Matthew Henry

Prefácio do volume I

Gênesis a Deuteronômio

Embora minha maior preocupação seja poder prestar boas contas a Deus e à minha própria consciência, talvez se espere que eu também dê ao mundo alguma explicação desta ousada empresa.

Procurarei fazê-lo com toda a franqueza, como alguém que crê que, se os homens terão de responder no grande dia por toda palavra vã e ociosa que disserem, muito mais terão de responder por toda linha vã e ociosa que escreverem.

Pode ser útil, em primeiro lugar, estabelecer os grandes e sagrados princípios dos quais parto e pelos quais me governo neste esforço de explicar e aplicar estas porções das Sagradas Escrituras. Humildemente ofereço esse esforço ao serviço daqueles — e somente daqueles, de quem espero que seja bem recebido — que concordam comigo nestes seis princípios:

I. A religião é a única coisa proveitosa. Conhecer, amar e temer a Deus, nosso Criador, e guardar seus mandamentos em todas as manifestações de devoção e boa conduta (Eclesiastes 12:13) é, sem dúvida, o dever integral do homem; para ele, é tudo em tudo.

O mais sábio dos homens, depois de um argumento atento e abundante em Eclesiastes, apresenta isso como a conclusão de toda a sua matéria, o quod erat demonstrandum de todo o seu discurso. Por isso, posso tomá-lo como postulado e fundamento de toda esta matéria.

É necessário à humanidade em geral que haja religião no mundo; absolutamente necessário para preservar a honra da natureza humana, e não menos para preservar a ordem das sociedades humanas. É necessário a cada um de nós, em particular, que sejamos religiosos.

De outro modo, não podemos cumprir o propósito de nossa criação, obter o favor de nosso Criador, encontrar tranquilidade agora ou felicidade para sempre. O homem dotado das faculdades da razão, pelas quais é capaz de conhecer, servir, glorificar e desfrutar de seu Criador, mas que ainda assim vive sem Deus no mundo, é certamente o mais desprezível e o mais miserável dos seres vivos debaixo do sol.

II. A revelação divina é necessária à verdadeira religião, tanto para sua existência quanto para sua sustentação. A fé sem a qual é impossível agradar a Deus não pode alcançar a perfeição por ver as obras de Deus; ela deve vir pelo ouvir a palavra de Deus (Romanos 10:17).

Desde que recebeu o golpe fatal da queda, a alma racional não pode ter nem conservar a justa consideração pelo grande Autor de sua existência, a obediência a ele e a expectativa que nele deposita — coisas que são, ao mesmo tempo, seu dever e sua felicidade — sem alguma manifestação sobrenatural que ele próprio faça de si e de sua mente e vontade.

A luz natural, sem dúvida, é de excelente proveito até onde alcança. Mas é necessária uma revelação divina para corrigir seus erros e suprir suas deficiências, para nos ajudar onde a luz da natureza nos deixa inteiramente perdidos, sobretudo quanto ao caminho e ao modo de recuperar o homem de sua condição decaída e restaurá-lo ao favor de seu Criador.

Ele não pode deixar de reconhecer que perdeu esse favor, pois a triste experiência lhe mostra que sua condição presente é pecaminosa e miserável. Nossa própria razão nos mostra a ferida, mas nada aquém de uma revelação divina pode nos mostrar um remédio em que confiar.

A condição e o caráter das nações da terra que não tiveram outro guia em suas devoções senão a luz natural, acompanhada de alguns vestígios da instituição divina dos sacrifícios recebidos por tradição de seus pais, mostram claramente quanto a revelação divina é necessária à subsistência da religião.

Aqueles que não tinham a palavra de Deus logo perderam o próprio Deus; tornaram-se vãos em suas imaginações a respeito dele e extraordinariamente vis e absurdos em seus cultos e adivinhações.

É verdade que os judeus, embora tivessem o benefício da revelação divina, às vezes caíram na idolatria e admitiram corrupções muito graves. Contudo, com a ajuda da lei e dos profetas, recuperaram-se e se reformaram.

