Matthew Henry

Obadias 1

Argumento

Obadias

UMA EXPOSIÇÃO, COM OBSERVAÇÕES PRÁTICAS, DO LIVRO DO PROFETA OBADIAS.

Este é o mais curto de todos os livros do Antigo Testamento, a menor dessas tribos. Contudo, não deve ser deixado de lado nem considerado inferior, pois esta moeda tem a imagem e a inscrição de César. Ela está marcada com autoridade divina.

Muito de Deus pode aparecer num sermão curto, num pequeno livro, e muito bem pode ser feito por ele: multum in parvo, muito em pouco. O Sr. Norris diz: “Se os anjos escrevessem livros, teríamos poucos volumes de grande formato”. Aquilo que não é volumoso pode ser muito precioso.

Este livro se intitula A Visão de Obadias. Quem foi esse Obadias não aparece em nenhuma outra passagem da Escritura. Alguns dos antigos imaginaram que fosse o mesmo Obadias que era administrador da casa de Acabe (1 Reis 18:3).

Se assim fosse, aquele que escondeu e alimentou os profetas recebeu de fato a recompensa de um profeta, quando ele próprio se tornou profeta. Mas essa é uma conjectura sem fundamento.

É provável que esse Obadias tenha vivido numa época posterior. Alguns pensam que foi contemporâneo de Oseias, Joel e Amós. Outros pensam que viveu por volta da destruição de Jerusalém, quando os filhos de Edom triunfaram tão barbaramente com essa destruição.

Contudo, aquilo que escreveu foi o que viu. É a sua visão. Provavelmente houve muito mais que ele foi divinamente inspirado a falar, mas isso é tudo o que ele foi inspirado a escrever. E tudo o que escreve diz respeito a Edom.

É uma fantasia insensata de alguns dos judeus que, por profetizar somente a respeito de Edom, ele próprio fosse edomita de nascimento, mas prosélito da religião judaica.

Outros profetas profetizaram contra Edom, e alguns deles parecem ter tomado dele palavras em suas predições contra Edom, como Jeremias 49:7, etc.; Ezequiel 25:12, etc. Pela boca dessas duas ou três testemunhas, toda palavra será confirmada.

Este livro trata inteiramente de Edom, uma nação estreitamente aparentada com Israel e vizinha próxima dele, e contudo inimiga da descendência de Jacó, herdando a inimizade de seu pai Esaú contra Jacó. Agora, depois do prefácio, v. 1, temos aqui:

I. Ameaças contra Edom:

  1. Que o seu orgulho seria humilhado, vv. 2-4.

  2. Que a sua riqueza seria saqueada, vv. 5-7.

  3. Que a sua sabedoria seria tornada insensata, v. 8, 9.

  4. Que a sua conduta maldosa para com o Israel de Deus seria vingada, vv. 10-16.

II. Promessas de graça a Israel: que serão restaurados e reformados, serão vitoriosos sobre os edomitas e se tornarão senhores da terra deles e das terras de outros dos seus vizinhos (vv. 17-20), e que o reino do Messias será estabelecido pela introdução da grande salvação, v. 21.

Versículos 1 a 9

A Condenação de Edom. (a.C. 587.)

Edom é a nação contra a qual esta profecia se dirige. Alguns pensam que ela representa todos os inimigos de Israel, que serão abatidos mais cedo ou mais tarde. Por Edom, os rabinos entendem Roma.

Entendem que se trata da Roma cristã e têm uma inimizade implacável contra ela como tal. Mas, se entendermos que se trata da Roma anticristã, encontraremos passagens bastante aplicáveis a ela.

E embora Edom tenha sido humilhado no tempo dos Macabeus, como fora antes por Josafá, ainda assim a sua destruição parece ter sido tipológica, como a rejeição de seu pai Esaú, e ter tido referência ulterior à destruição dos inimigos da igreja do evangelho. Pois assim perecerão todos os inimigos de Deus.

E encontramos (Isaías 34:5) a espada do Senhor descendo sobre a Idumeia, para significar o dia geral das retribuições de Deus pela causa de Sião, Isaías 34:8.

Alguns observaram bem que só podia ser uma grande tentação para o povo de Israel ver a si mesmos, filhos do amado Jacó, em dificuldade, e os edomitas não só prosperando, mas triunfando sobre eles nas suas dificuldades.

Por isso Deus lhes dá uma perspectiva da destruição de Edom, que seria total e final, e de um desfecho feliz para a sua própria correção. Agora podemos observar aqui:

I. Uma declaração de guerra contra Edom (v. 1):

Ouvimos um rumor, ou melhor, uma ordem, do Senhor, o Deus dos exércitos. Ele deu a palavra de comando. É o seu conselho e decreto, que não pode ser revogado nem resistido, que todos os que fazem dano ao seu povo certamente trarão dano sobre si mesmos.

Ouvimos uma notícia de que Deus se levantou da sua santa habitação e está preparando o seu trono para o julgamento. “Um embaixador é enviado entre os pagãos”, ou melhor, um arauto, algum ministro ou mensageiro da Providência, para alertar as nações, ou os profetas do Senhor, que deram a cada nação a sua mensagem de condenação.

Aqueles que Deus emprega clamam uns aos outros: “Levantai-vos”, despertem a si mesmos e uns aos outros, “e levantemo-nos contra Edom em batalha”. As forças confederadas sob Nabucodonosor assim animam a si mesmas e umas às outras a fazer uma incursão naquele país.

