1 Coríntios 16
Argumento
Neste capítulo, o apóstolo:
I. Dá orientações acerca de uma coleta caridosa a ser feita nessa igreja para as igrejas aflitas e empobrecidas da Judeia, vv. 1-4.
II. Fala em lhes fazer uma visita, vv. 5-9.
III. Recomenda-lhes Timóteo e lhes diz que Apolo pretendia ir até eles, vv. 10-12.
IV. Insiste com eles na vigilância, constância, caridade e em prestar a devida consideração a todos que ajudavam a ele e aos seus companheiros de trabalho na sua obra, vv. 13-19.
V. Depois das saudações dos outros e da sua própria, encerra a epístola com uma advertência solene a eles e os seus bons votos em favor deles, v. 20 até o fim.
Versículos 1 a 4
Contribuições para os Pobres. (d.C. 57.)
Neste capítulo, Paulo encerra essa longa epístola com algumas questões particulares de menor importância; mas, como tudo foi escrito por inspiração divina, tudo é proveitoso para a nossa instrução.
Começa orientando-os acerca de uma coleta caridosa numa ocasião particular: as angústias e pobreza dos cristãos na Judeia, que nesse tempo eram extraordinárias, em parte pelas calamidades gerais daquela nação e em parte pelos sofrimentos particulares a que estavam expostos. Agora, acerca disso observe:
I. Como ele introduz a sua orientação: Não era um serviço peculiar que exigia deles; havia dado ordens semelhantes às igrejas da Galácia, v. 1. Desejava somente que se conformassem às mesmas regras que dera a outras igrejas numa ocasião semelhante.
Não desejava que outros fossem aliviados e eles sobrecarregados, 2 Coríntios 8:13. Também menciona prudentemente essas suas ordens às igrejas da Galácia para incitar emulação e despertá-los para serem liberais segundo as suas circunstâncias e a ocasião.
Os que excediam a maioria das igrejas em dons espirituais e, como é provável, em riqueza mundana (veja a introdução) certamente não permitiriam ficar atrás de nenhuma na sua generosidade para com os seus irmãos aflitos. Repare:
Os bons exemplos de outros cristãos e igrejas deveriam incitar em nós santa emulação. Convém a um cristão não suportar ser superado por um companheiro cristão em coisa alguma virtuosa e louvável, desde que essa consideração somente o faça empenhar-se, não invejar outros.
E, quanto mais vantagens temos acima dos outros, mais deveríamos procurar excedê-los. A igreja de Corinto não deveria ser superada nesse serviço de amor pelas igrejas da Galácia, que não parecem ter sido enriquecidas com iguais dons espirituais nem capacidade exterior.
II. A própria orientação, acerca da qual observe:
- A maneira como a coleta deveria ser feita: Cada um deveria pôr de parte em reserva (v. 2), ter consigo um tesouro, ou fundo, para esse propósito. O significado é que deveria pôr de parte o que pudesse dispensar de tempos em tempos e por esse meio formar uma soma para esse propósito caridoso. Repare:
É uma coisa boa pôr em reserva para bons usos. Os ricos neste mundo deveriam ser ricos em boas obras, 1 Timóteo 6:17, 18. A melhor maneira de sê-lo é reservar da sua renda e ter um tesouro para esse propósito, uma reserva para os pobres assim como para si mesmos.
Por esse meio estarão prontos para toda boa obra conforme se ofereça a oportunidade; e muitos que trabalham com as suas próprias mãos por um meio de vida deveriam trabalhar de modo a ter para dar a quem necessita, Efésios 4:28.
De fato, o seu tesouro para boas obras nunca pode ser muito grande (embora, segundo as circunstâncias, possa variar consideravelmente); mas a melhor maneira no mundo para obterem um tesouro para esse propósito é pôr de parte de tempos em tempos, conforme puderem.
Alguns dos pais gregos observam corretamente aqui que esse conselho foi dado por causa dos mais pobres entre eles. Deveriam pôr de parte de semana em semana e não trazer ao tesouro comum, para que por esse meio as suas contribuições fossem fáceis para eles próprios e, contudo, crescessem até um fundo para o socorro dos seus irmãos.
“Cada pouco”, como diz o provérbio, “faria um muito”. De fato, toda a nossa caridade e benevolência deveriam ser livres e alegres e, por esse motivo, tornadas tão fáceis para nós mesmos quanto possível.
E que maneira mais provável de nos deixar tranquilos nessa questão do que assim pôr de parte? Podemos dar alegremente quando sabemos que podemos dispensar e que estivemos pondo de parte em reserva para poder fazê-lo.
- Aqui está a medida em que devem pôr de parte: Conforme Deus os prosperou; ti an euodotai, conforme foi prosperado, a saber, pela Providência divina, conforme Deus teve por bem abençoar e dar êxito aos seus trabalhos e ocupação. Repare:
Toda a nossa ocupação e trabalho são para nós aquilo que Deus tem por bem fazê-los. Não é a mão diligente que enriquecerá por si mesma, sem a bênção divina, Provérbios 10:4, 22.
A nossa prosperidade e êxito vêm de Deus, não de nós mesmos; e ele deve ser reconhecido em tudo e honrado com tudo. É à sua generosidade e bênção que devemos tudo que temos; e tudo que temos deve ser usado, empregado e aproveitado para ele. O seu direito a nós mesmos e a tudo que é nosso deve ser reconhecido e entregue a ele.
