunta com aparente imparcialidade: “Devo ir ou devo desistir?” Mas eles conheciam sua inclinação e só queriam agradar aos dois reis.
Para agradar a Josafá, usaram o nome Jeová: “Ele a entregará nas mãos do rei”. Roubaram a palavra dos verdadeiros profetas (Jeremias 23:30) e imitaram sua linguagem. Para agradar a Acabe, disseram: “Suba”.
De fato, tinham probabilidades a seu favor: pouco antes, Acabe derrotara os sírios duas vezes; agora tinha uma causa justa e se fortalecera muito com a aliança de Josafá. Mas fingiam falar por profecia, não por conjectura racional; por visão divina, não humana: “Com certeza recuperarás Ramote-Gileade”.
Zedequias, um dos principais entre esses profetas, imitou os verdadeiros e confirmou sua falsa profecia com um sinal (v. 11). Fez para si um par de chifres de ferro, representando os dois reis, sua honra e seu poder (pois os chifres simbolizavam tanto a exaltação quanto a força); com eles, os sírios seriam empurrados.
Todos os profetas concordaram, como se fossem um só homem, que Acabe voltaria vencedor daquela expedição (v. 12). A unidade nem sempre é sinal de igreja verdadeira e ministério verdadeiro. Quatrocentos homens profetizaram em uma só voz e com um só pensamento, mas todos estavam enganados.
V. Josafá não aprecia esse tipo de pregação; não é como aquela a que estava acostumado. Os falsos profetas não conseguiam imitar os verdadeiros a ponto de enganar aquele cujos sentidos espirituais eram exercitados para discernir a fraude; por isso, Josafá pediu outro profeta do Senhor (v. 7).
Ele era cortês demais para criticar os capelães do rei, mas esperava ver um profeta do Senhor, dando a entender que não considerava aqueles homens profetas do Senhor. Eles pareciam importantes (o que quer que fossem, não fazia diferença para ele), mas, em conversa, nada acrescentaram; não lhe deram satisfação (Gálatas 2:6). Um único profeta fiel do Senhor valia mais que todos eles.
VI. Acabe tinha outro profeta, mas o odiava: Micaías. Para agradar a Josafá, estava disposto a mandar chamá-lo (vv. 8-10). Acabe admitiu que podiam consultar o Senhor por meio dele, pois era um profeta verdadeiro que conhecia a vontade de Deus.
Ainda assim, 1. Acabe o odiava e não se envergonhou de confessá-lo ao rei de Judá, dando como razão: “Ele não profetiza boas coisas a meu respeito, mas coisas más”. E de quem era a culpa?
Se Acabe tivesse agido bem, só teria ouvido boas notícias do céu. Se age mal, deve culpar a si mesmo por toda a inquietação que as repreensões e ameaças da palavra de Deus lhe causam.
Repare: os que estão endurecidos no pecado e amadurecem depressa para a ruína odeiam os ministros de Deus porque estes lhes falam claramente e os advertem fielmente da miséria e do perigo que o pecado traz. Consideram inimigos os que lhes dizem a verdade.
- Ao que parece, Acabe o tinha prendido. Quando mandou prendê-lo (v. 26), ordenou ao oficial que o levasse de volta, isto é, para o lugar de onde viera. Podemos supor que Micaías era o profeta que o repreendera por ter poupado Ben-Hadade (1 Reis 20:38 etc.) e que, por isso, fora lançado na prisão, onde estivera por três anos.
Essa era a razão de Acabe saber tão prontamente onde encontrá-lo (v. 9). Mas a prisão não o privara das visitas divinas: o espírito de profecia continuava com ele. Estava preso, mas a palavra do Senhor, não. Isso não diminuiu em nada sua coragem, nem o tornou menos confiante ou fiel ao transmitir sua mensagem.
Josafá repreendeu Acabe com brandura excessiva por expressar sua indignação contra um profeta fiel: “Não fale o rei assim” (v. 8). Deveria ter dito: “Tu és injusto com o profeta, cruel contigo mesmo e insultas o Senhor dele e teu ao falar assim”. Pecadores como Acabe precisam de repreensão severa.