Já a melhor e mais admirada filosofia dos pagãos jamais conseguiu contribuir para curar a idolatria popular, nem sequer se ofereceu para eliminar algum daqueles ritos bárbaros e ridículos de sua religião, que eram escândalo e vergonha para a natureza humana.

Portanto, digam os homens o que quiserem: os deístas são, ou virão a ser, ateus. Aqueles que, sob o pretexto de admirar os oráculos da razão, descartam como inúteis os oráculos de Deus solapam os fundamentos de toda religião. Fazem o que podem para cortar toda comunicação entre o homem e seu Criador e para pôr essa nobre criatura no mesmo nível dos animais que perecem.

III. Hoje não se encontra nem se espera revelação divina em outro lugar senão nas Escrituras do Antigo e do Novo Testamento; e nelas ela se encontra. É verdade que havia religião e revelação divina antes de existir qualquer palavra escrita.

Mas argumentar daí que as Escrituras já não são necessárias seria tão absurdo quanto alegar que o mundo poderia passar muito bem sem o sol, porque, na criação, teve luz durante três dias antes que o sol fosse feito.

Quando foram dadas pela primeira vez, as revelações divinas foram confirmadas por visões, milagres e profecia. Mas precisavam ser transmitidas a regiões distantes e a épocas futuras, com suas provas e evidências, pela escrita, o meio mais seguro de transmissão e aquele pelo qual o conhecimento de outras coisas memoráveis é preservado e propagado.

Temos motivos para pensar que até os dez mandamentos, embora proferidos com tanta solenidade no monte Sinai, teriam sido perdidos e esquecidos muito antes de agora se fossem transmitidos somente pela tradição e nunca postos por escrito. É o que está escrito que permanece.

As Escrituras, na verdade, não foram compostas como sistema metódico ou corpo de doutrina, secundum artem — segundo as regras da arte —, mas por diversos modos de escrita (histórias, leis, profecias, cânticos, epístolas e até provérbios), em diversas épocas e por diversas mãos, conforme pareceu bem à Sabedoria infinita.

O fim é alcançado de modo eficaz: algumas coisas são claramente pressupostas e tidas por certas, outras são expressamente reveladas e dadas a conhecer. Todas juntas nos informam suficientemente acerca das verdades e leis da santa religião em que devemos crer e pela qual devemos ser governados.

Estamos certos de que toda a Escritura é dada por inspiração de Deus (2 Timóteo 3:16) e de que homens santos falaram e escreveram movidos pelo Espírito Santo (2 Pedro 1:21). Mas quem ousa afirmar que pode descrever essa inspiração?

Ninguém conhece o caminho do Espírito, nem como os pensamentos se formaram no coração daquele que foi inspirado, assim como não conhecemos o caminho da alma para o corpo, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida (Eclesiastes 11:5).

Podemos, porém, estar certos de que o bendito Espírito não apenas preparou e capacitou habitualmente os escritores das Escrituras para esse serviço e lhes pôs no coração o desejo de escrever. Também auxiliou seu entendimento e sua memória ao registrarem aquilo que conheciam pessoalmente, resguardando-os eficazmente do erro e do engano.

Quanto ao que não podiam conhecer senão por revelação — como, por exemplo, Gênesis 1 e João 1 —, o mesmo bendito Espírito lhes deu informação clara e satisfatória.

Sem dúvida, na medida necessária ao fim pretendido, foram dirigidos pelo Espírito até na linguagem e na expressão, pois havia palavras ensinadas pelo Espírito Santo (1 Coríntios 2:13). Deus diz ao profeta: “Falarás com as minhas palavras” (Ezequiel 3:4). Entretanto, para nós não importa quem redigiu a lei nem quanta liberdade teve para empregar suas próprias palavras.

Uma vez ratificada, ela se torna ato do legislador e obriga o súdito a observar seu verdadeiro propósito e sentido.