“Reuni-vos e vinde contra ela”. Assim está na passagem paralela, Jeremias 49:14. Repare: quando Deus tem uma obra sangrenta a fazer entre os inimigos da sua igreja, encontrará e preparará tanto mãos quanto corações para fazê-la.

II. Uma predição do sucesso dessa guerra:

Edom certamente será subjugado, despojado e abatido. Pois todas as coisas em que confia lhe falharão e não lhe servirão de nada. Da mesma forma, todos os inimigos da igreja de Deus serão decepcionados nas coisas sobre as quais se apoiavam.

  1. Dependem da sua grandeza, da posição que ocupam entre as nações, da sua influência sobre elas e do seu prestígio entre elas? Isso diminuirá (v. 2): “Eis que te fiz pequeno entre os pagãos”, de modo que nenhum dos seus vizinhos buscará a sua amizade nem buscará uma aliança com você.

“És grandemente desprezado” entre eles, e visto com desprezo, como uma nação tornada insensata e infiel. E assim (v. 3) “o orgulho do teu coração te enganou”. Repare:

(1.) Aqueles que pensam bem de si mesmos tendem a imaginar que os outros também pensam bem deles. Mas, quando forem pô-los à prova, perceberão que estavam enganados. Assim o seu orgulho os engana e, por meio dele, os abate.

(2.) Deus pode facilmente rebaixar aqueles que engrandeceram e exaltaram a si mesmos, e encontrará uma maneira de fazê-lo, pois resiste aos orgulhosos. E muitas vezes vemos pequenos e grandemente desprezados aqueles que antes pareciam muito grandes e eram muito acariciados e admirados.

  1. Dependem das fortificações do seu país, tanto naturais quanto artificiais, e se gloriam nas vantagens que têm por meio delas? Essas também os enganarão. Moravam nas fendas da rocha, como uma águia no seu ninho, e a sua habitação era elevada.

Não só exaltada acima dos seus vizinhos, o que era motivo do seu orgulho, mas fortificada contra os seus inimigos, o que era motivo da sua segurança. Tão elevada que estava fora do alcance do perigo. Agora observe:

(1.) O que Edom diz no orgulho do seu coração: “Quem me fará descer ao chão?” Fala confiando na sua própria força e desprezando os julgamentos de Deus, como se o próprio poder onipotente não pudesse vencê-lo.

Quanto a todos os seus inimigos, até o próprio Deus, “sopra contra eles” (Salmos 10:5), desafia todos eles. Seu pai Esaú vendera o seu direito de primogenitura, e contudo eles se erguiam como se a excelência da dignidade e do poder continuasse a lhes pertencer.

Muitos perdem os seus privilégios e contudo se vangloriam deles. Por ser alto e elevado, Edom imagina que ninguém pode fazê-lo descer.

Repare: a segurança carnal é um pecado que muito facilmente envolve os homens no dia da sua pompa, poder e prosperidade. E faz, tanto quanto qualquer outra coisa, tanto amadurecer os homens para a ruína quanto agravá-la quando chega.

(2.) O que Deus diz a isso, v. 4. Se os homens ousarem desafiar a Onipotência, o seu desafio será aceito. “Quem me fará descer?”, diz Edom. “Eu”, diz Deus.

Ainda que você se exalte como a águia que voa alto e constrói alto, ou melhor, ainda que ponha o seu ninho entre as estrelas, mais alto do que qualquer águia já voou, isso existe apenas na sua própria imaginação. “Dali te farei descer”. Tivemos isso em Jeremias 49:15, 16.

Repare: os pecadores certamente serão envergonhados do seu orgulho e da sua segurança. Do seu orgulho, quando cair, e da sua segurança, quando as coisas em que confiam decepcionarem a sua expectativa.

  1. Dependem da sua riqueza e do seu tesouro, cuja abundância é considerada os nervos da guerra? O seu dinheiro é a sua defesa? É a sua cidade forte?

Só é assim na sua própria opinião, pois antes os exporá do que os protegerá. Ele será feito presa do inimigo, e eles também, por causa dele, v. 5, 6. Tivemos muito nesse sentido em Jeremias 49:9, 10.

Somente aqui aparece, entre parênteses: “Como és eliminado!”, você e todas as suas reservas. O profeta prediz isso, mas o lamenta: que o fio da prosperidade deles fosse cortado. Como você caiu, e como é grande a sua queda!

Como você ficou aturdido! Assim o caldeu o expressa. Como você permanece irrefletido diante desses julgamentos devastadores, como se fossem apenas golpes comuns! Mas ele mostra que seria uma ruína completa, e não uma calamidade habitual. Pois:

(1.) É de fato uma calamidade habitual para aqueles que têm riqueza que ela seja roubada, e perder um pouco do muito que possuem. Ladrões vêm a eles, pois onde está o cadáver, ali se reunirão as aves de rapina.

Salteadores vêm de noite e roubam até terem o suficiente, aquilo de que precisam, aquilo que desejam. Não roubam mais do que pensam poder levar, e de um grande estoque isso mal se percebe.

Aqueles que roubam pomares ou vinhas levam o que julgam conveniente. Mas deixam algumas uvas, algum fruto para o proprietário, que talvez suporte facilmente a sua perda e logo a reponha.