Mesmo assim, Acabe cedeu até certo ponto. Com medo de levar Josafá a romper a aliança, mandou chamar Micaías depressa (v. 9). Os dois reis estavam sentados, cada um com suas vestes e em seu trono, à entrada de Samaria, prontos para receber aquele pobre profeta e ouvir o que tinha a dizer. Muitos dão ouvidos à palavra de Deus, mas não lhe prestam obediência.
Uma multidão de profetas bajuladores os acompanhava; não conseguiam imaginar profecia alguma que não fosse muito doce e agradável para dois príncipes tão gloriosos, agora aliados. Quem gosta de ser bajulado nunca ficará sem bajuladores.
VII. O oficial que buscou Micaías o pressiona a repetir o que todos diziam (v. 13). Aquele oficial era indigno do nome de israelita, pois pretendia ditar o que um profeta devia falar. Mas julgava Micaías igual aos demais, que procuravam agradar aos homens, e não a Deus.
Contou-lhe que os outros profetas, em unanimidade, predisseram o bom êxito do rei e que isso agradava ao rei. Deu a entender que era do interesse de Micaías dizer o mesmo; assim, poderia conseguir não só a liberdade, mas também uma promoção.
Os que se apegam às coisas deste mundo imaginam que todos devem fazer o mesmo; para promover seu interesse terreno, falam e agem sem se importar com a verdade ou a falsidade, com o certo ou o errado. O oficial também insinuou que seria inútil contradizer uma decisão apoiada por tantos e tão unânimes profetas. Micaías seria ridicularizado por querer parecer singular de modo tolo.
Mas Micaías, que conhecia coisas melhores, protestou e confirmou seu protesto com um juramento: entregaria fielmente a mensagem de Deus, fosse ela agradável ou desagradável ao príncipe (v. 14): “O que o Senhor me disser, isso falarei”, sem acrescentar, diminuir nem alterar.
Foi uma resolução nobre, digna de quem tinha os olhos postos num Rei maior que qualquer um daqueles, vestido de roupas mais gloriosas e assentado num trono mais elevado.
Versículos 15 a 28
A Predição de Micaías. (a.C. 897.)
Micaías age bem aqui, mas, como costuma acontecer, sofre por isso.
I. Vemos como ele transmitiu sua mensagem com fidelidade, mais preocupado em agradar a Deus do que em agradar aos grandes ou à maioria. Ele a transmite de três maneiras, todas desagradáveis a Acabe:
- Falou como os demais profetas, mas com ironia: “Vai e prospera” (v. 15). Acabe lhe fez a mesma pergunta que fizera aos próprios profetas: “Devemos ir ou desistir?” Parecia desejar saber a vontade de Deus, mas, como Balaão, estava firmemente decidido a fazer a própria vontade.
Micaías percebeu isso quando lhe disse que fosse, num tom e pronúncia que mostravam que falava por escárnio. Era como se dissesse que Acabe já estava decidido a ir e ouvira de seus profetas uma promessa unânime de vitória; podia, pois, ir e arcar com as consequências.
Eles prometiam: “O Senhor a entregará nas mãos do rei.” Micaías, porém, não afirmava que o Senhor tivesse dito isso; pelo contrário, Deus dissera outra coisa.
Repare: merecem ser ridicularizados os que gostam de ser bajulados. É justo que Deus entregue aos próprios conselhos aqueles que se entregam às próprias paixões. (Eclesiastes 11:9.) Em resposta, Acabe o intimou a dizer a verdade e não zombar dele (v. 16).
Acabe agia como se desejasse sinceramente saber tanto o que Deus queria que fizesse quanto o que faria com ele. Mas pretendia retratar o profeta como um homem perverso e mal-humorado, que não lhe diria a verdade até ser obrigado por um juramento.
- Pressionado dessa maneira, Micaías predisse claramente que o rei seria morto nessa expedição e que seu exército se dispersaria (v. 17). Em visão ou sonho, viu os homens espalhados pelos montes, como ovelhas sem pastor. “Fere o pastor, e as ovelhas se dispersarão” (Zacarias 13:7).
Isso indica: (1.) que Israel seria privado de seu rei, que era seu pastor. Deus percebeu: “Estes não têm senhor”. (2.) Que seriam obrigados a voltar sem cumprir seu objetivo, re infecta. Micaías não previu grande mortandade no exército, mas uma retirada desonrosa.
