Matthew Henry

Prefácio do volume V

Mateus a João

Metade de nosso empreendimento relativo ao Novo Testamento [30] está agora, com a ajuda da graça divina, concluída e apresentada ao leitor.

Esperamos que, cooperando o Senhor com esta obra, ele seja de algum modo auxiliado a compreender e aproveitar a história sagrada de Cristo e seus apóstolos, fazendo dela, como de fato é, a melhor exposição de nosso credo, no qual se resumem esses escritores inspirados. Assim sugere o evangelista que chama seu evangelho de “declaração das coisas em que entre nós se crê com toda certeza”, Lucas 1:1.

Não há parte das Escrituras em cuja crença mais nos importe estar firmados, nem outra com que a maioria dos cristãos tenha maior familiaridade ou da qual fale com mais frequência.

Portanto, é nosso dever, mediante esforço constante em meditação e oração, conhecer intimamente a verdadeira intenção e o sentido dessas narrativas: qual é nosso interesse nelas e o que devemos edificar sobre elas e delas extrair.

Não devemos contentar-nos com o conhecimento que tínhamos na infância, quando nos ensinaram a ler inglês na tradução desses livros e grego nos originais. Devemos conhecê-los como o médico conhece seu formulário, o advogado seus livros de jurisprudência e o marinheiro sua carta e bússola.

Isto é, devemos saber usá-los naquilo que constitui nossa ocupação neste mundo: servir a Deus aqui e desfrutar dele depois, ambas as coisas em Cristo, o Mediador.

Os grandes propósitos das instituições cristãs, das quais estes livros são fontes e fundamentos, eram reconduzir os filhos dos homens ao temor e ao amor de Deus, como princípio ativo e predominante de sua reverência e obediência a ele. Eram mostrar-lhes o caminho da reconciliação com Deus e de sua aceitação por ele, e colocá-los sob obrigações para com Jesus Cristo como Mediador.

Desse modo, buscavam empenhá-los em todas as formas de devoção a Deus, justiça e caridade para com todos os homens, em conformidade com o exemplo de Cristo, em obediência à sua lei e na realização de seus grandes propósitos. Portanto, procurei aqui tornar estes escritos úteis à fé, à santidade e ao consolo dos bons cristãos.

Para que estes escritos, assim empregados a serviço de propósitos tão grandes e nobres, exerçam sobre nós a devida influência, importa que estejamos bem firmados na crença em sua origem divina. Aqui temos de lidar com duas classes de pessoas. Alguns aceitam o Antigo Testamento, mas o opõem ao Novo, alegando que, se aquele está certo, este está errado; são os judeus.

Outros, embora vivam em uma nação cristã e pelo batismo levem o nome de cristãos, desprezam o cristianismo sob o pretexto da liberdade de pensamento; por consequência, rejeitam o Novo Testamento e, naturalmente, também o Antigo.

Confesso que é estranho que alguém que hoje aceita o Antigo Testamento rejeite o Novo, pois, além de todas as provas particulares da autoridade divina do Novo, existe admirável harmonia entre ambos.

O Novo concorda com o Antigo em todos os seus principais propósitos, remete a ele, edifica sobre ele e mostra o cumprimento de seus tipos e profecias, sendo assim sua perfeição e coroa.

Mais ainda: se o Novo não for verdadeiro, o Antigo terá de ser falso, e todas as gloriosas promessas que nele resplandecem tão intensamente, cujo cumprimento foi limitado a determinados períodos, terão de ser um grande engano. Sabemos que não o são e, portanto, precisamos aceitar o Novo Testamento para sustentar a credibilidade do Antigo.

As coisas do Antigo Testamento que o Novo põe de lado são a condição peculiar da nação judaica e as observâncias da lei cerimonial. Ambas certamente foram estabelecidas por ordem divina; ainda assim, o Novo Testamento de modo algum entra em conflito com o Antigo, pois:

  1. Desde o princípio foram destinadas a ser deixadas de lado na plenitude dos tempos. Não se pode esperar outra coisa senão que a estrela da manhã desapareça quando o sol nasce. E as partes finais do Antigo Testamento falam muitas vezes da remoção dessas coisas e do chamado dos gentios.

