Matthew Henry

Prefácio do volume III

Jó a Cântico dos Cânticos

Os cinco livros das Escrituras contidos neste terceiro volume, que aqui procurei explicar e aplicar segundo a medida do dom que me foi concedido, destinam-se àqueles que desejam lê-los não apenas com entendimento, mas também para sua edificação.

Embora tenham a mesma origem, propósito e autoridade divinos dos livros anteriores, em certos aspectos são de natureza muito diferente deles e dos demais escritos sagrados.

A Sabedoria infinita achou por bem empregar tamanha variedade de métodos para levar a luz da revelação divina aos filhos dos homens, a fim de que esse alimento celestial tivesse, como dizem os judeus a respeito do maná, algo agradável a todo paladar e adequado a toda constituição.

Se assim não se abrirem todos os olhos, ao menos se fecharão todas as bocas, e os que perecerem na ignorância ficarão sem desculpa. Tocamos flauta para vocês, mas não dançaram; entoamos lamentações, mas não choraram (Mateus 11:17).

I. Até aqui, os livros das Escrituras têm sido, em sua maior parte, muito claros e fáceis: narrativas de acontecimentos que quem passa correndo pode ler e compreender. São leite para crianças, alimento que elas podem receber e digerir, que as entretém e nutre.

Até aqui, as águas do santuário chegaram apenas aos tornozelos ou aos joelhos, de modo que até um cordeiro poderia atravessá-las para beber e se lavar.

Agora, porém, avançamos a uma classe mais elevada na escola de Deus. Recebemos livros que contêm muitas coisas obscuras e difíceis de entender, cujo sentido não percebemos com a rapidez e a certeza que desejaríamos. Seu estudo exige maior dedicação da mente, pensamento mais concentrado e uma investigação diligente.

Entretanto, o tesouro neles escondido, uma vez encontrado, recompensará abundantemente esse esforço.

Aqui, as águas do santuário chegam aos lombos; à medida que avançarmos, veremos que sobem ainda mais nos livros proféticos, tornando-se águas profundas o bastante para nadar (Ezequiel 47:3–5), impossíveis de atravessar a pé ou de outro modo — profundezas em que um elefante não encontraria apoio, alimento sólido para homens fortes.

O mesmo método se observa no Novo Testamento. Primeiro vem a história clara de Cristo e de seu evangelho, nos Evangelhos e em Atos dos Apóstolos; depois, o mistério de ambos nas Epístolas, mais difíceis de entender; por fim, as profecias das coisas futuras nas visões apocalípticas.

Esse método, observado com tanta precisão em ambos os Testamentos, nos orienta quanto à ordem a seguir tanto ao estudar por nós mesmos as coisas de Deus quanto ao ensiná-las a outros. Devemos seguir a ordem das Escrituras. Onde poderíamos esperar encontrar método melhor de teologia e de pregação?

  1. Devemos começar pelas coisas mais claras e fáceis, como, bendito seja Deus, são aquelas mais necessárias à salvação e de maior utilidade. Devemos assentar um fundamento firme no conhecimento sadio e experimental dos princípios da religião; então a construção sobre ele será bem erguida e permanecerá firme.

Não é seguro lançar-nos logo de início às águas profundas nem aventurar-nos em assuntos difíceis e controvertidos antes de assimilarmos completamente os rudimentos dos oráculos de Deus e de os transformarmos in succum et sanguinem — em suco e sangue. Quem começa a Bíblia pelo lado errado costuma usar de maneira errada o conhecimento que adquire dela.

Ao instruir outras pessoas, devemos ter o cuidado de firmá-las primeiro nas verdades de Deus que são claras e, em alguma medida, estão ao alcance de sua capacidade. Devemos verificar que elas as compreendem, apreciam e sabem utilizar, sem confundir os fracos com assuntos acima de sua capacidade, matérias de controvérsia duvidosa das quais não podem alcançar certeza nem proveito.

Nosso Senhor Jesus anunciava a palavra ao povo conforme podiam ouvi-la (Marcos 4:33). Tinha muitas coisas a dizer aos discípulos, mas não as disse porque eles ainda não podiam suportá-las (João 16:12,13). Também São Paulo, embora censurasse a lentidão daqueles a quem não podia falar como a pessoas espirituais, acomodou-se à fraqueza deles e lhes falou como a crianças em Cristo (1 Coríntios 3:1,2).