“Volte cada um para sua casa em paz.” Por ora, ficariam desorganizados, mas não sofreriam grandes perdas com a morte do rei: ele cairia na guerra, mas eles voltariam para casa em paz. Assim, Micaías testemunhou o que vira e ouvira, independentemente de como os outros recebessem aquilo. Os demais profetizavam apenas o que vinha de seu próprio coração. Veja Jeremias 23:28.
O profeta que teve um sonho devia relatá-lo e, assim, citar a própria autoridade; aquele que tinha a palavra de Deus devia transmiti-la fielmente, não falar por si mesmo. Afinal, “que tem a palha a ver com o trigo?” Acabe se sentiu ofendido, voltou-se para Josafá e perguntou se Micaías não tinha evidente rancor contra ele (v. 18).
Os que guardam rancor dos outros geralmente estão dispostos a acreditar que também são odiados, mesmo sem motivo, e a interpretar da pior maneira tudo o que lhes dizem. Que mal Micaías predisse a Acabe ao dizer que, se prosseguisse na expedição, ela lhe seria fatal, quando Acabe podia escolher se iria ou não?
A maior bondade que podemos fazer a alguém que segue um caminho perigoso é avisá-lo do perigo.
- Micaías informou ao rei por que todos os profetas o incentivavam a prosseguir: Deus permitira que Satanás o enganasse por meio deles para levá-lo à ruína, e Micaías soube disso por uma visão. Foi-lhe mostrado, e ele contou a Acabe, que o Deus do céu determinara que o rei cairia em Ramote-Gileade (v. 19, 20).
A bondade perversa que Acabe demonstrara a Ben-Hadade seria castigada por ele e pelos sírios. Acabe estava em dúvida se deveria ir a Ramote-Gileade e decidira seguir o conselho de seus profetas; por isso, eles o persuadiriam e conseguiriam convencê-lo (v. 21, 22). Daí o terem encorajado com tanta confiança (v. 23). Era uma mentira do pai da mentira, mas com a permissão divina.
Esse assunto é apresentado aqui segundo a maneira humana de falar. Não devemos imaginar que Deus tome novas decisões, que lhe faltem meios de cumprir seus propósitos, que precise consultar anjos ou qualquer criatura sobre os métodos a usar, nem que seja autor do pecado ou responsável por alguém contar ou acreditar numa mentira.
Além do que isso pretendia ensinar a Acabe, aprendemos: (1.) Deus é o grande Rei, acima de todos os reis, com trono acima dos príncipes terrenos.
Micaías lembrou aos reis que, embora tivessem tronos e julgassem poder fazer o que quisessem, ele vira “o Senhor assentado no seu trono”. O juízo de cada pessoa vinha de Deus; por isso, Micaías precisava falar conforme Deus dizia, pois ele não era homem como aqueles reis.
(2.) Deus é continuamente acompanhado e servido por incontáveis anjos, as hostes celestiais, que estão diante dele, prontos para ir aonde os envia e fazer o que ordena; mensageiros de misericórdia à sua direita e de cólera à sua esquerda.
(3.) Deus não apenas conhece todos os assuntos deste mundo, como também os governa e dirige segundo o conselho de sua vontade.
A ascensão e a queda dos príncipes, os resultados das guerras e os grandes assuntos de Estado, que ocupam as deliberações dos homens sábios e poderosos, não estão acima da direção de Deus; os interesses mais humildes dos moradores das casas mais pobres tampouco estão abaixo de sua atenção.
(4.) Deus tem muitas maneiras de executar seus desígnios, sobretudo ao derrubar pecadores quando amadurecem para a ruína. Pode fazê-lo desta ou daquela maneira. (5.) Há espíritos maliciosos e mentirosos que andam continuamente procurando devorar e, para isso, enganar; em especial, procuram pôr mentiras na boca dos profetas para, por meio deles, atrair muitos à destruição.
(6.) O diabo não engana os homens sem a permissão divina, e, ainda assim, Deus realiza seus próprios propósitos. Deus detém força e sabedoria; tanto os enganados quanto os enganadores lhe pertencem (Jó 12:16).
Quando lhe apraz, para punir os que não recebem a verdade com amor, ele não só solta Satanás para enganá-los (Apocalipse 20:7, 8), como também os entrega a fortes ilusões para que acreditem nele (2 Tessalonicenses 2:11, 12).