E que razão mais apropriada para nos incitar à caridade para com o povo e os filhos de Deus do que considerar tudo que temos como seu dom, como vindo dele? Repare:
Quando Deus nos abençoa e prospera, deveríamos estar prontos a socorrer e confortar os seus servos necessitados; quando a sua generosidade flui sobre nós, não deveríamos confiná-la a nós mesmos, mas deixá-la correr para os outros.
O bem que recebemos dele deveria nos despertar a fazer bem aos outros, a nos assemelhar a ele na nossa beneficência; e, por isso, quanto mais bem recebemos de Deus, mais deveríamos fazer bem aos outros. Deveriam pôr de parte conforme Deus os havia abençoado, nessa proporção.
Quanto mais haviam, pela bênção de Deus, ganhado pela sua ocupação ou trabalho, seu comércio ou obra, mais deveriam pôr de parte. Repare: Deus espera que a nossa beneficência para com os outros mantenha alguma proporção com a sua generosidade para conosco.
Tudo que temos vem de Deus; quanto mais ele dá (consideradas as circunstâncias), mais nos capacita a dar, e mais espera que demos: que demos mais do que outros menos capazes, que demos mais do que nós mesmos quando éramos menos capazes.
E, por outro lado, daquele a quem Deus dá menos ele espera menos. Não é tirano nem feitor cruel, para exigir tijolo sem palha ou esperar que os homens façam mais bem do que ele dá capacidade. Repare:
Onde há uma mente disposta, ele aceita conforme o que um homem tem, e não conforme o que não tem (2 Coríntios 8:12); mas, conforme nos prospera e abençoa e nos põe em capacidade de fazer bem, espera que o façamos.
Quanto maior capacidade dá, mais ampliado deveria ser o nosso coração e mais abertas as nossas mãos; mas, onde a capacidade é menor, as mãos não podem ser tão abertas, por mais disposta que seja a mente e por mais amplo que seja o coração; nem Deus o espera.
- Aqui está o tempo em que isso deve ser feito: O primeiro dia da semana, kata mian sabbaton (Lucas 24:1), o dia do Senhor, o dia santo cristão.
Nele eram realizadas assembleias públicas e celebrado o culto público, e se dava atenção às instituições e mistérios cristãos (como os antigos os chamavam); então cada um ponha de parte consigo.
É dia de santo descanso; e, quanto mais tempo livre a mente tem das preocupações e trabalhos mundanos, mais disposição tem para mostrar misericórdia; e os outros deveres do dia deveriam nos despertar para cumprir esse; obras de caridade deveriam sempre acompanhar obras de piedade.
A verdadeira piedade para com Deus produzirá disposições bondosas e amigáveis para com os homens. “Este mandamento temos dele: que quem ama a Deus ame também o seu irmão”, 1 João 4:21. As obras de misericórdia são os frutos genuínos do verdadeiro amor a Deus e, por isso, serviço apropriado no seu próprio dia. Repare:
O dia de Deus é ocasião apropriada para pôr em reserva para usos caridosos, ou gastar neles, conforme ele nos prosperou; é pagar tributo pelas bênçãos da semana passada, e é maneira apropriada de obter a sua bênção sobre a obra das nossas mãos na próxima.
- Temos aqui a destinação das coletas assim feitas: o apóstolo queria ter tudo pronto para quando viesse e, por isso, deu orientação como antes: “Para que não haja coletas quando eu vier”, v. 2. Mas, quando viesse, quanto à destinação delas, deixaria muito a eles mesmos.
A caridade era deles, e era apropriado que dispusessem dela à sua própria maneira, desde que respondesse ao seu fim e fosse aplicada ao uso correto. Paulo não alegava dominar as bolsas dos seus ouvintes mais do que a sua fé; não se intrometeria nas suas contribuições sem a anuência deles:
(1.) Ele lhes diz que deveriam dar cartas de credenciamento e enviar mensageiros seus com a sua liberalidade, v. 3. Isso seria testemunho apropriado do seu respeito e amor fraternal para com os seus irmãos angustiados: enviar o seu dom por membros do seu próprio corpo, confiáveis e de coração terno.
Eles teriam compaixão dos seus irmãos sofredores e preocupação cristã em favor deles, e não os defraudariam. Indicaria que eram muito sinceros nesse serviço quando enviassem alguns do seu próprio corpo em jornada ou viagem tão longa e arriscada para transportar a sua liberalidade. Repare:
Deveríamos não somente socorrer caridosamente os nossos companheiros cristãos pobres, mas fazê-lo de maneira que melhor significasse a nossa compaixão para com eles e zelo por eles.
(2.) Ele se oferece para ir com os seus mensageiros se julgarem apropriado, v. 4. A sua ocupação como apóstolo não era servir às mesas, mas entregar-se à palavra e oração; contudo, nunca deixava de iniciar ou ajudar a promover uma obra de caridade quando se oferecia oportunidade.