As Escrituras provam sua autoridade e origem divinas tanto aos sábios quanto aos não sábios. Até para a parcela da humanidade menos instruída e menos inclinada à reflexão, isso é amplamente comprovado pelos muitos milagres incontestáveis que Moisés e os profetas, Cristo e seus apóstolos realizaram para confirmar suas verdades e leis.

Seria uma afronta intolerável à Verdade eterna supor que esse selo divino foi aposto a uma mentira.

Além disso, aos mais sábios e reflexivos, mais ponderados e contemplativos, as Escrituras se recomendam por suas excelências próprias, características evidentes por si mesmas de sua origem divina. Se olharmos com atenção, logo reconheceremos nelas a imagem e a inscrição de Deus.

A mente bem disposta pela sujeição humilde e sincera a seu Criador perceberá facilmente a imagem da sabedoria de Deus na profundidade assombrosa de seus mistérios; a imagem de sua soberania na majestade imperiosa de seu estilo; a imagem de sua unidade na maravilhosa harmonia e simetria de todas as suas partes; a imagem de sua santidade na pureza imaculada de seus preceitos.

Perceberá também a imagem de sua bondade na manifesta tendência do todo a promover o bem-estar e a felicidade da humanidade em ambos os mundos. Em suma, é uma obra que atesta sua própria autoria.

Assim como os ateus, também os deístas, apesar de suas pretensões vangloriosas à razão, como se a sabedoria tivesse de morrer com eles, incorrem nos absurdos mais grosseiros e desonrosos que se possa imaginar. Pois, se as Escrituras não forem a palavra de Deus, não haverá agora revelação divina no mundo, nem descoberta alguma da mente de Deus quanto a nosso dever e nossa felicidade.

Por mais desejoso e empenhado que alguém esteja em fazer a vontade de seu Criador, perecerá irremediavelmente na ignorância dela, pois nenhum outro livro se propõe a lhe dizer qual é essa vontade. É uma consequência que de modo algum se concilia com a ideia que temos da bondade divina.

E, o que não é absurdo menor, se as Escrituras não forem realmente uma revelação divina, serão certamente a maior fraude já imposta ao mundo. Não temos, contudo, razão para pensar assim: homens maus nunca escreveriam um livro tão bom, nem Satanás seria tão pouco astuto a ponto de ajudar a expulsar Satanás.

Homens bons jamais cometeriam a maldade de falsificar o grande selo do céu e afixá-lo a uma concessão elaborada por eles mesmos, por mais justa que fosse em si. Não, essas não são as palavras de alguém que tem demônio.

IV. As Escrituras do Antigo e do Novo Testamento foram intencionalmente destinadas ao nosso ensino. Poderiam ter sido revelação divina para aqueles em cujas mãos foram postas pela primeira vez sem que nós, a esta distância, tivéssemos qualquer relação com elas.

Mas é certo que se destinavam a ter utilidade e autoridade universais e permanentes para todas as pessoas, em todos os lugares e épocas, que delas tivessem conhecimento — inclusive nós, sobre quem chegaram os fins dos tempos (Romanos 15:4).

Embora não estejamos debaixo da lei como pacto de inocência — pois, sendo culpados, pereceríamos inevitavelmente sob sua maldição —, ela não é por isso uma lei ultrapassada. Continua sendo declaração permanente da vontade de Deus acerca do bem e do mal, do pecado e do dever, e sua exigência de obediência conserva toda a força e validade de sempre.

O evangelho da lei cerimonial nos é pregado, assim como foi àqueles a quem ela primeiro foi dada, e para nós de modo muito mais claro (Hebreus 4:2).

As histórias do Antigo Testamento foram escritas para nossa admoestação e orientação (1 Coríntios 10:11), não apenas para informar e entreter os curiosos. Os profetas, embora mortos há muito, tornam a profetizar por meio de seus escritos diante de povos e nações (Apocalipse 10:11), e a exortação de Salomão fala conosco como com filhos.