(7.) Os que são entregues assim estão claramente marcados para a ruína. Deus certamente declarou o mal contra aqueles que entregou para serem iludidos por profetas mentirosos. Desse modo, Micaías advertiu Acabe fielmente não só do perigo de prosseguir na guerra, mas também do perigo de acreditar nos que o incentivavam a prosseguir.
Também somos advertidos a tomar cuidado com os falsos profetas e a provar os espíritos. O espírito mentiroso nunca engana tão fatalmente quanto quando fala pela boca dos profetas.
II. Vemos como Micaías foi maltratado por transmitir sua mensagem com tamanha fidelidade e clareza, de maneira tão apropriada para convencer e comover.
- Zedequias, um profeta perverso, insultou-o insolentemente diante da corte e lhe deu uma bofetada para humilhá-lo, silenciá-lo e expressar sua indignação (assim maltrataram nosso bendito Salvador, Mateus 26:67, aquele Juiz de Israel, Miquéias 5:1).
Como se tivesse não só o espírito do Senhor, mas o monopólio dele, sem cuja licença o Espírito não pudesse ir a outro, Zedequias perguntou: “Por onde saiu de mim o Espírito do Senhor para falar a ti?” (v. 24). Os falsos profetas sempre foram os piores inimigos dos verdadeiros: não só incitavam o governo contra eles, como também os maltratavam pessoalmente, como Zedequias fez.
Pela nossa lei, dar um golpe dentro dos limites da corte, sobretudo na presença do rei, é uma grave ofensa. Mesmo assim, aquele profeta perverso maltratou um profeta do Senhor, sem ser repreendido nem obrigado a assumir o compromisso de manter boa conduta. Acabe gostou, e Josafá não teve coragem de defender o profeta ofendido, alegando que o assunto não era de sua jurisdição.
Micaías não revidou a bofetada. Os profetas de Deus não são agressores nem perseguidores; não ousam vingar-se, revidar golpes ou participar de qualquer forma da perturbação da paz. Mas, como Zedequias se gabava tanto do Espírito, como costumam fazer os que menos conhecem sua atuação, Micaías deixou que o desfecho o convencesse do erro: “Tu saberás quando te esconderes num quarto interior” (v. 25).
É provável que Zedequias tenha ido à batalha com Acabe, levando consigo os chifres de ferro para animar os soldados e assistir satisfeito ao cumprimento de sua profecia, a fim de voltar triunfante com o rei. Mas, quando o exército foi derrotado, fugiu com os outros da espada inimiga e se abrigou num quarto dentro de outro, como Ben-Hadade fizera (1 Reis 20:30).
Temia perecer, como sabia que merecia, junto com aqueles a quem enganara, como aconteceu a Balaão (Números 31:8), e que o profeta cego caísse na cova com o príncipe cego que induzira ao erro. Repare: os que não permitem que a palavra de Deus corrija seus erros a tempo serão desenganados tarde demais pelos juízos de Deus.
- Acabe, aquele rei perverso, mandou prender Micaías (v. 27). Não só ordenou que o mantivessem sob custódia ou o devolvessem à prisão de onde viera; mandou que lhe dessem pão e água, pão grosseiro e água suja, até que voltasse. Não duvidava de que voltaria vencedor e, então, o mataria como falso profeta (v. 27). Que tratamento cruel para quem queria impedir sua ruína!
Isso mostrou que Deus decidira destruí-lo, como se lê em 2 Crônicas 25:16. Acabe estava muito confiante no sucesso. Não duvidava de que voltaria em paz e se esquecera de que ele mesmo advertira Ben-Hadade: “Não se gabe aquele que se cinge das armas como aquele que as depõe”. Havia pouca possibilidade de voltar em paz depois de deixar na prisão um profeta de Deus.
Micaías deixou o resultado decidir e chamou todo o povo por testemunha: “Se voltares em paz, o Senhor não falou por mim” (v. 28). Estava disposto a receber a vergonha e o castigo de falso profeta se o rei voltasse vivo. Ele não corria risco ao fazer esse apelo, pois sabia em quem havia crido.
Aquele que é temível para os reis da terra e pisa os príncipes como barro preferiria derrubar milhares deles a deixar cair por terra um só jota ou til de sua palavra. Ele não deixará de confirmar a palavra de seus servos (Isaías 44:26).
Versículos 29 a 40
A Morte de Acabe. (a.C. 897.)