Iria a Jerusalém para levar as contribuições da igreja de Corinto aos seus irmãos sofredores, antes que ficassem sem elas ou que a caridade dos coríntios deixasse de ter o devido efeito. Não era impedimento à sua obra de pregação, mas grande avanço para o seu êxito, mostrar disposição de mente tão terna e benigna. Repare:
Os ministros realizam o trabalho que lhes cabe quando promovem ou ajudam em obras de caridade. Paulo desperta os coríntios para juntar para o socorro das igrejas na Judeia, e está pronto a ir com os seus mensageiros para transportar o que é juntado; e continua no caminho do seu dever, na ocupação do seu ofício.
Versículos 5 a 9
Paulo Promete Visitar Corinto. (d.C. 57.)
Nesta passagem, o apóstolo comunica e explica o seu propósito de visitá-los, acerca do qual observe:
- O seu propósito: pretendia sair da Ásia, onde agora estava (vide v. 8, 19), e passar pela Macedônia para a Acaia, onde ficava Corinto, e ficar algum tempo com eles, e talvez o inverno, v. 5, 6.
Havia trabalhado muito tempo nessa igreja e feito muito bem entre eles, e tinha o seu coração posto em fazer muito mais (se Deus julgasse apropriado); e, por isso, tinha em seus pensamentos vê-los e ficar com eles. Repare:
O coração de um ministro verdadeiramente cristão deve estar muito voltado àquele povo entre o qual trabalhou por muito tempo e com notável êxito. Não admira que Paulo estivesse disposto a ver Corinto e ficar com eles tanto tempo quanto os outros deveres do seu ofício concedessem.
Embora alguns entre esse povo o desprezassem e fizessem uma facção contra ele, sem dúvida havia muitos que o amavam ternamente e lhe prestavam todo o respeito devido a um apóstolo e ao seu pai espiritual. E é de admirar que estivesse disposto a visitá-los e ficar com eles?
E, quanto aos demais, que agora manifestavam grande desrespeito, podia esperar levá-los a melhor disposição e, por esse meio, retificar o que estava fora de ordem na igreja, ficando entre eles por algum tempo.
Fica claro que esperava algum bom efeito, porque diz que pretendia ficar para que o encaminhassem na sua jornada para onde quer que fosse (v. 6); não que o acompanhassem por um pequeno trecho da estrada, mas que o despachassem e equipassem para a sua jornada, o ajudassem e animassem a ela, e o provessem para ela.
Deve ser entendido como ser encaminhado na sua jornada de modo piedoso (como é expresso, 3 João 1:6), para que nada lhe faltasse, como ele próprio fala, Tito 3:13.
A sua permanência entre eles, esperava, curaria o seu capricho faccioso e os reconciliaria com ele próprio e com o seu dever. Repare: Era motivo justo para um apóstolo fazer a sua morada num lugar ter perspectiva de fazer bem.
- A sua desculpa por não os ver agora: porque seria somente de passagem (v. 7), en parodo, in transitu, en passant; seria somente uma visita transitória. Não queria vê-los porque não podia ficar com eles.
Tal visita não daria nem a ele nem a eles qualquer satisfação ou vantagem; antes despertaria o apetite do que o regalaria, antes aumentaria os seus desejos de estarem juntos do que os satisfaria. Amava-os tanto que ansiava por uma oportunidade de ficar com eles, fazer a sua morada entre eles por algum tempo.
Isso seria mais agradável a ele próprio e mais útil a eles do que uma visita passageira no seu caminho; e, por isso, não queria vê-los agora, mas em outro tempo, quando pudesse demorar-se mais.
- Temos a limitação desse propósito: “Confio em demorar-me algum tempo convosco, se o Senhor conceder”, v. 7. Embora os apóstolos escrevessem sob inspiração, não sabiam por isso como Deus disporia deles. Paulo tinha propósito de ir a Corinto e ficar lá, e esperava fazer bem por isso.
Esse não era um propósito procedente de qualquer movimento ou impulso extraordinário do Espírito de Deus; não era efeito de inspiração; pois, se tivesse sido tal, não poderia ter falado dele dessa maneira.
Um propósito assim formado nele teria de ter sido o propósito de Deus, significado a ele pelo seu Espírito; e poderia dizer que iria a Corinto somente nessa perspectiva, se Deus conceder, isto é, que executaria o próprio propósito de Deus acerca de si mesmo com a permissão de Deus?
Deve ser entendido então como propósito comum formado no seu próprio espírito. E, acerca de todos os nossos propósitos, é apropriado dizer: “Nós os executaremos se o Senhor conceder”. Repare: Todos os nossos propósitos devem ser feitos com submissão à providência divina.
Deveríamos dizer: “Se o Senhor quiser, viveremos e faremos isto e aquilo”, Tiago 4:15. Não está em nós realizar os nossos próprios desígnios sem a permissão divina. Pelo poder e permissão de Deus, e sob a sua orientação, devemos fazer tudo.
Os pagãos concordaram em reconhecer essa participação da Providência em todas as nossas ações e questões; certamente deveríamos prontamente reconhecê-la e frequentemente e seriamente atentar para ela.
- Temos expresso o seu propósito de ficar em Éfeso por enquanto. Diz que ficaria lá até Pentecostes, v. 8. É muito provável que no tempo de escrever essa epístola estivesse em Éfeso, por essa passagem comparada com o v. 19, onde diz: “As igrejas da Ásia vos saúdam”.