O assunto das Sagradas Escrituras é universal e permanente; por isso diz respeito a todos.

Elas se destinam a duas coisas: 1. Reavivar a lei universal e permanente da natureza. Os próprios vestígios dela — ou, antes, suas ruínas — na consciência natural nos indicam que devemos procurar em outro lugar uma cópia mais fiel.

  1. Revelar a lei universal e permanente da graça, que temos alguma razão para esperar da benevolência geral de Deus para com os filhos dos homens, a qual os coloca numa condição melhor que a dos demônios.

Também a autoridade divina que neste livro exige nossa fé e obediência é universal e permanente, sem limites de tempo ou lugar. Portanto, toda nação e toda época às quais esses escritos sagrados forem transmitidos têm o dever de recebê-los com a mesma veneração e piedosa consideração que exigiram ao aparecerem pela primeira vez.

Embora Deus, nestes últimos dias, nos tenha falado por seu Filho, não devemos por isso pensar que aquilo que, em tempos passados e de diversas maneiras, falou aos pais (Hebreus 1:1) não nos serve, nem que o Antigo Testamento seja um almanaque vencido.

Não: somos edificados sobre o fundamento dos profetas e também dos apóstolos, sendo o próprio Cristo a pedra angular (Efésios 2:20), na qual esses dois lados do bendito edifício se encontram e se unem.

São esses os antigos registros da igreja judaica aos quais Cristo e seus apóstolos tantas vezes se referiram e recorreram, e que nos mandaram examinar e observar. Os pregadores do evangelho, como os juízes de Josafá, levavam consigo esse livro da lei por onde fossem. Achavam muito vantajoso falar àqueles que conheciam a lei (Romanos 7:1).

A célebre tradução do Antigo Testamento para o grego feita pelos Setenta, entre duzentos e trezentos anos antes do nascimento de Cristo, foi para as nações uma feliz preparação para receberem o evangelho, pois difundiu o conhecimento da lei.

Assim como o Novo Testamento explica e completa o Antigo, tornando-o agora mais útil para nós do que era para a igreja judaica, o Antigo confirma e esclarece o Novo e nos mostra que Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre.

V. As Sagradas Escrituras não foram destinadas apenas ao nosso ensino; são também a regra estabelecida e permanente de nossa fé e prática, pela qual devemos ser governados agora e, em breve, julgados. Não são somente um livro de utilidade geral — como podem ser os escritos de homens bons e sábios —, mas possuem autoridade soberana e imperativa.

São o código do reino de Deus, e nosso juramento de fidelidade a ele, nosso Senhor supremo, nos obriga a observá-las.

Quer ouçamos, quer deixemos de ouvir, é preciso que nos digam que este é o oráculo a consultar e pelo qual devemos decidir; a pedra de toque à qual recorrer para provar as doutrinas; a regra para a qual devemos olhar ao ordenar em tudo nossos afetos e nossa conduta, e da qual sempre devemos tomar nossa medida.

Este é o testemunho, esta é a lei atada e selada entre os discípulos; a palavra segundo a qual, se não falarmos, é porque não há luz em nós (Isaías 8:16, 20).

Fazer da luz interior nossa regra — luz que, por natureza, é trevas e, pela graça, não passa de cópia conforme à palavra escrita — é colocar o juiz acima da lei. Fazer das tradições da igreja rivais das Escrituras não é melhor: é permitir que o relógio, que cada interessado adianta ou atrasa a seu bel-prazer, corrija o sol, fiel medidor do tempo e dos dias.

São absurdos que, uma vez admitidos, dão origem a milhares de outros, como vemos pela triste experiência.

VI. Por isso, é dever de todos os cristãos examinar diligentemente as Escrituras, e é função dos ministros guiá-los e auxiliá-los nisso. Por mais útil que seja em si este livro dos livros, de nada nos servirá se não nos familiarizarmos com ele mediante a leitura diária e a meditação.

Assim poderemos compreender nele a mente de Deus e aplicar o que compreendermos a nós mesmos, para nossa direção, repreensão e consolo, conforme a ocasião.