Mas (2.) Não será assim com Edom. Toda a sua riqueza será levada, e nada escapará às mãos do exército destruidor, nem aquilo que é mais precioso e valioso, v. 6.

Como as coisas de Esaú, as coisas nas quais põe o seu coração e a sua felicidade, as suas coisas boas, as suas melhores coisas, como essas coisas, tão cuidadosamente acumuladas e escondidas, são agora vasculhadas e tomadas pelo inimigo!

Como as coisas ocultas, os seus tesouros escondidos, são saqueadas, pilhadas e procuradas! As suas reservas, que não tinham visto a luz durante muitos anos, são agora despojo para o inimigo.

Repare: tesouros na terra, por mais firmemente trancados e por mais habilmente escondidos que estejam, não podem ser guardados com tanta segurança que ladrões não possam arrombar e roubar. Por isso, é sabedoria nossa acumular para nós mesmos tesouros no céu.

  1. Dependem das suas alianças com estados e potentados vizinhos? Essas também lhes falharão (v. 7). “Os homens da tua confederação”, todos eles, os amonitas, moabitas e outros dos seus grandes aliados que estavam em paz com você, que entraram num pacto ofensivo e defensivo com você.

Que solenemente se comprometeram não só a não lhe fazer prejuízo, mas a lhe prestar todo o serviço que pudessem, “comiam o teu pão”, eram magnificamente tratados e recebidos por você, viviam à sua custa.

Os seus soldados tinham alojamento gratuito no seu país e recebiam pagamento como seus auxiliares. “Eles te trouxeram até a fronteira” da sua terra, foram muito respeitosos com os seus embaixadores e os acompanharam no caminho de volta, até os limites extremos do país deles.

Pareciam dispostos a servi-lo com as suas forças quando você precisava delas. E vieram com você até a fronteira, até que você estava prestes a enfrentar o inimigo invasor. Mas então:

(1.) Eles tinham enganado você. Voltaram atrás e recuaram quando você estava numa situação extrema. Mostraram-se como uma cana quebrada para o viajante cansado e como os riachos no verão para o viajante sedento. Não suportam peso nenhum, não oferecem alívio nenhum.

Ou melhor, (2.) “Prevaleceram contra ti”. Foram fortes demais para você no tratado que lhe foi imposto e, por embuste, arruinaram você, puseram você em perigo e ali o deixaram como presa fácil para o seu inimigo.

Repare: aqueles que fazem da carne o seu braço armam-na contra si mesmos. Contudo, isso não era o pior.

(3.) “Puseram uma ferida debaixo de ti”. Isto é, puseram debaixo de você, como apoio e sustentação, como fundamento em que confiar, como travesseiro em que repousar, aquilo que se mostrará uma ferida para você. Não apenas como espinhos, mas como espadas.

Se Deus puser debaixo de nós os braços do seu poder e amor, eles serão firmes e confortáveis debaixo de nós. O Deus da nossa aliança nunca nos enganará.

Mas, se confiarmos nos homens da nossa confederação e no que puserem debaixo de nós, isso poderá se mostrar uma ferida e desonra para nós. E observe a justa censura aqui feita a Edom por confiar naqueles que assim o ludibriaram.

“Não há entendimento nele”, ou nunca teria posto nas mãos deles o poder de traí-lo, depositando tamanha confiança neles.

Repare: mostram que não têm entendimento em si aqueles que, quando são animados a confiar no Criador, praticam um embuste contra si mesmos ao depositar confiança na criatura.

  1. Dependem da sagacidade dos seus conselheiros? Esses lhes falharão, v. 8. Edom fora famoso por grandes estadistas, homens de conhecimento e experiência, que estavam ao leme do governo e eram mestres em todas as artes da administração, que em todos os tratados costumavam superar em astúcia os seus vizinhos.

Mas agora os conselheiros se tornaram insensatos, e o Deus sábio os torna assim: “Não destruirei naquele dia os sábios de Edom?” Como homens, cairão pela espada junto com outros (Salmos 49:10), e a sua sabedoria não lhes dará segurança.

Como sábios, serão tornados insensatos em todos os seus conselhos. Os seus desígnios mais bem elaborados serão frustrados, as suas medidas desfeitas. E aqueles mesmos projetos pelos quais pensavam estabelecer a si mesmos e os interesses públicos serão a ruína de ambos.

Assim a sabedoria perece de Temã, como está na passagem paralela, Jeremias 49:7. Isso foi:

(1.) O justo castigo da sua insensatez em confiar num braço de carne: Não há entendimento neles, v. 7. Não têm juízo para confiar num Deus vivo e num Deus de verdade, mas depositam confiança em homens frágeis, inconstantes e falsos. Por isso Deus destruirá o seu entendimento.

Repare: Deus negará com justiça àqueles que não querem usar o seu entendimento para se manterem fora do caminho do pecado o entendimento para se manterem fora do caminho do perigo. Aquele que quer ser insensato, continue insensato.

(2.) Foi o precursor da sua destruição. Uma nação certamente está marcada para a ruína quando Deus esconde as coisas que pertencem à sua paz dos olhos daqueles a quem são confiados os seus conselhos.

Quos Deus vult perdere, eos dementat: Deus torna insensatos aqueles que tem o desígnio de destruir. Jó 12:17.