  2. Foram deixadas de lado com muita honra; antes, foram trocadas por algo mais nobre e excelente, mais divino e celestial. A igreja judaica foi absorvida pela cristã, e o ritual mosaico, pelas instituições evangélicas. O Novo Testamento desfaz o Antigo tão pouco quanto o envio de um jovem à universidade desfaz sua educação na escola de primeiras letras.

  3. A providência logo resolveu essa controvérsia (a única que parecia existir entre o Antigo e o Novo Testamento) pela destruição de Jerusalém, a desolação do templo, a dissolução de seu serviço e a dispersão total dos remanescentes da nação judaica.

Por mais de mil e seiscentos anos, todas as tentativas de reorganizá-la foram frustradas por juízo divino; tudo isso segundo as predições expressas de Cristo pouco antes de sua morte.

Assim como Cristo não quis que a doutrina de que ele era o Messias fosse muito enfatizada até que sua ressurreição dentre os mortos desse a grande prova conclusiva, também a revogação da lei cerimonial, no tocante aos judeus, não foi muito enfatizada.

Tolerou-se que continuassem a observá-la até que a destruição de Jerusalém deu a grande prova conclusiva de sua revogação, tornando impossível para sempre essa observância.

Os sinais manifestos da ira divina sob os quais os judeus, considerados como povo, permanecem até hoje, apesar da prosperidade de alguns indivíduos entre eles, provam não apenas a verdade das predições de Cristo a seu respeito, mas também que estão sob culpa maior do que a da idolatria (pela qual sofreram setenta anos de desolação).

Essa culpa só pode ser a de crucificar Cristo e rejeitar seu evangelho.

É, portanto, evidente que, ao expor o Novo Testamento, não desfazemos o que fizemos ao expor o Antigo. Tão longe estamos disso que podemos apelar à Lei e aos Profetas para confirmar a grande verdade que os Evangelhos foram escritos para provar: nosso Senhor Jesus é o Messias prometido aos pais, aquele que havia de vir, e não devemos esperar outro.

Embora sua aparição não correspondesse à expectativa dos judeus carnais, que esperavam um Messias com pompa e poder exteriores, correspondeu exatamente a todos os tipos, profecias e promessas do Antigo Testamento, que nele se cumpriram. Até seus sofrimentos ignominiosos, o maior obstáculo para os judeus, haviam sido preditos acerca do Messias.

Se ele não se houvesse submetido a eles, faltaria fundamento à nossa prova; longe de enfraquecê-la, esses sofrimentos a confirmam.

A Demonstration of the Christian's Messiah, do bispo Kidder, estabeleceu fartamente essa verdade e respondeu às objeções dos judeus contra ela, que são antes cavilações do que argumentos, melhor que qualquer outra obra em nossa língua.

Vivemos, porém, numa época em que o cristianismo e o Novo Testamento são atacados com mais virulência e ousadia por alguns de dentro de seu próprio seio do que por aqueles que estão em suas fronteiras. Nunca Moisés e seus escritos foram tão acusados e ridicularizados por judeus, nem Maomé e seu Alcorão por muçulmanos, quanto Cristo e seu evangelho por homens batizados e chamados cristãos.

Isso ocorre não sob aparência de outra revelação divina, mas em desprezo e desafio a toda revelação divina. Também não se trata de queixa por encontrarem algo que abala sua fé, que por sua própria fraqueza não conseguem superar e sobre o qual desejam instrução e ajuda para compreender e conciliar com a verdade que receberam.

Trata-se de oposição deliberada, como se considerassem o cristianismo inimigo e estivessem resolvidos a arruiná-lo por todos os meios possíveis, embora não possam dizer que mal ele fez ao mundo ou a eles.

Se a invocação do cristianismo levou muitos na Igreja de Roma a corrupções do culto e crueldades no governo que são, de fato, uma vergonha para a natureza humana, isso não deveria predispor tais críticos contra o cristianismo puro. Ao contrário, deveriam defendê-lo com maior vigor ao ver instituição tão excelente em si mesma tão vilmente abusada e desfigurada.

Em sua oposição ao cristianismo, alegam liberdade de pensamento e desejam distinguir-se pelo nome de livres-pensadores. Não tentarei aqui apresentar os argumentos suficientes para provar a origem e a autoridade divinas da doutrina de Cristo a todos os que não sejam voluntariamente ignorantes nem preconceituosos contra a verdade.