Saudação apropriada de Éfeso, mas dificilmente tão apropriada se estivesse em Filipos, como diz a subscrição dessa epístola nas nossas cópias comuns. “As igrejas da Macedônia vos saúdam” teria sido inserido muito mais apropriadamente no encerramento de uma carta de Filipos do que a outra. Mas:
- Temos o motivo dado para a sua permanência em Éfeso por enquanto: Porque uma porta grande e eficaz lhe fora aberta, e havia muitos adversários, v. 9.
Uma porta grande e eficaz lhe fora aberta; muitos estavam preparados para receber o evangelho em Éfeso, e Deus lhe dava grande êxito entre eles; havia trazido muitos para Cristo e tinha grande esperança de trazer muitos mais. Por esse motivo, decidiu ficar algum tempo em Éfeso. Repare:
O êxito e uma boa perspectiva de mais eram motivo justo para determinar um apóstolo a ficar e trabalhar num lugar particular. E havia muitos adversários porque uma porta grande e eficaz fora aberta. Repare: Grande êxito na obra do evangelho comumente cria muitos inimigos.
O diabo se opõe mais e causa mais tribulação àqueles que mais de coração e com êxito se empenham em destruir o seu reino. Havia muitos adversários; e, por isso, o apóstolo decidiu ficar.
Alguns pensam que ele alude nessa passagem ao costume do Circo romano e às suas portas, pelas quais os cocheiros deveriam entrar, como os seus antagonistas pelas portas opostas. A verdadeira coragem é aguçada pela oposição; e não admira que a coragem cristã do apóstolo fosse animada pelo zelo dos seus adversários.
Estavam decididos a arruiná-lo e impedir o efeito do seu ministério em Éfeso; e abandonaria ele nesse tempo a sua posição e desonraria o seu caráter e doutrina? Não: a oposição dos adversários somente animava o seu zelo.
Em nada era intimidado pelos seus adversários; mas, quanto mais se enfureciam e se opunham, mais se empenhava. Um homem como ele fugiria? Repare: Adversários e oposição não quebram o ânimo dos ministros fiéis e bem-sucedidos, mas somente acendem o seu zelo e os inspiram com nova coragem.
De fato, trabalhar em vão é desalentador e desanimador. Isso abate o ânimo e quebra o coração. Mas o êxito dará vida e vigor a um ministro, embora os inimigos se enfureçam, blasfemem e persigam.
Não é a oposição dos inimigos, mas a dureza e obstinação dos seus ouvintes, e os retrocessos e revolta dos professos, que abatem um ministro fiel e quebram o seu coração.
Versículos 10 a 12
O Apóstolo Recomenda Timóteo; Orientações Gerais. (d.C. 57.)
Nesta passagem:
I. Ele lhes recomenda Timóteo em diversos particulares. Como:
- Ordena-lhes que tomem cuidado para que ele esteja entre eles sem temor, v. 10. Timóteo foi enviado pelo apóstolo para corrigir os abusos que haviam se insinuado entre eles; e não somente para orientar, mas para culpar, criticar e censurar os culpados.
Estavam todos em facções, e sem dúvida a contenda e ódio mútuos eram muito intensos entre eles. Havia alguns muito ricos, como é provável; e muitos muito orgulhosos por causa tanto da sua riqueza exterior quanto dos dons espirituais. Espíritos orgulhosos não podem facilmente suportar censura.
Era razoável, por isso, pensar que o jovem Timóteo pudesse ser tratado asperamente; por isso o apóstolo os avisa contra tratá-lo mal. Não que não estivesse preparado para o pior; mas, fossem quais fossem a sua firmeza e prudência, era dever deles comportar-se bem para com ele e não o desanimar e desalentar na obra do seu Senhor.
Não deveriam explodir em ressentimento diante da sua censura. Repare: Os cristãos deveriam suportar censuras fiéis dos seus ministros e não os aterrorizar e desanimar de cumprir o seu dever.
- Ele os avisa contra desprezá-lo, v. 11. Era somente um jovem e estava sozinho, como Ecumênio observa. Não tinha ninguém para apoiá-lo, e o seu próprio rosto e anos juvenis impunham só pouca reverência; e, por isso, os que muito alegavam ter sabedoria entre eles podiam ser aptos a nutrir pensamentos desdenhosos dele.
“Agora”, diz o apóstolo, “guardem-se disso”. Não que desconfiasse de Timóteo; sabia que Timóteo nada faria para trazer desprezo sobre o seu caráter, nada para tornar desprezível a sua juventude. Mas o orgulho era pecado reinante entre os coríntios, e tal cautela era até necessária demais. Repare:
Os cristãos deveriam ser muito cuidadosos em não derramar desprezo sobre ninguém, mas especialmente sobre os ministros, os ministros fiéis de Cristo. Esses, quer jovens quer velhos, devem ser tidos em alta estima por causa da sua obra.
- Ele lhes diz que deveriam lhe dar todo o ânimo devido, tratá-lo bem enquanto estivesse com eles; e, como evidência disso, deveriam despedi-lo em amizade e bem preparado para a sua jornada de volta a Paulo.
Isso, como antes observei, é o significado de encaminhá-lo na sua jornada em paz, v. 11. Repare: Os ministros fiéis devem não somente ser bem recebidos por um povo entre o qual possam ministrar por algum tempo, mas ser despedidos com o devido respeito.