Logo se decide a questão entre o profeta de Deus e os profetas de Acabe, e fica claro quem tinha razão. Vejamos:
I. Os dois reis marcham com seus exércitos para Ramote-Gileade (v. 29). Não é estranho que o rei de Israel, que odiava o profeta de Deus, desprezasse tanto a advertência a ponto de persistir em sua decisão.
Mas é espantoso que Josafá, príncipe piedoso que pedira para consultar um profeta do Senhor por não confiar nos profetas de Acabe, prosseguisse mesmo depois de receber uma advertência tão clara.
A brandura de seu temperamento, porém, fez com que fosse levado pelo engano de seus amigos, como Barnabé foi pela dissimulação (Gálatas 2:13). Josafá deu atenção demais aos profetas de Acabe, pois eles também alegavam falar da parte de Deus, e em seu país ele nunca fora enganado por impostores assim.
Estava disposto a concordar com a maioria e a concluir que era quase certo que seriam vitoriosos, pois eram quatrocentos contra um. Micaías não os proibira de ir; pelo contrário, no começo dissera: “Vai e prospera”. Se o pior acontecesse, apenas predissera a queda de Acabe; por isso, Josafá esperava poder arriscar-se em segurança.
II. Acabe adota um plano para proteger a si mesmo e expor seu amigo (v. 30): disfarçar-se e entrar na batalha vestido como um soldado comum, enquanto Josafá usaria suas roupas reais para parecer general. Acabe fingiu que assim honrava Josafá, concedendo-lhe o comando exclusivo do exército naquela ação. Josafá daria as ordens, e Acabe serviria como soldado sob seu comando.
Mas Acabe pretendia: 1. Fazer de um bom profeta um mentiroso. Esperava escapar do perigo e frustrar a ameaça, como se pudesse evitar que Deus o percebesse e escapar dos juízos que o perseguiam ao disfarçar-se. 2. Fazer de um bom rei um tolo. Não amava Josafá de coração, pois ele se apegava a Deus e, assim, condenava a apostasia de Acabe.
Acabe sabia que, se alguém perecesse, seria o pastor, como Micaías predissera. Talvez também soubesse que o inimigo recebera ordens de atacar principalmente o rei de Israel; por isso, com baixeza, pretendia expor Josafá ao perigo e salvar a si mesmo.
Acabe estava marcado para a ruína; ninguém aceitaria estar em seu lugar nem por uma grande soma. Ainda assim, persuadiria aquele rei piedoso a lutar em seu favor. Veja o que acontece com os que se aliam a homens perversos, de consciência corrompida e desprovidos de tudo o que é honroso. Como esperar que seja leal ao amigo quem foi infiel a Deus?
III. Josafá, mais piedoso que prudente, ocupa o posto de honra, embora fosse o de perigo. Assim, corre risco de vida, mas Deus o livra graciosamente. O rei da Síria ordenara aos capitães que concentrassem suas forças não contra o rei de Judá, com quem não tinha conflito, mas apenas contra o rei de Israel (v. 31), mirando nele como se tivesse uma inimizade particular.
Acabe recebeu o justo castigo por ter poupado Ben-Hadade. Como costuma acontecer com a descendência da serpente, Ben-Hadade feriu o peito que o acolhera e o salvara da morte. Alguns pensam que o rei da Síria pretendia apenas capturá-lo para lhe dar tratamento tão honroso quanto o que recebera de Acabe.
Qualquer que tenha sido a razão, os oficiais receberam a ordem e se empenharam em cumpri-la. Ao verem Josafá com as vestes reais, tomaram-no pelo rei de Israel e o cercaram.
Então: 1. Com o perigo, Deus lhe mostrou seu desagrado por ter se aliado a Acabe. Josafá dissera a Acabe, como cortesia: “Eu sou como tu” (v. 4); agora, de fato, foi confundido com ele. Os que se associam a malfeitores correm o risco de compartilhar seus castigos.
- Com o livramento, Deus lhe mostrou que, embora estivesse descontente com ele, não o abandonara. Alguns capitães que o reconheceram perceberam o engano e deixaram de persegui-lo. Mas lemos (2 Crônicas 18:31) que Deus os moveu a afastar-se dele, pois tem todos os corações em suas mãos.