Os eruditos encontram grande satisfação na leitura das apologias dos antigos em favor da religião cristã, quando ela lutava contra o politeísmo e a idolatria dos gentios.

Justino Mártir e Tertuliano, Lactâncio e Minúcio Félix escreveram admiravelmente em defesa do cristianismo, quando ele recebeu ainda o selo do sangue dos mártires. Seus defensores e advogados de hoje, porém, têm de enfrentar outra espécie de inimigos.

Já não se alegam contra o cristianismo a antiguidade da teologia pagã, sua prevalência universal, os éditos dos príncipes nem as tradições e os costumes nacionais.

Reivindicam, em vez disso, uma imaginária liberdade de pensamento e um privilégio inaudito da natureza humana: o de não estar vinculados a revelação divina alguma. Ora, é fácil demonstrar:

  1. Aqueles que pretendem defender dessa maneira a liberdade de pensar como um dos privilégios da natureza humana, e que estão dispostos a tomar armas contra o próprio Deus em sua defesa, não pensam livremente nem permitem que os outros o façam.

Em alguns, a decidida condescendência consigo mesmos em práticas viciosas — que sabem que o evangelho, se o aceitarem, lhes tornará muito incômodas — e a hostilidade secreta a uma mente e vida santas e celestiais impedem todo pensamento livre.

Seus desejos e paixões os predispuseram tão fortemente contra as leis de Cristo que se veem na necessidade de opor-se às verdades de Cristo em que essas leis se fundamentam.

Perit judicium, quando res transit in affectum — O juízo é vencido quando a decisão é entregue às afeições. Certos ou errados, os vínculos de Cristo têm de ser rompidos e suas cordas lançadas para longe. Assim, por mais evidentes que sejam as premissas, a conclusão deve ser negada se tender a impor-lhes esses vínculos e cordas. Onde está, então, a liberdade de pensamento?

Enquanto prometem a si mesmos liberdade, são servos da corrupção; pois aquele por quem alguém é vencido o reduz também à escravidão.

Em outros, o orgulho dominante, a afetação da singularidade e o espírito de contradição — desejos da mente tão impetuosos e dominadores quanto quaisquer desejos da carne e do mundo — impedem a liberdade de pensar e escravizam a alma em todas as suas investigações sobre religião.

Os que resolvem pensar por si mesmos não conseguem pensar livremente mais do que os que resolvem pensar como seus vizinhos. Tampouco concedem aos outros a liberdade de pensar, pois não é pela razão e pelo argumento que procuram convencer-nos, mas pela zombaria e pelo escárnio, expondo o cristianismo e seus seguidores sérios ao desprezo.

Considerando como é natural à maioria dos homens zelar pela própria reputação, essa é a maior imposição possível. O medo de ser ridicularizado no círculo daqueles que se erigem em oráculos da razão impede os irrefletidos de pensar livremente tanto quanto o medo de ser amaldiçoado, excomungado e anatematizado pelo conselho daqueles que se erigem em oráculos da religião.

Onde está, então, o livre pensamento?

  1. Aqueles que se permitirem verdadeira liberdade de pensar e pensarem seriamente não poderão deixar de acolher todas as palavras de Cristo como fiéis e plenamente dignas de aceitação. Que se remova a inclinação corrupta do coração carnal para o mundo, para a carne e para o eu (o ídolo mais presunçoso dos três).

Que a doutrina de Cristo seja apresentada primeiro em suas verdadeiras cores, tal como Cristo e seus apóstolos a transmitiram, e sob sua verdadeira luz, com todas as provas que lhe são próprias, internas e externas.

Então, que a alma capaz empregue livremente suas faculdades racionais. Pela operação do Espírito da graça, o único que produz fé em todos os que creem, até o pensamento altivo, quando se tornar pensamento livre, liberto da escravidão do pecado e da corrupção, será cativado por um poder agradável e feliz e levado à obediência a Cristo. Quando ele assim o libertar, será verdadeiramente livre.

Qualquer pessoa disposta a pensar sem parcialidade e a empenhar-se em pensar com cuidado leia Reasons for the Christian Religion, do Sr. Baxter. Verá que a obra vai ao fundo, estabelece alicerces profundos e firmes e também coloca a pedra de remate no assentimento do crente a Deus em Cristo, para satisfação dos que de fato se preocupam com sua alma e com outro mundo.