  1. Dependem da força e coragem dos seus soldados? Eles não são só fisicamente aptos, mas homens de disposição e coragem, capazes de enfrentar um inimigo e manter a sua posição.

Mas agora (v. 9) “os teus valentes, ó Temã, ficarão desalentados”. A sua coragem lhes falhará, “a fim de que cada um do monte de Esaú seja eliminado pela matança”, e ninguém escape.

Os fracos, debilitados e desarmados naturalmente devem cair na mão do destruidor quando os valentes ficam desalentados e não só perdem a batalha, mas perdem a vida, porque perderam a sua disposição. Uivem, ciprestes, se os cedros forem abalados.

Repare: a morte ou desunião dos valentes muitas vezes se mostra a morte e destruição de muitos. E é inútil depender de homens valentes para a nossa proteção se não temos um Deus onipotente a nosso favor, muito menos se temos um Deus onipotente contra nós.

Versículos 10 a 16

A Culpa de Edom. (a.C. 587.)

Depois de ler a condenação de Edom, nada menos que ruína completa, é natural perguntar: por quê, que mal ele fez? Qual é o fundamento da causa de Deus contra ele? Muitas coisas, sem dúvida, estavam erradas em Edom. Eram um povo pecador e um povo carregado de iniquidade.

Mas aquele único crime que lhes é imputado, como enchendo a sua medida e trazendo sobre eles essa ruína, pelo qual aqui são formalmente acusados, do qual são declarados culpados e pelo qual são condenados, é a injúria que tinham feito ao povo de Deus (v. 10).

É por sua violência contra seu irmão Jacó, aquele rancor antigo e hereditário que você alimenta contra o povo de Israel, que toda essa vergonha cobrirá você e você será eliminado para sempre.

Repare: injúrias aos homens são afrontas a Deus, o Deus justo, que ama a justiça e odeia a maldade. E, como Juiz de toda a terra, dará reparação àqueles que sofrem injustiça e tomará vingança contra aqueles que a praticam.

Toda violência, toda injustiça, é pecado. Mas é um grande agravamento da violência se for feita ou:

  1. Contra qualquer um do nosso próprio povo. É violência contra o seu irmão, seu parente próximo, para quem você deveria ser um goël, um redentor, a quem é seu dever fazer justiça se outros o injustiçarem. Como é perverso, então, que você mesmo o injustiçe!

Você calunia e maltrata o filho da sua própria mãe. Isso torna o pecado excessivamente pecaminoso, Salmos 50:20.

Ou 2. Muito mais se for feita contra qualquer um do povo de Deus. É o seu irmão Jacó que está em aliança com Deus e lhe é querido. Você odeia aquele que Deus amou, cuja causa Deus abraça e defenderá com zelo e por cujos interesses tem por bem se empenhar tanto que toma a violência feita a ele como feita a si mesmo.

Quem toca Jacó toca a menina do olho do Deus de Jacó. De modo que isso é crimen læsæ majestatis, alta traição, pela qual, como por alta traição, Edom deve esperar um castigo ignominioso: “Vergonha te cobrirá”. E um castigo arruinador: “Serás eliminado para sempre”.

Nos versículos seguintes nos é dito mais particularmente:

I. Qual foi a violência que Edom fez contra seu irmão Jacó e quais são as provas dessa acusação:

Não parece que os próprios edomitas tenham invadido Israel, mas isso foi mais por falta de poder do que de vontade. Tinham malícia suficiente para fazê-lo, mas não eram páreo para eles.

Mas o que lhes é imputado é a sua conduta bárbara para com Judá e Jerusalém quando estavam em angústia e prestes a ser destruídos, provavelmente pelos caldeus, ou por ocasião de alguma outra das calamidades dos judeus. Pois essa parece ter sido sempre a disposição deles para com os judeus.

Veja isso imputado aos edomitas (Salmos 137:7), que no dia de Jerusalém disseram: “Arrasai-a, arrasai-a”; e Ezequiel 25:12. Aqui lhes é dito particularmente o que fizeram, ao lhes ser dito o que não deveriam ter feito (vv. 12-14).

“Não devias ter olhado, não devias ter entrado”, mas você fez isso. Repare: ao refletir sobre nós mesmos, é bom comparar o que fizemos com o que deveríamos ter feito, a nossa prática com a regra, para descobrirmos em que erramos, fizemos aquelas coisas que não deveríamos ter feito.

Não deveríamos ter estado onde estávamos em tal ocasião, não deveríamos ter estado em tal e tal companhia, não deveríamos ter dito o que dissemos nem tomado a liberdade que tomamos. O pecado, assim visto no espelho do mandamento, parecerá excessivamente pecaminoso. Vejamos:

  1. Qual era a situação de Judá e Jerusalém quando os edomitas se comportaram de modo tão vil e os insultaram:

(1.) Era um dia de angústia para eles (v. 12). Era o dia da sua calamidade, como é chamado três vezes, v. 13. Para os edomitas era um dia de prosperidade e paz quando para os israelitas era um dia de angústia e calamidade, pois o julgamento geralmente começa pela casa de Deus. Os filhos são corrigidos quando os estranhos são deixados em paz.

(2.) Era o dia da sua destruição (v. 12), quando tanto a cidade quanto o campo foram devastados, ficaram em ruínas.

(3.) Era um dia em que estrangeiros entraram pelas portas de Jerusalém, quando a cidade, depois de um longo cerco, foi invadida, e os grandes oficiais do exército do rei da Babilônia vieram e se sentaram nas portas como juízes da terra.