  1. Contudo, não devemos parar nessas coisas. Não devemos ser sempre crianças necessitadas de leite. Nutridos por ele e ganhando força, devemos avançar rumo à perfeição (Hebreus 6:1). Tendo, pelo exercício, nossos sentidos espirituais treinados (Hebreus 5:14), poderemos chegar à maturidade, deixar as coisas de criança e estender-nos para as que estão adiante.

Esquecer as coisas que ficaram para trás (Filipenses 3:13) significa, nesse caso, lembrá-las tão bem que já não precisamos nos debruçar continuamente sobre elas como quem está sempre aprendendo a mesma lição. Embora jamais devamos pensar, enquanto estivermos neste mundo, que podemos aprender algo superior à nossa Bíblia, devemos continuar avançando nela.

“Vocês já permaneceram tempo suficiente neste monte; voltem-se e sigam viagem pelo deserto rumo a Canaã.” Nossa divisa deve ser Plus ultra — adiante. Então conheceremos, se assim prosseguirmos em passos ordenados (Oseias 6:3), procurando conhecer o Senhor e o que está em sua mente.

II. Até aqui, os livros das Escrituras têm sido principalmente históricos; agora a matéria é de outra natureza: doutrinária e devocional, pregação e oração. Por esse modo de escrever, tanto quanto pelo anterior, transmite-se uma grande quantidade de conhecimento excelente, que serve a propósitos muito valiosos.

É útil conhecer não somente o que fizeram os que vieram antes de nós e como lhes sucedeu, mas também suas ideias e opiniões, seus pensamentos e afetos, para que, com sua ajuda, formemos corretamente nossa mente.

Os Morais de Plutarco são considerados na comunidade dos estudiosos um tesouro tão útil quanto suas Vidas, e as sábias investigações e exposições dos filósofos, tão úteis quanto os registros dos historiadores.

Essa filosofia divina, se posso assim chamá-la, que temos nestes livros, não é menos necessária nem menos útil à igreja do que a história sagrada. Bendito seja Deus por ambas.

III. Os judeus consideram que estes livros foram dados por uma inspiração divina um tanto diferente da de Moisés e dos profetas. Dividiam os livros do Antigo Testamento em Lei, Profetas e ktwbym — Escritos —, termo que Epifânio traduz enfaticamente por grapheia — coisas escritas. Entre os gregos, estes livros são mais comumente chamados Hagiographa — escritos santos.

Os judeus os atribuem àquela espécie particular de inspiração que chamam rwh hqds — o Espírito Santo.

Supunham que Moisés escrevesse pelo Espírito de modo superior a todos os outros profetas, pois Deus falava com ele boca a boca, claramente (Números 12:8), e o conhecia, isto é, conversava com ele face a face (Deuteronômio 34:10). Ele recebia a revelação divina, segundo a distinção de Maimônides (De Fund. Legis, cap. 7), per vigiliam — enquanto estava acordado [1].

Deus, porém, manifestava-se aos demais profetas em sonho ou visão.

Maimônides acrescenta que Moisés compreendia as palavras da profecia sem perturbação nem assombro da mente, enquanto os outros profetas geralmente desfaleciam e se inquietavam. Já os escritores dos Hagiographa, supunham eles, eram inspirados em grau um pouco inferior ao dos demais profetas. Recebiam a revelação divina não, como aqueles, por sonhos, visões e vozes, mas de outro modo.

Segundo a descrição de Maimônides (More Nevochim, parte 2, cap. 45), percebiam surgir e repousar sobre eles certo poder que os impelia e capacitava a escrever ou falar muito acima de sua capacidade natural, em salmos, hinos, história ou regras de boa conduta, conservando, porém, o vigor e o uso ordinário dos sentidos.

Deixemos que o próprio Davi o descreva: O Espírito do Senhor falou por meu intermédio, e sua palavra esteve em minha língua; o Deus de Israel disse, a Rocha de Israel falou comigo (2 Samuel 23:2,3).

Isso oferece uma descrição tão magnífica da inspiração pela qual Davi escreveu que não vejo por que considerá-la inferior à dos demais profetas, pois Davi é expressamente chamado profeta (Atos 2:29,30).