As provas das verdades do evangelho foram também metodizadas e reforçadas de maneira excelente pelo bispo Stillingfleet em Origines Sacræ; por Grotius, em seu livro Truth of the Christian Religion; pelo dr. Whitby, no prefácio geral de seu comentário do Novo Testamento; e, recentemente, pelo Sr. Ditton, com grande força de argumentação, em seu discurso sobre a ressurreição de Jesus Cristo.

Muitos outros também fizeram trabalho digno nesse campo.

Não crerei que um homem que rejeite o Novo Testamento e a religião cristã tenha pensado livremente sobre o assunto, a menos que tenha lido deliberadamente esses livros ou outros semelhantes, com humildade, seriedade e oração a Deus por orientação. Certamente foram escritos com liberdade e clareza de pensamento.

Quanto a mim, se meus pensamentos merecessem a atenção de alguém, declaro que refleti sobre esse assunto tão importante com toda a liberdade que uma alma racional pode reivindicar ou desejar.

O resultado é que, quanto mais penso e quanto mais livremente penso, mais plenamente me convenço de que a religião cristã é a verdadeira religião; se a ela submeter sinceramente minha alma, posso confiar-lhe minha alma com segurança. Pois, quando penso livremente:

  1. Não posso deixar de pensar que Deus, que por seu poder fez do homem uma criatura racional, tem o direito de governá-lo por sua lei e obrigá-lo a manter suas faculdades inferiores — apetites e paixões —, juntamente com suas capacidades de pensar e falar, devidamente sujeitas às faculdades superiores da razão e da consciência.

Quando examino meu coração, não posso deixar de pensar que era isso que meu Criador pretendia na ordem e na constituição de minha alma, e que assim tencionava sustentar seu domínio sobre mim.

  1. Não posso deixar de pensar que minha felicidade está ligada ao favor de Deus e que seu favor estará ou não comigo conforme eu cumpra ou deixe de cumprir as leis e os fins de minha criação. Devo prestar contas a esse Deus, e dele procede meu julgamento, não somente para este mundo, mas também para meu estado eterno.

  2. Não posso deixar de pensar que minha natureza é muito diferente da natureza humana tal como saiu das mãos do Criador: degenerou de sua pureza e retidão originais. Encontro em mim aversão natural ao dever e aos exercícios espirituais e divinos, e propensão ao mal. É uma inclinação para o mundo e para a carne que equivale a uma propensão a afastar-me do Deus vivo.

  3. Não posso deixar de pensar, portanto, que por natureza fui privado do favor de Deus. Embora eu o considere gracioso e misericordioso, considero-o também justo e santo, e pelo pecado me tornei repugnante à sua santidade e sujeito à sua justiça. Não pensaria livremente, mas com muita parcialidade, se pensasse de outro modo.

Considero-me culpado diante de Deus; pequei e deixei de glorificá-lo e de ser glorificado com ele.

  1. Não posso deixar de pensar que, sem uma revelação especial da vontade de Deus a meu respeito e de sua boa vontade para comigo, jamais poderia recuperar seu favor, ser reconciliado com ele ou ser restaurado à retidão original o bastante para servir a meu Criador, cumprir os fins de minha criação e tornar-me apto para outro mundo.

As dádivas da providência que recebo juntamente com as criaturas inferiores não podem assegurar-me de que Deus se reconciliou comigo nem servir de meio para reconciliar-me com ele.

  1. Não posso deixar de pensar que o caminho da salvação, tanto da culpa como do poder do pecado, por Jesus Cristo e sua mediação entre Deus e os homens, conforme revelado no Novo Testamento, se ajusta admiravelmente a todas as necessidades de meu caso: restaura-me ao favor de Deus e ao governo e desfrute de mim mesmo.

Vejo aqui um método adequado para remover a culpa do pecado, a fim de que eu não morra pela sentença da lei, mediante o mérito e a justiça plenamente suficientes do Filho de Deus em nossa natureza.

Vejo também um método para quebrar o poder do pecado, a fim de que eu não morra de minha própria doença, mediante a influência e a operação plenamente suficientes do Espírito de Deus sobre nossa natureza. Cada mal encontra aqui seu remédio, cada agravo é reparado, de maneira que promove a honra de todos os atributos divinos e se ajusta à natureza humana.

