Matthew Henry

1 Crônicas 11

Argumento

Neste capítulo se repetem:

I. A elevação de Davi ao trono, logo após a morte de Saul, por consenso geral, vv. 1-3.

II. A tomada do castelo de Sião das mãos dos jebuseus por Davi, vv. 4-9.

III. O catálogo dos valentes e homens notáveis de seu reino, vv. 10-47.

Versículos 1 a 9

A Ascensão de Davi ao Trono. (a.C. 1055.)

Davi é aqui levado a tomar posse:

I. Do trono de Israel, depois de ter reinado sete anos em Hebrom somente sobre Judá. Em consideração a seu parentesco com eles (v. 1), a seus bons serviços anteriores e, sobretudo, à designação divina (v. 2), ungiram-no rei deles. Davi firmou aliança para protegê-los, e eles, para lhe guardar fé e verdadeira lealdade, v. 3. Observe:

  1. Os conselhos de Deus se cumprirão por fim, quaisquer que sejam as dificuldades no caminho. Se Deus havia dito: “Davi governará”, é inútil opor-se a isso.

  2. É de esperar que homens que por muito tempo agiram contra os próprios interesses, depois de se fatigarem por muito tempo com suas vaidades enganosas, compreendam as coisas que dizem respeito à sua paz e voltem às suas próprias misericórdias.

  3. Entre o príncipe e o povo existe um contrato original, que ambos devem cumprir religiosamente. Se algum príncipe pudesse reivindicar poder absoluto e despótico, Davi poderia fazê-lo, e a ele se poderia confiar tal poder com tanta segurança quanto a qualquer outro; e, ainda assim, ele fez uma aliança com o povo e prestou o juramento de coroação, comprometendo-se a governar segundo a lei.

II. Da fortaleza de Sião, que permaneceu nas mãos dos jebuseus até o tempo de Davi. Quer Davi a tivesse especialmente em vista como lugar adequado para fazer dela uma cidade real, quer tivesse recebido de Deus a promessa de possuí-la, parece que um de seus primeiros feitos foi conquistar aquela fortaleza; e, depois de conquistá-la, chamou-a cidade de Davi, v. 7.

A isso se refere Salmos 2:6: Eu estabeleci meu rei sobre meu santo monte de Sião. Veja aqui o que anima e firma a resolução em grandes empreendimentos:

  1. A oposição. Quando os jebuseus desafiaram Davi e disseram: “Tu não entrarás aqui”, ele resolveu tomar a fortaleza à força, custasse o que custasse.

  2. A perspectiva de um cargo. Quando Davi propôs dar o posto de comandante a quem liderasse o ataque ao castelo de Sião, Joabe se inflamou com a proposta, subiu primeiro e se tornou chefe. Já se disse: “Tire a honra da vista do soldado e você lhe corta as esporas dos calcanhares.”

Versículos 10 a 47

Os Valentes de Davi. (a.C. 1048.)

Temos aqui um relato dos valentes de Davi, os homens notáveis de seu tempo que o serviram e foram promovidos por ele. Tivemos a primeira versão deste catálogo em 2 Samuel 23:8, etc. Esta é quase a mesma, com a diferença de que se acrescentam os nomes citados aqui do v. 41 até o fim. Observe:

I. A relação deste catálogo com o que se diz de Davi no v. 9:

  1. “Davi se tornava cada vez maior”, e estes eram seus homens valentes. Grande parte da força e da honra dos grandes homens é tomada de empréstimo de seus servos e depende deles, o que necessariamente diminui em certa medida a pompa e o poder aos olhos dos sábios. Davi é grande porque tem grandes homens ao redor; tire-os, e ele volta a estar onde estava.

  2. “O Senhor dos Exércitos estava com ele”, e estes eram os homens valentes que tinha. Deus estava com Davi e agia em favor dele, mas por meio de homens, de recursos e do emprego de causas secundárias. Nisto se via que Deus estava com ele: inclinava o coração dos que podiam servir aos interesses de Davi a se juntarem a ele.

Assim como, se Deus é por nós, ninguém pode ser contra nós, também, se Deus é por nós, estarão a nosso favor todos aqueles de quem precisarmos. Contudo, Davi atribuía seu êxito e crescimento não aos exércitos que tinha, mas ao Senhor dos Exércitos; não aos homens valentes que estavam com ele, mas ao Deus poderoso, cuja presença conosco é tudo em todas as coisas.