Quando lançaram sortes sobre os despojos de Jerusalém, como os soldados sobre as vestes de Cristo, para determinar que partes cada conquistador teria, que partes das terras, que partes dos bens. Ou lançaram sortes para determinar quando e onde deveriam atacá-la.

(4.) Era um dia em que os estranhos levaram cativas as suas forças (v. 11), tomaram os homens de guerra como prisioneiros de guerra e os levaram, na pobreza e vergonha, para o seu próprio país. Ou uma multidão tão grande de cativos que eram como um exército.

(5.) Era um dia em que o seu próprio irmão, que por muito tempo estivera em casa, em repouso na sua própria terra, se tornou um estranho, um exilado numa terra estranha.

Agora, quando essa era a situação dolorosa dos judeus, os edomitas, seus vizinhos e irmãos, deveriam ter tido compaixão deles e os ajudado, compartilhado a sua dor e os consolado. E deveriam ter tremido ao pensar que a sua própria vez viria em seguida. Pois, se isso se fez na árvore verde, que se fará na seca? Mas:

  1. Veja qual foi a conduta dos edomitas para com eles quando estavam nessa angústia, pela qual aqui são condenados:

(1.) Olharam com prazer para a aflição do povo de Deus. Ficaram do outro lado (v. 11), longe, quando deveriam ter vindo em socorro dos seus vizinhos angustiados. E olharam para eles e para o seu dia, olharam para a sua aflição (v. 12, 13) com um olhar descuidado e indiferente.

Como o sacerdote e o levita olharam para o homem ferido e passaram pelo outro lado. Têm muito pelo que responder aqueles que são espectadores ociosos das dificuldades e aflições dos seus vizinhos quando são capazes de ajudá-los ativamente.

Mas isso não era tudo. Olharam para aquilo com um olhar de escárnio, com um olhar de complacência e satisfação. Olharam e riram ao ver Israel em angústia, dizendo: “Ah! Assim o queríamos”.

Alimentaram os seus olhos com o triste espetáculo da ruína de Jerusalém e olharam para ela como aqueles que havia muito a esperavam e muitas vezes desejavam vê-la.

Repare: devemos tomar cuidado com o olhar com que vemos as aflições dos nossos irmãos. E, se não podemos olhar para eles com um olhar benevolente, de simpatia e ternura, é melhor nem olhar para eles: você não deveria ter olhado, como olhou, para o dia do seu irmão.

(2.) Triunfaram sobre eles e os insultaram, repreenderam os seus irmãos pelas suas dores e divertiram a si mesmos e aos seus companheiros com elas. Alegraram-se sobre os filhos de Judá no dia da sua destruição.

Não tiveram a boa educação de esconder e dissimular o prazer que sentiam na destruição de Judá. Mas o declararam abertamente, e o declararam a eles com dureza e insolência. Alegraram-se sobre eles, cantaram vitória, intimidaram e os pisotearam.

Têm o espírito dos edomitas aqueles que conseguem se alegrar sobre quaisquer pessoas, especialmente sobre israelitas, no dia da sua calamidade.

(3.) Falaram orgulhosamente, engrandeceram a boca, assim é a palavra, contra Israel. Falaram com grande desdém dos israelitas sofredores e com um ar de altivez da presente segurança e prosperidade de Edom.

Como se da sua atual condição diferente se pudesse inferir que a situação se invertera e agora Esaú era amado e o favorito do céu, e Jacó odiado e rejeitado.

Repare: devem esperar ser eles próprios, de uma maneira ou de outra, efetivamente humilhados e mortificados aqueles que se enchem de orgulho e se tornam arrogantes com as humilhações e mortificações de outros.

(4.) Foram mais longe ainda, pois entraram pela porta do povo de Deus no dia da sua calamidade e puseram as mãos nos seus bens. Embora não tenham ajudado a conquistá-los, ajudaram a saqueá-los e se apresentaram para ter uma parte da presa, v. 13.

Jerusalém foi aberta, e então eles entraram. A sua riqueza foi espalhada, e eles a tomaram para si mesmos, justificando-se com isso: que tanto podiam tomá-la quanto deixá-la se perder. Quando, na verdade, era tomar o que não era deles mesmos.

A Babilônia devasta Jerusalém, mas Edom, ao se intrometer no despojo, torna-se particeps criminis, participante do crime, e terá de prestar contas como cúmplice ex post facto, depois do fato.

Repare: só empobrecem a si mesmos aqueles que pensam enriquecer com as ruínas do povo de Deus. E enganam a si mesmos aqueles que pensam poder chamar seus todos aqueles bens em que conseguem pôr as mãos num dia de calamidade.

(5.) Fizeram coisas ainda piores. Não só roubaram os seus irmãos, mas os assassinaram no dia da sua calamidade. Puseram as mãos não só nos seus bens, mas nas suas pessoas, v. 14.

Quando a espada vitoriosa dos caldeus fazia uma obra sangrenta entre os judeus, muitos escaparam e estavam em bom caminho para se salvar pela fuga. Mas os edomitas vilmente os interceptaram.

Ficaram na encruzilhada onde diversas estradas se encontravam, por cada uma das quais os israelitas trêmulos se afastavam o mais depressa possível da fúria dos perseguidores, e ali os detiveram.