  1. Não posso deixar de pensar que aquilo que encontro em mim de religião natural dá testemunho evidente da religião cristã. Toda verdade que a luz da natureza me revela é confirmada e revelada mais claramente pelo evangelho. Aquilo mesmo que a luz natural me faz entrever confusamente, como homens que parecem árvores andando, o Novo Testamento me mostra com clareza e distinção.

Todo bem que a lei da natureza me recomenda é revelado mais plenamente, e vejo-me muito mais fortemente obrigado a praticá-lo pelo evangelho de Cristo, pelos compromissos com o dever que ele me impõe e pelos incentivos e auxílios que me oferece para cumpri-lo.

Outra confirmação para mim é que justamente onde a luz natural me deixa perplexo e insatisfeito, dizendo-me que até ali pode conduzir-me, mas não além, o evangelho me acolhe, ajuda-me a sair da dificuldade e me dá toda a satisfação que posso desejar. Isso se dá especialmente na grande questão de satisfazer a justiça de Deus pelo pecado humano.

Minha consciência pergunta: “Com que me apresentarei ao Senhor e me inclinarei diante do Deus Altíssimo? Agradar-se-á ele de milhares de carneiros?” Mas continuo perplexo: não posso formar, a partir do que sou ou tenho em mim ou do que posso fazer ou apresentar a Deus, uma justiça com a qual ouse comparecer perante ele.

O evangelho, porém, vem dizer-me que Jesus Cristo fez de sua alma uma oferta pelo pecado e que Deus se declarou satisfeito com todos os que nele creem. Isso me tranquiliza.

  1. Não posso deixar de pensar que as provas com que Deus atestou a verdade do evangelho são as mais adequadas que poderiam ser dadas num caso dessa natureza. O poder e a autoridade do Redentor no reino da graça deveriam ser demonstrados ao mundo não pelo mais alto grau de pompa e autoridade dos reis da terra, como esperavam os judeus, mas pelas provas de seu domínio no reino da natureza.

Essa dignidade e autoridade são muito maiores do que qualquer rei da terra jamais reivindicou; nada menos que divinas.

Seus milagres foram realizados geralmente nas pessoas, não só no corpo delas, como ocorreu em sua maioria quando Cristo estava na terra, mas, o que é ainda mais importante, em sua mente, como ocorreu sobretudo após o derramamento do Espírito no dom de línguas e em outros dons sobrenaturais.

Eram as confirmações mais adequadas possíveis da verdade do evangelho, cujo propósito era tornar as pessoas santas e felizes.

  1. Não posso deixar de pensar que os métodos empregados para a propagação desse evangelho e o êxito maravilhoso desses métodos, puramente espirituais e celestiais e desprovidos de vantagens e apoios terrenos, mostram claramente que ele veio de Deus, pois Deus estava com ele.

Jamais poderia ter-se espalhado como se espalhou, diante de tamanha oposição, se não tivesse sido acompanhado de poder vindo do alto. A preservação do cristianismo no mundo até hoje, apesar das dificuldades que enfrentou, é para mim um milagre permanente que o comprova.

  1. Não posso deixar de pensar que o evangelho de Cristo exerceu alguma influência sobre minha alma, governou-me e consolou-me de tal modo que constitui para mim, embora não possa constituir para outro, uma demonstração de que procede de Deus. Nele provei que o Senhor é bondoso; nem o debatedor mais astuto consegue convencer alguém que provou mel de que o mel não é doce.

Apelo agora Àquele que conhece os pensamentos e intenções do coração: em tudo isso penso livremente, se é possível a alguém saber que o faz, e não sob o poder de qualquer preconceito.

Se temos motivo para pensar que agem assim os que, sem qualquer aparência de razão, não só usurpam, mas monopolizam a designação de livres-pensadores, julguem-no os que facilmente percebem que eles não falam com sinceridade, mas dissimulam deliberadamente suas opiniões.

Não posso deixar de mencionar um exemplo de sua deslealdade para com os leitores. Para diminuir a autoridade do Novo Testamento, alegam as variantes de leitura do original e citam uma declaração do Sr. Gregory, de Christ-church, no prefácio de suas obras:

“Nenhum autor profano, seja qual for, etc.” Entretanto, omitem o que vem imediatamente depois, que exprime a opinião desse erudito sobre a questão: “Este é um argumento irrefutável a favor das Escrituras, etc.”