II. O título deste catálogo (v. 10): Estes são os homens que se fortaleceram com ele. Ao fortalecê-lo, fortaleceram a si mesmos e seus próprios interesses, pois a ascensão dele era a deles. O que fazemos, cada um em sua posição, para sustentar o reino do Filho de Davi nos trará ganho. Ao fortalecê-lo, fortalecemos a nós mesmos.

Também se pode ler: Eles permaneceram firmemente ao lado dele e de todo o Israel. Repare: quando Deus tem uma obra a fazer, não lhe faltarão instrumentos adequados para realizá-la. Se for uma obra que exige homens valentes, eles serão encontrados ou preparados para executá-la, conforme a palavra do Senhor.

III. O que tornou honrados todos esses homens foi o bom serviço que prestaram a seu rei e a seu país: ajudaram a fazer Davi rei (v. 10), uma boa obra. Abateram os filisteus e outros inimigos públicos e serviram de instrumentos para salvar Israel. Repare: o caminho para ser grande é fazer o bem.

Tampouco alcançaram essa honra sem trabalho e sem arriscar a vida. As honras do reino de Cristo estão preparadas para aqueles que combatem o bom combate da fé, trabalham e sofrem e se dispõem a arriscar tudo, até a própria vida, por Cristo e por uma boa consciência.

É pela perseverança paciente na prática do bem que devemos buscar glória, honra e imortalidade; e os que são fiéis ao Filho de Davi encontrarão seus nomes registrados e inscritos de modo muito mais honroso do que os nomes destes estão nos registros da fama.

IV. Entre os admiráveis feitos dos valentes de Davi, nada grandioso é mencionado aqui a respeito do próprio Davi, a não ser o ato de derramar perante o Senhor a água pela qual havia ansiado, v. 18, 19. Quatro disposições muito honrosas de Davi se manifestaram nesse ato e, pelo que sei, tornaram o ato tão grandioso quanto qualquer dos feitos daqueles valentes:

  1. O arrependimento por sua própria fraqueza. É realmente uma honra para o homem, quando é levado a perceber que disse ou fez algo de modo irrefletido, retirar o que disse e desfazer o que fez por meio do arrependimento. É uma vergonha persistir no erro quando se disse ou fez algo errado.

  2. A renúncia ao próprio apetite. Ele ansiava pela água do poço de Belém; mas, depois de recebê-la, não quis bebê-la, porque não quis ceder tanto à própria vontade nem satisfazer um capricho insensato. Quem tem tal domínio sobre o próprio espírito é melhor do que os valentes. É uma honra para o homem ter domínio de si; mas quem quer dominar a si mesmo precisa às vezes contrariar a si mesmo.

  3. A devoção a Deus. Aquela água, que ele considerou boa demais e preciosa demais para ele mesmo beber, derramou-a ao Senhor como libação. Se temos uma coisa melhor do que outra, honremos com ela a Deus, que é o melhor e deve receber o melhor.

  4. A ternura para com seus servos. A ideia de que três homens corajosos arriscassem a vida para lhe buscar água deixou-o no maior desconcerto imaginável. A seus olhos, isso transforma a água em sangue. É honra dos grandes homens não desperdiçar o sangue dos que empregam, mas, em todas as ordens que lhes dão, colocar a própria alma no lugar da alma deles.

V. Nos feitos admiráveis desses heróis, deve ser reconhecido o poder de Deus.

Como poderia um só homem abater 300, outro abater o mesmo número (v. 11, 20), um terceiro abater dois homens semelhantes a leões (v. 22) e outro abater um gigante egípcio (v. 23), se não tivessem contado com a presença extraordinária de Deus, conforme a promessa de Josué 23:10: “Um homem dentre vós perseguirá mil, pois o Senhor, vosso Deus, peleja por vós”?

VI. Diz-se que um desses valentes era amonita (v. 39) e outro, moabita (v. 46); no entanto, a lei determinava que um amonita e um moabita não entrassem na congregação do Senhor, Deuteronômio 23:3. É provável que eles tivessem demonstrado tão sincera dedicação aos interesses de Israel que, em seu caso, julgou-se apropriado abrir exceção àquela lei.

Isso era ainda mais apropriado porque indicava que o Filho de Davi teria valentes entre os gentios: com ele não há grego nem judeu.


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