II. Ele apresenta os motivos por que deveriam comportar-se assim para com Timóteo:
- Porque estava empregado na mesma obra que Paulo e agia nela pela mesma autoridade, v. 10. Não vinha entre eles a serviço de Paulo, nem para fazer a sua obra, mas a obra do Senhor. Embora não fosse apóstolo, era assistente de um, e foi enviado nessa própria ocupação por comissão divina.
E, por isso, afligir o seu espírito seria entristecer o Espírito Santo; desprezá-lo seria desprezar aquele que o enviou, não Paulo, mas o Senhor de Paulo e deles. Repare: Os que realizam a obra do Senhor não deveriam ser nem aterrorizados nem desprezados, mas tratados com toda ternura e respeito.
Tais são todos os ministros fiéis da palavra, embora nem todos na mesma posição e grau. Pastores e mestres, assim como apóstolos e evangelistas, enquanto cumprem o seu dever devem ser tratados com honra e respeito.
- Outro motivo está implícito; assim como deveriam estimá-lo por causa da sua obra, assim também por causa de Paulo, que o havia enviado a Corinto; não de fato a seu próprio serviço, mas para realizar a obra do Senhor.
“Encaminhai-o em paz, para que venha a mim, pois o espero com os irmãos” (v. 11); ou eu com os irmãos o espero (o original comporta ambos), ekdechomai gar auton meta ton adelphon.
“Estou esperando o seu retorno e o seu relato acerca de vocês; e julgarei pela sua conduta para com ele qual será a sua consideração e respeito por mim. Cuidem de enviá-lo de volta sem nenhum mau relato.”
Paulo podia esperar dos coríntios que um mensageiro seu, em tal serviço, fosse considerado e bem tratado. Os seus serviços e êxito entre eles, a sua autoridade com eles como apóstolo, reivindicariam isso das suas mãos. Dificilmente ousariam enviar Timóteo de volta com um relato que entristecesse ou provocasse o apóstolo.
“Eu e os irmãos esperamos o seu retorno, aguardamos o relato que ele fará; e, por isso, não o tratem mal, mas o respeitem, considerem a sua mensagem e o deixem retornar em paz.”
III. Ele lhes informa o propósito de Apolo de vê-los:
- Ele próprio havia desejado muito que fosse até eles, v. 12. Embora um partido entre eles tivesse se declarado por Apolo contra Paulo (se aquela passagem deve ser entendida literalmente, vide 1 Coríntios 4:6), contudo, Paulo não impedia Apolo de ir a Corinto na própria ausência de Paulo; ou melhor, insistia para que fosse lá.
Não tinha suspeitas de Apolo, como se diminuísse o interesse e respeito por Paulo entre eles para o avanço dos seus próprios. Repare: Os ministros fiéis não são aptos a nutrir ciúmes uns dos outros nem a suspeitar de desígnios tão egoístas.
A verdadeira caridade e amor fraternal não pensam mal. E onde esses deveriam reinar, se não no peito dos ministros de Cristo?
- Não se podia conseguir que Apolo fosse por enquanto, mas iria numa ocasião mais conveniente. Talvez as suas inimizades e facções tornassem imprópria a presente ocasião. Não iria para ser posto à cabeça de um partido e favorecer o capricho divisor e disputador.
Quando isso tivesse diminuído pela epístola de Paulo a eles e pelo ministério de Timóteo entre eles, podia concluir que uma visita seria mais apropriada. Os apóstolos não rivalizavam uns com os outros, mas olhavam pelo conforto e utilidade uns dos outros.
Paulo indica a sua grande consideração pela igreja de Corinto, quando o haviam tratado mal, suplicando a Apolo que fosse até eles; e Apolo mostra o seu respeito a Paulo e a sua preocupação em manter o caráter e autoridade dele recusando a jornada até que os coríntios estivessem em melhor disposição. Repare:
Convém muito aos ministros do evangelho ter e manifestar preocupação pela reputação e utilidade uns dos outros.
Versículos 13 a 18
Orientações Particulares. (d.C. 57.)
Nesta passagem, o apóstolo dá:
I. Alguns conselhos gerais, como:
- Que deveriam vigiar (v. 13), estar despertos e de guarda. Um cristão está sempre em perigo e, por isso, deveria estar sempre vigilante; mas o perigo é maior em alguns tempos e sob algumas circunstâncias.
Os coríntios estavam em perigo manifesto por muitos motivos: as suas inimizades eram intensas, as irregularidades entre eles eram muito grandes, havia enganadores introduzidos entre eles.
Esses procuravam corromper a sua fé nos artigos mais importantes, aqueles sem os quais a prática da virtude e piedade nunca poderia subsistir. E certamente em circunstâncias tão perigosas era sua preocupação vigiar. Repare:
Se um cristão quer estar seguro, deve estar de guarda; e, quanto maior o seu perigo, maior vigilância é necessária para a sua segurança.
- Ele os aconselha a permanecer firmes na fé, a manter a sua posição, aderir à revelação de Deus e não abandoná-la pela sabedoria do mundo, nem permitir que seja corrompida por ela.
Defender a fé do evangelho e mantê-la mesmo até a morte; e permanecer nela, de modo a continuar na sua profissão, e sentir e ceder à sua influência. Repare: Um cristão deveria estar firmado na fé do evangelho e nunca a abandonar nem renunciar a ela.