Alguns eles próprios eliminaram de modo bárbaro e covarde. Outros tomaram como prisioneiros e entregaram aos perseguidores, somente para cair nas boas graças deles, porque agora eram os conquistadores.

Não deveriam ter sido tão cruéis com aqueles que estavam à sua mercê e nunca lhes tinham feito mal, nem era provável que algum dia o fizessem. Não deveriam ter traído aqueles que tinham tão boa oportunidade de proteger. Mas assim são as ternas misericórdias dos perversos.

Não se pode ler isso sem um alto grau de compaixão para com aqueles que foram tão vilmente maltratados. Eles, quando fugiram da espada de um inimigo declarado e pensaram ter saído do seu alcance, depararam com a espada de um vizinho traiçoeiro e por ela caíram, sem esperar perigo algum da parte dele.

Nem se pode ler isso sem um alto grau de indignação para com aqueles que se tornaram tão completamente alheios a toda humanidade que exerceram tamanha crueldade sobre pessoas tão merecedoras de compaixão.

(6.) Em tudo isso se uniram aos inimigos declarados e perseguidores de Israel: “Até tu eras como um deles”, um cúmplice tão culpado quanto os autores principais. Aquele que se junta aos malfeitores e ajuda e estimula as suas más ações será considerado, e chamado a prestar contas, como um deles.

II. Qual é a vergonha que os cobrirá por essa sua violência:

  1. Logo descobrirão que o cálice está passando de mão em mão, o próprio cálice de tremor. E, quando estiverem na mesma condição calamitosa em que o Israel de Deus está agora, terão vergonha ao lembrar como triunfaram sobre eles (v. 15).

“O dia do Senhor está perto sobre todos os pagãos”, quando Deus retribuirá tribulação aos que atribulam a sua igreja. Embora o julgamento comece pela casa de Deus, não terminará ali.

Isso deveria nos conter efetivamente de triunfar sobre outros na sua miséria: não sabemos quão cedo essa poderá ser a nossa própria situação.

  1. A sua inimizade contra o povo de Deus e as injúrias que lhes fizeram serão retribuídas no seu próprio peito: “Como fizeste, será feito a ti”.

O Deus justo retribuirá tanto às nações quanto às pessoas particulares segundo as suas obras. E muitas vezes o castigo corresponde exatamente ao pecado, e aqueles que maltrataram outros passam a ser eles próprios maltratados da mesma maneira.

O Deus justo e zeloso encontrará um tempo e uma maneira de vingar as injustiças feitas ao seu povo contra aqueles que lhes fizeram injúrias.

“Como bebestes sobre o meu santo monte” (v. 16), isto é, como o povo que professa pertencer a Deus, que habita o seu santo monte, bebeu profundamente do cálice da aflição, e pertencer ao santo monte não os desculparia, “assim beberão todos os pagãos”, na sua vez, do mesmo cálice amargo.

Pois, se Deus trouxer o mal sobre a cidade que é chamada pelo seu nome, ficarão sem castigo aqueles que nunca conheceram o seu nome? Veja Jeremias 25:29.

E é parte da mensagem de condenação de Edom (Jeremias 49:12): “Aqueles cujo julgamento não era beber do cálice”, que tinham motivo para prometer a si mesmos uma isenção dele, “certamente beberam”. E Edom, que é a geração da cólera de Deus, ficará sem castigo?

Não: “Certamente beberás dele”. O cálice de tremor será tirado da mão do povo de Deus e posto na mão daqueles que os afligem, Isaías 51:22, 23. Ou melhor: podem esperar que a sua situação no dia da sua angústia seja pior do que foi a de Israel no seu dia. Pois:

(1.) As aflições do povo de Deus foram apenas por um momento e logo tiveram fim, mas os seus inimigos beberão continuamente o vinho da cólera de Deus, Apocalipse 14:10.

(2.) A borra do cálice está reservada para os perversos da terra (Salmos 75:8). “Beberão e engolirão”, ou sorverão, como diz a margem. Beberão até o fundo.

(3.) O povo de Deus, embora possa ser levado a beber do vinho de espanto por algum tempo (Salmos 60:3), ainda assim se recuperará e voltará a si. Mas os pagãos “beberão e serão como se não tivessem sido”.

Não haverá nenhum resto nem nenhuma lembrança deles, mas serão inteiramente extirpados e arrancados pela raiz. Assim pereçam todos os seus inimigos, ó Senhor! Assim perecerão, se não se converterem.

Versículos 17 a 21

Promessas a Israel e Judá. (a.C. 587.)

Depois da ameaça de destruição dos inimigos da igreja, que se cumprirá completamente no grande dia da retribuição e no julgamento para o qual Cristo veio uma vez, e virá de novo, a este mundo, seguem-se aqui preciosas promessas da salvação da igreja.

Com elas esta profecia conclui, como fizeram as de Joel e Amós. Embora pudessem ter sido parcialmente cumpridas no retorno dos judeus da Babilônia, apesar dos triunfos de Edom no seu cativeiro, como se fosse perpétuo, ainda assim, sem dúvida, terão o seu pleno cumprimento naquela grande salvação realizada por Jesus Cristo.

Todos os profetas deram testemunho dela. Aqui se promete:

I. Que haverá salvação sobre o monte Sião, aquele santo monte onde Deus estabelece o seu Rei ungido (Salmos 2:6): “Sobre o monte Sião haverá livramento”, v. 17. Haverá aqueles que escapam. Assim diz a margem. Um remanescente de Israel, sobre o santo monte, será salvo, v. 16.