Enquanto, porém, defendemos a origem e a autoridade divinas do Novo Testamento, tal como foi recebido ao longo de todas as eras da igreja, vemos nossa causa não apenas atacada pelos inimigos de que falamos, mas, com efeito, traída por alguém que torna nosso Novo Testamento quase duas vezes maior do que realmente é. [31]

Ele acrescenta as Constituições dos Apóstolos, reunidas por Clemente, juntamente com os Cânones Apostólicos, e lhes atribui autoridade igual à dos escritos dos evangelistas e superior à das Epístolas.

Ao ampliar assim as linhas de defesa, sem razão nem precedente, ele dá grande vantagem aos invasores. As Constituições dos Apóstolos contêm muitas coisas muito boas e podem ser úteis como outras composições humanas.

Mas pretender que foram compostas, como afirmam, pelos doze apóstolos reunidos em Jerusalém — “Eu, Pedro, digo isto; eu, André, digo aquilo”, etc. — é a maior impostura que se pode praticar contra a credulidade dos simples.

  1. É certo que havia muitos escritos espúrios que, nos primeiros dias da igreja, circulavam sob os nomes dos apóstolos e de homens apostólicos. Por isso, sempre se lamentou ser impossível encontrar, fora do cânon das Escrituras, qualquer coisa que se pudesse atribuir a eles com segurança.

O próprio Barônio reconhece isso: Cum apostolorum nomine tam facta quam dicta reperiantur esse supposititia; nec sic quid de illis à veris sincerisque spriptoribus narratum sit integrum et incorruptum remanserit, in desperationem planè quandam animum dejicunt posse unquam assequi quod verum certumque subsistat.

Isto é: como se verifica que muitos dos atos e ditos atribuídos aos apóstolos são espúrios, e mesmo os relatos de escritores fiéis a respeito deles não estão livres de corrupção, devemos perder a esperança de chegar a alguma certeza absoluta sobre eles. — Ad An. Christ. 44, seção 42, etc.

Havia Atos sob os nomes do apóstolo André, de Filipe, Pedro e Tomé; um Evangelho sob o nome de Tadeu, outro sob o de Barnabé, outro sob o de Bartolomeu; um livro sobre a infância de nosso Salvador, outro sobre seu nascimento, e muitos semelhantes, todos rejeitados por nós como falsificações.

  1. Essas Constituições e esses Cânones, entre os demais, foram condenados na igreja primitiva como apócrifos e, portanto, justamente rejeitados. Embora sejam bons em outros aspectos, fingiam ser o que de fato não eram: ter sido ditados pelos próprios doze apóstolos como recebidos de Cristo.

Se Jesus Cristo lhes deu tais instruções e eles as transmitiram à igreja de maneira tão solene como se alega, é inexplicável que nem os Evangelhos, nem Atos, nem qualquer das Epístolas façam a menor menção de algo assim realizado ou planejado.

Os que julgaram esses Cânones e Constituições com maior benevolência concluíram que foram compilados por algumas pessoas excessivamente solícitas sob o nome de Clemente, perto do fim do segundo século, mais de cento e cinquenta anos depois da ascensão de Cristo.

Teriam sido reunidos a partir da prática comum das igrejas, isto é, daquelas com que os compiladores tinham maior familiaridade ou estima.

Ao mesmo tempo, temos razões para pensar que a maioria muito maior das igrejas cristãs já estabelecidas possuía suas próprias Constituições. Se estas tivessem tido a felicidade de ser transmitidas à posteridade, teriam sido tão recomendáveis quanto aquelas, ou mais.

Mas, assim como os legisladores antigos conferiam prestígio a suas leis fingindo tê-las recebido de alguma divindade, os governantes eclesiásticos procuravam dar prestígio a suas sedes pondo algum homem apostólico à frente de suas listas de bispos (ver Irenicum, do bispo Stillingfleet, p. 302).

Também buscavam dar prestígio a seus Cânones e Constituições atribuindo-os aos apóstolos. Mas como imaginar que todos os apóstolos estivessem reunidos em Jerusalém para compor esse livro de Cânones com tamanha solenidade, quando sabemos que sua comissão era ir por todo o mundo e pregar o evangelho a toda criatura?