Já que estamos examinando os mestres judeus, vejamos quais livros eles classificam entre os Hagiographa. Os cinco que agora temos diante de nós entram, sem controvérsia, nessa categoria de escritos sagrados, e o livro das Lamentações é acrescentado a eles com propriedade.

De fato, quando desejam falar com rigor, os judeus incluem entre os Hagiographa todos os cânticos que encontramos no Antigo Testamento. Embora escritos por profetas sob a direção do Espírito Santo, como não eram propriamente resultado de um visum propheticum — visão profética —, não eram, em sentido estrito, profecia.

Quanto aos livros históricos, fazem uma distinção que, a meu ver, não estabelece diferença real. Atribuem alguns aos profetas e os chamam prophetæ priores — os primeiros profetas —, a saber, Josué, Juízes e os dois livros dos Reis.

Outros, porém, classificam entre os Hagiographa: Rute, que na verdade é apenas um apêndice do livro dos Juízes, os dois livros das Crônicas, Esdras, Neemias e Ester.

Os rabinos têm grande apreço por Ester e julgam que deve ser estimado tanto quanto a própria lei de Moisés, que durará tanto quanto ela e sobreviverá aos escritos dos Profetas. Por fim, classificam também Daniel entre os Hagiographa [2], sem que haja razão para isso, pois ele não era inferior a nenhum dos profetas no dom da profecia.

Por isso, o erudito sr. Smith entende que o colocaram entre os hagiógrafos por um equívoco fortuito [3].

No discurso já citado, o sr. Smith supõe que esse tipo de inspiração divina fosse “mais tranquilo e sereno que aquilo que, em sentido estrito, se chamava profecia; não agia tanto sobre a imaginação, mas se estabelecia nas faculdades mais elevadas e puras da alma”.

Contudo, mostra que essa inspiração revelava sua natureza divina não só porque sempre elevava as almas piedosas a expressões de devoção ou as movia de modo extraordinário a ditar assuntos de verdadeira piedade e bondade.

Ela também irrompia de repente na mente daqueles homens santos e os transportava para fora da disposição em que antes se encontravam, de modo que percebiam estar cativos do poder de uma luz superior àquela que seu próprio entendimento normalmente lhes proporcionava.

Segundo ele, isso era uma espécie de forma vital dada à luz da razão divina e santificada que possuíam continuamente e à disposição constante de santidade e bondade que habitava em suas mentes consagradas.”

Temos razão para glorificar o Deus de Israel, que deu tal poder aos homens e aqui nos transmitiu os benditos frutos desse poder.

IV. O estilo e a composição destes livros diferem dos que vieram antes e dos que vêm depois. Nosso Salvador divide os livros do Antigo Testamento em Lei, Profetas e Salmos (Lucas 24:44), ensinando-nos assim a distinguir da Lei e dos Profetas os livros poéticos ou métricos.

Todos os que agora temos diante de nós são dessa espécie, exceto Eclesiastes, que, apesar de ter um estilo mais contido, pode muito bem ser incluído entre eles. São livros em verso segundo as antigas regras de versificação, embora não sigam a prosódia grega e latina.

Alguns antigos chamam estes cinco livros de segundo Pentateuco do Antigo Testamento [4]: cinco volumes sagrados que são como satélites dos cinco livros da lei de Moisés. Gregório Nazianzeno [5] (carm. 33, p. 98) os chama hai sticherai pente — os cinco livros métricos. Enumera primeiro Jó, depois Davi e então os três livros de Salomão: Eclesiastes, Cântico e Provérbios.

Anfilóquio, bispo de Icônio, em seu poema iâmbico a Seleuco, enumera-os especificamente e os chama sticheras pente Biblos — os cinco livros em verso. Epifânio (lib. de ponder. et mensur., p. 533) usa pente stichereis — os cinco livros em verso. E Cirilo de Jerusalém (Collect. 4, p. 30; mihi — em minha cópia) chama esses cinco livros ta stichera — livros em verso.

Policrônio, no prólogo a Jó, diz que, assim como os de fora chamam suas tragédias e comédias poietika — obras poéticas —, nas Sagradas Escrituras chamamos stichera biblia os livros compostos em métrica hebraica, dos quais ele considera Jó o primeiro. São livros em verso, escritos kata stichon — segundo a ordem.