Cristo disse: “A salvação vem dos judeus”, João 4:22. Deus realizou livramentos para os judeus, que tipificavam a nossa redenção por Cristo. Mas o monte Sião é a igreja do evangelho, da qual saiu a lei do Novo Testamento, Isaías 2:3.

Ali a salvação será pregada e pedida em oração. À igreja do evangelho são acrescentados aqueles que serão salvos. E para aqueles que vêm com fé e esperança a esse monte Sião será realizado livramento da cólera e da maldição, do pecado, da morte e do inferno, enquanto aqueles que continuam longe serão deixados para perecer.

II. Que, onde há salvação, haverá santificação em vista dela: “E haverá santidade”, para preparar e habilitar os filhos de Sião para esse livramento. Pois, onde quer que Deus tenha o desígnio de dar glória, dá graça.

Livramentos temporais são de fato realizados para nós em misericórdia quando com eles há santidade, quando é produzida em nós uma disposição para recebê-los com amor e gratidão a Deus. Quando somos santificados, eles são santificados para nós.

A santidade é em si um grande livramento e uma garantia daquela salvação eterna que esperamos. Ali, sobre o monte Sião, na igreja do evangelho, haverá santidade. Pois é isso que convém à casa de Deus para sempre, e o grande desígnio do evangelho e da sua graça é plantar e promover santidade.

Ali haverá o Espírito Santo, as santas ordenanças, o santo Jesus e um remanescente escolhido de almas santas, nas quais e entre as quais o santo Deus terá prazer em habitar. Repare: onde há santidade haverá livramento.

III. Que essa salvação e santificação se espalharão, prevalecerão e ganharão terreno no mundo: “A casa de Jacó”, esse mesmo monte Sião, com o livramento e a sua santidade ali realizados, “possuirá as suas possessões”.

Isto é, a igreja do evangelho será estabelecida entre os pagãos e encherá a terra. Os apóstolos de Cristo, pela sua pregação, ganharão posse dos corações dos homens para aquele de quem são mensageiros e ministros.

E, quando possuírem os seus corações, possuirão as suas possessões, pois aqueles que entregaram a si mesmos ao Senhor entregam a ele tudo o que têm. Quando o coração de Lídia foi aberto a Cristo, a sua casa foi aberta aos ministros dele.

Quando as nações gentias se tornaram nações daqueles que eram salvos, foram instruídas, andaram na luz do Senhor e trouxeram a sua glória e honra para a nova Jerusalém (Apocalipse 21:24), então a casa de Jacó possuiu as suas possessões.

Essa é a parte cumprida pelo plantio da religião cristã no mundo. E será cumprida ainda mais e mais pelo estabelecimento do trono de Cristo onde está o assento de Satanás e pelo levantamento de troféus da sua vitória sobre as ruínas do reino do diabo. Agora se prediz aqui:

  1. Como essa posse será ganha e a oposição feita a ela será superada (v. 18): “A casa de Jacó será um fogo, e a casa de José uma chama”, pois o seu Deus é e será um fogo consumidor. E “a casa de Esaú servirá de restolho”, facilmente devorada e consumida por esse fogo. Isso se cumpre:

(1.) Na conversão de multidões pela graça de Cristo. O evangelho, pregado na casa de Jacó e José e ali reconhecido e professado, será como um fogo e uma chama para derreter e amolecer corações duros, para queimar a escória do pecado e da corrupção, para que sejam purificados e refinados com o espírito de julgamento e o espírito de ardor.

Cristo, quando vier, será como o fogo de um refinador, Malaquias 3:1, 2.

(2.) Na confusão de todos os inimigos impenitentes e implacáveis do evangelho de Cristo, que se opõem a ele e fazem tudo o que podem para impedir o estabelecimento do reino do Messias por meio dele.

O dia do evangelho é um dia que arde como um forno, no qual todos os orgulhosos, e todos os que praticam a maldade, serão restolho, Malaquias 4:1.

Jacó e José serão como um fogo e uma chama. Pois aqueles que se intrometem com eles para lhes fazer prejuízo descobrirão que o fazem por sua conta e risco. Serão para eles como uma tocha de fogo num feixe, Zacarias 12:6.

Diz-se que a palavra de Deus na boca dos seus ministros é como fogo, e o povo como madeira a ser devorada por ele, Jeremias 5:14. E o homem do pecado será consumido pelo sopro da boca de Cristo, 2 Tessalonicenses 2:8.

Aqueles que não são refinados como ouro pelo fogo do evangelho serão consumidos como escória por ele. Pois será um aroma ou de vida ou de morte.

Quando os ídolos e a idolatria foram abolidos, e a riqueza e o poder das nações foram trazidos para o serviço de Cristo e do seu evangelho, e os despojos do homem forte armado foram divididos por aquele que era mais forte do que ele, então a casa de Jacó e José devorou a casa de Esaú, de modo que não restou nenhum deles.

Isso o Senhor falou por meio dos seus profetas, e isso fez por meio dos seus apóstolos.

  1. Até onde essa posse se estenderá, v. 19, 20. Isso é descrito em linguagem judaica, que fala da ampliação feita à terra de Israel depois do retorno do cativeiro na Babilônia.