É característica do homem santo e feliz ter prazer na lei do Senhor. Como prova disso, ele convive com ela como companheira constante e dela busca conselho como de seu conselheiro mais sábio e fiel, pois nessa lei medita dia e noite (Salmos 1:2).

Importa-nos conhecer bem as Escrituras, mediante leitura contínua e atenta observação, sobretudo mediante oração fervorosa a Deus pelo dom prometido do Espírito Santo. Sua função é trazer à nossa memória o que Cristo nos disse (João 14:26).

Desse modo teremos sempre à mão alguma boa palavra que nos sirva ao nos dirigirmos a Deus e ao conversarmos com os homens, ao resistirmos a Satanás e ao falarmos com nosso próprio coração. Poderemos, como o bom pai de família, tirar desse tesouro coisas novas e velhas para o proveito e a edificação tanto de nós mesmos quanto dos outros.

Se há algo que possa tornar completo neste mundo o homem de Deus — tanto o cristão quanto o ministro — e prepará-lo inteiramente para toda boa obra, é isto (2 Timóteo 3:17).

Também importa que sejamos poderosos nas Escrituras, como Apolo era (Atos 18:24). Isso significa conhecermos a fundo seu verdadeiro propósito e sentido, para entendermos o que lemos, sem interpretar nem aplicar mal.

Sob a direção do bendito Espírito, seremos guiados a toda a verdade (João 16:13), conservando-a firmemente na fé e no amor e aplicando cada parte das Escrituras ao uso para o qual foi destinada. A letra, da lei ou do evangelho, pouco aproveita sem o Espírito.

Nisso os ministros de Cristo servem ao Espírito para o bem da igreja: cabe-lhes explicar e aplicar as Escrituras. Delas devem obter seu conhecimento, suas doutrinas, devoções, orientações e admoestações, e até sua linguagem e expressão. Explicar as Escrituras era a forma mais comum de pregação nos primeiros e mais puros tempos da igreja.

Que têm os levitas a fazer senão ensinar a lei a Jacó (Deuteronômio 33:10)? Não apenas lê-la, mas dar-lhe o sentido e fazer com que o povo entenda a leitura (Neemias 8:8). Como poderão fazer isso se ninguém os guiar (Atos 8:31)? Assim como dificilmente se acreditaria nos ministros sem o apoio das Bíblias, dificilmente se compreenderiam as Bíblias sem a explicação dos ministros.

Mas, se, tendo ambos, perecermos na ignorância e na incredulidade, nosso sangue estará sobre nossa própria cabeça.

Portanto, plenamente convencido dessas coisas, concluo que toda ajuda oferecida aos bons cristãos para examinar as Escrituras é um serviço real prestado à glória de Deus e aos interesses de seu reino entre os homens.

Foi isso que me levou a esta empresa, à qual me dediquei em fraqueza, temor e muito tremor (1 Coríntios 2:3), receoso de me ocupar de coisas altas demais para mim e de prejudicar, por falta de habilidade, uma iniciativa tão louvável.

Se alguém quiser saber como uma pessoa tão modesta e desconhecida como eu, inferior ao menor de todos os servos de meu Mestre em conhecimento, discernimento, felicidade de expressão e em todas as vantagens necessárias a tal serviço, ousou empreender obra tão grande, só posso dar esta explicação.

Há muito tempo, tenho o costume de empregar o pouco tempo que me resta no estudo, depois da preparação constante para o púlpito, na elaboração de exposições de algumas partes do Novo Testamento. Fazia isso menos por proveito próprio que por mero prazer, pois não sabia como ocupar meus pensamentos e meu tempo de modo mais satisfatório.

Trahit sua quemque voluptas — cada homem que estuda tem algum estudo predileto, no qual encontra mais prazer do que em qualquer outro; este é o meu. É o saber no qual tive a felicidade de ser instruído desde criança por meu sempre honrado pai, cuja memória sempre me será muito querida e preciosa.