Somente por essa fé poderá manter a sua posição numa hora de tentação; pela fé permanecemos (2 Coríntios 1:24); por ela devemos vencer o mundo (1 João 5:4), tanto quando bajula quanto quando franze a testa, quando atrai e quando aterroriza.
Devemos permanecer, por isso, na fé do evangelho, se queremos manter a nossa integridade.
- Ele os aconselha a agir como homens e ser fortes: “Desempenhem a parte varonil, firme e resoluta: comportem-se vigorosamente, em oposição aos homens maus que dividiriam e corromperiam vocês, aos que os dividiriam em facções ou os seduziriam da fé.”
“Não sejam aterrorizados nem atraídos por eles; mas mostrem-se homens em Cristo pela sua firmeza, pelo seu juízo sadio e resolução firme.” Repare: Os cristãos deveriam ser varonis e firmes em todas as suas disputas com os seus inimigos, defendendo a sua fé e mantendo a sua integridade.
Deveriam sê-lo de maneira especial naqueles pontos de fé que estão no fundamento da religião sadia e prática, como os que eram atacados entre os coríntios: esses devem ser mantidos com juízo sólido e resolução forte.
- Ele os aconselha a fazer tudo em caridade, v. 14. O nosso zelo e constância devem ser compatíveis com a caridade. Quando o apóstolo quer que desempenhemos o papel de homem pela nossa fé ou religião, insere uma cautela contra desempenhar o de diabo por ela.
Podemos defender a nossa fé, mas devemos, ao mesmo tempo, manter a nossa inocência e não devorar e destruir, nem pensar conosco mesmos que a cólera do homem realizará a justiça de Deus, Tiago 1:20. Repare:
Os cristãos deveriam ser cuidadosos para que a caridade não somente reine no seu coração, mas brilhe na sua vida, ou melhor, nas suas defesas mais varonis da fé do evangelho. Há grande diferença entre constância e crueldade, entre firmeza cristã e cólera e arrebatamento febris.
O cristianismo nunca aparece com tanta vantagem quanto quando a caridade dos cristãos é mais conspícua: quando podem suportar os seus irmãos equivocados e opor-se em amor aos inimigos declarados da sua santa fé.
Quando tudo é feito em caridade, quando se comportam uns para com os outros e para com todos os homens com espírito de mansidão e boa vontade.
II. Algumas orientações particulares sobre como deveriam comportar-se para com alguns que haviam sido eminentemente úteis à causa de Cristo entre eles:
- Ele nos dá o seu caráter:
(1.) A família de Estéfanas é mencionada por ele, e o seu caráter é que eram as primícias da Acaia, os primeiros convertidos ao cristianismo naquela região da Grécia em que estava Corinto. Repare: É caráter honroso para qualquer homem ser cristão cedo, cedo em Cristo.
Mas, além disso, haviam se dedicado ao ministério dos santos, a servir os santos. Dispuseram e dedicaram a si mesmos, etaxan heautous, a servir os santos, a prestar serviço aos santos.
Não se entende do ministério da palavra propriamente, mas de servi-los em outros aspectos, suprir as suas carências, ajudá-los e assisti-los em todas as ocasiões, tanto nas suas questões temporais quanto espirituais.
A família de Estéfanas parece ter sido família de posição e importância naquelas partes e, contudo, voluntariamente se ofereceram a esse serviço. Repare: É honra às pessoas da posição mais elevada dedicar-se ao serviço dos santos.
Não quero dizer mudar de posição e tornar-se propriamente servos dos inferiores, mas livre e voluntariamente ajudá-los e fazer-lhes bem em todas as suas questões.
(2.) Ele menciona Estéfanas, Fortunato e Acaico como vindos até ele da igreja de Corinto. O relato que dá deles é que supriram as deficiências da igreja para com ele e, fazendo isso, refrigeraram o espírito dele e o deles, v. 17, 18.
Deram-lhe relato mais perfeito do estado da igreja de viva voz do que podia adquirir pela carta deles e, por esse meio, aquietaram muito a mente dele e, ao retornar dele, aquietariam a mente dos coríntios.
O relato havia tornado a sua causa muito pior do que era de fato, e as suas cartas não a haviam explicado suficientemente para dar satisfação ao apóstolo; mas ele havia ficado mais tranquilo pela conversa com eles.
Era serviço muito bom o que fizeram, declarando os fatos com veracidade e removendo a má opinião que Paulo havia recebido pela fama comum. Vieram até ele com intenção verdadeiramente cristã, para esclarecer o apóstolo e lhe dar sentimentos tão favoráveis acerca da igreja quanto podiam, como pacificadores. Repare:
É grande refrigério ao espírito de um ministro fiel ouvir melhor de um povo por homens sábios e bons do seu próprio corpo do que pelo relato comum, descobrir-se mal informado acerca deles, que as coisas não são tão más quanto haviam sido representadas.
É dor para ele ouvir mal daqueles que ama; alegra o seu coração ouvir que o relato disso é falso. E, quanto maior apreço tem pelos que lhe dão essa informação, e quanto mais pode depender da sua veracidade, maior é a sua alegria.
- Com base nesse relato dos homens, ele orienta como deveriam comportar-se para com eles; e:
(1.) Gostaria que fossem reconhecidos (v. 18), isto é, reconhecidos e respeitados. Merecem isso pelos seus bons serviços.