O que se escreve em metro ou ritmo recebe esse nome de metros — medida — e arithmos — número — porque é regulado por certas medidas ou números de sílabas. Sua suavidade e cadência agradam aos ouvidos e, assim, fazem penetrar o assunto de modo mais comovente e poderoso na imaginação.

Sir William Temple [6], em seu ensaio sobre poesia, considera geralmente aceito que ela tenha sido a primeira forma de escrita usada no mundo. Mais ainda, em diversas nações, as composições poéticas teriam precedido a própria invenção ou utilização das letras.

Segundo ele, os espanhóis encontraram na América muitos versos que pareciam brotar de uma verdadeira veia poética antes de se conhecerem letras naquelas regiões.

O mesmo, diz ele, é provável quanto aos citas e aos gregos: os oráculos de Apolo eram proferidos em verso. Homero e Hesíodo escreveram seus poemas — o verdadeiro Alcorão da demonologia pagã — muitas épocas antes do aparecimento de qualquer filósofo ou historiador grego.

Muito antes deles, se pudermos confiar nas antiguidades da Grécia, até antes dos dias de Davi, Orfeu e Lino foram poetas e músicos célebres na Grécia.

Na mesma época, Carmenta, mãe de Evandro, a primeira a introduzir as letras entre os nativos da Grécia, recebeu esse nome à carmine — de um cântico — por expressar-se em verso. Era tamanha a veneração dos antigos por esse modo de escrever que chamavam seus poetas vates — profetas — e divinizavam suas musas.

Mais certo e importante, porém, é que a composição mais antiga encontrada nas Escrituras é o cântico de Moisés junto ao mar Vermelho (Êxodo 15). Ele aparece antes da primeira menção à escrita, que só ocorre em Êxodo 17:14, quando Deus mandou Moisés escrever um memorial da guerra contra Amaleque.

O primeiro e, de fato, verdadeiro propósito geral da escrita é auxiliar a memória. A poesia atende em alguma medida a esse propósito e, mesmo na ausência da escrita — e muito mais quando a escrita existe —, ajuda a preservar a lembrança das coisas antigas.

O livro das guerras do Senhor (Números 21:14) e o livro de Jasher (Josué 10:13; 2 Samuel 1:18) parecem ter sido ambos escritos em medidas poéticas.

Encontramos no Antigo Testamento muitos cânticos sagrados espalhados pelos livros históricos e proféticos, compostos em ocasiões específicas. Na opinião de juízes muito competentes, “contêm expressões de poesia e imagens tão verdadeiras e nobres quanto as encontradas em qualquer outra língua, apesar de todas as desvantagens de serem traduzidos para línguas tão diferentes e para a prosa comum [7].

“Mais ainda, são exemplos mais nobres do verdadeiro estilo sublime da poesia do que quaisquer outros que se possam encontrar nos escritores pagãos”.

“As imagens são tão fortes, os pensamentos tão elevados, as expressões tão divinas e as figuras tão admiravelmente ousadas e comoventes que o modo maravilhoso desses escritores é inteiramente inimitável” [8]. Convém que aquilo que é empregado no serviço do santuário seja o melhor em sua espécie.

Os livros aqui reunidos são poéticos. Jó é um poema heroico; o livro dos Salmos, uma coleção de odes ou poemas líricos divinos; o Cântico de Salomão, um poema pastoral e nupcial. São poéticos e, ainda assim, sagrados e sérios, graves e cheios de majestade. Têm força e ardor poéticos sem o furor e a ficção poéticos.

De maneira extraordinária, dominam e movem os afetos sem corromper a imaginação nem enganá-la; enquanto agradam aos ouvidos, edificam a mente e, por agradarem, aproveitam ainda mais.

Por isso, é muito lamentável que uma arte tão poderosa, consagrada no princípio à honra de Deus e tantas vezes empregada em seu serviço, tenha sido corrompida, como foi e ainda é, para servir a seus inimigos — que seu trigo, seu vinho e seu azeite sejam preparados para Baal.

V. Assim como a forma de composição destes livros é excelente e muito apropriada para prender a atenção, mover os afetos e fixar-se na memória, sua matéria também é extremamente útil e nos serve de todas as maneiras. Neles estão a própria suma e substância da religião. Seu conteúdo está mais ao nosso alcance e mais pronto para o uso do que qualquer outra parte do Antigo Testamento.