Ele muitas vezes me lembrava que um bom conhecedor do texto é um bom teólogo, e que eu deveria ler outros livros tendo isso em vista, a fim de compreender e aplicar melhor as Escrituras.

Enquanto eu assim me ocupava, veio a público a Exposição do sr. Burkitt, primeiro dos Evangelhos e depois dos Atos e das Epístolas. Foi muito bem recebida pelas pessoas piedosas e, sem dúvida, pela bênção de Deus, continuará a prestar grande serviço à igreja. Pouco depois de ele concluir essa obra, Deus teve por bem chamá-lo ao descanso.

Então, alguns amigos me instaram, e eu mesmo me inclinei, a tentar algo semelhante sobre o Antigo Testamento, na força da graça de Cristo.

Esta exposição do Pentateuco é humildemente apresentada como amostra. Se encontrar acolhida e for de algum modo útil, meu propósito atual é prosseguir, na dependência do auxílio divino, enquanto Deus me conservar a vida e a saúde e meus outros trabalhos o permitirem.

Sei que temos em nossa língua muitas obras desse tipo, as quais temos muitas razões para estimar e pelas quais devemos ser muito gratos a Deus. As Escrituras, porém, são um assunto que jamais se esgota. Semper habet aliquid relegentibus — por mais vezes que as leiamos, sempre encontraremos nelas algo novo.

Quando Davi havia ajuntado um vasto tesouro para a construção do templo, ainda assim disse a Salomão: “Tu podes acrescentar a ele” (1 Crônicas 22:14). O conhecimento das Escrituras é um tesouro assim: sempre pode crescer, até que todos cheguemos ao homem perfeito.

As Escrituras são um campo ou uma vinha que oferece trabalho a muitas mãos e em que pode atuar grande diversidade de dons e operações, mas todos procedentes do mesmo Espírito (1 Coríntios 12:4,6) e destinados à glória do mesmo Senhor.

Os estudiosos das línguas e dos costumes antigos prestaram grande serviço à igreja — a bem-aventurada ocupante desse campo — por suas investigações minuciosas e laboriosas de seus diversos produtos, suas análises das plantas e as interessantes lições que deram sobre elas.

A filologia dos críticos trouxe muito mais proveito à religião e lançou mais luz sobre a verdade sagrada do que a filosofia dos teólogos escolásticos.

Também os versados nas artes da guerra prestaram grande serviço ao defender esse jardim do Senhor dos violentos ataques dos poderes das trevas. Defenderam com êxito a causa dos escritos sagrados contra as objeções maliciosas de ateus, deístas e zombadores profanos destes últimos dias. Pessoas assim ocupam postos de honra, e seu louvor está em todas as igrejas.

Entretanto, o trabalho dos vinhateiros e lavradores (2 Reis 25:12), embora sejam os pobres da terra que cultivam esse solo e recolhem seus frutos, não é menos necessário em seu lugar nem menos proveitoso à família de Deus. Assim, cada um pode receber desses preciosos frutos sua porção de alimento no tempo devido. Foi a esse trabalho que, segundo minha capacidade, apliquei aqui as mãos.

E, assim como os expositores simples e práticos não diriam por nada neste mundo aos críticos eruditos: “Não precisamos deles”, espera-se que aqueles olhos e cabeças não digam às mãos e aos pés: “Não precisamos de vocês” (1 Coríntios 12:21).

Nos últimos tempos, os estudiosos receberam imensa ajuda em suas investigações desta parte das Sagradas Escrituras e dos livros que se seguem — e ainda esperam mais — graças aos excelentes e preciosíssimos trabalhos do grande e bom bispo Patrick.

Pela vastidão de suas leituras, solidez de juízo e felicíssima aplicação a esses melhores estudos, mesmo em seus anos avançados e em suas honras, as gerações futuras sem dúvida o colocarão entre os três maiores comentaristas e louvarão a Deus por ele.