Josafá clamou a Deus, não por covardia, mas em devoção, e dele veio seu socorro. Acabe não se preocupou em ajudá-lo. Deus é o amigo que não nos abandona quando os outros amigos falham.
IV. Acabe recebe um ferimento mortal na batalha, apesar de tentar proteger-se com as roupas de um soldado raso. Ninguém pense que pode esconder-se do juízo de Deus, nem mesmo disfarçado. A mão de Deus alcançará todos os seus inimigos, qualquer que seja o disfarce (v. 34).
O sírio que o feriu nem imaginava que estava prestando um serviço tão grande a Deus e ao seu rei. Atirou com o arco ao acaso, sem mirar em ninguém em particular. Ainda assim, Deus dirigiu a flecha: 1. Ao homem certo, aquele marcado para a destruição. Se o tivessem capturado vivo, como pretendiam, talvez Ben-Hadade o poupasse. Mas aqueles a quem Deus condenou à morte não podem escapar com vida.
- Ao lugar certo, entre as juntas da armadura, o único ponto por onde aquela flecha mortal poderia entrar. Nenhuma armadura resiste aos dardos da vingança divina. Revista o criminoso de aço; não fará diferença. Aquele que o criou pode fazer sua espada alcançá-lo. O que nos parece inteiramente casual acontece segundo o plano determinado e o conhecimento prévio de Deus.
V. O inimigo dispersa o exército, e o rei o manda para casa. Josafá ou Acabe ordenou a retirada do rebanho depois que o pastor foi ferido: “Volte cada um para sua cidade”, pois já não adiantava tentar mais nada (v. 36).
Acabe viveu o bastante para ver cumprir-se aquela parte da profecia de Micaías segundo a qual todo Israel se dispersaria pelos montes de Gileade (v. 17). Talvez ele mesmo tenha dado essa ordem com os últimos suspiros. Acabe pediu que o tirassem do combate para tratar suas feridas (v. 34), mas fez questão de permanecer de pé no carro, para ver se o exército venceria.
Quando viu que a batalha se intensificava contra eles, perdeu o ânimo e morreu. Sua morte foi tão lenta que ele teve tempo de sentir que estava morrendo. Podemos imaginar com que horror refletiu sobre a maldade que cometera, as advertências que desprezara, os altares de Baal, a vinha de Nabote e a prisão de Micaías.
Agora percebia que fora bajulado até a própria ruína e que os chifres de ferro de Zedequias empurraram não os sírios, mas ele mesmo para a destruição. Assim foi levado ao rei dos terrores, sem esperança na morte.
VI. O cadáver real é levado a Samaria e sepultado ali (v. 37); também levam para lá o carro ensanguentado e a armadura em que morreu (v. 38).
É mencionada uma circunstância particular porque nela se cumpriu uma profecia: quando levaram o carro ao tanque de Samaria para lavá-lo, os cães (e os porcos, diz a Septuaginta) se juntaram ao redor e, como de costume, lamberam o sangue ou, segundo alguns, a água em que o lavaram, misturada com sangue.
Os cães não distinguiam sangue real de qualquer outro sangue. Assim foi vingado o sangue de Nabote (1 Reis 21:19) e cumprida a palavra de Davi, assim como a de Elias: “Para que o teu pé se banhe no sangue dos teus inimigos, e a língua dos teus cães no mesmo sangue” (Salmos 68:23). Talvez os cães lambendo o sangue do culpado representassem os terrores que atormentam a alma culpada depois da morte.
Por fim, a história de Acabe se encerra no formato habitual (v. 39, 40). Entre suas obras, menciona-se uma casa de marfim que ele construiu, chamada assim porque muitas partes eram revestidas de marfim. Talvez pretendesse rivalizar com o majestoso palácio dos reis de Judá, construído por Salomão.
Versículos 41 a 53
A Morte de Josafá. (a.C. 897.)
I. Temos um breve relato do reinado de Josafá, rei de Judá, cujo registro será bem mais completo no livro de Crônicas. Também vemos a grandeza e a bondade daquele príncipe, que nada diminuiu ou manchou, a não ser sua intimidade com a casa de Acabe, que o rebaixou em vários aspectos.
Já vimos que sua aliança de guerra com Acabe foi perigosa para ele; sua sociedade comercial com Acazias, filho de Acabe, também não deu certo. Josafá propôs ser sócio dele numa frota de navios mercantes que buscariam ouro em Ofir, como fizera a frota de Salomão (v. 49; veja 2 Crônicas 20:35, 36).