Por isso, se nos é permitido comparar uma estrela a outra no firmamento das Escrituras, estes livros serão contados entre as estrelas de primeira grandeza.

Toda a Escritura é proveitosa — e esta parte, de modo especial — para a instrução na doutrina, na devoção e na correta condução da vida.

O livro de Jó nos orienta quanto ao que devemos crer a respeito de Deus; o livro dos Salmos, quanto a como adorá-lo, prestar-lhe homenagem e manter comunhão com ele; e Provérbios nos mostra, de maneira muito particular, como governar-nos en pase anastrophe — em cada circunstância da vida humana.

Assim, dando a devida atenção a essas luzes, o homem de Deus será perfeito e inteiramente preparado para toda boa obra.

Esses livros estão dispostos tanto segundo sua ordem natural quanto segundo a ordem do tempo. É muito apropriado sermos conduzidos primeiro ao conhecimento de Deus, à formação de juízos corretos a seu respeito e à correção de nossos erros; depois, sermos instruídos sobre como adorá-lo e escolher as coisas que lhe agradam.

Temos aqui muito da religião natural, de seus princípios e preceitos; muito de Deus, de suas perfeições infinitas, de suas relações com o homem e de seu governo do mundo e da igreja. Há também muito de Cristo, fonte, alma e centro da religião revelada. Jó e Davi foram tipos eminentes dele e tiveram dele perspectivas claras e felizes.

Temos aqui aquilo que iluminará nosso entendimento e nos familiarizará cada vez mais com as coisas de Deus, com suas coisas profundas: reflexões que entretêm os mais contemplativos e descobertas que satisfazem os mais curiosos e aumentam o conhecimento dos que mais sabem.

Também temos aqui aquilo que, com a luz divina, trará à alma o calor e a influência de um fogo divino. Acenderá e inflamará afetos piedosos e devotos, sobre cujas asas poderemos subir até entrar no lugar santíssimo. Aqui podemos estar no monte com Deus para contemplar sua beleza.

Ao descermos desse monte, se conservarmos, como devemos, as impressões de nossa devoção no espírito e fizermos questão de praticar o bem que o Senhor nosso Deus aqui exige de nós, nosso rosto resplandecerá diante de todos com quem convivemos. Eles terão assim ocasião de glorificar nosso Pai que está nos céus (Mateus 5:16).

Tão grande, nobre e verdadeiramente excelente é o assunto, e tanto pode ser aproveitado, que tenho ainda mais razão para envergonhar-me da pobreza de meu trabalho, pois o comentário respira tão pouco da vida e do espírito do texto. Muitas vezes nos admiramos de quem não é de modo algum tocado pelas grandes coisas de Deus nem tem gosto ou apreço por elas, porque pouco as conhece.

Talvez, porém, tenhamos mais razão para nos admirar de nós mesmos: embora estejamos tão frequente e intimamente em contato com essas coisas, não somos mais tocados por elas a ponto de sermos inteiramente absorvidos e de nos deleitarmos continuamente em contemplá-las. Esperamos chegar a isso em breve.

Enquanto isso, embora, como os três discípulos que testemunharam a transfiguração de Cristo no monte, estejamos lentos e sonolentos, ainda podemos dizer: “Mestre, é bom estarmos aqui; façamos aqui tendas” (Lucas 9:32, 33).

Não tenho aqui nada de que me gloriar, absolutamente nada; tenho, sim, muito pelo que me humilhar, pois não alcancei a plenitude e a exatidão a que me propus. Ao rever a obra, encontro muitos defeitos, e os leitores críticos talvez encontrem nela alguns erros. Fiz, porém, tudo com o cuidado de que fui capaz e desejo agradecer a Deus, que por sua graça me conduziu até aqui em seu trabalho.

Que essa graça receba toda a glória (Filipenses 2:13), pois opera em nós tanto o querer quanto o realizar tudo o que queremos ou fazemos de bom ou que serve a algum bom propósito.

Aquilo que procede de Deus, confio, voltará para ele, será graciosamente aceito segundo o que a pessoa tem, não segundo o que não tem, e será de alguma utilidade à sua igreja. Aquilo que procede de mim, isto é, todos os defeitos e erros, confio que será visto com benevolência e perdoado.