As Anotações Inglesas do sr. Pool, que, por terem tido tantas edições, supomos estar nas mãos da maioria, são de admirável utilidade, especialmente para explicar expressões das Escrituras, expor seu sentido, indicar passagens paralelas e esclarecer as dificuldades que surgem.

Por isso, ao longo de toda esta obra, tratei brevemente daquilo que ali é discutido com maior amplitude e procurei evitar, tanto quanto possível, o que lá se encontra. Não desejava actum agere — refazer o que já foi feito —, nem, se me permitem tomar emprestadas as palavras do apóstolo, gloriar-me em coisas já preparadas por outros (2 Coríntios 10:16).

Essas e outras anotações, associadas às palavras e orações específicas que se propõem explicar, são fáceis de consultar conforme a necessidade. Já uma exposição como esta, organizada em discurso contínuo e distribuída sob temas apropriados, é muito mais fácil de ler de ponta a ponta para instrução própria ou de outros.

Penso também que observar a ligação de cada capítulo, quando houver, com o anterior, seu propósito geral e o fio da história ou do discurso, reunindo suas diversas partes para vê-las em conjunto, contribuirá muito para sua compreensão.

Isso dará à mente ampla satisfação quanto à intenção geral, embora aqui e ali haja uma palavra ou expressão difícil que mesmo os melhores críticos não consigam explicar facilmente. Foi isso, portanto, que procurei fazer aqui.

Mas não nos cabe apenas entender o que lemos; devemos aproveitá-lo para algum bom fim e, para isso, deixar-nos afetar e receber suas impressões. A palavra de Deus se destina a ser não só luz para nossos olhos, assunto agradável de contemplação, mas luz para nossos pés e lâmpada para nossos caminhos (Salmos 119:105). Ela nos dirige no caminho do dever e nos impede de entrar em desvios.

Por isso, ao examinar as Escrituras, devemos perguntar não apenas “O que é isto?”, mas também: “Que relação isto tem conosco? Que uso podemos fazer disso? Como podemos aplicá-lo a algum propósito daquela vida divina e celestial que, pela graça de Deus, estamos resolvidos a viver?”. São perguntas desse tipo que procurei responder aqui.

Quando a pedra é retirada da boca do poço por uma explicação crítica do texto, ainda há aqueles que desejam beber e dar de beber aos seus rebanhos. Mas se queixam de que o poço é fundo e não têm com que tirar água. Como, então, obterão essa água viva? Alguns deles talvez encontrem aqui um balde, ou água já tirada e posta ao seu alcance.

Ficarei muito satisfeito com esse ofício dos gibeonitas: tirar água desses poços da salvação para a congregação do Senhor.

Meu objetivo nesta exposição é apresentar o que julguei ser o sentido genuíno e torná-lo tão claro quanto possível às pessoas de entendimento comum. Não quis perturbar meus leitores com as diferentes opiniões dos expositores, o que equivaleria a transcrever a Sinopse latina do sr. Pool, onde isso já é feito abundantemente para nosso proveito e satisfação.

Quanto às observações práticas, não me obriguei a extrair doutrinas de cada versículo ou parágrafo. Procurei apenas mesclar à exposição as indicações ou observações que me pareceram úteis para ensinar, repreender, corrigir e instruir na justiça. Em tudo tive em vista promover a piedade prática e evitei cuidadosamente questões de controvérsia duvidosa e disputas de palavras.

Só o predomínio do poder da religião no coração e na vida dos cristãos corrigirá nossos males e transformará nosso deserto em campo fértil.

Como nosso Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro tesouro escondido no campo do Antigo Testamento e o Cordeiro morto desde a fundação do mundo, cuidei de observar o que Moisés escreveu sobre ele, a que ele próprio tantas vezes se referiu. Nos escritos dos profetas encontramos mais promessas claras e expressas do Messias e da graça do evangelho.

Mas aqui, nos livros de Moisés, encontramos mais tipos: figuras de coisas e de pessoas que apontam para aquele que havia de vir — sombras cuja realidade é Cristo (Romanos 5:14).