Enquanto se preparavam para zarpar, porém, uma tempestade os avariou seriamente em Eziom-Geber, deixando-os incapazes de navegar. Um profeta fez Josafá entender que aquilo era uma repreensão por sua aliança com o perverso Acazias (2 Crônicas 20:37).
Por isso, como lemos aqui (v. 49), quando Acazias pediu outra vez para ser seu sócio ou, não sendo possível, para ao menos enviar seus servos e algumas mercadorias a bordo dos navios de Josafá, ele recusou: Josafá não quis. A vara de Deus, explicada pela palavra de Deus, rompeu eficazmente sua aliança com aquele príncipe ímpio e infeliz.
É melhor comprar sabedoria caro do que ficar sem ela. Diz-se, porém, que a experiência é a mestra dos tolos porque são tolos os que não aprendem até que a experiência os ensine, sobretudo sobre o perigo de se associarem a pessoas perversas. O reinado de Josafá não parece ter sido dos mais longos, mas foi um dos melhores.
- Não foi dos mais longos, pois ele reinou apenas vinte e cinco anos (v. 42). Mas esses anos foram no auge de sua vida, entre os trinta e cinco e os sessenta. Somados aos quarenta e um anos felizes de seu pai, dão-nos uma ideia grata da prosperidade do reino de Judá e da religião por muito tempo, mesmo quando tudo ia muito mal, em todos os aspectos, no reino de Israel.
Josafá não reinou tanto quanto seu pai, mas, para compensar isso, não teve no fim do reinado as manchas que seu pai teve (2 Crônicas 16:9, 10, 12). Para quem conquistou reputação de sabedoria e honra, é melhor morrer enquanto ainda a conserva do que viver além dela.
- Ainda assim, o reinado de Josafá foi um dos melhores, tanto em piedade quanto em prosperidade. (1.) Ele agiu bem: fez o que era reto aos olhos do Senhor (v. 43), obedeceu aos mandamentos de Deus e seguiu os passos de seu bom pai. Perseverou nisso e não se desviou.
No entanto, todo caráter tem um porém, e o dele também: os lugares altos não foram removidos, nem mesmo de Judá e Benjamim. Essas tribos ficavam tão perto de Jerusalém que podiam facilmente levar suas ofertas e incenso ao altar; não podiam alegar, como algumas outras, a inconveniência de morar longe.
É difícil arrancar pela raiz antigas corrupções, sobretudo quando já foram favorecidas por homens bons, como os lugares altos haviam sido por Samuel, Salomão e outros. (2.) Seus assuntos prosperaram. Ele evitou os males que acompanharam as guerras com o reino de Israel e estabeleceu uma paz duradoura (v. 44).
Essa paz teria sido uma bênção ainda maior se ele tivesse se contentado com ela, sem transformá-la em parentesco com Israel. Josafá pôs um governador, ou vice-rei, em Edom, e assim o reino lhe pagava tributo (v. 47). Cumpriu-se nisso a profecia a respeito de Esaú e Jacó, segundo a qual o mais velho serviria ao mais novo.
Em geral, também se mencionam seu poderio e suas guerras (v. 45). Ele agradou a Deus, e Deus o abençoou com força e sucesso. Sua morte é mencionada para encerrar sua história (v. 50), mas, na história dos reis de Israel, lemos novamente a seu respeito (2 Reis 3:7).
II. Começa a história de Acazias, filho de Acabe (vv. 51-53). Seu reinado foi muito curto, menos de dois anos. Deus age depressa com alguns pecadores. O caráter que lhe dão aqui é muito ruim.
Acazias não só manteve a idolatria de Jeroboão, como também a adoração a Baal. Embora tivesse ouvido falar da ruína da família de Jeroboão e visto seu próprio pai levado à destruição pelos profetas de Baal, que tantas vezes se mostraram falsos, não aprendeu nem recebeu advertência alguma.
Seguiu o exemplo de seu pai perverso e o conselho de sua mãe, ainda mais perversa, Jezabel, que continuava viva. Miseráveis são os filhos que não só herdam dos pais um capital de corrupção, mas também aprendem com eles a explorá-lo. E infelizes, muito infelizes, são os pais que ajudam a condenar a alma dos filhos.