Os que servem os santos, os que olham pela honra e boa estima das igrejas e se preocupam em apagar o descrédito delas e diminuir a má opinião que a fama propagou devem ser valorizados, estimados e amados. Os que revelam espírito tão bom não podem facilmente ser supervalorizados.
(2.) Ele aconselha que se submetessem a tais pessoas e a todos que ajudavam os apóstolos e trabalhavam, v. 16. Isso não deve ser entendido de sujeição a superiores propriamente, mas de um reconhecimento voluntário do seu valor. Eram pessoas a quem deviam respeito peculiar e que deveriam ter em veneração. Repare:
É caráter venerável o que têm aqueles que servem os santos e trabalham arduamente para ajudar o êxito do evangelho, que favorecem e animam os ministros fiéis de Cristo e procuram promover a sua utilidade. Tais deveriam ser tidos em estima honrosa.
Versículos 19 a 24
Elogios e Saudações. (d.C. 57.)
O apóstolo encerra a sua epístola:
I. Com saudações à igreja de Corinto, primeiro das da Ásia, de Priscila e Áquila (que parecem ter sido nesse tempo habitantes de Éfeso, vid. Atos 18:26), com a igreja na sua casa (v. 19), e de todos os irmãos (v. 20) em Éfeso, onde, é altamente provável pelo menos, ele então estava.
Todos esses saudavam a igreja de Corinto por Paulo. Repare: O cristianismo de modo algum destrói a civilidade e as boas maneiras. Paulo podia encontrar espaço numa epístola que tratava de questões muito importantes para enviar as saudações dos amigos.
A religião deveria promover disposição cortês e atenciosa para com todos. Representam-na mal e lhe trazem descrédito aqueles que tirariam dela qualquer ânimo para ser azedos e mal-humorados. Alguns desses os saúdam muito no Senhor. Repare:
As saudações cristãs não são elogios vazios; trazem em si expressões reais de boa vontade e são acompanhadas de recomendações sinceras à graça e bênção divinas. Os que saúdam no Senhor desejam aos seus irmãos todo bem do Senhor e exalam os seus bons votos em orações fervorosas.
Lemos também de uma igreja numa família particular, v. 19. É muito provável que a própria família seja chamada igreja na sua casa. Repare: Toda família cristã deveria em alguns aspectos ser uma igreja cristã.
Em alguns casos (como, por exemplo, se naufragassem numa praia estrangeira onde não há outros cristãos), deveriam ser eles próprios uma igreja, se numerosos o suficiente, e viver no uso de todas as ordenanças; mas nos casos comuns deveriam viver sob a orientação das regras cristãs e diariamente oferecer culto cristão.
Onde quer que dois ou três estejam reunidos e Cristo esteja entre eles, há uma igreja. A essas saudações ele acrescenta:
- Um conselho: que deveriam saudar uns aos outros com um beijo santo (v. 20), ou com sincera boa vontade, censura tácita das suas inimizades e facções.
Quando as igrejas da Ásia e os irmãos cristãos tão distantes os saudavam tão sinceramente no Senhor, e os reconheciam e amavam como irmãos, e lhes expressavam tanta boa vontade, seria vergonha para eles não reconhecer e amar uns aos outros como irmãos. Repare:
O amor dos irmãos deveria ser poderoso incentivo ao amor mútuo. Quando as outras igrejas de Cristo amam a todos nós, somos muito culpáveis se não amamos uns aos outros.
- Ele acrescenta a sua própria saudação: “A saudação de mim, Paulo, com a minha própria mão”, v. 21. O seu amanuense, é razoável pensar, escreveu o restante da sua epístola conforme ele ditava, mas no encerramento era apropriado que ele próprio a assinasse, para saberem que era genuína.
E, por isso, é acrescentado (2 Tessalonicenses 3:17): “Que é o meu sinal em toda epístola”, a marca de ser genuína; assim escrevia em toda epístola que não redigia inteiramente, como fez a dos gálatas, Gálatas 6:11. Repare:
As igrejas a quem eram enviadas cartas apostólicas eram devidamente certificadas de que as cartas eram autênticas e divinas. Nem Paulo ficaria atrás dos demais irmãos no respeito para com os coríntios; e, por isso, depois de dar as suas saudações, acrescenta a sua própria.
II. Com um aviso muito solene a eles: “Se algum homem não ama o Senhor Jesus Cristo, seja Anátema, Maranata”, v. 22. Às vezes precisamos de palavras de ameaça para que temamos. Bem-aventurado é, diz o sábio, aquele que teme sempre. O santo temor é amigo muito bom tanto da santa fé quanto do santo viver.
E quanta razão têm todos os cristãos para temer cair sob essa condenação! “Se algum homem não ama o Senhor Jesus Cristo, seja Anátema, Maranata.” Aqui observe:
- A pessoa descrita, que está sujeita a essa condenação: Aquele que não ama o Senhor Jesus Cristo. Uma meiose, como alguns pensam; quem blasfema de Cristo nega a sua doutrina, faz pouco caso e despreza as suas instituições, ou, pelo orgulho do conhecimento e erudição humanos, despreza as suas revelações.
Está aqui como aviso aos coríntios e repreensão do seu comportamento criminoso. É advertência a eles para não serem desviados da simplicidade do evangelho, ou dos seus princípios que eram os grandes motivos para a pureza de vida, pelos que alegam ciência, pela sabedoria do mundo que chamaria a sua religião insensatez e as suas doutrinas mais importantes absurdas e ridículas.