“O cativeiro deste exército de Israel”, isto é, este exército de Israel que esteve por tanto tempo no cativeiro e agora voltou, cujos membros ainda são chamados de filhos do cativeiro. Estes não só recuperarão a sua própria terra, mas ganharão terreno sobre os seus vizinhos contíguos.

Alguns deles se tornarão prosélitos e se incorporarão aos judeus, os quais, ao possuí-los numa santa comunhão, possuem a sua terra. Devemos considerar a nós mesmos verdadeiramente enriquecidos pela conversão dos nossos vizinhos ao temor de Deus e à fé em Cristo, e por virem se unir a nós na adoração de Deus.

Devemos considerar tal ampliação da nossa comunhão cristã mais como nossa riqueza e força do que uma ampliação das nossas propriedades.

Ou, tendo-se perdido os antigos habitantes daquelas terras que foram levados para o cativeiro, sem jamais retornar às suas propriedades, os filhos de Israel tomarão posse daquilo que fica perto deles. Pois os seus números aumentarão tanto que a sua própria terra será estreita demais para eles.

E as propriedades dos seus vizinhos lhes passarão ob defectum sanguinis, por falta de herdeiros. Entrarão naquilo que lhes é contíguo.

O país de Esaú será possuído por aqueles das partes meridionais de Canaã, pois fica contíguo a eles. Aqueles da planície, a oeste de Canaã, que era uma região plana, entrarão na terra dos filisteus, seus vizinhos.

Aqueles de Judá, que era a principal das duas tribos que retornaram, possuirão o campo de Efraim e Samaria, que antes pertencia às dez tribos. E Benjamim, a outra tribo, possuirá Gileade, do outro lado do Jordão, que pertencera às duas tribos e meia.

O reino de Israel se unirá ao de Judá tanto nos interesses civis quanto nos sagrados. E, como amigos e irmãos, mutuamente possuirão e desfrutarão uns dos outros.

E ambos juntos possuirão os cananeus, até Sarepta, que pertence a Sidom. E Jerusalém possuirá as cidades do sul, até Sefarade. Assim os judeus ampliaram as suas fronteiras de todos os lados.

Os rabinos modernos ensinam os seus discípulos a entender por Sarepta e Sefarade a França e a Espanha, fundamentando nisso uma expectativa insensata e infundada de que, em algum momento, os judeus serão senhores desses países. E chamam e consideram os cristãos edomitas, sobre os quais terão domínio.

Mas a promessa aqui, sem dúvida, tem uma significação espiritual e teve o seu cumprimento no estabelecimento da igreja cristã, o Israel do evangelho, no mundo. E terá o seu cumprimento mais e mais na sua ampliação e nos acréscimos feitos a ela, até que o corpo místico esteja completo.

Quando ministros e cristãos conseguem persuadir os seus vizinhos a vir a Cristo, a entregar a si mesmos ao Senhor, eles os possuem. Diz-se que os convertidos que Abraão tinha eram “as almas que ele havia adquirido”, Gênesis 12:5.

A posse se ganha, não vi et armis, pela força e pelas armas. Pois as armas da nossa guerra não são carnais, mas espirituais. Essa posse é obtida e mantida pela pregação do evangelho e pelo poder da graça divina que a acompanha.

IV. Que o reino do Redentor será erguido e mantido, para o consolo dos seus súditos leais e o terror e vergonha de todos os seus inimigos (v. 21): “O reino será do Senhor”, do Senhor Cristo.

Deus o dará a ele, pondo todas as coisas na sua mão, todo o poder tanto no céu quanto na terra. Os homens o darão a ele, entregando a si mesmos a ele como seu povo voluntário e designando-o como sua cabeça.

Agora, a obra dos reis é proteger os seus súditos e reprimir os seus inimigos. E isso Cristo fará. Ele tanto recompensará quanto castigará.

  1. O monte Sião será salvo. Sobre ele virão salvadores, os pregadores do evangelho, que são chamados salvadores porque a sua tarefa é salvar a si mesmos e àqueles que os ouvem. E nisso são cooperadores com Cristo, mas seriam de pouco proveito se ele, pela sua graça, não cooperasse com eles.

  2. O monte Esaú será julgado. E os mesmos que vêm como salvadores sobre o monte Sião julgarão o monte Esaú. Pois a palavra do evangelho na sua boca, que salva os crentes, julga os incrédulos, convence-os e os condena.

Os ministros de Cristo são salvadores sobre o monte Sião quando pregam que “aquele que crê será salvo”. Mas julgam o monte Esaú quando pregam que “aquele que não crê será condenado”, o que não só são comissionados, mas ordenados a fazer, Marcos 16:16.

E, no curso da providência de Deus, a sua Escritura se cumpre. Quando Deus levanta amigos para a igreja na sua angústia, como levantou juízes para livrar Israel antigamente, Juízes 2:16, então vêm salvadores sobre o monte Sião, para salvá-lo de afundar e ser arruinado.

E, quando os inimigos da igreja são abatidos e o seu poder é quebrado, então o monte Esaú é julgado. E isso será feito em todas as épocas da maneira que Deus julgar melhor.

Podemos ter por certo que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja, mas a igreja prevalecerá contra elas. Pois “o reino será do Senhor”. Os reinos do mundo se tornarão dele, e ele tomou e tomará para si o seu grande poder e reinará.


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