Aqueles para quem viver é Cristo encontrarão nesses tipos algo muito instrutivo e comovente, que prestará grande auxílio à sua fé, ao seu amor e à sua santa alegria. É com esse propósito especial que examinamos as Escrituras: encontrar o que elas testemunham de Cristo e da vida eterna (João 5:39).

Não se pode objetar à aplicação das instituições cerimoniais a Cristo e à sua graça o fato de aqueles a quem foram dadas não discernirem esse sentido ou uso. Antes, isso nos dá motivo para sermos muito gratos porque, em Cristo, foi retirado o véu que cobria a mente deles ao lerem o Antigo Testamento (2 Coríntios 3:13,14,18).

Embora eles não pudessem então contemplar firmemente o fim daquilo que seria abolido, não se segue daí que nós, felizmente munidos da chave desses mistérios, não possamos contemplar neles, como num espelho, a glória do Senhor Jesus.

Talvez, porém, os judeus piedosos vissem em seus ritos mais do evangelho do que supomos. Tinham ao menos uma expectativa geral dos bens futuros, pela fé nas promessas feitas aos pais, assim como nós temos da felicidade do céu. Não podiam formar desse mundo vindouro uma ideia distinta ou segura, como tampouco nós podemos formar do nosso.

Nossas concepções do estado futuro talvez sejam tão obscuras e confusas, tão aquém e tão distantes da verdade, quanto eram então as deles a respeito do reino do Messias. Mas Deus só exige fé segundo a revelação que concede.

Naquele tempo, eles não eram responsáveis por mais luz do que tinham; agora somos responsáveis pela luz maior que recebemos no evangelho. Com sua ajuda, podemos encontrar no Antigo Testamento muito mais de Cristo do que eles podiam.

Se alguém acha que nossas observações às vezes partem de detalhes que lhe parecem pequenos demais, lembre-se da máxima do rabino: Non est in lege vel una litera à quâ non pendent magni montes — não há na lei uma só letra que não sustente o peso de montanhas. Temos certeza de que não há palavra ociosa na Bíblia.

Desejo que o leitor não apenas leia o texto inteiro antes da exposição, mas que torne a olhar para cada versículo à medida que for mencionado nela. Assim compreenderá melhor o que lê. Se tiver tempo, também lhe será útil consultar as passagens às quais, por brevidade, às vezes apenas nos referimos, comparando coisas espirituais com espirituais.

É propósito declarado da Mente eterna, em todas as operações da providência e da graça, engrandecer a lei e torná-la gloriosa (Isaías 42:21); mais ainda, engrandecer sua palavra acima de todo o seu nome (Salmos 138:2). Assim, quando oramos: “Pai, glorifica o teu nome”, queremos dizer, entre outras coisas: “Pai, engrandece as Sagradas Escrituras”.

Se essa oração for feita com fé, podemos estar certos de receber a resposta dada a nosso bendito Salvador quando ele a fez, com especial referência ao cumprimento das Escrituras em seus próprios sofrimentos: “Eu já o glorifiquei e tornarei a glorificá-lo” (João 12:28).

Desejo humildemente contribuir de algum modo para esse grande propósito, na força da graça pela qual sou o que sou. Espero que aquilo que possa tornar a leitura das Escrituras mais fácil, agradável e proveitosa seja graciosamente aceito por aquele que se agradou das duas pequenas moedas que a viúva pôs no tesouro, como uma intenção de engrandecê-las e torná-las gloriosas.

Se conseguir alcançar esse objetivo em alguma medida com algumas pessoas, considerarei meus esforços abundantemente recompensados, ainda que outros desprezem a mim e a meus trabalhos.

Nada mais tenho a acrescentar senão recomendar-me às orações de meus amigos e recomendá-los à graça do Senhor Jesus. Assim permaneço, indigno dependente dessa graça e, por meio dela, alguém que aguarda a glória a ser revelada.

M. H. Chester, 2 de outubro de 1706.

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