De acordo com isso, Eusébio nos diz que Tomé foi à Pártia, André à Cítia, João à Ásia Menor. Temos razões para pensar que, após sua dispersão, nunca mais se reuniram, assim como os fundadores das nações não voltaram a reunir-se depois que o Altíssimo separou os filhos de Adão.

Penso que qualquer pessoa que compare essas Constituições com os escritos que sabemos terem sido dados por inspiração de Deus discernirá facilmente uma enorme diferença de estilo e espírito. Que tem a palha com o trigo?

“Onde, na linguagem dos verdadeiros apóstolos, os ministros são chamados sacerdotes, sumos sacerdotes? Onde encontramos, na era apostólica, aquela era de sofrimento, a entronização de um bispo? Ou leitores, cantores e porteiros na igreja?” [32]

Receio que o coletor e compilador dessas Constituições, sob o nome de Clemente, tinha consciência da própria desonestidade nesse assunto, pois não quis que fossem publicadas diante de todos, por causa dos mistérios nelas contidos. Elas só foram conhecidas ou publicadas em meados do quarto século, quando já não era tão fácil refutar a falsificação.

Não consigo ver nelas mistérios que justificassem ocultá-las, se fossem autênticas; mas sei que Cristo manda seus apóstolos anunciar os mistérios do reino de Deus sobre os telhados.

E São Paulo, embora haja em suas epístolas mistérios muito mais sublimes do que qualquer coisa dessas Constituições, ordena que sejam lidas a todos os santos irmãos. Mais ainda: essas Constituições tratam quase inteiramente de preceitos morais ou regras para a prática da igreja; se fossem o que afirmam ser, seriam especialmente apropriadas para publicação diante de todos.

E, embora o Apocalipse esteja tão cheio de mistérios, uma bênção é pronunciada sobre os leitores e ouvintes daquela profecia.

Devemos concluir, portanto, que, fossem escritas quando fossem, ao fugir da luz elas mesmas se declararam apócrifas, isto é, ocultas ou escondidas.

Não ousaram misturar-se ao que foi dado por inspiração divina, numa alusão ao que se diz dos ministros (Atos 5:13): dos outros, ninguém ousava juntar-se aos apóstolos, pois o povo os engrandecia.

Assim, por confissão própria, não foram entregues às igrejas com os outros escritos quando o cânon do Novo Testamento foi solenemente encerrado pela terrível sentença pronunciada contra os que lhe acrescentam algo.

E, assim como ultimamente houve tentativas de atacar a pureza e a suficiência de nosso Novo Testamento mediante acréscimos, de outro lado o poder papal também o submeteu a grande desprezo.

A ocasião foi esta: o padre Quesnel, católico francês, mas jansenista, publicou há quase trinta anos o Novo Testamento em francês, em vários pequenos volumes, com Reflexões Morais sobre cada versículo, para tornar sua leitura mais proveitosa e facilitar a meditação sobre ele.

O livro foi muito apreciado na França pela piedade e devoção que nele se viam e teve várias impressões. Os jesuítas ficaram muito desgostosos e solicitaram ao papa sua condenação, embora o autor fosse católico e muitas coisas na obra favorecessem a superstição papista.

Depois de muita disputa na corte de Roma, obteve-se enfim, a pedido do rei da França, uma bula do papa atual, Clemente XI, datada de 8 de setembro de 1713.

Por ela, o referido livro, seja qual for seu título ou a língua em que se imprima, foi proibido e condenado: tanto o próprio Novo Testamento, por divergir em muitos pontos da Vulgata latina, como as anotações, por conterem diversas proposições — mais de cem foram enumeradas — escandalosas e perniciosas, ofensivas à igreja e a seus costumes, ímpias, blasfemas e com sabor de heresia.

As proposições são destas: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo é o princípio eficaz de toda espécie de bem, necessário a toda boa ação; pois sem ela nada se faz, mais ainda, nada pode ser feito.”

“É uma graça soberana e operação da mão onipotente de Deus.” “Quando Deus acompanha sua palavra com o poder interior de sua graça, ela produz na alma a obediência que exige.” “A fé é a primeira graça e a fonte de todas as outras.”

“É inútil chamar Deus de nosso Pai se não clamamos a ele com espírito de amor.” “Não há Deus nem religião onde não há caridade.” “A igreja católica abrange os anjos e todos os eleitos e justos da terra de todas as épocas.” “Tem o Verbo encarnado como cabeça e todos os santos como membros.”