A oração de Santo Agostinho é também a minha: Domine Deus, quæcunque dixi in his libris de tuo, agnoscant et tui; et quæ de meo, et tu ignosce et tui — Senhor Deus, quanto ao que afirmei nestes livros em conformidade com o que se encontra nos teus, concede que teu povo também o aprove, assim como tu o aprovas.

Quanto ao que não passa de doutrina de meu próprio livro, perdoa-o e concede que teu povo também o perdoe.

Devo ainda reconhecer, para honra de nosso grande Mestre, que encontrei no próprio trabalho sua recompensa. Quanto mais convivemos com a palavra de Deus, mais ela se torna para nós como o mel e o favo de mel (Salmos 19:10).

Ao recolhermos algumas espigas dessa colheita para os outros, podemos nós mesmos nos banquetear; quando a graça de Deus nos capacita a fazê-lo, estamos mais bem preparados para alimentar os demais.

Muito me agradou uma passagem que encontrei recentemente numa epístola dedicatória de Erasmo, aquele grande erudito e celebrado homem de espírito, antes de seu livro De Ratione Concionandi. Como alguém cansado do mundo e de sua agitação, ele expressa o sincero desejo de passar o restante dos dias em comunhão reservada com Jesus Cristo.

Anima-o o gracioso convite de Cristo para que venham a ele os cansados e sobrecarregados e encontrem descanso (Mateus 11:28); somente isso, pensa ele, lhe trará verdadeira satisfação.

Considero suas palavras dignas de transcrição e de figurar entre os testemunhos de grandes homens em favor da piedade séria: Neque quisquam facilè credat quàm miserè animus jamdudum affectet ab his laboribus in tranquillam otium secedere, quodque superest vitæ (superest autem vix brevis palmus sive pugillus), solum cum eo solo colloqui, qui clamavit olim (nec hodiè mutat vocem suam),

“Venite ad me, omnes qui laboratis et onerati estis, ego reficiam vos;” quandoquidem in tam turbulento, ne dicam furente, sæculo, in tot molestiis quas vel ipsa tempora publicè invehunt, vel privatim adfert oetas ac valetudo, nihil reperio in quo mens mea libentius conquiescat quàm in hoc arcano colloquio.

Ou seja: “Ninguém acreditará facilmente com que ansiedade, há muito tempo, desejo retirar-me destes trabalhos para um lugar tranquilo e, durante o restante da vida — reduzido, é verdade, ao mais breve intervalo —, conversar somente com aquele que certa vez clamou, e que hoje não retira suas palavras: ‘Venham a mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e eu os aliviarei’.

Pois, nesta época turbulenta, para não dizer furiosa, as muitas fontes públicas de inquietação, somadas às enfermidades da idade avançada, não deixam à minha mente consolo comparável a essa comunhão secreta.”

Esperamos passar uma eternidade bendita na agradável contemplação da beleza e da bondade divinas; por isso, é bom dedicar a esse exercício tanto tempo quanto pudermos agora.

Mais um volume, contendo os livros proféticos, concluirá o Antigo Testamento, se o Senhor me conservar a vida, o tempo livre e a capacidade da mente e do corpo para esse trabalho. Já o comecei e percebo que será maior que qualquer dos outros volumes e levará mais tempo para ser concluído.

Mas, conforme Deus me preparar e auxiliar por sua graça — sem a qual nada sou, menos que nada, pior que nada —, ele avançará com toda a rapidez conveniente. Sat citò, si sat benè — se houver competência suficiente, haverá rapidez suficiente.

Peço as orações de meus amigos para que Deus forneça semente ao semeador e pão aos que comem (Isaías 55:10), multiplique a semente lançada e aumente os frutos de nossa justiça (2 Coríntios 9:10). Assim, aquele que semeia e os que colhem poderão alegrar-se juntos (João 4:36), e o grande Senhor da colheita receberá toda a glória.

M. H. Chester, 13 de maio de 1710.

[1] Ver Discourses on Prophecy, do sr. Smith, cap. 11.

[2] Hil. Megil., cap. 2, § 11.

[3] Ver Hottinger, Thesaur., livro 2, cap. 1, § 3.

[4] Damasceno, Orthod. Fid., livro 4, cap. 18.

[5] Ver Suicer, Thesaur., verbete stichera.

[6] Miscell., parte 2.

[7] Sir W. Temple, p. 329.

[8] Prefácio de Sir R. Blackmore a Jó.

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