Aqueles homens tinham maldade contra Cristo; e, se os coríntios dessem ouvidos às suas falas sedutoras, estavam em perigo de apostatar dele. Contra isso ele lhes dá aqui uma cautela muito solene. “Não cedam a tal conduta se querem escapar da vingança mais severa.” Repare:
Os cristãos professos, por desprezo de Cristo e revolta contra ele, trarão sobre si a destruição mais terrível. Alguns entendem as palavras como estão, no seu significado claro e evidente, dos que estão sem afeição santa e sincera pelo Senhor Jesus Cristo.
Muitos que têm o seu nome muito na sua boca não têm verdadeiro amor por ele no seu coração, não querem que reine sobre eles (Lucas 19:27), não, nem mesmo embora tenham esperanças muito elevadas de serem salvos por ele. E ninguém o ama em verdade que não ame as suas leis e guarde os seus mandamentos. Repare:
Há muitos cristãos de nome que não amam sinceramente Cristo Jesus, o Senhor. Mas pode alguma coisa ser mais criminosa ou provocadora? Quê! Não amar o amante mais glorioso no mundo!
Aquele que nos amou e se deu em favor de nós, que derramou o seu sangue em favor de nós para testemunhar o seu amor para conosco, e isso depois de grave agravo e provocação! Para que tínhamos poder de amar, se estamos indiferentes a um amor como esse e sem afeição por tal Salvador? Mas:
- Temos aqui a condenação da pessoa descrita: “Seja Anátema, Maranata, permaneça sob a maldição mais pesada e terrível. Seja separado do povo de Deus, do favor de Deus e entregue à sua vingança final, irrevogável e inexorável.” Maranata é expressão siríaca e significa: O Senhor vem.
Aquele próprio Senhor que não amam, a quem interior e realmente são desafetos, seja qual for a profissão exterior que façam, vem para executar juízo. E estar exposto à sua cólera, ser separado para o seu lado esquerdo, ser condenado por ele, como é terrível! Se ele destruir, quem pode salvar?
Os que caem sob a sua sentença condenatória devem perecer, e isso para sempre. Repare: Os que não amam o Senhor Jesus Cristo devem perecer sem remédio. A cólera de Deus permanece sobre todo aquele que não crê no Filho, João 3:36.
E a verdadeira fé em Cristo sempre produzirá amor sincero por ele. Os que não o amam não podem ser crentes nele.
III. Com os seus bons votos por eles e expressões de boa vontade para com eles:
- Com os seus bons votos: “A graça do nosso Senhor Jesus Cristo seja convosco”, v. 23. Tanto quanto se tivesse dito: “Embora os avise contra cair sob o seu desagrado, desejo-lhes de coração participação no seu amor mais querido e no seu favor eterno”.
A graça do nosso Senhor Jesus Cristo compreende em si tudo que é bom para o tempo ou a eternidade. Desejar que os nossos amigos tenham essa graça com eles é lhes desejar o maior bem. E isso deveríamos desejar a todos os nossos amigos e irmãos em Cristo.
Nada mais podemos lhes desejar, e nada menos deveríamos lhes desejar. Deveríamos orar de coração para que valorizem, busquem, obtenham e assegurem a graça e boa vontade do seu Senhor e Juiz. Repare:
Os avisos mais solenes são resultado da afeição mais terna e da maior boa vontade. Podemos dizer aos nossos irmãos e amigos com grande clareza e emoção que, se não amam o Senhor Jesus Cristo, devem perecer, enquanto desejamos de coração que a graça de Cristo esteja com eles.
Ou melhor, podemos lhes dar esse aviso para que prezem e se apoderem dessa graça. Repare também: Quanto o verdadeiro cristianismo amplia o nosso coração; faz-nos desejar aos que amamos as bênçãos de ambos os mundos; pois isso está implícito em desejar que a graça de Cristo esteja com eles.
E, por isso, não admira que o apóstolo encerrasse tudo:
- Com a declaração do seu amor por eles em Cristo Jesus: “O meu amor seja com todos vós, em Cristo Jesus, Amém”, v. 24. Havia tratado com eles muito claramente nessa epístola e lhes falado das suas faltas com justa severidade.
Mas, para mostrar que não estava arrebatado pela paixão, despede-se deles em amor, faz profissão solene do seu amor por eles, ou melhor, por todos eles em Cristo Jesus, isto é, por causa de Cristo.
Diz-lhes que o seu coração estava com eles, que na verdade os amava; mas, para que isso, afinal, não fosse considerado adulação e insinuação, acrescenta que a sua afeição era resultado da sua religião e seria guiada pelas suas regras.
O seu coração estaria com eles e lhes teria querida afeição enquanto o coração deles estivesse com Cristo e tivessem verdadeira afeição pela sua causa e interesse. Repare: Deveríamos ser amantes cordiais de todos os que estão em Cristo e que o amam sinceramente.
Não que não devêssemos amar todos os homens e lhes desejar bem e lhes fazer todo bem que está em nosso poder; mas deveriam ter a nossa afeição mais querida os que são queridos a Cristo e amantes dele. Que o nosso amor esteja com todos os que estão em Cristo Jesus! Amém.