“É proveitoso e necessário em todo tempo, em todo lugar e para toda espécie de pessoas conhecer as Sagradas Escrituras.” “A santa obscuridade da palavra de Deus não é razão para os leigos deixarem de lê-la.” “O dia do Senhor deve ser santificado pela leitura de livros piedosos, especialmente das Sagradas Escrituras.” E:

“Proibir os cristãos de ler as Escrituras é proibir aos filhos da luz o uso da luz.”

Muitas proposições como essas, que o espírito de todo bom cristão não pode deixar de reconhecer como verdadeiras e boas, são condenadas pela bula papal como ímpias e blasfemas.

E essa bula, embora vigorosamente contestada por grande número de bispos na França favoráveis às ideias do padre Quesnel, foi recebida e confirmada por cartas patentes do rei francês, datadas de Versalhes, 14 de fevereiro de 1714.

Essas cartas proibiam toda pessoa, sob pena de castigo exemplar, até mesmo de guardar qualquer desses livros em casa; e classificavam como perturbadores da paz os que daí em diante escrevessem em defesa das proposições condenadas pelo papa. A bula foi registrada no dia seguinte, 15 de fevereiro, pelo Parlamento de Paris, mas com diversas ressalvas e limitações.

Por isso se vê que o papismo continua sendo o que sempre foi: inimigo do conhecimento das Escrituras e da honra da graça divina. Que motivo temos para bendizer a Deus por termos liberdade de ler as Escrituras e auxílio para compreendê-las e aproveitá-las!

Importa que façamos uso diligente desses recursos, para não provocarmos Deus a nos entregar às mãos de poderes que nos tratariam da mesma maneira.

Quero esperar que aqueles para quem foi agradável ler a Exposição do Antigo Testamento considerem esta ainda mais agradável. Esta é a parte das Escrituras que mais claramente dá testemunho de Cristo, e nela a graça do evangelho, que se manifesta a todos os homens e traz salvação, brilha com maior clareza.

Este é o leite do Novo Testamento para as crianças; o restante é alimento sólido para homens fortes.

Alimentemo-nos e fortaleçamo-nos, portanto, com estes livros, para prosseguirmos rumo à perfeição. E, depois de lançar o fundamento na história da vida, morte e ressurreição de nosso bendito Salvador e da primeira pregação de seu evangelho, edifiquemos sobre ele mediante o conhecimento dos mistérios da piedade, aos quais as Epístolas nos introduzirão mais amplamente.

Desejo que me leiam com olhar generoso, não crítico. Não pretendo satisfazer os curiosos; o auge de minha ambição é ajudar os que levam realmente a sério a busca diária nas Escrituras.

Estou certo de que a obra foi planejada, e espero que seja adequada, para promover a piedade para com Deus e a caridade para com nossos irmãos; que nela haja não apenas algo capaz de edificar, mas nada que possa, com justiça, ofender qualquer bom cristão.

Se alguém receber benefício espiritual por meio de meus pobres esforços, isso me consolará. Mas seja dada a Deus toda a glória, e à sua graça gratuita, que empregou alguém inteiramente indigno de tal honra e permitiu que alguém inteiramente incapaz de tal serviço avançasse até aqui.

Tendo obtido a ajuda de Deus, continuo até aqui nesta obra e dependo humildemente da mesma boa mão de meu Deus para levar-me adiante no que resta, cingir meus lombos com a força necessária e aperfeiçoar meu caminho. Para isso peço humildemente as orações de meus amigos.

Espero que mais um volume abranja o que ainda falta fazer. Vou empreendê-lo e prosseguir nele conforme Deus me capacitar, com toda a rapidez conveniente; mas essa é a parte das Escrituras que, mais que todas as demais, exige o maior cuidado e esforço na exposição. Confio, porém, que, assim como forem os dias, assim será a força.

M. H. 1721.

[30] Convém informar ao leitor que o volume ao qual este prefácio foi originalmente anteposto incluía os Atos dos Apóstolos, que na presente edição darão início ao segundo volume, a fim de assegurar divisão mais equilibrada do Novo Testamento; o comentário dos livros restantes é menos extenso do que o autor previa. — Ed.

[31] Whiston. — Ed.

[32] Edit. Joan. Clerici, p. 245.

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